Amor Cigano

18 Voando Alto


Notas iniciais
CAPÍTULO NÃO REVISADO ÚLTIMO CAPÍTULO *Vocês votaram e o final de Barry foi estabelecido, obrigada a quem participou da votação.

A mais bela fogueira começa com pequenos ramos. — Provérbio Cigano

UM ANO DEPOIS

Oliver's Pov

— Nunca pensei que viveria para ver o dia em que Oliver Queen se libertaria de todo o peso do mundo e relaxaria os ombros.

Nem o gracejo de Diggle estragaria o meu humor, por isso mesmo, soltei uma risada despreocupada, enquanto atirava minha terceira bagagem no meu jeep recém-comprado.

Nunca imaginei que eu fosse um homem de jeep, mas até então, nunca imaginei que eu fosse um homem de muitas coisas.

— Já estava na hora, não? — Murmurei, lhe enviando uma piscadela cúmplice por cima dos ombros. — Após anos sendo quase minha babá, você estará se livrando de mim.

Foi sua vez de rir alto, nenhum pouco preocupado em fingir tristeza com a minha partida iminente. No entanto, já esperava essa atitude dele. Se existia alguém mais animado que eu no momento, esse alguém era Diggle.

E também a insubordinação da sua parte sempre foi enorme, portanto...

— Acho que hoje vou abrir uma garrafa de vinho só para comemorar isso.

Curvei os lábios, num sorriso. — Aw, não adianta tentar me enganar! Eu sei que terá uma noite difícil para dormir pensando o quanto vai sentir minha falta.

Pela minha visão periférica (hey, alguns homens a tem sim!), notei Diggle se recostar na porta da mansão Queen com um sorriso de merda no rosto.

— Eu definitivamente vou sentir falta dos passes livres para qualquer evento aqui em Star City. Ser amigo de um Queen tem lá as suas vantagens.

— Inúmeras vantagens. — Corrigiu Thea, aparecendo na porta também, acompanhada de Roy que carregava uma das minhas inúmeras malas. No final, o jeep havia sido uma boa escolha, concluí, checando minha bagagem pela centésima vez.

Só esperava não estar esquecendo alguma coisa. Seria um saco refazer todo o caminho para buscar uma simples escova de dente.

— Eu vou sentir saudades de beber com vocês. — Se lamentou Roy, jogando na minha direção a mala que por pouco não atingiu o meu rosto e causou danos permanentes (um pouco dramático? talvez).

Estreitei os olhos, avaliando o abusado. Será que valeria a pena cair de soco com ele em prol dos velhos tempos? Nah.

— Roy, você tem tanta sorte por eu não estar com humor de ir até ai e chutar sua bunda.

Simulando um sorriso angelical, o pivete levou uma mão até o coração.

— Fofo você pensar que me acertaria — Murmurou com cinismo —, mas de qualquer forma, mesmo se você tentasse não teria tempo pra fazer nada disso.

Chequei o meu relógio de pulso (porque de repente sacudir Roy de tapas não me pareceu uma má ideia), só para comprovar que infelizmente, Roy tinha razão: Eu tinha poucos minutos para cair na estrada e deixar Star City.

Que pena, ficaria devendo essa surra a ele.

— Onde está mamãe? — Perguntei para Thea.

Até onde eu lembrava, horas atrás as duas estavam juntas na cozinha discutindo alguma coisa. Provavelmente os últimos detalhes sobre a transição que a Queen Consolidated passaria daqui para frente.

Desde a minha volta para Star City, há um ano atrás, a empresa vinha passando por mudanças na diretoria. Enquanto estive em Lian Yu, mamãe e Walter Steele administraram juntos a empresa com esplendor (tanto esplendor que em algum momento, eles acabaram desenvolvendo um relacionamento amoroso), e quando voltei me ofereceram o meu antigo cargo de CEO. Obviamente recusei a oferta.

Meu tempo em Lian Yu me fez pensar bastante e mudar alguns aspectos da minha vida. Continuei sim trabalhando na QC, mas num cargo que não necessitasse de tantos holofotes ou responsabilidades. No final, Walter se tornara um melhor CEO que eu, deixando o legado Queen em boas mãos.

Com a liberdade de não ser mais CEO, tive tempo o suficiente para balancear minha vida particular com a profissional, o que deixara minha mãe satisfeita o bastante para aprovar minha "mudança" de comportamento "repentina" e fazer uma investigação por conta própria para descobrir que infernos tinha ocorrido em Lian Yu.

Ela não precisou ir muito longe. Thea fez questão de contar detalhe por detalhe...E o que ela não sabia, pedia para Tommy lhe repassar via telefone. E ele fazia isso com prazer.

Bastardo.

— Estou aqui! — Mamãe gritou, aparecendo na sacada da mansão. Me inclinei, tentando ter uma visão melhor dela.

Sem surpresa, percebi Walter parado ao seu lado, me olhando com um sorriso enorme pendurado no rosto. Ver e Walter e mamãe juntos havia se tornado o novo normal da minha vida, e eu estava bem com isso. Já tinha passado da hora de toda família Queen superar a morte de papai e mamãe ser feliz.

Acenei para os dois. — Estou indo embora, vocês tem alguma última bronca ou recado importante para passar? Aproveitem essa chance sabiamente.

A expressão de Walter se iluminou. — Não, apenas tente nos manter informado do seu bem estar.

Achei o pedido bastante razoável, se eu fosse considerar as inúmeras coisas que eles poderiam ter me pedido ao invés.

Balancei a cabeça, em acordo.

— Tudo bem, posso fazer isso.

Dando um último aceno na direção deles e sabendo que essa seria a nossa despedida, me virei para ir até Thea e lhe dar um abraço. Imitei o gesto com Diggle e Roy, com a diferença que dei um tapa na nuca do último.

— Ei! — Ele gritou, se desviando do outro tapa super estratégico que eu estava planejando. — Pensei que você não tivesse tempo para isso!

A cena se tornou um pouquinho mais cômica e patética, quando ele se agachou atrás de Thea, tentando se proteger.

Girei os olhos, mas um sorriso divertido tinha se espalhado pelo meu rosto.

— Suas palavras, não minhas. — Falei, dando de ombros.

Dedicando um último olhar aos meus arredores, tentei gravar cada detalhe do que me cercava, esperando que jamais fosse capaz de esquecer. Respirando fundo e sentindo uma leveza incomum, exalei todos os sentimentos conflituosos que Star City alguma vez pôs em mim. E assim, como se tivesse sido a coisa mais fácil no mundo, virei uma página da minha vida.

— VIADO, PERAÍ, VOCÊ TÁ SE ESQUECENDO DE MIM!!!!

Ou tentei virar.

Grunhindo, virei para encontrar Curtis correndo na direção do meu jeep. E sem cerimônia alguma, socar suas malas ENORMES dentro do meu pobre carro.

— Acredite, foi de propósito. — Resmunguei sob o fôlego, fazendo uma careta.

Sem alternativas (mentira, eu tinha várias que incluíam assassinato, fuga e suicídio; exatamente nessa ordem), decidi ajudar o sem vergonha, pelo menos dessa forma ele não corria risco de arruinar meu carro completamente. Ao menos por enquanto.

Porque tinha a certeza que essa viagem estava fadada ao fracasso (e o hospício) com Curtis a tiracolo do meu lado durante HORAS.

Bem, se você está se perguntando como diabos Curtis veio parar aqui em Star City...Só posso usar como justificativa um lapso de julgamento, insanidade temporária e que infelizmente o homem tinha talento para design. E a QC esteve precisando de um funcionário talentoso nessa área durante anos.

Lamentavelmente, eu quem tive que fazer as negociações (por telefone, já que estive evitando Lian Yu igual uma praga) para convencê-lo a trabalhar na QC. Claramente, fui bem sucedido (isso é meio discutível, pra falar a verdade) e ganhei como prêmio os inúmeros talentos de Curtis a favor da QC... Mas por desgraça, ganhei de bônus também, sua presença inusitada em todas as saídas de grupo que Thea organizava.

Doía (muito) admitir, mas Curtis foi uma boa adesão ao nosso grupo. Mesmo que com ele tivéssemos que correr constantemente de algumas pessoas furiosas e sermos enxotados de boates renomadas, ainda assim não mudaria nada. Esse último ano havia sido bem mais divertido, apesar das circunstâncias, graças a ele.

— Se eu não estivesse com tanta inveja — Ouvi Thea comentar num tom divertido —, sentiria pena de você, Oliver.

E se eu não fosse um maldito sortudo, estaria reclamando em voz alta por ter Curtis como companheiro de viagem, mas como o mundo já havia comprovado diversas vezes...

— Tem que sentir inveja mesmo Gnomo Queen! — Curtis se manifestou todo pomposo. Sua expressão era de puro desdém pra cima de Thea. — Eu e Oliver podemos estar dizendo adeus para civilização, mas pelo menos estaremos dizendo olá logo, logo para a Gandaialândia.

....eu era um homem de sorte. Às vezes.

Sem mais tempo para poder desperdiçar, eu entrei no meu jeep e Curtis também, empenhado em ser meu co-piloto...O que atestava minha ideia de que ele acabaria me atrapalhando mais do que ajudando durante essa viagem.

Abaixando o vidro do carro, dei um último aceno para todos e marchei (mais como pisei fundo no acelerador como se o próprio diabo estivesse no meu encalço segurando uma placa "Temos Vagas para Ex-Playboys!") em direção ao meu destino.

— Lian Yu aí vamos nós, irráááááááááááááááá!!! — Curtis cantou, rodando o chapéu invisível sobre as suas mãos.

Eu ri, animado.

Como uma vez certa cigana disse... Certas coisas na vida são inevitáveis.

Fingindo rodar um chapéu também, comemorei:

— Inferno, sim! Lian Yu aí vamos nós!

(...)

Era incrível a sensação de olhar algum lugar e saber que ele mudou, mas de alguma forma, continuava o mesmo. Lian Yu agora parecia assim pra mim.

As ruas estavam mais modernizadas, no entanto, as casinhas continuavam as mesmas. E onde existia pouco movimento, se tornara mais ou menos um formigueiro de pessoas.

Em efeito, a notícia de uma galinha chocadeira de ovos de ouro, havia causado um grande frenesi na região, atraindo turistas e novos moradores. Em um ano Lian Yu tinha se recuperado e não mais enfrentava um prenúncio de desgraça.

Ficava feliz e satisfeito por esse milagre ter atingido o vilarejo e de uma forma bastante positiva, ter mudado a vida de todos... inclusive a de Felicity. Desde que fui embora, procurei não obter muitas informações sobre ela, sabendo que meu lado covarde não estava preparado para saber através de Tommy que ela, finalmente, havia seguido em frente e me esquecido completamente.

Óbvio que ficaria feliz com a sua felicidade e nem ignoraria o fato de que ao escolher ir embora, eu tinha aberto um espaço para alguma outra pessoa preencher. Tive toda a intenção do mundo em deixar Felicity caminhar na sua estrada de autoconhecimento sozinha, e se no meio do caminho ela tivesse encontrado alguém... Bom pra ela. Péssimo pra mim.

Ela era uma mulher jovem que ainda precisava explorar muitos aspectos da vida. E não seria eu quem a atrapalharia. Portanto, rezava que o meu reencontro com ela fosse o menos sofrível possível. Tanto para mim, quanto para ela.

Mas tinha a sensação de que minhas bolas acabariam penduradas em alguma cerca. Se ela continuava a mesma Felicity imprevisível de sempre... Era melhor eu me preparar.

— Algum problema de prisão de ventre aí? — A voz cínica de Curtis me tirou dos meus devaneios.

Olhando-o de rabo de olho, parei de me contorcer incomodado. Às vezes Curtis sabia ser um perfeito pé no saco.

— Para a sua sorte, talvez sim. — Respondi, deixando claro que se preciso, soltaria uma bomba atômica dentro daquele carro onde nós dois estávamos confinados por tempo indeterminado.

E o tempo indeterminado se devia somente ao fato de que eu não sabia bem para onde ir primeiro: Fazenda Allen ou casa de Tommy?

Tinha a leve impressão de que qualquer dos dois lugares que eu fosse, seria recebido com uma saraivada. Só não sei se de chutes ou abraços.

Curtis exibiu uma careta de nojo.

— Eca Garanhão, depois de passar um ano inteiro contigo você acaba perdendo o apelo!

Soltei uma risadinha.

— Perder o apelo pra você não tem problema, na realidade é um alívio.

Ele cerrou os olhos e fez um bico enorme, parecia até magoado, mas eu sabia melhor. — Você é mau, Oliver Queen.

Dei um sorriso maldoso.

— Bem, ouvi dizer por aí que eu sou bastante bom.

A conotação sexual era nítida em cada maldita palavra. E Curtis sabia.

Nesse último ano também me diverti bastante chocando Curtis com algum flerte desinteressado. Antes da morte de meu pai, sempre agi como um espírito livre e desinibido. Depois do seu falecimento, assim como Tommy uma vez apontou, acabei me tornando uma pessoa reprimida e que se impedia sempre de ter algum tipo de diversão.

Hoje em dia minha diversão consistia em chocar Curtis sempre quando possível. Eu tinha total ciência de que ele fazia parte do clube: Acho Oliver Queen totalmente reprimido. Por isso fiz questão de trabalhar em fazê-lo sair dele.

Parecia bobo, mas queria ter algumas vitórias bobas pra poder contar a Felicity.

— Viado, cê perdeu a noção do perigo? — Perguntou num tom safado — Olha que eu te ataco ein!

Sabia que sua ameaça era irreal somente porque tínhamos desenvolvido uma parceria (meio doida) que consistia em: Eu te dou cobertura e você sai correndo. Apesar das brincadeirinhas de mal gosto, Curtis conseguia ser extremamente leal (se bem chantageado...ou conquistado).

— Você falando sobre alguém perder a noção? — Zombei, de repente decidindo conduzir o carro para um caminho bastante conhecido por nós.

Acredito que o problema quanto ao nosso próximo destino, estava sanado.

Curtis bufou. — Bofe, eu não posso perder o que nunca tive, se manca!

Contra fatos...

— Se você coloca dessa maneira... tem razão. — Ponderei, pensativo — Você definitivamente não pode perder algo que sequer teve um dia.

...não há argumentos.

Feliz por ter sido compreendido e por exibir sua sem vergonhice, Curtis assentiu com a cabeça.

— É isso aí mesmo, bofe! — Pausa — Peraí, aonde você está nos levando? Acho que conheço esse caminho...

Soltei uma risada zombeteira. O que fazer? Não resisti!

— Ah, Curtis... você definitivamente conhece esse caminho muito bem.

Ele bateu no meu braço, enquanto exclamava:

— Bofe, não brinca que eu sou cardíaca! Tu tá me levando até o-

— O bar de Slade, sim. — O interrompi, confirmando suas suspeitas e fazendo seus olhos crescerem até o teto do carro.

Sua reação totalmente valeu a pena e só me deu mais certeza de que estava fazendo a coisa certa em escolher Argus/Verdant como meu alvo. Veja bem, eu precisava pisar em solo neutro e ninguém melhor (ok, posso contar umas cinco pessoas) para me receber além de Slade Wilson, que poderia não ser a pessoa mais fácil do mundo, mas se tornava outro quando dinheiro era incluído na jogada. E com dinheiro eu poderia contar, ao menos por mais alguns anos.

— VIADO, VOCÊ ME RESPONDE: CÊ ME ODEIA????? — Curtis começou a gritar, distribuindo tapinhas no meu braço que não causavam nada além do meu riso. — EU NÃO TAVA PRONTA PRA ISSO!!!! EU NEM ME ARRUMEI!!! BOFE, EU VOU TE AFUNDAR NA MALA!!!

— Ah, qual é Curtis. O Slade nem liga pra sua existência, relaxa.

Famosas últimas palavras. Parecia até que desencadeei o apocalipse pelo seu surto logo em seguida. Portanto, até chegarmos em frente ao bar/boate, muitos pedestres olhavam para dentro do carro, como se estivessem testemunhando os cavaleiros do apocalipse chegando a terra.

Não fiquei muito impressionado por encontrar Slade já na porta nos esperando. Como ditava seu próprio protocolo, ele trajava uma expressão séria no rosto que se contradizia completamente com o brilho risonho nos seus olhos.

Com certeza ele estava curtindo o espetáculo que eu e Curtis estávamos protagonizando ao discutirmos em público.

— Eu te odeio. — Rosnei para Curtis, ao concluir que minha dignidade já estava em fagalhos.

Merda, não fazia nem uma hora que eu estava em Lian Yu e já estava em alguma confusão!

Ofendido, Curtis voltou a acertar o meu braço. — Seu bofe desgraçado, me respeita tá? Nem é da família pra falar que me odeia assim, NA MINHA CARA!

— Ih mãe, olha só, o animal silvestre tá de volta!

Uma vozinha exclamou bem atrás das nossas costas. Já sentindo minha cabeça latejar, girei meus calcanhares e me deparei com uma versão bem mais alta e nitidamente mais atentada, de Akio Yamashiro. Sua mãe segurava sua mão, enquanto nos encarava com um ar constrangido.

Provavelmente a mulher estava considerando a razão por não ter colocado uma focinheira no filho hoje pela manhã. Eu consideraria.

— Puta merda, é ser muito azarado mesmo! — Curtis xingou, escrutinando a pequena pestinha, que já o olhava enfezado.

Isso iria dar merda.

Pensando rápido, coloquei meu sorriso que costumava encantar o público para jogo e fui me apresentar para a mãe do pequeno diabo. Nunca tive a oportunidade de conhecê-la.

— Olá, Sra. Yamashiro, é um prazer finalmente conhecê-la. Eu me chamo Oliver Queen. — Ofereci, esperando que ela apertasse minha mão — o que ela fez, após enviar um olhar de morte para Akio, como se o avisasse que mais uma gracinha e ela tiraria ele desse mundo.

Quase torci pra criança falar mais alguma bosta.

Ela me devolveu um sorriso educado.

— Oh sim, sei quem é você. Amigo de Tommy e Barry, certo?

Mais ou menos certo. Dependeria muito de como eles me recepcionariam.

— Certo.

— Você é bastante famoso por aqui. — Acrescentou com olhos perspicazes e eu senti minha nuca pinicar.

Ah, merda.

— Espero que pelas razões certas. — Disse num tom leve, mas a realidade era: Eu estava me borrando.

Barry poderia ter ótimas coisas para falar sobre mim (eu esperava), mas Tommy? Não intencionalmente ele poderia me ferrado dum jeito quase épico.

— Espera aí um pouco! — Curtis se intrometeu na conversa, tomando a minha frente. — Você quem é a mãe dessa criaturinha? — Apontou para Akio, que lhe mostrou os dentes.

Mais um pouco e teríamos mesmo o apocalipse acontecendo.

Indiferente, a Sra. Yamashiro olhou Curtis de cima a baixo, e o meu radar para problemas começou a reagir de forma alarmante. Tinha sido um péssimo movimento da parte de Curtis ao falar mal da cria bem na frente da sua progenitora.

Para a minha sorte, Slade finalmente decidiu se manifestar. Acho que sentiu pena de mim (okay, sejamos sinceros: ele só deve ter pensado que ao salvar minha bunda, receberia algum tipo de recompensa).

— Ei Tatsu, Joe West está procurando por você. — Disse ele, com a maior cara de paisagem. Verdade ou mentira não importa, o importante é que ele estava tentando evitar uma calamidade de acontecer.

Ouvi Akio gemer.

— Ah não, não vou pra fazenda daquele chato! — Virou pra mãe — Me leve para a fazenda do tio Barry, lá é muito mais divertido!

Tatsu cerrou os olhos. — Aposto que você acha divertido mesmo toda a liberdade que Barry te dá.

Bem, até onde eu me lembrava, do mesmo jeito que Barry dava, ele tomava. Os castigos catando merda eram a maior prova disso.

E o pirralho parecia pensar o mesmo, se eu fosse considerar a expressão azeda que ele fez.

— Ele não me deixa fazer metade do que eu gosto. — Respondeu o cotoco de gente.

— Ai, isso eu concordo com a criaturinha! — Lamentou Curtis — Barry sempre estragava com a minha diversão, por exemplo, todas às vezes em que eu tent-

— Tá bom, Curtis, temos uma criança aqui. — Interrompi o sem noção, sabendo que qualquer coisa a seguir que saísse de sua boca, não seria bom.

— Eiii!! — Akio me olhou feio e juro, se não fosse pelo aperto forte de sua mãe em seu braço, ele teria pulado na minha direção — Quem você tá chamando de criança aqui? Me respeita, seu velho!

Ele acabou de me chamar de velho? E NA MINHA CARA?

Curtis começou a rir, o palhaço.

Chocado e um pouquinho puto — porque sim, ontem pela manhã encontrei um fio branco de cabelo, mas isso se deve somente à minha tensão de voltar em Lian Yu, dãã -, fitei o pirralho.

Mas antes que eu pudesse soltar qualquer discurso sobre educação (mamãe ficaria orgulhosa), Tatsu deu um leve tapa na nuca do garoto.

— Akio, respeite os mais velhos! — Ralhou e como eu já estava sensível (que foi? também tenho esse direito!) por absolutamente tudo, fiquei em dúvida se isso foi uma defesa ou ela me insultando indiretamente também.

— É Akio, respeite os mais velhos. — Curtis debochou, me lançando um sorriso malicioso. Fechei a cara.

Curtis iria me pagar caro por tudo isso, ah se ia...

— Tatsu, pode deixar Akio aqui comigo no bar. — Slade se prontificou, já pegando o moleque pela mão e lhe enviando um aviso de "Se você reclamar vai ser pior", identifiquei o aviso implícito porque anos recebendo esse olhar de mamãe, me fez um homem experiente nessa área.

Sabiamente, Akio manteve silêncio, enquanto Tatsu ponderava suas opções.

— Ok, muito obrigada, no final da tarde eu venho buscá-lo. — Disse ela por fim — E Akio, eu acho melhor você não se meter em problemas, ou...

— Ou eu vou gritar tanto da surra que vou tomar que vão me confundir com uma sirene. — Akio completou, com um ar entediado, deixando óbvio para qualquer um que ele tinha decorado aquelas palavras.

Senti vontade de rir, mas tive a suspeita de que se eu o fizesse, quem seria confundido com uma sirene, logo logo, seria eu.

Despedindo-se de nós de maneira rápida, Tatsu marchou para longe e eu finalmente pude entrar no bar/boate acompanhado de Slade, Akio e Curtis a tiracolo.

Como imaginei, nenhuma mudança drástica havia ocorrido no estabelecimento, além da ampliação da área onde ficava a pista da boate e a modernização do bar onde se encontrava todas as bebidas que Slade costumava vender. Por sinal, os negócios iam bem.

Sem perder tempo, Slade serviu um drink para mim e Curtis — que já recomeçava a sua fase de soltar olhares safados para Slade, que hora ignorava, hora soltava uma risadinha suspeita -, enquanto Akio se limitou a sentar num canto do bar, com um ar de completa miséria.

O pirralho deveria saber que se ferrasse com Slade, conseguiria uma sentença de desgraça pelo resto da vida.

— Então, a que motivo Lian Yu deve a honra de sua visita? — Slade quis saber, se debruçando sobre o balcão e me analisando de uma forma quase desconfortável.

— Porque senti sua falta, tigrão.

A resposta de Curtis fez minha bebida descer pelo cano errado e deu Akio motivo o suficiente para sair do seu estado de inércia e dar uma baita duma risada.

Lentamente, o olhar de Slade deslizou do meu rosto para o de Curtis, que fingia 100% não ter respondido a pergunta no meu lugar. Na realidade, acho que não era fingimento não... Curtis tinha um ego tão grande que poderia acreditar facilmente que sua estadia em Lian Yu seria uma questão de honra para todos. Que piada.

Ainda tentando me recuperar do meu quase afogamento, decidi apenas ser um mero telespectador durante o intercurso de Slade e Curtis.

— A pergunta não tinha sido pra você.

Piscando os olhos de maneira inocente (ata), Curtis fez sua melhor interpretação de chocado:

— Sério? Eu jurava que a pergunta foi pra mim. — Suspirou de modo dramático — Me desculpe tigrão.

Slade ergueu uma sobrancelha. — Seu pedido de desculpas não parece verdadeiro e não me chame de tigrão.

— Ouch, assim você me magoa, Sladezinho.

Puta merda! De novo, em menos de um minuto, me vi engolindo minha bebida pelo cano errado e vendo estrelas enquanto tentava não morrer sufocado. E Akio estava cada vez mais próximo de entrar em coma, de tanto rir.

A expressão no rosto de Slade era cômica.

— Eu vou te cobrar taxa extra por essa bebida. — Foi a única coisa que ele conseguiu dizer a Curtis, antes de bloqueá-lo completamente do seu radar e tornar sua atenção toda pra mim. — Então, vai contar ou não o que veio fazer aqui?

Uh, merda.

— Decidi largar Star City e morar aqui. — Joguei certeiro, optando por ser direto.

O sorriso babaca de Slade tomou conta de todo o seu rosto e eu senti a insana vontade de puxar Curtis e gritar: VAMOS NOS SALVAR, enquanto nos arrastávamos para fora daqui.

— Ora, mas que mudança mais radical! — Exclamou, inclinando a cabeça para o lado, me estudando da maneira mais suja possível. Sete infernos do caralho. — A que se deve essa mudança de coração?

Por que ele enfatizou "coração"?

Veja bem, hoje em dia eu não tenho nenhum problema mais para falar sobre os meus sentimentos (eu juro!), mas não via razão plausível para contar todas as minhas intenções a Slade em primeiro lugar.

— Como vão as coisas por aqui em Lian Yu? — Perguntei interessado, ignorando completamente sua pergunta que mais soou como uma insinuação (muito boa, aliás).

Ele revirou os olhos. — Se é assim que você quer jogar... As coisas andam ótimas. — Pausa e sorriso diabólico — Agora me faça a verdadeira pergunta, Queen.

Sabe, quando Felicity o chamou de SladeLoki ela tinha completa razão. O cara era uma aberração que parecia saber tudo de tudo e de todos, credo!

Coloquei os olhos em fendas.

— Não faço a menor ideia do que você está falando...

— Tigrão, me deixa traduzir pra você o que esse idiota quis te perguntar: Por onde anda a Barbie Pobre? — Curtis disparou a pergunta de cem mil dólares, fazendo minhas orelhas ficarem quentes.

PIOR. PESSOA.

Slade fez uma longa pausa, aparentemente pensando. Mas parecia mais como se estivesse debatendo algo em sua mente perturbada. Também começava a debater se eu saía correndo.

— Hmm, pelo menos alguém aqui tem bolas para fazer a pergunta. — Murmurou por fim, com um sorriso divertido e claramente tirando sarro da minha pessoa. E NÃO RESPONDENDO DROGA NENHUMA!

Apertei o copo na mão. Slade Wilson definitivamente era alguém enervante.

— Ah meu amor, eu tenho tudo! — Curtis gritou, super empolgado — Bolas, c-

— Curtis! — O interrompi desesperado. Não estava mais preocupado em preservar a inocência de Akio e sim preocupado em me poupar de traumas irreversíveis. Curtis e sua boca era um perigo para o meu bem estar.

— Meu Deus, amado. — Virou pra mim, com ar afetado — Eu só iria dizer que tenho coragem também...

Ata.

Bufei, decidindo não arrastar esse assunto por mais tempo com Curtis.

— Já arranjou uma casa para morar? — Slade quis saber, desviando minha atenção para longe de Curtis e seu teatro barato.

Dei de ombros.

— Pretendo construir uma casa, mas enquanto isso...

Ou me hospedo em algum hotel ou na casa de Tommy, completei mentalmente. A Fazenda Allen estava fora de cogitação por dois bons motivos: Um, não sei como minha batata tá com Barry (assada, cozida, frita ou tostada) e dois, não sei também como minha batata está com Felicity.

Sei que fui embora em bons termos com ela (pelo menos pareceu assim), mas um canto da minha mente sempre me lembra que talvez, mesmo eu estando longe, ela teria gostado de receber algumas ligações só para me manter e se manter atualizada.

Slade me olhou de modo especulativo. — Existe um terreno à venda ao lado da casa de Tommy.

Hein? Pisquei incrédulo, ao processar a informação. Slade estava realmente me dizendo que existia um terreno VAZIO ao LADO da casa de TOMMY?

O destino não poderia ser tão legal assim comigo, podia?

(...)

— OHMEUDEUSEUNÃOACREDITONISSO! SEREMOS VIZINHOS!

Não, não podia.

O que eu achava ter sido uma boa ideia, estava rapidamente se transformando num pesadelo. Após terminar meu drink no bar de Slade, eu e ele decidimos fazer uma breve visita no local onde seria minha futura moradia. Akio e Curtis, se juntaram a nós apenas porque sabíamos que deixar ambos sozinhos seria uma receita para desastre.

De maneira impressionante, o terreno era grande o suficiente para suprir o que eu tinha em mente para ele. Foi estranho, mas uma sensação de contentamento se apossou do meu corpo quando estudei o local. Conseguia visualizar na minha mente nitidamente a casa que me abrigaria por muitos e muitos anos, durante sol e chuva.

Mas é claro que durante minha inspeção, não contava com a aparição relâmpaga de Tommy. Era como se ele tivesse um sensor Oliver Queen, e escolhido o momento perfeito para sair de casa e me encontrar plantado feito idiota no terreno ao lado.

Como imaginado, ele ficou chocado (e puto também, por eu não ter avisado) com a minha presença em carne e osso, em Lian Yu. E quando finalmente entendeu que diabos estava rolando aqui comigo, Curtis, Slade e Akio, o malandro entrou em êxtase total.

— Esse é o plano. — Falei levemente, tentando não chamar mais atenção que Tommy e seu escândalo já havia chamado.

— Cara, isso vai ser demais! — Comemorou — Já contatou o dono do terreno? Já sabe onde vai ficar enquanto isso? Mi casa, su casa, você sabe né?! Meu Deus, Laurel vai pirar quando descobrir tudo isso e-hãn. — Ele parou de repente, me olhando de maneira estranha. Por segurança, dei um passo para trás.

— O que foi? — Perguntei, sentindo medo da sua resposta.

— Sua mãe deixou você largar tudo e vir morar aqui em Lian Yu?

Uau, pela sua reação parecia até que eu tinha dez anos e precisava pedir permissão da minha mãe pra fazer alguma coisa.

Girei os olhos. — Minha mãe está totalmente okay com a minha decisão.

— Cara, você abandonou a empresa da sua família.

Tecnicamente não abandonei coisa nenhuma... Apenas me desliguei por tempo indeterminado. Claro que se uma emergência surgisse, voaria rapidamente até Star City para ajudar solucionar o problema. Mas fora isso, eu era um homem completamente livre da QC.

De cenho franzido e cruzando os braços, analisei Tommy. Não entendia da onde vinha todo aquele seu choque mesclado de horror.

Quer dizer, ele mais do que ninguém, deveria entender minha decisão, né?

— Tommy, qual é o seu ponto aqui? Não é como se você não tivesse feito o mesmo.

— Desmemoriou bofe? — Curtis se manifestou sem ser convidado, como sempre. — Esqueceu que o ex-playboyzinho foi chutado pra fora da empresa do papi?

Se um olhar pudesse matar, Curtis estaria mortinho da silva agorinha.

— Obrigado por lembrar, Curtis — Tommy murmurou, por entre os dentes. — Mas não acredito que vocês tenham me entendido. Fui expulso da empresa e vim parar aqui em Lian Yu, porque amo a Laurel. Você veio parar aqui porque....

Ah, ele queria ESSE TIPO de explicação!

— Te garanto que não foi porque eu senti sua falta. — Ironizei, decidindo brincar com ele por algum tempo. Não era idiota, sabia muito bem o que ele (e Slade) queria ouvir, mas... Dar o doce assim fácil nunca fez o meu tipo.

Vi que atingi a "artéria" quando ele adotou uma expressão extremamente ofendida.

— Ei, não precisa me esculachar também não, tá? Nem parece que me ama...

Tive que rir com a cara de pau.

— Quando Laurel briga contigo, você diz o mesmo?

— A esse ponto da minha vida parei de questionar isso — Respondeu num tom seco —, hoje eu tenho certeza que ela me odeia. — Bufou, indignado — Acredita que ela ainda guarda aquele maldito taco? Falta dormir com ele!

Oh cara, pensando melhor acho que me tornar vizinho de Tommy seria ótimo.

Feliz, empurrei o ombro do meu amigo. — Ah Tommy, vamos lá, Laurel não é tão ruim assim...

Se fosse, ele já teria pedido o divórcio na primeira semana de casados.

— É claro que ela não é ruim — Afirmou categórico — Ruim mesmo é o taco.

Reprimindo a vontade de rir mais uma vez e a de comemorar minha vitória de desviar o assunto em primeiro lugar, decidi focar minha mente em coisas mais importantes. Precisava encontrar o dono daquele terreno, fechar negócio e enfim... Encontrar certa garota.

Virei para Slade. — Ei, você sabe como posso entrar em contato com o vendedor desse terreno?

Apesar de Slade ter me afirmado que o terreno estava à venda, não conseguia identificar nenhuma placa dizendo o mesmo.

Com um brilho de malícia nos olhos (isso foi estranho!), Slade me estudou, até assentir com a cabeça.

— Sei sim, você vai comprar o terreno?

Sua nota de interesse não passou despercebida por mim.

— Sim.

— Legal. — Disse, ao caminhar na minha direção e oferecer a própria mão para eu apertar. Sem entender merda nenhuma, mas sabendo que Slade era um doido que não deveria ser contrariado, apertei sua mão de volta, só para ter ele gritando bem na minha cara: — NEGÓCIO FECHADO!

FILHO. DA. MÃE.

Mais uma vez, de um jeito bastante suspeito, Slade Wilson havia conseguido lucrar dinheiro através da minha pessoa. Fantástico.

A risada de Tommy, Akio e Curtis atrás de mim só comprovou que se em algum momento pensei que estava dobrando alguém ali, fui um tolo iludido. Como sempre, Lian Yu e seus moradores me tinham a seus pés. E estranhamente isso não me causava raiva.

(...)

— O que o pintinho disse pro outro? — Tommy.

— Piu. — Curtis.

— E o que o outro pintinho respondeu? — Ainda Tommy.

— Piu, piu. — Akio.

Se existia justiça nesse mundo, um raio me atingiria e eu me livraria de Akio, Curtis e Tommy — o trio do terror.

Após fechar negócio com Slade, combinar com Tommy que passaria meus dias dormindo em sua casa enquanto não obtivesse a minha, acabei sendo arrastado pelo vilarejo por aqueles três seres. Slade, para minha total desgraça, alegou qualquer coisa para jogar Akio na minha direção (acredito que esse sempre foi o seu plano) e me fazer ficar de olho no pirralho.

O problema era: Eu não deveria ficar apenas de olho no pirralho quando Tommy e Curtis existiam. Eu tinha que ficar de olho NOS TRÊS, enquanto ainda tentava preservar minha sanidade. Não estava sendo uma tarefa fácil.

— Por que o Batman colocou o batmóvel no seguro? — Tommy, novamente, perguntou.

Mas antes que Curtis ou Akio o respondesse, fui mais rápido:

— Eu juro por Deus que se algum de vocês continuarem com isso, eu vou chutar onde mais dói. — Prometei, com ferocidade.

E daí que eu levaria um belo chute de Tatsu quando descobrisse que sua cria perdeu as bolas com o chute que eu lhe acertaria? Acho que valeria a pena.

Dando-me um sorriso pra lá de cínico, Tommy me encarou. — Ora Oliver, se você quer que calemos a boca, nos alimente. Tô com fome!

— Eu também tô! — Disparou Akio, sem perder tempo.

— Ai bofe, eu preciso de algo pra ocupar minha boca mesmo... — Insinuou Curtis, descarado.

Sentindo vontade de enterrar minha cabeça na areia, mas decidido a não entregar as pontas assim tão facilmente, mordi o cartucho e abracei a causa sobre alimentar aqueles três sem vergonhas.

— Se isso vai ser o suficiente pra fazer vocês calarem a boca... — Resmunguei — Por favor, Tommy, lidere o caminho.

— ISSO!!! — Comemorou, fazendo um high five para Akio e outro para Curtis, que soltou um delicado "Ai" ao mesmo tempo que abanava a mão.

Como continuar irritado com esses idiotas?

— Oliver, eu conheço um lugar perfeito para nós fazermos a nossa refeição! — Disse ele, andando apressado pelas ruas de Lian Yu, ele sequer olhava o caminho, demonstrando que o trajeto já estava gravado na sua mente que ele poderia até fazê-lo de olhos fechados. — É um restaurante novo, mas já tem uma reputação muito boa e-

— Tio Tommy, só existe um restaurante novo e vo-

Antes que Akio pudesse falar mais alguma coisa, observei Tommy tampar a boca do pestinha mais rápido que ele costumava correr de Malcolm Merlyn quando criança. Levantei uma sobrancelha. Interessante. Suspeito, mas interessante.

Em silêncio, segui Tommy pelas ruas, até pararmos em frente a um restaurante bastante pitoresco e acolhedor, em sua fachada podia-se ler "Nevasca", o que me fez franzir o cenho em confusão.

Como se tivesse lido meus pensamentos, Tommy explicou:

— Esse restaurante oferece uma sobremesa fantástica e adivinha só? É feita de sorvete caseiro!

Revirei os olhos. É claro que o dono do estabelecimento viria com um trocadilho desses.

— Quem pensou nisso? — Perguntei, empurrando a porta de vidro do restaurante. — O dono?

— A dona. — Tommy corrigiu, com um brilho divertido nos olhos.

Antes que eu pudesse interrogá-lo mais profundamente sobre isso, Akio passou varado na minha frente e só não nos meteu numa enrascada, porque no último segundo, agarrei a gola da camisa dele, o puxando pra trás.

— Akio Yamashiro, comporte-se. — Pedi, tentando não me sentir muito alegre ao ver o cotoco de gente se balançando de um lado para o outro, tentando se libertar.

Hahaha, quem rir por último ri melhor mesmo!

— Poxa, Tio Oliver! — ESPERA AÍ, FINALMENTE CHEGAMOS A ESSE NÍVEL DE INTIMIDADE? — Me solta, ai! Tô com fome!

Pego de surpresa por suas palavras (e até um pouco satisfeito, devo confessar), lentamente soltei o garoto (que foi? primeiro a gente tem que estudar o cachorro pra ver se ele não sai correndo adoidado por aí), e não surpreendendo ninguém (eu juro!) o malandro saiu correndo em direção onde eu supunha que era o caixa.

— Akio parece bastante familiarizado com o lugar. — Observei, escolhendo a primeira mesa para sentar. Imitando meu gesto, Curtis e Tommy sentaram nos meus lados opostos.

— E onde esse garoto se faz de rogado? Francamente bofe... — Curtis disse com indiferença velada.

Curvei os lábios. — Akio é basicamente seu espelho, só que mais esperto.

— É o que bofe? Tu acabou de me chamar de burro? — Se indignou todinho e acho que se um copo d'água estivesse em cima da mesa, todo o seu conteúdo já estaria na minha cara.

Pisquei.

— Eu te chamei? Não lembro disso acontecer. — Virei para Tommy — Você lembra disso acontecer, Tommy?

Com uma risada tremulando nos lábios, Tommy negou. — Não, eu não lembro.

Curtis nos atirou um olhar bastante autoexplicativo onde deixava claro que iria se vingar em alguns destes dias. Eu não via a hora.

— Oliver?

Oh inferno. Eu conhecia essa voz.

Mecanicamente, girei o meu pescoço e encontrei ninguém mais, ninguém menos que Barry Allen sentado numa mesa parcialmente escondida, segurando um enorme copo de água, ao mesmo tempo em que fixava seus olhos no meu rosto como se estivesse vendo um fantasma.

Engoli em seco.

Quando estive em Lian Yu antes, conheci Barry o suficiente para saber que ele via Felicity como uma irmã mais nova e nutria sentimentos fortes o suficiente para aniquilar qualquer um que a magoasse.

Não sabia o que ela falou pra ele quando me mandei, ou se eles sequer tiveram alguma conversa onde me incluíssem, mas a ideia de ter Barry Allen, o fazendeiro gentil, como inimigo... Fazia-me estremecer e não do jeito legal.

A ideia de decepcionar Barry Allen parecia até um pecado. Por isso, levantei abruptamente do meu lugar e caminhei em sua direção, pronto pra levantar minha defesa e proteger o meu ponto.

— Ei Barry, sou eu mesmo, Oliver Queen. Antes de qualquer coisa, eu sei que você deve me achar um completo idiota, mas veja só, eu não fiz nada por maldade ou alguma coisa do tipo. — Meu Deus, que diarreia era essa saindo pela minha boca? Alguém me pare, por favor. — Se serve de consolo eu estou de volta para reparar o meu erro- quer dizer, não vejo minha decisão verdadeiramente como um erro. Afinal, consegui crescer bastante em um ano e espero que Felicity também. — Alguém freie minha maldita língua! A expressão de Barry ainda era estupefata. — Falando nela... Ela está bem certo? Nunca liguei ou perguntei antes sobre ela a ninguém, porque me senti-

— Oliver?

Inferno e condenação. Essa voz eu DEFINITIVAMENTE conhecia MUITO BEM!

Girando meus calcanhares, me encontrei frente a frente com Felicity Foda Smoak. Me matem.

— Meu Deus, isso tá parecendo até um acidente de trem. — Ouvi Tommy murmurar para Curtis — Não consigo desviar o olhar.

Nem eu.

Com a mente a mil por hora, deixei meu olhar vagar por Felicity. Diferente de um ano atrás, agora ela usava seus óculos — e ficava sexy pra caralho -, seus cachos corriam selvagemente livres ao redor do seu rosto, quanto ao seu vestuário? Nunca vi uma pessoa vestir tão bem um uniforme. Espera, ela trabalhava aqui? Hmmm, tinha algumas perguntas novas para Barry.

Limpando a garganta tentei pensar em algo lógico o suficiente para falar:

— Olá Felicity, estou de volta.

— Meu Deus, que desastre. — Tommy gemeu ao fundo.

Sim, tudo isso era um completo desastre. Dos milhares discursos que tinha ensaiado para esse momento, nada vinha a minha mente. Mas como poderia ser culpado? A emoção de revê-la novamente, tinha causado uma pane aparentemente irreversível na minha mente.

Todas as minhas terminações nervosas pareciam pinicar, todos os meus pelos estavam eriçados e sentia o meu coração bater de forma desenfreada no meu peito.

Acho que estou tendo uma parada cardíaca.

— Eita gente, chamem a ambulância porque o bofe vai empacotar! — Curtis gritou, me dando o maior apoio moral.

Ainda parada na minha frente, sem esboçar nenhuma reação, estava Felicity, me fitando intensamente. Era estranho não conseguir enxergar nenhuma emoção naquele rosto que costumava ser bastante expressivo, mas associei seu novo estado à minha aparição relâmpago. A coitada deveria estar em choque (enquanto eu, idiota, estava totalmente borrando minhas calças de emoção).

Resolvi tentar novamente:

— Vou ficar em Lian Yu para sempre.

— Puta merda, alguém tire ele daqui. — Tommy uivou incrédulo — O retirem da sua própria miséria!

O pior é que eu estava mesmo precisando de um resgate urgente. Parecia que minha boca só jorrava merda.

Fiquei desesperado. — Sabe, me desculpe por não ter ligado antes e avisado sobre a minha vinda, eu só queria fazer uma surpresa!

(Mentira pura. Quer dizer, mais ou menos. A parte da surpresa era verdadeira, da ligação, nem tanto).

Esperei que Felicity falasse alguma coisa, mas ela apenas ficou parada na minha frente e eu só sabia que ela ainda estava respirando, porque ela precisava piscar os olhos.

— Diga alguma coisa, por favor. — Pedi, soando um pouco desesperado, um pouco esperançoso e totalmente patético.

As coisas não estavam indo do jeito que planejei.

— Hmm... — Ela murmurou, com um aspecto incerto. — Você quer o cardápio do restaurante?

QUE? Mas que infernos...

— Ahãm, queremos. — Tommy respondeu por mim, levantado-se da mesa e finalmente vindo ao meu lado, para aparentemente me dar cobertura. — Por favor, pode trazer também a bebida mais cara, acho que vamos precisar. — Acrescentou, me olhando de forma significativa e começando a me rebocar em direção à minha cadeira.

Eficiente, Felicity pegou o cardápio que escondia no bolso do avental que usava e sem mais nenhuma palavra, esperou o nosso pedido. Curiosamente, Curtis não soltou nenhuma piadinha desnecessária pra cima dela, Akio continuava desaparecido (e eu deveria me preocupar com isso, mas...), e Tommy foi o único a finalizar todos os pedidos.

Eu sequer prestei atenção ao o que ele pediu. Minha mente continuava focada em estudar Felicity e em como fui um idiota nos últimos minutos. Como eu tinha conseguido ferrar com um discurso feito há meses atrás, em questão de segundos?

Eu não estava preparado, chegou a explicação tardia na minha mente. Se soubesse que ao me dirigir para esse restaurante, reencontraria Felicity, certamente teria revisado algumas boas frases na minha mente e não deixaria meus nervos tomarem conta da minha boca.

Quer dizer, desde quando eu tinha nervos? Por Deus, costumava fazer discursos para velhacos chatos e endinheirados desde os vinte e quatro anos!

Com raiva, olhei para Tommy, que com certeza tramou tudo isso.

— Você planejou esse encontro, não foi? — Joguei, quando Felicity foi atrás de nossos pedidos. Na primeira oportunidade arrancaria as bolas de Tommy, jurei.

Ele coçou o queixo, pensativo. — Planejei, mas não imaginei que você estragaria tudo.

Incrível, ele ainda tinha a audácia de me culpar completamente.

— Realmente bofe, até eu teria feito um discurso melhor. — Curtis opinou, me encarando como se eu fosse um inseto. — Na realidade, faria bom uso da minha boca e iri-

— Silêncio, Curtis. — O cortei secamente.

Não precisava de uma fantasia na cabeça e dum lembrete entre as minhas pernas, sobre o que poderia ou não ter feito com a minha boca ao invés de soltar asneiras por aí. Claro, não que minha boca inteligente fosse convencer Felicity assim tão facilmente. Acho.

— Não foi tão ruim quanto você pensa. — Uma voz ofereceu e uma mão pousou no meu ombro. Olhando pra cima, encontrei o rosto de Barry, que sem cerimônias puxou uma cadeira e se acomodou na nossa mesa.

Pelo menos ele não me olhava mais como se eu fosse uma aberração.

— Foi pior. — Curtis debochou e como minha paciência já tava pouca, chutei ele por baixo da mesa. — Ai bofe desgraçado!!! — Me xingou, dando um pulinho na cadeira.

Nem me dignei a sentir pena. Ele mereceu.

Barry riu. — É porque vocês nunca me viram flertando...

Oh, Barry estava afim de alguém?

Interessado, o fitei. Acho que era hora de eu ficar por dentro das novidades e focar minha mente em outra coisa que não fosse a MINHA humilhação pública.

Em poucos minutos descobri que Barry e sua fazenda iam muito bem, obrigado. E que Rene e Rory continuavam trabalhando nela, mas agora tinham como objetivo entrar na carreira policial (acho que o caso com Ra's e Damien, mais Dinah, influenciou bastante Rene... que acabou influenciando Rory, já que ambos são carne e unha).

Quis também saber sobre Felicity — afinal, ela estava trabalhando nesse restaurante e não mais na fazenda (aparentemente) -, mas Barry apenas encolheu os ombros e disse que se eu quisesse obter respostas para as minhas perguntas, deveria ir direto a fonte. Claramente, me ferrei.

Mas não deixei a peteca cair. Na falta de informação sobre Felicity, tentei sondar o fazendeiro sobre sua vida amorosa. Ainda queria saber quem o estava fazendo ser corajoso o suficiente para tentar flertar por aí.

— Você não a conhece. — Declarou, tomando um copo de água e desviando-se do meu olhar. Arqueei uma sobrancelha.

— É uma nova moradora ou eu simplesmente não a conheço porque esqueceram-se de apresentá-la?

Tommy virou pra mim e me deu um olhar divertido. — Nova moradora, Oliver.

— Só foi eu ir embora pra galinha ciscar. — Curtis resmungou baixinho, triturando o fazendeiro com os olhos. Mais uma vez, chutei o idiota por baixo da mesa. — Ai bicha má!!! PARA COM ISSO! — Fez o escândalo, empurrando sua cadeira para o mais longe possível do meu alcance.

Barry parecia querer se afundar cada vez mais no lugar, de tão constrangido. Só não sei se era pela conversa ou por Curtis estar chamando atenção.

— Legal, como ela é? — Segui o assunto, decidindo ignorar Curtis e suas presepadas.

— Não se preocupe Oliver, você irá conhecê-la. — Novamente, foi Tommy quem respondeu por Barry.

Quando estava prestes a intensificar um pouco mais as coisas, nossos pedidos chegaram... Com uma garçonete diferente. E que tinha Akio bem em seu encalço.

Fiquei decepcionado por não ver mais Felicity. Será que ela estava fugindo de mim? Era uma possibilidade.

— Barry, Tommy. — A moça os cumprimentou, depositando os pratos na nossa mesa. Percebi que diferente de Felicity ela não usava uniforme algum, o que reforçava minha ideia de que Felicity estava fugindo.

Certamente ela pediu pra mulher vir nos servir em seu lugar. Tentei disfarçar a careta de decepção que o pensamento me deu.

— Olá, esse é Curtis Holt e eu sou Oliver Queen. — Me apresentei, oferecendo um sorriso educado a mulher.

Abismada, ela me olhou de cima a baixo e depois ficou durante uns bons trinta segundos me mirando (e fazendo meu sorriso estremecer e depois esmorecer, porque veja bem, não é muito educado ficar encarando um desconhecido assim!), até que fechou e abriu a boca (minhas orelhas já estavam entrando em combustão) e arregalou os olhos, ao inquirir:

— Você é o Oliver? Aquele Oliver Queen?

Agora é que fodeu.

Sem jeito, balancei a cabeça. — Sim, acredito que sim.

Observei quando seu lábio torceu. Ela estava me desaprovando ou reprimindo o sorriso?

— Prazer em conhecê-lo, Sr. Queen. — Me ofereceu a própria mão em cumprimento. — Me chamo Caitlin Snow e sou dona desse estabelecimento.

Oh, bem.

Apertei sua mão rapidamente e voltei a plantar o sorrisinho educado que mamãe teve muito trabalho de me fazer entender o quão importante era em situações delicadas. E essa era uma dessas situações.

— Seu restaurante é bastante agradável. — Elogiei, quando em realidade não notei praticamente nada do lugar. Meu objetivo agora era Felicity. Onde ela estava?

Ela sorriu. — Obrigada, Sr. Queen. Espero que a refeição também te agrade.

Depende, eu teria Felicity como sobremesa?

Limpei a garganta e esperei que o processo também limpasse minha mente que no momento estava na sarjeta.

— Eu tenho certeza que gostarei.

— Não tenha dúvidas, Caitlin. — Tommy acrescentou com uma ironia que não passou desapercebida por mim.

Que diabos esse homem agora estava aprontando?

— Tia Caitlin, cadê meu sorvete? — Akio se intrometeu no assunto de forma exasperada, parando na frente da mulher como um pequeno ditador. — Já falei que hoje tio Oliver vai bancar tudinho.

Moleque abusado.

Com uma sobrancelha erguida, ela perguntou: — Tem certeza disso ou é só você falando pelos cotovelos?

Ok, ela poderia até ser uma moradora nova, mas não tão nova ao ponto de desconhecer as artimanhas de Akio. Inesperadamente, gostei dela.

— Tenho certeza! — Ele virou pra mim — Num é, tio Oliver?

Não querendo jogar o pirralho de baixo do ônibus logo no primeiro dia, concordei com a sua mentira deslavada.

— É, Akio está falando a verdade.

Satisfeita, Caitlin prometeu trazer um sorvete para Akio (e nem sinal de Felicity...) e se retirou, deixando-nos novamente na nossa bolha social pra lá de peculiar: Um ex playboy, um fazendeiro rico, um gay doido, uma criança endiabrada e eu, um ex herdeiro.

— Então, agora alguém vai me explicar por que tô comendo mato? — Curtis quebrou o silêncio que tinha se instalado na mesa.

Confuso, finalmente me dignei a prestar atenção nos pratos servidos na nossa mesa e...

— Fala sério! — Soltei, chocado. — Isso aqui é um restau-

— Vegano. — Disparou Barry, suspeitamente atingindo a coloração vermelha nas bochechas. Hein? — Caitlin Snow abriu o primeiro restaurante vegano de Lian Yu e de alguma forma, me influenciou a mudar o modo de produção da fazenda Allen. Parei de marcar ou vender qualquer animal, agora focamos somente em plantio e colheita sustentável.

Lentamente, dediquei um olhar para a comida no meu prato e depois para Barry. As engrenagens no meu cérebro começaram a trabalhar e de repente, tudo ficou bastante claro.

O Oliver antigo teria dito que a atitude do fazendeiro havia sido precipitada e não muito lucrativa, mas como agora eu entendia certas coisas que sequer fazia ideia antes...

Abri um largo sorriso e me inclinei na sua direção, depositando um tapinha amigável no seu braço.

— Bom trabalho, Barry. — Elogiei e se possível, ele atingiu a cor vermelho-queria-estar-enterrado.

Foi inevitável não acabar me explodindo numa risada estrondosa junto com Tommy e Curtis. Akio por outro lado, só ficou nos observando como se fossemos completos lunáticos. Isso serviu como combustível para mais risadas.

(...)

Sem a presença do esquadrão confusão (e estou falando de Tommy, Curtis e Akio), reconheci que a melhor estratégia que eu tinha em mãos e minha melhor aposta por hora, era me sentar em silêncio numa cadeira à medida que aguardava Felicity finalizar seu trabalho, para eu finalmente conseguir abordá-la em paz.

Particularmente, na minha visão, eu poderia ser facilmente comparado a uma aberração de stalker. Mas ei, já havíamos passado pela fase stalker da nossa relação! No entanto, minha determinação estava tão forte, que aguentei todos os olhares estranhos que recebi no decorrer do dia, incluindo os olhares DIVERTIDOS que Caitlin me atirava por pura solidariedade (vamos considerar assim para o meu frágil ego não cair em fagalhos).

Felicity, por sua vez, atendia todas as mesas e ignorava completamente minha presença, porém não sabia determinar se ela fazia isso por puro desdém ou se ela simplesmente estava focada demais no trabalho e não queria mais distrações desnecessárias.

(Isso se eu ainda a afetava ao ponto de ser considerado uma distração para ela...)

De qualquer forma, fiquei até o final do seu trabalho... Que acabou ao anoitecer. Visualizando Felicity retirar o avental que usou durante todo o seu turno e passá-lo para Caitlin, levantei-me da minha cadeira numa velocidade invejável, e irredutível quanto ao meu plano de abordagem, parei bem na porta do restaurante, apoiando-me contra o seu marco.

Apesar do aspecto cansado por ter ficado praticamente o dia inteiro trabalhando, Felicity irradiou uma confiança sinistra, ao se dirigir na minha direção. Ou na direção da porta. Esperava que fosse mais a primeira opção.

Era inegável a sua aquisição de segurança sob sua própria pele.

E eu pensando que não poderia me apaixonar mais por essa mulher...

— Não sabia que você continuaria me esperando aqui. — Foi a primeira coisa que ela disse, ao parar centímetros longe do meu queixo.

Acho que nossa proximidade era socialmente indecente para um local público, mas quem ligava? Eu não. Muito menos Caitlin nos olhando por detrás de um cardápio, apoiada em seu balcão. Espertinha.

— Eu teria esperado toda noite.

HA! Agora sim meu cérebro estava funcionando! Se bem que essas palavras vinham mais do meu coração do que de qualquer outro órgão ativo no meu corpo...

Seus olhos me perfuraram com uma emoção pra lá de suspeita.

— Palavras bonitas, atitude legal. Mas eu ainda tenho uma memória boa. — Deu um tapinha de leve no meu peito. — Você terá que me dar bem mais do que isso.

Sexy. Toda aquela sua conversa séria e atitude estava me hipnotizando. O que era idiota. Quer dizer, era nítido que minha batata com Felicity tinha tostado e mesmo assim, meu cérebro, corpo e coração doente, estava gostando desse jogo.

Acho que despiroquei de vez.

— Você ainda está chateada por eu ter ido embora?

Foi o momento perfeito para ela suavizar sua expressão.

— Você ir embora não me chateou. — Ouch! — Eu entendi sua razão. O que me chateou foi você não ter mantido contato.

Como explicar que eu era um idiota covarde que teria corrido de volta para Lian Yu na primeira oportunidade caso ouvisse a voz dela?

Pesando mentalmente minhas palavras, nivelei meus olhos nos dela. Sim, Felicity Smoak continuava de tirar o fôlego. Eu estava ferrado.

— Desculpe, não tive coragem de te ligar.

Uma ruga entre suas sobrancelhas surgiu e ela torceu seu nariz. A-d-o-r-á-v-e-l. E acho que estou me tornando um stalker com complexo masoquista.

— E por que não?

Encolhi os ombros.

— Que tal a gente conversar durante um jantar? — Propus e assisti em primeira mão, seus dois lagos cristalinos subirem, surpresos. E depois cerrarem, desconfiados.

— Você está me chamando para um encontro? — Esse é um olhar de acusação me dando oi? — Depois de desaparecer por um ano?

— Sim.

Tá, agora tive certeza: Sou masoquista. As chances de levar um chute nas minhas bolas eram altas.

— Agora?

Ah, bem. O plano éramos ter um encontro totalmente apropriado, com lugar e horário marcado, mas como eu e Felicity nunca fazíamos nada apropriado e eu ainda corria o risco de levar um bolo caso deixasse para algum outro dia...

— Sim, aqui. — Respondi, 100% ciente que estava pressionando minha sorte dum jeito surreal, mas é aquele negócio: Por Felicity, eu deveria tentar.

Completamente nervosa, Felicity começou a mexer seus pés. Das duas, uma: Ou ela saía correndo ou me chutava.

Juntei minhas pernas e discretamente levei minhas mãos até minhas joias de família (ahem, se é que me entendem).

Soltando um suspiro exasperado, ela disparou:

— Por que?

Estou na merda. Sério.

Mais uma vez, num curto intervalo de horas, minha mente ficou em branco. E na falta de alternativa, só abri minha boca e me deixei falar:

— Porque precisamos conversar. — Essa foi razoável — Porque eu estou com fome. — Ah merda, me matem. Só pra comprovar, meu estômago traidor fez um barulho. Pigarreei. — Porque tenho medo de você recusar sair comigo em qualquer outra ocasião. E além de tudo, quero fazer as coisas certas dessa vez.

— Hmmm. — Foi sua resposta monumental através dum resmungo pensativo.

ISSO. É. TORTURA. Ela só poderia estar fazendo isso de propósito.

Com as minhas bolas na mão (literalmente), aguardei pelo seu veredicto final.

— Eu faço a conversa e você come. — Disse ela bruscamente, virando-se para caminhar até uma mesa livre. Cara, quando ela se tornou tão mandona assim? Obediente (tava parecendo um cachorro) a segui. Tudo bem por mim ela fazer toda a conversa.

Sentamos um de frente para o outro, porém Felicity foi a primeira desviar o olhar, mas isso se devia somente porque Caitlin veio até nós — com um sutil sorriso de quem sabia mais do que devia -, oferecendo seus serviços. De novo, pedi qualquer coisa, sem prestar muita atenção em algo que não fosse Felicity.

Ela por outro lado, pareceu aproveitar bastante a distração de Caitlin, para elaborar o começo da nossa conversa 100% tensa:

— Não sei o que você já sabe que aconteceu aqui em Lian Yu desde a sua i-

— Não estou interessado em Lian Yu, estou interessado em você. — A interrompi, firme. — Me fale sobre você, Felicity.

Ela ajeitou as costas na cadeira.

— Não parece ser muito justo eu falar sobre o que andei aprontando, enquanto não sei nada que você fez nos últimos meses lá em Star City.

Reflexivo, esfreguei minha mão no queixo. Ela disse que faria toda a conversa, mas os conflitos de interesses ficavam nítidos. A curiosidade sobre como cada um enfrentou meses sem o outro, era mútua, logo ela não conseguiria ignorar o fato de me ter em sua frente e não poder questionar nada.

O pensamento me deixou emocionado. Ela ainda gostava de mim. Mas o quanto?

— Trabalhei na empresa da família num cargo diferente. Saí por aí com Thea, Diggle, Roy e Curtis. — Sua expressão pareceu suavizar ao ouvir esses nomes. Ponto pra mim. — Tirei tempo para passar os finais de semana com minha mãe e... — Hesitei por um momento mas é aquele ditado né? Se tá na chuva, é pra se molhar! Suspirei e continuei. — Comecei umas aulas de yoga. Minha mãe tinha razão, essa merda te faz uma pessoa bem mais calma.

E essa é a história de como quase matei Felicity Smoak ao fazê-la engasgar com um copo de água.

Ela ria tanto (após se recuperar da sua quase morte), que lágrimas já escorriam pelo seu rosto e Caitlin, do outro lado do salão, nos olhava de maneira estranha. E sim, ela totalmente jogou seu disfarce na merda ao esquecer-se de erguer o cardápio novamente para nos espiar.

— De todas... — Mais risadas —... as coisas que imaginei... — Descontrole total de risos e lágrimas —... você me contando.... — Uma última crise de risos, seguida duma respiração longa. Acho que ela se recuperou. Eu não. O pessoal está nos olhando mais estranho ainda. — Jamais imaginei isso. — Completou, me fazendo ficar um pouquinho na defensiva.

Qual é, estamos no século XXI, rapazes devem se conectar com o seu eu interior, durante uma aula de yoga.

— Ei! — Brinquei — Não me torne um cara complexado só porque faço yoga!

Ela levantou as mãos, em rendição. — Tudo bem, não está mais aqui quem riu. — Pausa — Você aprendeu quais posições?

FELICITY SMOAK ACABOU DE FAZER UMA PERGUNTA DE DUPLO SENTIDO PRA MIM?

Meu queixo caiu.

— Você acabou de flertar comigo? Por que não quero ler nada errado e acabar levando água na cara.

Ela estremeceu, tentando sufocar uma risada. Que diabos era tão engraçado? Felicity estava conseguindo causar um nó enorme (vamos chamá-lo de nó duplo) na minha mente. O que não era nada novo quando falávamos dela. Ela apenas tinha esse dom único.

— Eu? Eu não! — Respondeu dramaticamente, o que comprovou o óbvio: Ela tava tirando onda com a minha cara.

Revirei os olhos. — Agora que contei sobre meu ano, chegou a sua vez. — Apoiei meus braços na mesa, a fitando intensamente. — Felicity Smoak, me conte mais sobre você.

Sua expressão ficou séria e eu quase comecei a recitar todas as posições de yoga que conhecia, apenas para recuperar aquela atmosfera divertida de segundos atrás.

— Acho que você já sabe, mas vou falar de qualquer forma: A fazenda Allen depois daqueles ovos de ouro, foi muito bem e se recuperou. Barry acabou me dando de presente um computador de última geração, que me fez recordar suas palavras antes de ir embora... — Seus olhos se estreitaram. — Bem, você disse que era pra eu tentar descobrir o que queria fazer. Acontece que percebi ser muito boa com um computador.

— Você é. — Observei, mas ela ignorou, concentrada em seguir na sua história.

— Decidi procurar um trabalho de meio período. — Apontou para Caitlin que já estava sentada a duas mesas de distância, nos assistindo descaradamente. Privacidade? Não existe em Lian Yu. — E agora estou estudando online. Escolhi estudar TI.

Suas palavras fizeram o orgulho explodir no meu peito e minha garganta fechar de emoção. Ela tinha conseguido. Felicity Smoak tinha finalmente escolhido qual estrada trilhar, agora só faltava saber se ela me aceitaria ao seu lado durante todo o percurso.

— Fico feliz por você, Felicity. — Sorri genuinamente, após descongestionar minha garganta. — Mas e quanto ao seu trabalho na fazenda? Ainda está morando na casa principal com Barry?

Seu rosto se iluminou, quando um sorriso se espalhou pelo seu rosto.

— Ah, às vezes eu ainda ajudo Barry! No entanto, não sou mais tão requisitada assim. — De forma brincalhona, dedicou um rápido olhar por cima dos ombros para Caitlin, que agora estava a uma mesa distante de nós. Voltou a me olhar, falando um pouquinho mais alto. — Não sei se você soube, mas Barry trocou o modo de produção da fazenda. Não há mais nenhum animal novo, só os antigos, e agora tudo é sobre plantação e colheita sustentável.

Ela estava tentando fazer Caitlin ouvir cada palavra saindo da sua boca. Curioso para saber a reação da mulher em questão, olhei diretamente na sua direção e num é que ela estava vermelha, contudo, sustentando um sorrisinho satisfeito?

Talvez Barry não fosse o único interessado ali...

Voltei meus olhos para Felicity, ela também tinha um sorriso satisfeito no rosto.

— Felicity Smoak: Garçonete durante o dia e Cupido durante a noite. — Falei orgulhoso, ganhando um rosto corado em troca. Perfeita. — Nas horas vagas é uma estudante de TI...

Ela soltou uma risadinha sem graça.

— Quem diria, né?

— Eu diria.

Sua boca poderia não fazer o trabalho, mas sua expressão de gratidão e timidez revelava o quão significante foi minha opinião quanto ao assunto.

— Obrigada. — Agradeceu e depois inclinou a cabeça. — O que você falou mais cedo era sério?

Afundei na minha cadeira. Tinha falado muitas coisas mais cedo, especialmente besteiras.

— Seja um pouquinho mais específica Felicity, por favor.

Ela girou os olhos, exasperada.

— Sobre você ficar para sempre aqui em Lian Yu.

Ah, isso.

Acenei com a cabeça. — É verdade, me despedi da minha vida em Star City e estou procurando por um novo começo aqui em Lian Yu.

Achei que minhas razões tinham ficado explicitas o suficiente na minha sentença, mas a próxima pergunta de Felicity, provou que não:

— Por que?

Fitei-a nos olhos.

— Porque ouvi dizer que Lian Yu é o lugar de milagres e já faz um tempo que descobri estar apaixonado por certa loira que adora sair por detrás de arbustos.

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Minha declaração pareceu chocá-la quanto me deixou leve por dentro. Foi como se finalmente eu tivesse encontrado um ponto de paz.

Não falhando de me surpreender até o último momento, Felicity levantou-se bruscamente da cadeira, jogando-a pra trás e causando um barulho gigantesco no restaurante. Incrédulo, a olhei.

Por que as coisas com ela nunca eram normais?

— Eu disse que faria toda a conversa, eu fiz. — Disse, pegando um bloco de notas e caneta no bolso da calça jeans que usava (e usava muito bem, aliás), para começar anotar algo de modo apressado. — Agora você pode comer. — Proclamou, arrancando o papel do bloco e o jogando em cima da nossa mesa.

Deslizei os olhos pro papel. Que diabos...

— Você vai me deixar comer aqui sozinho? — Isso era uma nota de histeria na minha voz?

Ela assentiu, erguendo o queixo. — Sim, se você quer jantar comigo, me chame no final de semana, estarei livre. — Apontou para o papel e eu, de forma mecânica segui sua unha perfeitamente pintada de rosa. Entendi sua última sentença, contudo, sentia o meu cérebro pifando. — Esse é o meu número, pode me ligar a qualquer momento que atenderei.

E sem mais cerimônias, ela saiu em disparada para fora do restaurante, usando aquele seu andar que para qualquer um seria um tanto quanto engraçado e desajeitado, mas que causava um efeito peculiar no meu sistema (que já estava totalmente comprometido), convencendo-me a não desviar um minuto sequer os olhos pra longe de sua silhueta.

Quando a perdi de vista, girei lentamente (estava tentando me recuperar do efeito Smoak) e não fiquei nada perplexo em encontrar Caitlin sentada na minha frente, estudando-me de perto. Ela finalmente tinha ultrapassado o obstáculo que era a última mesa onde estivera sentada por um tempo nos assistindo como se fossemos um tipo de seriado intrigante.

Engoli em seco, piscando.

— Eu acabei de ganhar um encontro com Felicity Smoak?

Caitlin bateu palmas. — Sim! É oficial! Olicity está de volta na jogada!

Aos poucos um sorriso se espalhou no meu rosto e eu peguei o papel em cima da mesa, olhando-o como se fosse um tesouro precioso. E era. Aquele papel era a maior prova de que Felicity estava disposta a nos dar uma chance... E eu faria valer a pena cada segundo.

É, Olicity estava de volta e dessa vez seria para sempre. Teria certeza de garantir isso.

QUATRO ANOS DEPOIS

Curtis's Pov

— Curtis, eu juro que se nos atrasarmos por sua culpa, eu vou te chutar para fora da estratosfera!

Podia-se dizer que com os anos toda essa ralé iria parar de me ameaçar, né? Ledo engano. A cada dia minha situação aqui nesse fim de mundo ficava pior! Não tinha um diazinho sequer que eu passasse sem receber essas palavrinhas delicadas do meu senhorio.

Tu leu certo mocréia, SENHORIO! Hoje sou uma pessoa que compartilha o galinheiro com outras. Mas tudo bem, já estava trabalhando num plano pra sair dessa situação de calamidade. Onde já se viu ganhar esporro de Rene e ter de medir as palavras com medo do boy sacar uma armona que não era a que ele carregava entre as pernas, bem na sua direção? Absurdo!

Ok que ele jamais me ameaçou com a arma (Nenhuma das duas. Infelizmente.) porém é aquele ditado né? Quem tem cu tem medo! E eu tenho muito. Cu e medo, se é o que você tá se perguntando...

Dando uma última checada no meu visual b-a-f-ô-n-i-c-o, resolvi sair do quarto antes que o Sarnento tivesse uma crise de pelancas. Depois eu sou o afeminado né?

Apoiando-me contra a parede da sala, onde Sarneto me aguardava impacientemente andando de um lado para o outro, fiz uma pose sexy.

— E aí seu polícia, gostou do meu look? — Perguntei, me exibindo toda.

Quando resolveu parar de andar feito barata tonta e me contemplar, o imbecil teve a audácia de me olhar de cima a baixo e rir.

— Essa roupa vai ser legal pra desviar a atenção do povo quando Felicity cair do palco.

Boy desgraçado!

— Estão todos prontos? — Rory perguntou, saindo do banheiro da casa.

Esqueci de falar, mas o Pigmeu Sonso também morava conosco e INFELIZMENTE também era o meu senhorio.

Dois anos atrás quando Rene conseguiu ser promovido no departamento de polícia aqui de Lian Yu (pois é menina, o cabeça de rola conseguiu passar em todos os exames da academia de polícia e hoje era um homem bastante respeitado pelos moradores... alguns... poucos), ele e Rory decidiram juntar as trouxinhas e se mandarem pra fora da fazenda de Barry... Que estava CASADO com Caitlin.

O poneyzinho de bobo não tinha nada! Na primeira oportunidade que teve pra "arrebatar" a dona do restaurante que vende mato, foi lá e aproveitou. Fazia três anos que os pombinhos estavam casados (e produzindo a todo vapor mato pra dar e vender) e muito felizes.

Queria eu! Por enquanto, me encontro solteiro igual uma camponesa inocente perdida no campo...

Mas voltando ao assunto principal... Rory e Rene decidiram sair da fazenda e dividirem uma casa juntos. E eu como não sou bobo nem nada, me auto convidei pra fixar residência com eles. A princípio nenhum dos dois me quis por perto (Mas Rory era nobre demais pra falar isso em voz alta. Amo um homem.), contudo, de alguma forma, Slade Tigrão Wilson acabou convencendo os dois a me deixarem morar com eles.

Não se enganem!

Chamei o Tigrão de Tigrão mas não estamos em bons termos desde o dia em que descobri que ele tem um caso DAQUELES, com uma mulher chamada Shado. Ao que parece, o caso vinha acontecendo há anos E NINGUÉM SEQUER TEVE A DESCENCÊNCIA DE ME CONTAR! Me deixaram checar quanto custava uma cerimônia de casamento em Las Vegas só para depois me jogarem essa verdade cruel na cara.

Ainda estava tentando superar esse tombo.

Mas voltando ao caso de como minha vida se transformou num pesadelo tendo Rory e Rene como senhorios: Slade ajudou. Eu acabei fixando residência com eles. Sou um trabalhador da QC (Existe trabalho remoto, ok? pode te impressionar saber, mas aqui em Lian Yu tem internet também!), no entanto faz anos que não contribuo com um tostão aqui dentro dessa casa.

Como? Fácil!

Tive uma estratégia muito boa. Chorei para Rory e Rene que precisava economizar dinheiro o suficiente para ter minha casa própria... E isso estava mesmo nos meus planos futuros. Que foi? Preciso de privacidade!

A perspectiva de se verem livres da minha pessoa, os fizeram me deixar todo esse tempo em paz sem dar um tostão furado para contribuir com o sustento dessa casa. Ainda bem né? Semana passada comprei uma jaqueta de mil dólares (Tá escondida na casa das Safadas Paranormais, local mais seguro de Lian Yu. Quem vai querer invadir a casa de Nyssa e Sara?) e já estou planejando tomar um porre no próximo mês lá na Califórnia.

Já disse, estou trabalhando nessa coisa de superar o Tigrão e isso requer muitas bebidas.

— Tô prontíssima pra absolutamente TUDO! — Gritei, tocando meu chapéu de plumas FALSAS (Sou doido de colocar algum animal autêntico em mim? Primeiro que coitadinhos e segundo ECA! Tem um animal morto em você! Tá ficando doido?).

Reparei que bem diferente da minha pessoa (Dã, sou único), Rene e Rory usavam o uniforme da polícia, só para se exibirem, com certeza.

Era incrível, mas as camponesas safadas de plantão sempre acabavam ciscando pra cima dos dois quando ambos vestiam seus uniformes.

Tá bom, admito: Infelizmente eu podia enxergar o apelo também! A perspectiva de querer conhecer a armona carregada era altíssima e atiçava qualquer uma com fogo na bacurinha. Sou testemunha ocular que Rene estava ao ponto de transformar nossa residência na Casa da luz Vermelha e o Pigmeu Sonso não ficava atrás (taí o motivo do apelido).

— Notei já isso. — Rene disse, com uma expressão cínica. Ai que vontade de sentar...o tapa! — Vem cá, tem certeza que vai assim mesmo? Vai ter muitas famílias nesse evento...

Levei minhas mãos até a cintura, ofendido. — Garoto, você quer dizer o que com isso?

Tudo bem que meu chapéu de plumas, minha botinha rosa choque, minha calça vermelha e minha blusa amarela com glitter roubaria toda a atenção, mas essa era exatamente a intenção!

Meus tempos de ser uma pessoa discreta (só um pouquinho) haviam terminado quando fui embora de Star City com o Bofe-Tudo-de-Bom. Aquela cidade exigia muitos códigos de vestimenta e conduta, não foi por nada que acabei voltando pra esse fim de mundo... Tem dias que me arrependo de ter voltado (Ver a cara de Rene todos os dias faz qualquer um lamentar existir), no entanto, existem outros em que fico contente com a minha decisão PRECIPITADA e IMPENSADA (como hoje).

Quem disse que você não pode ser feliz quando faz o impensável?

— Ele não quer dizer nada! — Rory pulou na nossa frente, tentando apaziguar a tempestade que tomaria forma bem aqui nessa sala.

Rory além de ser o Pigmeu Sonso da casa, também servia como amortecedor (uma delícia de amortecedor, deixa eu te falar) entre eu e Rene. Se não fosse pelo pigmeuzinho, eu já estaria na cadeia e Rene a sete palmos da terra.

Altivo, empinei meu nariz.

— Acho bom mesmo esse sarnento não dizer um "A". Tô com a unha grande e posso fazer um estrago nessa cara de quem comeu e não gostou! — Ameacei, mostrando minha última aquisição.

Unhas postiças eram tudo! Ainda mais quando você precisava ameaçar alguém. Só era ruim quando precisava digitar algum relatório importante pra QC. Aí eu acabava digitando sem querer algo como "Thea, você é uma baranga" ou "Rene cabeça de nós todos" e enviando o email pra central de RH.

Ele bufou.

— Você é bem idiota de ameaçar um policial, né?

Gostava mais do termo CORAJOSO.

Sem dar mais atenção à gentalha, saí de casa e fui em direção ao carro da patrulha estacionado bem no nosso portão. Contente por saber que finalmente sentaria na frente daquele possante, minha alegria terminou quando senti um empurrão, me levando praticamente pra cima do capô do carro.

— AI SEU DESGRAÇADO! — Gritei para Rene, tentando me recuperar dessa violência terrível sobre meu corpinho. — ME DEIXA TER O MEU MOMENTO!

Eles NUNCA me deixavam sentar na frente. Nunca!

Na realidade, uma vez Rene fez questão de me colocar na parte de trás do carro, igual como se eu fosse uma bandidona. Faltei enfartar nesse dia só de ódio e desgosto.

Tenho certeza que esse seu ato foi contra lei. Deveria existir alguma regra proibindo isso, e quando berrei essas mesmíssimas palavras pro Sarnento, ele só fez rir e dizer que eu (LOGO EU) era um terrorista, logo não haveria problema pra ele.

— Esse momento não é seu. — Murmurou com picardia, entrando no carro.

Sem nem me ajudar, Rory fez o mesmo. Traidor!

— Vai entrar ou não? Não tenho problema de deixar você ir andando... — Sarnento zombou, já ligando o carro e pisando no acelerador, fazendo aquele barulho horrível que só pobre gostava de fazer.

O QUE EU FIZ PRA MERECER ISSO?

Lamentando todas as minhas decisões de vida, recuperei-me do tombo, chequei uma última vez minha roupinha e abri a porta do carro, sentando-me atrás daqueles dois idiotas. Se eu fizesse força, poderia muito bem imaginá-los como meu chofer (Rene) e meu segurança (Rory).

— Foi o que pensei. — Sarnento comentou, me enviando um sorriso cínico através do espelho retrovisor.

Como resposta apenas levantei o dedo médio pra ele.

— TACA PRO INFERNO, MOTORISTA!

(...)

Lian Yu poderia ser chata a maioria dos dias, mas quando rolava um evento... Esse lugar ganhava vida!

Adorava falar mal de qualquer coisa, é verdade, porém em matéria de gandaia esses camponeses tiravam de letra!

Lantejoulas penduradas, sol de rachar a cabeça (amém chapéu de plumas), palco bafônico e cadeiras posicionadas estrategicamente em seus lugares, a cerimônia de formatura estava montada e pronta para ser aproveitada.

Com o meu olhar de raio x, identifiquei um palanque montado bem atrás do palco, supus que era lá onde a Barbie Pobre estaria aguardando seu momento de brilhar pela primeira vez na vida chegar. Internamente debati se ia até lá cumprimentar a azarada mais sortuda do planeta, mas decidi que não né? Seria dar muita ousadia!

E isso é uma coisa que dou para poucos.

— Cadê o Oliver? — Perguntei, olhando de um lado para o outro, tentando localizar o boy delícia.

Veja bem, só porque não dou atenção para Felicity, não quer dizer que isso também se aplica ao bofe dela.

— Lá na frente. — Prestativo, Rory respondeu, apontando para a área que ficava pertíssimo do palco.

Deveria ter desconfiado. Oliver era o namorado basicamente perfeito: Tinha dinheiro, carisma, um rosto bonito, rolão e ainda era o maior fã vivo da Felicity.

Não sei como essa ralé conseguiu a proeza de conquistá-lo, mas conseguiu!

Na época em que Garanhão voltou para Lian Yu, eu jurava de pés juntinhos que ele não conseguiria mais nada naquele mato (tô falando da Felicity), só que aí três dias depois da sua volta, ele apareceu todo arrumado na casa de Tommy (Onde nos hospedamos. Sim, plural. Acha mesmo que sou acanhado? JAMAIS! Me convidei a dormir lá mesmo!) anunciando que iria num encontro com a Barbie Cherno.

Fiquei como? Passada.

E mais passada ainda quando dias depois, eles anunciaram o namoro. Cruzei os dedos pro playboy levar um chute (só assim pra vir chorar no meu peito e eu ter alguma chance), contudo, minha praga não deu certo e esse romance já tá rolando faz anos...

Naturalmente todo mundo em Lian Yu está aguardando Oliver dar o próximo passo (eu não!) e pedir a Barbie Cherno em casamento. É o correto em toda relação duradoura, né?

— Vamos lá falar com ele. — Anunciei, resolvendo que não tinha mais tempo a perder refletindo na loucura alheia.

Desfilando até o Boy Delícia, reparei que ele tinha como companhia a mãe dondoca que sempre arrumava tempo para visitá-lo. Incrível o que dinheiro não faz né? A mulher arrumava hora pra fazer tudo! Um minuto estava na França e no outro tava aqui enfiada no meio do mato.

No entanto, ficou claro para qualquer um que hoje Moira Queen só estava em Lian Yun para prestigiar a norinha.

Invejei!

— E aí bofe, guardou meu lugar? — Já cheguei chegando, dando um leve aceno pra Moira (Ela ainda preenchia os meus cheques, alôô) e fazendo questão de apertar a mão do Sr. Steele.

Um homem é um homem né amores?

Com uma expressão engraçada (Num sei, parecia até que queria rir de mim!), Oliver me estudou por um LONGO MOMENTO.

Tive que fazer pose, exibindo minha silhueta de causar suspiros:

— Que foi? Se arrependeu de ficar com a Felicity e agora quer uma chance comigo? — Provoquei de brincadeira — Vou te contar, pareço fácil mas não sou.

Oliver estremeceu. — Se você é difícil, quero nem imaginar você sendo fácil.

Oh gentinha abusada!

Antes que eu pudesse rodar meu chapéu de plumas e mostrar ao Sr. Queen com quantos paus se faz uma cangaia, Rory e Rene finalmente nos alcançaram.

— E aí Oliver? Chegamos a tempo? — O Sarnento perguntou preocupado. Suor começava escorrer de sua testa.

Quem olhava assim até pensava que seria ELE a se formar.

Oliver balançou a cabeça. — Não, vocês chegaram bem a tempo.

— Graças a Deus! — Ouvimos uma exclamação em nossas costas.

Olhei pra trás e não fiquei nenhum pouco impressionado em me deparar com a expressão de quem comeu e gostou do Tommy. Ao lado dele estava sua versão miniatura só que de saias, segurando sua mão.

Rebecca Merlyn tinha apenas três anos e já dominava o pai em volta do seu dedo mindinho duma forma espantosa. Sério. Não existia nada que aquela garota pedisse e o Tommy não fizesse.

Graças a ela, o ex-playboy voltou a ter contato com o pai, Malcolm Merlyn. Até onde eu sei, Malcolm vem visitar a neta três vezes ao ano (No aniversário dela, no Natal e Ano Novo), pode-se dizer que as covinhas da criança derreteu o coração do empresário.

— E Laurel? — Oliver perguntou, ansioso. — Nyssa? Sara? Donna não estava com vocês?

Reparei que Tommy trouxe também uma vuvuzela pra comemorar a formatura da ralé. Aí depois eu que sou brega por ter trago confetes!

Tommy riu.

— Calma cara, Laurel precisou voltar pra casa porque esqueceu a faixa que Rebecca fez pra Felicity. — Explicou, apertando a mãozinha de Rebecca afetuosamente.

Ai confesso: Tommy papai era uma versão de explodir o... Ovário.

Como se não bastasse Tommy versão pai, Oliver decidiu que esse era o momento perfeito para bancar o titio da criaturinha.

— Ei Becca. — Ele agachou, ficando a altura dos olhos da criança. — É verdade que você fez uma faixa pra Felicity? Ela ficará muito feliz com isso.

Como que criança só tem boca pra chorar e pedir, Rebecca apenas assentiu com a cabeça e foi se esconder atrás das pernas do pai. Essa daí só aprontava em local certo, era esperta demais (puxou a mãe). Em ambiente estranho não soltava um "A", mas deixa só ela na fazenda Allen... Pintava e bordava sem pena.

— Não seja tímida com o tio bonitão. — Tommy caçoou da criança, dando um leve empurrão nela.

Oliver riu, porém a gracinha terminou assim que Laurel chegou (com Donna e a dupla de Paranormais Safadas) e percebeu o que estava acontecendo.

— Tommy, se essa criança começar a chorar aqui, eu vou fazer você se arrepender! — Prometeu, pegando a pequena Merlyn no colo e averiguando se nesse meio tempo, Tommy não teve alguma ideia estúpida demais que afetasse a filha deles de modo irreversível.

Sua reação era totalmente válida uma vez que Tommy uma vez teve a ideia impressionante de deixar um pacote de chicletes perto de Rebecca e a menina, super inocente, acabou colando chiclete pela casa inteira... E nela.

Não era por nada que agora ela ostentava um penteado radical na cabeça. Tiveram que cortar praticamente todo o cabelo da criança!

Oliver girou os olhos com impaciência.

— Que tal vocês não tentarem se matar hoje? É um dia especial!

Especial só se for pra Barbie Cherno. Pra mim tava sendo um diazinho mais ou menos.

Imitando a Sra. Queen, me sentei de maneira presunçosa e pretendi ignorar toda a ralé, ser igual essa mulher era o meu sonho! Imagina ter essa expressão de superioridade por 24 horas? Bafão!

— Ei Animal Silvestre, você tá no meu lugar.

Ah, não! Não, não e não!

Fingindo que não ouvi essa vozinha escrota, continuei olhando pra frente e me imaginando em um resort de luxo, rodeado de bofe delícia e sendo atingido por uma saravaida de dinheiro.

— Ficou surdo agora, Animal Selvestre?

Ahputamerda!

Já pedindo perdão a Santinha das Gays Ricas, levantei o meu olhar para Akio, que se encontrava parado perto da minha pessoa e ostentando um sorrisinho de peste.

A criança pode ter feito 13 anos, mas continuava o mesmo atentado de sempre ou até mesmo pior. A puberdade o atingiu de maneira negativa. Ao invés de começar a correr atrás de garotinhas da sua idade, continuava com aquela síndrome de perturbação eterna.

Qualquer dia desses Tatsu ainda iria empacotar de ódio só do tanto que esse moleque apronta.

— Me chama de Animal Silvestre de novo que eu te encho de porrada, ein moleque! — Desci do salto quinze e recebi um olhar horrorizado de Moira.

Poxa, eu já tinha pedido perdão a Santinha das Gays Ricas!

— Esse daí é só na base do murro, Sra. Queen. — Tentei justificar, e acho que só piorou mais ainda minha situação porque a dondoca me olhou como se eu fosse o próprio diabo encarnado.

Vê se pode uma coisa dessas?

Sem perder o pique, Oliver puxou o baixinho pra uma cadeira na ponta da fileira.

— Akio, pode sentar no lugar de Shado, ela não vem mais. — Dizia, fazendo a criança sentar. — Slade disse que ela tá passando mal.

GLÓRIA GLÓRIA, ALELUIA!!!

— Tomara que morra.

De novo recebi o olhar chocado da dondoca. Gente, o que que eu fiz?! Palhaçada!

Mesmo relativamente longe, Akio ouviu minha praga e gritou, apontando um dedo pra mim:

— EU VOU CONTAR PRA TIA SHADO O QUE VOCÊ DISSE!

Porra, ainda bem que eu gostava de atenção, porque a gente tava chamando bastante.

— Eu vou contar pra tia Shado o que você disse. — Repeti com voz de menina o que o abestado disse.

E isso foi o suficiente para ativar a fúria total do pentelho, que tentou sair em disparada para fora da cadeira e me atacar, mas Deus é bom e Oliver Queen existe, portanto ele segurou o pestinha no lugar.

— Cacete, Curtis. — O boy delícia murmurou enquanto segurava o mini capeta — Tem como você se controlar também não?

Retiro o que eu disse! QUE OLIVER QUEEN APODREÇA!

Tommy riu alto ao meu lado.

— E desde quando Curtis se controla?

NOSSA, POR QUE EU ESTAVA SENDO ATACADO?

— Foi ele quem começou! — Me revoltei — Briguem com ele, não comigo! Tenho culpa se a criatura não usa focinheira?

Sara me cutucou. — Curtis você é o adulto, você precisa agir como tal.

A olhei feio.

— Vai ficar mesmo me importunando também? Olha que dou na sua cara também ein!

A safada levantou uma sobrancelha e um sorriso escrotissimo enfeitou seu rosto de Barbie Malibu.

— Tem certeza disso? — Não era uma pergunta — Porque lembro de ter uma jaqueta de mil dólares como refém lá e-

— TÁ BOM DESGRAÇADA! — A interrompi, antes que ela soltasse no ar o meu mais novo segredo — Não precisa apelar! Já entendi. — Virei para Rene que já me olhava faltando soltar fogo pelas ventas — Ela tava brincando! Não existe nenhuma jaqueta de mil dólares.

Nyssa riu, apertando o ombro de Rene. Só não sei se em apoio mudo ou num aviso silencioso e sinistro que só ela poderia transmitir.

Ai senti um arrepio até no meu... pé!

— DONNA, VOCÊ TROUXE A PATA? — O grito repentino de Oliver, fez todos pularem de susto. Acho até que borrei minhas calças.

Puto (gente eu não acredito que caguei nas calças!) e horrorizado, segui o seu olhar e sim, A SEM NOÇÃO ESTAVA MESMO COM A DESGRAÇADA DA GALINHA ESCONDIDA DENTRO DO TERNINHO ROSA (AMEI) QUE USAVA.

— Puta merda, o desastre tá formado. — Murmurou Rene, colocando a mão na cabeça.

Detestava admitir, mas ele estava certo.

A combinação daquela galinha endemoniada, Akio, mais um evento daquele porte em Lian Yu... Não iria prestar.

Ai adorei!

Donna, a grande cara de pau que é, teve ainda a capacidade de fazer um olharzinho de inocente.

— Poxa Oliver, hoje é um dia especial para Felicity! — Exclamou, tirando a desgraçada da Pata completamente pra fora do terninho. — Toda sua família deve estar aqui presente pra comemorar sua formação e Pata é da família.

— Sempre soube que vocês eram tudo umas galinhas mesmo! — Disparei e ganhei uma acotovelada de Rene.

MEU DEUS, ESSAS PESSOAS SÓ ME MALTRATAM!

— Porra. — Oliver gemeu, fechando os olhos com força. Deveria tá se arrependendo por ter compactuado com as Smoaks, Deus sabia que todas (incluindo Pata) eram doidas. — Eu queria que esse dia fosse perfeito! Felicity merece ao menos isso!

Ai que homem romântico... E iludido! Onde já se viu imaginar dia perfeito num lugar desses? Alguém o avise que estamos em Lian Loucuralandia Yu. Aqui nunca irá existir um dia perfeito.

— E ela terá. — Repôs Donna, soltando a galinha no gramado, mas expondo que veio preparada e colocou coleira naquela endiabrada. — Com a sua família presente.

Oliver soltou um grunhido entre uma risada e uma lamentação. Quase senti pena.

— Felicity odeia essa galinha. — Disse ele, sardonicamente.

Donna ofegou. — Não odeia não.

Pffffff, odeia sim! Todo mundo odeia!

Não é só porque Pata salvou Lian Yu que se tornou uma galinha adorável e dócil. Muito pelo contrário. Se a desgraçada antes já era nojenta, hoje em dia era insuportável! Tentava atacar todo mundo com mais afinco ainda! Era como se soubesse que era importante demais pra ser assassinada por qualquer um.

Pata, da noite pro dia, se tornou a galinha com mais passe livre no mundo pra fazer merda.

E chocar ovos de ouro? Nunca mais fez isso! Parecia até que aquele evento de anos atrás, tinha sido um delírio coletivo.

— CHEGAMOS! — Ouvimos outro grito vindo na nossa direção.

Curioso para saber quem mais se juntaria nessa patifaria, virei só pra encontrar um Barry todo sorridente, com Caitlin parada ao seu lado, segurando a barriga. Cara, essa mulher iria explodir em breve!

Não contei? A bonita tá grávida de oito meses mas parece até que tá desse jeito há 20 anos! Tenho a leve desconfiança que nascerão gêmeos, só isso pra justificar essa barrigona maior que a cabeça de rola do Rene.

— Isso é Pata? — Foi a primeira coisa que escapuliu da boca de Caitlin.

Seus olhos arregalados e expressão pálida, resumia bem o horror que todos sentiam na presença da galinha. Todos exceto eu, é claro! Tava pouco ligando pra aquela maldita... Contando que ela ficasse longe.

— A própria. — Oliver respondeu rangendo os dentes.

Mais um pouco e quebraria o próprio maxilar.

Barry piscou, abismado.

— O que ela tá fazendo aqui? — Perguntou — Fugiu do galinheiro? Meu Deus, precisamos evacuar o local!

Caraca, depois eu que sou o dramático.

— Se preocupa não que a bicha tá domada. — Falei, apontando pra coleira em volta do pescoço da galinha de Donna. Hahaha, piadinha mental de última hora, me desculpe!

— Domada? — A criança que não tinha um pingo de semancol, se meteu na conversa dos adultos. — Pata não pode ser domada! Ela deve estar arquitetando um plano para destruir todos nós.

Meu Deus, o quanto de açúcar aquela criatura digeria por dia? Era cada ideia besta...

— Considerando que ela tá suspeitamente submissa no momento, concordo com você, Akio. — Rory foi na onda do garoto. E me perguntei não pela primeira vez se ele estava consumindo drogas.

Bem que tinha cara...

Oliver bateu as mãos e determinação se espalhou pelo seu rosto. Eita, esquentou aqui.

— Quer saber? Não vou deixar essa galinha arruinar esse grande dia. — Com movimentos altamente calculados, o Queen numa destreza invejável abaixou-se e pegou Pata no colo num segundo só. Acho que até a galinha se surpreendeu com os giros dos acontecimentos.

Os olhos de Donna cresceram. — O que você pensa em fazer com a minha bebê?

— Qual delas? — Tommy brincou, seus olhos brilhavam malícia. — Pata, ele deve matar. Agora Felicity ele deve c-

Foi interrompido por uma acotovelada violenta da Sra. Queen, deixando todos pasmos com a sua reação.

Não era ela antes que me reprovou por ameaçar Akio?

Como se soubesse o que estava passando pela minha cabeça, ela me olhou diretamente, justificando:

— Esse daí é só na base do murro.

CHO-QUEI. PARA TUDO! Ela repetiu minha frase? Essa mulher é icônica!

— Mãe, na próxima fez que você fizer algo parecido, me avise. — Oliver pediu, ao mesmo tempo em que lutava para controlar a galinha endemoniada em seu braço. — Eu vou querer registrar o momento.

Choramingando feito uma criança, Tommy voltou a sentar-se no seu lugar, todo emburrado. E como Rebecca Merlyn é uma criança adorável, simplesmente pulou pra fora do colo da mãe, para ir consolar o papi beberrão.

Achei a cena até bonitinha e poderia comentar um pouco mais sobre ela, mas aí nesse exato momento, um orador apareceu no palco e chamou nossa atenção, anunciando o começo da cerimônia de graduação.

Como eu sou eu, já sentei atenta para aplaudir e me descabelar no momento em que a Barbie Cherno subisse para receber o diploma (mas calma, não é porque eu gosto dela, é porque eu gosto de me aparecer). Oliver por outro lado, segurava a galinha firmemente em um braço (coitado do terno que o homem estava usando, logo mais estaria arruinado) e no outro começava a filmar toda a cerimônia (eu tô falando que é o cachorrinho da Felicity); Sara e Nyssa já exibiam a faixa que Rebecca fez para a Felicity, sobre suas cabeças, encorajando alguns moradores sentados nas fileiras de trás, a nos xingar.

Achei uó.

Apesar da Sra. Queen se manter sentada com um olhar impassível, suas pernas não paravam quietas, denunciando seu nervosismo. Donna, ficava batendo palminhas, o que a fez receber olhares irritados de Akio que estava sentado ao seu lado e tentava a todo custo ouvir o que o orador estava falando (RÁ, QUEM RI POR ÚLTIMO, RI MELHOR NÉ PIRRALHO?!).

— Felicity Megan Smoak. — O orador finalmente chamou e aí começou a zona.

Assim que Felicity apareceu no palco com um sorriso no rosto, sua beca de formatura e acenando para nós, a turma ralé perdeu qualquer dignidade que um dia alguma vez já teve.

Oliver foi o primeiro a levantar e gritar, filmando tudo; Laurel, Rene e Rory seguiram sua liderança e começaram a soltar aqueles assovios que metade da população mundial não faz a menor ideia de como fazer (eu sou uma delas).

As Safadas Paranormais, junto com Donna e Akio, começaram a gritaria feito loucas, agitando freneticamente a faixa que Becca fez para Felicity, quase ao ponto de rasgá-la; Tommy, elétrico que é, deu um pulo pra fora de sua cadeira, colocando Rebecca em seus ombros, enquanto ele começava a assoprar sua vuvuzela.

Meu Deus que mico, pensei na hora. Então o que eu fiz?

Me juntei no bafafá.

Subi na minha cadeira, peguei meus confetes e abri o bocão:

— É ISSO AÍ VADIA!!!!!!

Visivelmente constrangida, Felicity começou a fazer uns sinais estranhos, como se estivesse pedindo para todos nós nos comportarmos, mas aí acho que interpretei errado né? Porque a reação do Tommy e de Oliver, foi só rir e intensificar mais a algazarra.

Eu particularmente adorei e me empenhei mais ainda no meu show.

— É ISSO AI CACHORRA — Gritava — VAI QUE É TUAAA!!!

— DÁ UM SORRISINHO PRA MAMÃE!!! — Donna

— UH, UH, HOJE TEM! UH, UH, HOJE TEM! — Tommy. Levou porrada da Laurel logo após isso.

— LINDAAAA!!!! — Sara e Nyssa.

— MARAVILHOSA!!!! — Oliver.

— VÊ SE NÃO TROPEÇA! — Rene.

— É ISSO AÍ FELICITY!!!! — Barry e Caitlin.

No meio da minha performance, acabei sendo atingido por um copo bem nas fuças. Fiquei revoltada.

— EIIIIIII! QUEM FEZ ISSO? — Berrei, girando em cima da minha cadeira e tentando identificar o individuo que me acertou.

Um homem escroto do tamanho dum poste acenou pra mim.

— FOI EU, E DAÍ?

Ah não!

— E DAÍ QUE EU VOU SUNHAR SUA CARA SE CONTINUAR COM A PALHAÇADA! — Ameacei, mostrando minhas unhas.

E num é que ganhei mais outro copo na cara?

— Gente, controle-se. — Ouvi a voz do orador ressoar pelo ambiente, mas o meu foco agora era pegar um copo e atingir o grandalhão. — Estamos em ambiente familiar, não precisamos fazer uso da violência!

Parece que suas palavras apenas pareceram incitar mais ainda a multidão, que num minuto estava comportada e no outro, estava imitando o troglodita que tinha me acertado DUAS VEZES.

Mas o negócio é o seguinte: Eu não era dez, logo, os copos começaram a atingir toda a nossa turma, que se tornou alvo fácil da multidão de surtados. Caitlin e Barry foram os primeiros a zarparem para longe da confusão.

— Puta que pariu! — Ouvi Felicity berrar do palco, contudo, nem me dignei a prestar atenção na songa.

Tava ocupado demais tentando me proteger daquelas merdas voadoras.

— AI CACETE, ME ATINGIRAM! — Rene berrou, tampando um olho.

— VOCÊ É POLICIAL, FAZ ALGUMA COISA! — Mandei, agarrando um copo no meio do chão e focando no desgraçado que se atreveu a me atingir.

Por milagre, acertei o cara bem na testa.

RÁ, TOMA ESSA BABACA!

Pelo canto dos olhos, vi Tommy passar Rebecca para Laurel e a bonita sair correndo com a filha, deixando o Titanic afundar conosco. Ok, tudo bem que a criança precisa ser protegida, mas se aquela cachorra não voltar aqui sozinha para ajudar, irei cortar relações e teje dito!

— Porra, isso vai ser épico! — Ele comentou feliz, ao ser atingido na barriga por um copo cheio de conteúdo duvidoso.

Enruguei o nariz.

— Só você para ver graça numa merda dessas, Tommy! — Oliver resmungou, tentando equilibrar a galinha no colo, enquanto tentava se desviar da chuva de objetos caindo sobre nós.

— VOCÊS ARRUINARAM A FORMATURA DA MINHA FILHINHA! — Gritou uma mãe histérica, nos jogando uma vuvuzela gigantesca.

— AI PORRA! — Gritou o Queen, massageando a testa. Ele tinha sido acertado pela vuvuzela.

Obviamente comecei a rir. Ai que otário...

— FOI A BICHA QUE COMEÇOU TUDO! — Alguém acusou e logo em seguida senti uma dedada no rabo.

— OH CACETE! — Soltei o berro, pulando pra fora da cadeira. — TÁ ACHANDO QUE EU SOU ZONA PRA CHEGAR ASSIM ME DEDANDO?

— Animal Silvestre, tem uma vuvuzela na sua bunda. — Akio apareceu de repente na minha frente.

Suas mãos estavam cheias de papel higiênico, que eu entendi que ele usaria logo em seguida pra tacar na cabeça daquele povo desnaturado.

— Ata. — Foi a única coisa que consegui replicar, finalmente tirando a vuvuzela da onde não pertencia.

Era melhor eu começar a ficar mais atento.

Focando em descer a unha em qualquer um, me concentrei nas minhas futuras vítimas... Quando vi algo que me impressionou.

A SENHORA QUEEN ESTAVA SE JUNTANDO A GUERRA!

Como se soubesse que estava sendo observada, ela retribuiu o meu olhar.

— Eles me acertaram. — Moira esclareceu, pegando um copo e atingindo a mulher que antes acertou Oliver.

Nyssa e Sara estavam fazendo um trabalho em equipe excelente, enrolando um marmanjo na faixa que Rebecca fez.

Felicity que há muito tempo tinha abandonado o palco, apareceu na nossa frente, ainda toda vestida de beca. Tenho que confessar, apesar de não saber que roupa ela vestia por baixo de tudo aquilo, até que a desgraçada tava bonita.

Hoje ela tinha optado por usar o cabelo completamente liso e o seu rosto carregava uma maquiagem suave que a fazia parecer até um ser inocente (quem não conhece que compra). E o legal é que ela ainda combinava com um chapéu de formatura. Quem combinava com um chapéu de formatura? O look parecia certo nela.

Ai, invejei!

— Vamos dar o fora daqui! — Ela pediu, agarrando o braço de Oliver.

O pau (ou melhor, os objetos) estava comendo solto ainda entre geral. Por isso, ela teve que falar bem mais alto que o normal para se fazer ouvir.

— Que dá o fora o que! — Me meti, roubando um rolo de papel higiênico que vi jogado pelo chão. Ia transformar alguém em uma múmia com isso! — Isso é guerra!

— Felicity tem razão. — Rory gritou, desviando-se de um objeto não identificável. Ele também gritava. — Isso já saiu do controle, precisamos ir embora!

— Ahn é? — Tommy com um sabre tosco de Star Wars (da onde ele tirou isso? eu quero!), parou ao nosso lado, com sua arma de combate ligada. — E como vamos sair daqui? Esse pessoal não vai nos deixar passar!

— Como encontrar vocês no meio de uma multidão? — Uma voz malandra e despreocupada chamou a nossa atenção — Fácil, é só seguir a confusão.

Eita santinha da bicicletinha!

Slade Wilson, usando um capacete de futebol americano e carregando uma espada igualmente tosca de Star Wars, estava recostado preguiçosamente em uma cadeira perto do palco, nos olhando de modo super engraçado.

Suspirei.

Aiaiai, esse homem...

Oliver grunhiu. — Incrível, você chegou bem a tempo.

Bem a tempo da confusão, só se for.

— JÁ SEI! — Felicity gritou de repente, me assustando ao ponto de eu quase colapsar no chão e gritar arrego. Loira maldita!

— Lá vem a ideia genial. — Slade caçoou e Felicity lhe mostrou o dedo médio.

— Cala a boca, Slade! — Ela disparou e depois desviou o olhar pra cima de Oliver. — Querido, você confia em mim?

Ele nem pensou duas vezes.

— Sim! — Respondeu.

— Ótimo. — Aprovou. E num rompante de loucura pegou a galinha do braço de Oliver e fez o impensável:

— HORA DE USAR A ARMA SECRETA!

ELA SIMPLESMENTE JOGOU PATA PRA CIMA DO POVO!

— PUTAQUEPARIU! — Tommy gritou em êxtase — MELHOR FORMATURA DA MINHA VIDA!

Oliver queria dar a formatura perfeita pra Barbie Pobre? Pois ele conseguiu dar a inesquecível. Nem em um milhão de anos ela se esqueceria dessa.

TRÊS ANOS DEPOIS

Akio's Pov

O mundo é muito injusto com um adolescente de dezesseis anos. Sério.

— Por que você tá emburrado assim? — Rene perguntou, invadindo meu santuário pessoal. Ok, não era meu santuário de verdade e muito menos pessoal.

Fazia meia hora em que eu estava sentado feito um perdedor, num fardo de feno, dentro da baia de cavalos da fazenda Allen. Como hoje em dia não existia praticamente nenhum cavalo nessa fazenda, com exceção de Profeta, o local se tornou perfeito para ponto de encontro para casais destemidos (só sendo corajoso pra querer enfrentar a fúria de tio Barry) ou pessoas que gostariam de apenas ter um tempo sozinho para pensar.

Esse era o meu caso... Pena que Rene e sua petulância, arruinou tudo.

De cara feia, cruzei os braços e o encarei.

— Não é da sua conta.

Droga, mamãe me mataria!

Meu grande problema era minha boca grande e humor explosivo. Na maioria do tempo me metia em problemas por conta disso... O que explicava o motivo de eu ter tentado me isolar por alguns minutos justamente aqui.

Dando o seu olhar de policial (sim, Rene tinha conseguido desenvolver esse olhar com o passar dos anos, era meio sinistro), Rene levou suas mãos até a cintura, me estudando por mais tempo que o necessário.

Senti vontade de correr. Ou chutar a canela dele. Mas aí isso só daria combustível pra ele me meter um cascudo daqueles.

— Você está assim por conta de hoje?

Hein???

Sem entender nada, continuei sustentando o seu olhar.

— Cara, pensei que você já tivesse superado Felicity.

QUE???

Me levantei rapidinho, super ofendido.

Sei lá, o pessoal aqui em Lian Yu tinha uma mania estranha de dizer que quando eu era criança, costumava ter uma paixonite por Felicity — o que é ridículo. Eu jamais teria uma paixonite por ela!

— Olha, hoje não estou com humor para as suas presepadas. — Falei, soltando ar pelas ventas.

Eu cheio dos problemas e ele me vem com essa lorota...

— Mas-

— É sério! — O interrompi, levantando as mãos — Estou por um triz aqui, Rene. Por isso, não insista no assunto!

Quem disse que isso conseguiu mantê-lo calado?

De cenho franzido e ar desconfiado, ele abriu o bocão novamente:

— Ué, se isso não é sobre Felicity-

— Jamais será. — Cantarolei, mas ele me ignorou.

—... Então é sobre quem? Ou o que?

Tava mais pra quem mesmo.

Já podia ver sua mente tentando trabalhar em alguns cenários mirabolantes, onde com certeza, eu fazia algo de péssimo para estar nesse estado digamos assim, meio deplorável.

Girei os olhos. E antes que pudesse o mandar ir à merda (depois disso quem estaria na merda seria eu, tô certo), Slade apareceu.

Ah pronto, seria assassinado.

— Estão escondidos aqui por que? — Seu olhar especulativo me dava a certeza que eu estava lascado e passado do recibo. — A cerimônia já vai começar.

Fuzilando os dois fofoqueiros com os olhos, debati se surtava agora ou depois. Quer dizer, seria melhor ser surrado por alguma travessura, depois da cerimônia. Precisava sair bonito nas fotos.

— Não tem ninguém escondido aqui. — Rene murmurou, relanceando olhares ente eu e Slade. — Quer dizer, só Akio.

Pensando melhor, acho que valeria a pena sair surrado nas fotos. Ainda mais quando percebi um sorriso se alargar no rosto de Slade.

— Ah garoto... — Balançou a cabeça negativamente — Eu pensava que você já tivesse superado Felicity.

MEU. DEUS. Que palhaçada toda era essa?

— Desde quando hoje é o dia de irritar o Akio?

— Desde quando hoje não pode ser dia de irritar Felicity. — Slade respondeu alegremente.

E tive que admitir: Ele tinha um bom ponto. Hoje qualquer pessoa estava incapacitada de tirar sarro dela. A menos que quisesse enfrentar Oliver e toda sua artilharia.

Descobrimos a pouco tempo que o homem era insanamente bom de mira.

Analisando os dois projetos de homens parados na minha frente e pesando todas as minhas opções (que sempre me levavam para uma surra ou humilhação total), decidi dar com a língua nos dentes, já estava ferrado mesmo!

— Preciso de conselhos amorosos. Tô afim da Emmylou Hayes. — Esclareci, só pra eles não voltarem com essa mentira sobre eu e Felicity.

Levou exatos trinta segundos para os dois explodirem numa risada e eu concluir que levar uma surra, teria sido bem melhor. Senti meu rosto esquentar e a humilhação (e raiva) rastejar pela minha pele.

— Por que estão rindo? Só contei isso pra vocês, pois fui encurralado. — Rosnei, com as mãos cerradas. — Vocês não poderiam me dar um conselho amoroso válido nem se suas vidas dependessem disso.

Minhas palavras foram suficientes para fazerem ambos calarem o bico e me encararem de modo azedo. Ótimo, melhor assim.

— Garoto, você tá pensando que está falando com quem? Eu sou o cara que mais tem saído com mulheres diferentes em Lian Yu! — Rene se gabou e Slade atirou um olhar de puro desdém pra ele.

— E isso quer dizer grande coisa? — Debochou, rindo. — Isso só prova o quão péssimo você é. Nenhuma mulher te atura por mais de uma noite.

Ai, essa doeu até em mim!

Mentira, tava gostando de assistir o bate boca gratuito. Se eu não podia brigar, que eles brigassem por mim.

— Ou sou eu quem não atura elas! — Rene rebateu, com o rosto vermelho.

Sua reação gritava culpa no cartório. Mordi o meu lábio, tentando não rir.

Slade lhe deu um olhar irônico.

— É assim que você se convence todas as noites?

Sem palavras (alôôô, contra fatos não há argumentos! aprendi essa com tio Oliver), Rene apenas piscava os olhos totalmente desnorteado, abrindo e fechando a boca feito um peixe doente.

— Acho que você o quebrou, tio Slade. — Comentei matreiro e Slade riu, fazendo sua típica dancinha tosca da vitória.

O pior é que anos atrás ele tinha me ensinado ela e infelizmente eu a reproduzia sozinho no meu quarto.

Demorou mas Rene finalmente voltou ao seu normal (que pra mim era completamente anormal) e ajeitando seu terno, me olhou de cima a baixo:

— Então você está gostando da garota Hayes?

Franzi o nariz.

— Gostar é uma palavra muito séria, eu só quero sair com ela. — Respondi, mas percebi que minhas palavras soaram erradas demais em voz alta. Eram melhores em pensamento.

Foi o bastante para arrancar o sorriso do rosto de Slade. Ele endureceu imediatamente e me olhou como se eu fosse a reencarnação de Hitler. Tá bom, talvez eu acabasse ganhando aquela surra...

Apavorado, me apressei em me corrigir.

— Ei, eu não quis dizer que quero Emmy só para isso! Acho ela uma garota legal... e bonita também.

— E rica também. — Slade refletiu em voz alta, com um dedo no queixo. Tive que revirar os olhos com a sua observação.

Óbvio que ele focaria no dinheiro.

— Acho que você não é digno o suficiente para receber meus ensinamentos românticos. — Rene me lançou um olhar provocativo.

E como não sou de deixar uma boa oportunidade passar...

— Ahn, é? Eu sei o seu maior segredo. — Murmurei, fingindo examinar minhas unhas.

Não precisava olhar o seu rosto para saber que ele ficou em total estado de alerta. Ficar prestes a ser exposto, perto de Slade Wilson, o maior fofoqueiro de Lian Yu... não era brincadeira não. Eu já sabia que pela manhã metade da população já saberia do meu interesse por Emmy, porque não juntar Rene nessa equação também? Afinal era culpa dele meu segredo ter sido revelado.

Ele simulou uma risada. — Do que você tá falando? Eu não tenho nenhum segredo.

Não tinha nenhum segredo uma ova!

Levantei-me do meu lugar e imitando o seu gesto, arrumei meu terno e o olhei de cima a baixo. Estava na hora do show:

— Você gostava da Felicity, por isso implicava com ela.

— É O QUE??????? — O berro de Slade e a expressão chocada de Rene, tornou esse momento perfeito.

Sem esperar por mais repercussões sobre a minha revelação bombástica, fui para fora do celeiro e por uma última vez verifiquei o meu vestuário, afinal, logo mais aconteceria uma cerimônia de casamento... E eu odiaria sair com fenos nas fotos.

(...)

— Você não pode seriamente acreditar nessa baboseira.

Abafei uma risada, achando o estado de negação de Rene hilário.

— Que baboseira? — Curtis quis saber.

Infelizmente, o desmilinguido estava sentado bem ao meu lado. Sei lá, acho que Felicity achava engraçada a ideia de colocá-lo sempre ao meu lado durante um evento. Ou era isso, ou o destino me odiava.

— Nenhuma! — Rene disparou rápido, com uma voz esganiçada. Poderia dizer que ele estava por um triz.

Curtis estreitou seus olhos de corça.

— Vocês estão muito suspeitos. Mas como hoje é uma ocasião feliz, não vou dar pitaco em nada. A última vez que isso aconteceu, estragamos a formatura da Barbie Robô.

Gosto de pensar que melhoramos a formatura de Felicity. No entanto, hoje a atmosfera não era propícia para alguma algazarra, uma vez que os familiares de Oliver em peso estavam presentes no casamento, além de certa parte da elite de Star City.

Ninguém queria perder o casamento do ex-playboy mais notório do país. Muito menos quando esse playboy estava prestes a casar com uma empresária em ascensão.

Logo após sua formatura, Felicity com o incentivo de Oliver, abriu uma empresa de tecnologia aqui em Lian Yu. Com os contatos certos, ela conseguiu bons investidores e hoje em dia fazia um grande sucesso no mercado. Já Oliver? Trabalhava pra ela sem nem reclamar. Curtis acha que isso faz parte de algum fetiche bizarro dele, já eu prefiro acreditar que o homem só quer mesmo trabalhar.

E daí se ele é rico e pode preferir ficar o resto da vida sem fazer nada? Pessoas com grana são estranhas...

— Pelo menos a formatura de Felicity foi memorável. — Disse, sem tirar os olhos do altar montado.

Oliver estava em pé, no lugar do noivo, esperando que a cerimônia acontecesse. Podia-se notar de longe sua excitação e ansiedade, já que um sorriso se espalhava por todo o seu rosto e ele não conseguia manter os pés parados. Ao seu lado, estava Tommy e Diggle, seus padrinhos.

Naturalmente, Felicity havia escolhido Nyssa e Sara como suas madrinhas. Na primeira fileira estava Donna (já chorando copiosamente), Thea, Roy, John Diggle, a Sra. Queen, Caitlin e Sr. Steele.

— Memorável? — Curtis soltou uma risadinha — Pirralho, memorável é pou-

Sua sentença foi interrompida pelos acordes cerimonial e de modo automático, levantei-me do meu assento, assim como todos fizeram. Finalmente chegara o grande momento.

Liderando o casal de gêmeos de Barry e Caitlin, estava Rebecca vestida num vestidinho tulê azul, jogando pétalas de rosas pelo seu caminho; desajeitados os gêmeos seguiam o seu exemplo, tentando jogar algumas pétalas também, mas ao invés, eles pareciam brincar com elas, deixando alguns convidados extasiados.

Quase simulei uma ânsia de vômito, só de sacanagem, mas a entrada triunfal de Felicity com Barry, paralisou qualquer reação que meu cérebro me incitou a fazer para provocar alguma cena nesse casamento.

Boquiaberto, admirei Felicity com o seu vestido branco enorme, seu cabelo penteado num coque elegante, buquê de camélias e um sorriso estonteante tatuado no rosto. Podia não entender muito sobre moda ou o que seja, mas Felicity estava de tirar o fôlego.

Acho que se em algum momento na minha vida tive uma paixonite por ela (tá doendo só de pensar), hoje conseguiria justificar o motivo.

— Puta merda! — Curtis xingou — A bandida tá bonitona!

— Hmmm. — Resmunguei, digitalizando a aparência de Felicity novamente.

Ok, era oficial: Oliver Queen era um homem de sorte.

Com um ar compadecido, virei para Rene e lhe dei um tapinha no ombro. — É cara, agora te entendo. Você deve ter enxergado o que Felicity tentava mostrar de baixo de lama, mau humor, expressão de maluca, cabelo rebe-

— Akio, cala a boca. — Ele me cortou com um grunhido, jogando dardos através dos olhos.

— É Akio, cale a boca. — Slade cantarolou, na fileira a nossa frente. Seus olhos tinha um brilho divertido.

Eu ri.

— Por que? — Elevei uma sobrancelha — Com medo que eu conte o seu segredo também?

Isso apagou sua diversão e aguçou a curiosidade de Rene. Mas foi impossível eu falar qualquer outra coisa, uma vez que o padre começou a cerimônia.

Após vinte minutos, era oficial: Felicity Smoak era oficialmente parte da família Queen e esposa de Oliver Queen, o homem que ela amava. Que clichê.

SEIS ANOS DEPOIS

Felicity's Pov

— Ela puxou o seu lado da família.

Oliver se engasgou com as minhas palavras. Eu sequer pisquei, não desviando meu olhar de uma menininha serelepe se enterrando em lama com outras oito crianças. Felizmente, só duas eram minhas, mas podia dizer que Mia Smoak Queen era uma força da natureza para servir por oito.

Thea, quem não nos visitava com muita frequência uma vez que com a ausência do padrasto e de Oliver, acabou assumindo a direção da QC, anos atrás, me lançou um olhar desdenhoso:

— Tem certeza disso? Donna já me contou muitas histórias interessantes sobre a sua infância.

Fechei os olhos, contando de um até dez. Mamãe tinha essa habilidade nada engraçada de me humilhar contando sobre os meus anos de inocência... e loucura. Moira e Thea pareciam apreciar bastante essa sua habilidade em particular, principalmente durante as reuniões de família. Como a que estava ocorrendo agorinha.

Era natal e como tradição, todos se reuniam religiosamente todos os anos na fazenda de Barry, para comemorar. Hoje o local estava lotado, porque com o passar dos anos, não havia sido somente minha família que tinha crescido.

Após meu casamento e o estabelecimento da minha empresa no mercado tecnológico, eu e Oliver finalmente decidimos tentar por uma criança. O resultado era Mia Smoak Queen, o motivo das nossas risadas e dor de cabeça. Os gêmeos de Caitlin e Barry, também ganharam mais um irmãozinho que geralmente acompanhava (e incentivava) Mia em suas travessuras.

Slade e Shado estavam casados há um ano e recentemente tinham comemorado a chegada de uma garota para aumentar a família deles. Curtis, Rene e Rory, continuavam dividindo a mesma casa e em pé de guerra.

Akio, estava noivo de Emmylou Haynes e já de malas prontas para voar até Star City e começar sua faculdade. Enquanto Akio e Emmy estavam indo, John Diggle estava vindo com toda a sua família... Não tinha sido uma decisão muito difícil para o ex guarda costas decidir se mudar e criar os filhos num lugar tão tranquilo quanto Lian Yu. Sua expressão de contentamento vendo Sara (sua filhinha), Connor e JJ correndo pelos pastos com Mia, os gêmeos (Henry e Nora), Anthony (o caçula Allen), Rebecca e Dinah (a caçula Merlyn), denunciavam sua satisfação de estar aqui.

— Assim como a Sra. Queen também já me contou histórias interessantes sobre a sua. — Rebati, esticando minha perna em cima da coxa de Oliver.

Depois de um logo dia vigiando Mia e Lucas (nosso caçula de dois anos), precisava de uma massagem nos pés e Oliver sabia muito bem disso, uma vez que suas mãos começaram a trabalhar sua mágica, sem nem eu precisar abrir a boca para pedir.

Mas desde quando precisava pedir algo a ele? No decorrer dos anos, havíamos estabelecido uma conexão que não precisava palavras para cada entender o outro. Estávamos sincronizados, como ele adorava ironizar em certas ocasiões.

Thea deu uma pausa ao levar a bebida até sua boca. — Eu pensei que Oliver quem acabaria abrindo o bico.

A risada de Oliver fez meu corpo vibrar.

— Não sou burro. — Murmurou, ainda com o olhar concentrado em meus pés, fazendo sua massagem. — Sei que o momento em que eu abrir minha boca sobre você e suas travessuras, você também abrirá a sua e contará todos os meus segredos sórdidos.

— Você não deve se preocupar com Oliver. — Disse, apontando para Tommy, sentado confortavelmente no divã na nossa frente. — Preocupe-se com ele.

Roy riu alto.

— Tommy não é perigo para reputação de ninguém. — Murmurou, levando um morango até a boca e lançando uma piscadela para a esposa. — Qualquer tabloide de Star City tem os podres dele de forma catalogada, é só usar isso para envergonhá-lo.

Tommy zombou. — Eu já passei do ponto de me sentir envergonhado por qualquer coisa.

— Vergonha na cara não se compra né, gente?

Curtis comentou, sentando-se em um dos divãs colocados estrategicamente na varanda de Barry que com o decorrer dos anos, foi ampliada para caber um grande número de convidados (ou objetos) nela.

Observei os lábios de meu marido se curvarem.

— E disso você sabe bem, né Curtis? — Ele soltou num tom macio.

Como o imaginado, Curtis fez uma cena, todo ofendido.

— É natal e você tá querendo me atacar??? — Guinchou — Isso é um absurdo! Cadê o espírito natalino?

— Deve estar no mesmo lugar que você perdeu sua vergonha na cara. — Sara cantarolou, chupando o canudinho da sua bebida.

Mordi o lábio, tentando não rir. Já os outros não se deram tanto trabalho assim em disfarçar a diversão em ver uma discussão ao vivo que envolvia Curtis. Os anos poderiam passar, mas aquele Aloprado sempre seria a nossa maior fonte para momentos tragicômicos.

— Oh sua paranormal safada, eu te perguntei alguma coisa?! — Exclamou, ameaçando jogar sua bebida em cima de Sara e Nyssa, que estavam sentadas juntas.

Barry sacudiu as mãos. — Gente, vamos acalmar os ânimos? É natal!

— Sim Barry, é natal. — Rene concordou, com uma cerveja na mão. Diferente de nós, ele estava preguiçosamente esparramado no chão. — Não o Apocalipse. Só tamanho evento para nos fazer acalmar os ânimos.

Seu pensamento tinha lógica.

— Ei, vocês se lembram como ano passado Rebecca fez todos nós pararmos no hospital porque jogou laxante em cima da lasanha de Ano Novo? — Roy relembrou animado e Tommy gemeu.

— Eu sempre esqueço algo inconveniente aberto em algum lugar e ela vai lá e pega.

— O que faz ser sua culpa as travessuras que ela apronta. — Laurel apontou.

E TODOS, sem exceção, lhe mandou um olhar de pura incredulidade. Rebecca não só aprontava porque tinha algo ao seu alcance e sim porque tinha o mesmo gene da bagunça e perturbação que Mia — e que Akio também um dia teve.

— Laurel, essa menina já me deixa de cabelos brancos. — Tommy resmungou e Curtis assentiu.

— Já me deixa também e eu nem sou o pai da criatura!

Diggle riu, sentado em um outro divã confortavelmente, com a sua mulher, Lyla.

— Minha Sara não me dá problemas. — Ele sorriu.

Ok, era verdade. Sara não lhe nada nenhum trabalho mas em compensação ele tinha Connor e JJ que adoravam aprontar. Com Rebecca. E Mia.

— Lucas também é um bom menino. — Oliver comentou, largando o meu pé e ganhando um olhar feio meu em troca.

Ele fingiu que nem era com ele. Bastardo!

— Isso porque ele ainda não teve tempo de desenvolver suas habilidades. — Tommy opinou — Ele só tem dois anos.

— Rebecca com dois anos já era sua versão má. — Thea rebateu e Laurel faltou fritá-la com os olhos.

Uh-oh, um homicídio estava prestes a acontecer aqui?

Sara coçou a garganta. — Que tal mudarmos de assunto?

— Melhor, que tal fazermos algo? — Roy sugeriu e eu não perdi o brilho malicioso em seus olhos.

Ah merda.

— Nossa, se é pra fazer alguma coisa, tô dentro! — O Aloprado se candidatou, cheio de risadinhas sugestivas. — Eu faço de tudinho!

— Puta merda Roy. — Oliver grunhiu — Você tinha mesmo que abrir a boca?

Indiferente, ele apenas deu de ombros. E mais uma vez, meu detector de merda no ar, disparou. Por que nunca podíamos ter um dia normal em Lian Yu?

— Seja o que for, eu tô dentro! — Rene disse animado e não faltou muito para os outros homens no recinto se entusiasmarem também.

Acho que o espírito de jovialidade jamais deixaria aqueles homens, pensei, girando os olhos. Jovialidade e estupidez.

Mas quem era eu para julgar? Verão passado quando Slade me irritou, joguei ovos na sua casa. Levei Mia junto, só para colocar a culpa em alguém. As vantagens de ser mãe. Ela ficou feliz em levar a culpa, afinal, ela conseguiu atingir a casa do tio Slade e sair ilesa com isso.

Dispostos a fazerem merda, os homens zarparam para longe e conseguiram puxar Barry junto — que estava falando sobre algum enxame de abelhas.

— Não deveríamos ir atrás deles? — Laurel perguntou, preocupada.

Virei para Nyssa. — O que você acha? Deveríamos?

Aprendi a sempre consultar a cigana antes de eu tomar qualquer e toda decisão delicada na minha vida.

Ela segurou meu olhar por algum tempo e houve uma sugestão de risada nos seus olhos. Droga, isso não poderia ser bom.

— Acho que Laurel tem razão. — Disse por fim.

E foi o suficiente para me fazer pular pra fora do meu lugar. Problemas nos aguardavam!

(...)

— Essa é uma péssima ideia.

— Eu sei. — Oliver murmurou — Mas eu quero fazer isso de qualquer forma.

Eventualmente nossas habilidades de sobrevivência deveriam se manifestar, certo? Errado, se estivermos falando de Curtis, Tommy, Roy, Rene e Oliver!

Exasperada, virei para Diggle. — Por favor, tente colocar senso na cabeça dele.

— Estive durante anos tentando fazer isso. — Pausa — Nunca funcionou.

Suspirei, sabendo que ele tinha razão. Se Oliver não poderia me ouvir ou sua mãe, ele não escutaria mais ninguém. Outra característica que Mia herdou particularmente dele — ei, isso não tinha NADA a ver comigo, nada.

— CORRIDA DE TRATORES, AÍ VAMOS NÓS!

Ouvi o grito animado de Tommy e o barulho de motores. Agora que Barry trabalhava com plantação, ele tinha seus próprios tratores e ninguém mais corria o risco de ser preso por pegar "emprestado" uns dos Sr. Jones.

— Eu deveria tacar fogo nessas máquinas. — Barry balbuciou, olhando a algazarra se formar — Ou vetar essas corridas aqui dentro da fazenda.

Bem, minha veia dramática clamava para a primeira opção acontecer, mas a prática dizia que a segunda opção era bem mais simples.

— Eu acabaria comprando alguns para mim. — Oliver disse e foi minha vez de rir. Maniacamente.

— Só por cima do meu cadáver. — Declarei fulminando-o com os olhos.

O desgraçado ainda teve a audácia de abrir um sorrisinho que geralmente levava minha calcinha ao chão e trazia um novo bebê Smoak-Queen ao mundo.

Cobri os meus olhos.

— Oliver Queen, pare de me dar esse olhar!

— Que olhar? — Sua voz soava inocente aos meus ouvidos — Não estou te dando nenhum olhar.

A mão que deslizou pela minha cintura e parou perigosamente perto da minha porta traseira, dizia o contrário.

Acabei soltando algo entre um grunhido e choramingo.

— Oliver. — Avisei e ele ronronou no meu pescoço.

Oh cara, minha calcinha ficaria em chamas logo.

— F-e-l-i-c-i-t-y.

Chupei o ar entre os dentes. Por que ele estava fazendo isso comigo justamente agora?

— Pare com isso.

— Com o que? — Perguntou, ao brincar com o meu rabo de cavalo e deslizar sua mão até o meu pescoço. Estremeci. Acho que uma rapidinha no celeiro de Barry não faria mal a ninguém...

— Com a pornografia gratuita, oh suricato!

Deixa pra lá.

A voz de Curtis foi o suficiente para me fazer sair da sarjeta e parar a mão boba de Oliver. Tirando os dedos que estavam cobrindo os meus olhos, olhei para Curtis parado bem na nossa frente. Ele tinha um capacete ridículo na cabeça, todo enfeitado de glitter. Ficou claro que ele já estava preparado para subir num trator e participar dessa corrida estúpida.

Olhei Oliver de soslaio. — Você não vai participar dessa corrida, certo?

Ele soltou uma risada suja que ameaçou novamente fazer minha calcinha se desintegrar.

— Eu não, tenho algumas ideias para mais tarde e preciso de todos os meus ossos intactos pra isso.

O suspiro alto após sua fala não foi meu, foi de Curtis. — Ai queria eu ter um bofe pra me c-

— Ok, tudo bem! — Barry que se fingiu de surdo e cego durante todo esse interlúdio, finalmente se manifestou, batendo palmas. — É hora da corrida, vai lá Curtis! — Ele virou para o meu marido — E Oliver, tente se controlar. Temos crianças ao redor.

Falando nelas... Franzi o cenho.

— Vocês não estão achando que tudo está muito silencioso não? — Questionei, tentando identificar a cabecinha loira de Mia em algum lugar do horizonte. Não conseguia enxergar nem ela ou qualquer outra criança... O que podia ser aterrorizante.

— Relaxa Felicity, as crianças não se atreveriam a se aventurarem por aí com um bando de adultos por perto. — Disse Oliver, mas detectei dúvida no seu tom. — Eles estão cercados e sabem disso.

É bem, eu também sabia que sexo sem proteção resultava em mais filhos, contudo, aqui estava eu refletindo em fazer de qualquer maneira.

— E desde quando isso impediu eles? — Diggle entrou na conversa, se aproximando de nós. Atrás dele estava Nyssa, Laurel, Sara, Thea, Caitlin e Lyla. Notei que ele segurava uma cerveja também. — Se lembra como há duas semanas atrás Connor abriu a janela do quarto e colocou as coisas pra fora porque sentiu vontade de mijar mas não queria sair do quarto? Estávamos no quintal e ele sabia disso.

Meu Deus, lembrar disso foi o suficiente para desencadear uma verdadeira crise de risos em mim. Por sorte, Oliver estava por perto para eu me apoiar nele e não cair de cara no chão feito uma idiota. É sério, a crise foi tão forte que lágrimas já escorriam pelo meu queixo.

A cena de Diggle, Tommy (quem estava ajudando Diggle a cuidar da churrasqueira naquele fatídico dia) e Lyla molhados de urina, ficaria para sempre tatuada na minha mente. Tinha sido impagável.

— Bom saber que ninguém registrou esse momento para eu ver. — O comentário seco de Thea se fez ouvir em meio a minha crise.

— Se você morasse aqui em Lian Yu, não teria perdido esse momento. — Oliver gracejou descontraído.

Fazia um pouco mais de um ano que ele vinha jogando essas indiretas bem diretas para Thea, esperando que de alguma forma, ela se convencesse e numa manhã linda de Domingo (ou qualquer dia da semana, sejamos honestas) arrumasse suas malas e viesse para Lian Yu.

Mas isso não iria acontecer nem tão cedo. Agora que ela era CEO da QC, sua vida estava mais entrelaçada ainda a Star City. E por mais que Oliver a quisesse por perto, sabia que ela estava fazendo um bom trabalho por lá e era feliz.

Por isso, a essa altura sua insistência no assunto era apenas uma alternativa que ele encontrou para irritá-la. Amor de irmãos, sabe.

— Ha. Ha. Ha. — Thea fingiu rir e acertou Oliver com um soco no braço. — Continue sonhando, idiota.

Julguei que não haveria sonho nenhum, quando ouvi o som dos motores e o grito de guerra dos homens, interromperem essa linda cena entre os irmãos. Mas pesadelo real foi ver Tommy, Curtis, Rene e Roy em cima de tratores, enquanto uma sinfonia desafinada gritava bem atrás deles.

— PUTA MERDA! — Eu gritei, de olhos arregalados.

Finalmente encontramos as crianças... Ou elas nos encontraram.

— AH NÃO, CARAAAAAALHO!!! — Rene gritou, bem em cima do seu trator.

O negócio era: As crianças vinham correndo e gritando loucamente na direção dos tratores... Enquanto tentavam fugir dum enxame de abelhas assassinas!

— EU FALEI PARA FICAREM LONGE DA COLMÉIA! — Barry disparou, colocando as mãos na cabeça e vendo a tragédia se desenrolar.

Me desesperei.

— OLIVER, TEMOS QUE SAIR DAQUI! — Puxei o meu homem pelo braço, pronta pra uma fuga digna de cinema. Pelo canto dos olhos, vi Sara e Thea correrem por suas vidas. Meus pés coçavam para ir com elas também.

— Felicity, mas e as crianças? — Oliver retrucou, chocado. Cara não estava entendendo aquele olhar em seu rosto!

Estávamos num momento MUITO delicado. Odiava abelhas, ainda mais assassinas!

— ELAS TEM PERNAS! — Respondi, tentando o rebocar. Ele nem saiu do lugar.

— O LUCAS TEM MEIAS-PERNAS! — O homem surtou e eu indecisa sobre o que fazer, parei por alguns segundos, pensando.

Ser uma mãe responsável ou simplesmente ser uma mamãe Smoak?

Suspirei, jogando as mãos para o ar. — Ok, tudo bem, eu pego o Lucas, você fica com a pestinha!

Te falar, nunca achei que pudesse comparar os olhos de alguém com duas bolas de basquete, mas os do Oliver no momento? Estavam iguais.

— Por que eu tenho que ficar com Mia?

— Porque você deu a ideia!

— ALGUÉM FICA COMIGOOOOOO! — Ouvimos o grito desesperado de Tommy.

— ACHO QUE ACABEI DE VER JESUS! — Roy.

— PUTA MERDA, PUTA MERDA, ENTROU UMA ABELHA NA MINHA CUECA! EU TÔ SENTINDO! — Curtis.

E bem, corremos pra salvar a vida das nossas crianças e depois as nossas.

Nada como mais um dia típico em Lian Yu...

(...)

— E a gente ainda pensou em ter um natal normal... — Ouvi Oliver resmungar enquanto ajeitava as cobertas em Mia e Lucas, que estavam dormindo na mesma cama.

Levemente, cutuquei suas costelas, tentando fazê-lo ficar em silêncio. Mia e Lucas não eram os únicos dormindo no quarto e só Deus sabia o quão difícil tinha sido fazer todas aquelas crianças calarem o bico e fecharem os olhos.

No próximo ano definitivamente estaríamos quebrando a tradição e passando o natal em casa. Pelo menos grande parte do dia.

— Tanto para não quebrar os ossos... — Oliver continuava sua lamúria, ignorando 100% meu olhar assassino. Acho que meus filhos se tornariam órfãos de pai logo. —... E me vem essas malditas abelhas! Elas estragaram todos os meus planos pra essa noite.

Apertei minhas pernas, ao ouvir essa última parte. Sim, malditas abelhas! E maldito Oliver por fazer meu humor mudar tão drasticamente. Agora meus pensamentos estavam mais na horizontal (dica: estou me referindo a sexo), do que na vertical (dica número dois: minha viuvez).

Como se soubesse o que eu estava pensando (ele sabia), Oliver ergueu os olhos pro meu rosto, me atirando um sorriso malicioso.

— Pronta pra dar um passeio pela fazenda comigo, Felicity?

A insinuação na sua voz... Sem falar nada, o empurrei em direção a porta e é claro que isso arrancou uma risadinha dele. O patife.

Aproveitando o longo e deserto corredor (Deus abençoe Barry e suas regras chatas sobre todos dormir cedo na sua fazenda), joguei meu maridinho contra a parede. Ele gostou.

— Pare de me provocar — Rosnei entre os dentes, fechando a distância entre nós. —, você tem feito isso o dia inteiro.

Ele desceu o olhar, para que os seus olhos ficassem no mesmo nível que os meus. Aquele mesmo sorriso continuava tatuado no seu rosto.

— Uma vida cheia de aventuras, se lembra disso querida? — Ele arqueou uma sobrancelha — Eu prometi.

Rapidamente minha mente me levou ao nosso primeiro encontro oficial.

"— Tá bom Felicity, não pira! — Eu falava para mim mesma, olhando-me no espelho.

Num momento, estava vivendo minha vida, conformada por um certo playboy ter desaparecido da face da terra e então, do nada, esse mesmo playboy aterrissa no meu local de trabalho, como se fosse perfeitamente normal. E eu ainda marco de ir num encontro com ele, após ter passado dias e mais dias imaginando que tipo de tortura o submeter quando o visse novamente.

COMO. NÃO. PIRAR?

— Respira fundo, Felicity. — Mandei, feito uma pessoa louca falando sozinha. — Você tem TUDO sob controle.

Choraminguei. Merda, eu não tinha NADA sob controle!

Concordar ir num encontro com Oliver, sem nem pensar, foi uma atitude altamente impulsiva que estive tentando controlar faz tempo. Mas como Oliver é Oliver, é claro que mandou todo meu autocontrole para o ar e aqui estava eu, em frente a um espelho, analisando qual melhor maneira de borrar minhas calças antes de revê-lo.

— Acho melhor você ir de vestido. — Disse Barry, entrando no meu quarto sem sequer bater.

Franzi o cenho, desviando os olhos do espelho, para ele.

— Se eu for de vestido, corro o risco de acabar cometendo alguma gafe. — Como por exemplo sentar de pernas abertas, acrescentei em pensamento, mas mordi a língua, ciente que Barry poderia deduzir por sí mesmo quais desastres eu e um vestido poderiam causar.

Ele balançou a cabeça. — Nada disso, nada de ruim ocorrerá hoje. Pensamento positivo, Felicity.

Esse era o seu jeito de me animar? Não estava funcionando.

— Eu ainda não posso acreditar que o deixei me chamar para um encontro. — Murmurei, voltando a me olhar no espelho. Meu rosto desanimado evocava todos os meus planos frustrados de fazer Oliver sofrer por um longo tempo.

Não era como se eu não gostasse dele (minha reação diante sua volta relâmpago, deixava isso claro... claro até demais), mas não achava justo o quão fácil fiz pra ele conseguir esse tal encontro. E daí que o peguei divagando mais que falando frases completas bem diante os meus olhos? Ele poderia somente estar exausto da viagem... Sua reação atípica podia NÃO ter relação à minha pessoa.

— Você só fez o que seu coração pediu. — Disse Barry levemente e eu grunhi.

Queria ter ouvido meu cérebro, ao invés. Pelo menos ele teria triturado as bolas de Oliver.

— Meu coração é um idiota.

Barry não se abalou e continuou com o seu discurso paternal:

— Qual é Felicity, você não ouviu o que Oliver disse? Ele voltou para ficar.

Ele poderia ter dito isso no calor do momento. Estar delirando. Existiam várias possibilidades.

Estreitei os olhos. — Por que você o está defendendo? Pensei que fosse o meu melhor amigo.

— E eu sou. — Pausa — Você sabe que sempre estive torcendo pra você e Oliver terminarem juntos, né?

QUE? Girei, para finalmente encarar meu amigo diretamente. Sabe, esse seria o melhor jeito de descobrir por que ele estava tirando umazinha com a minha cara. Já não bastava o meu estado mental perturbado? (não que isso fosse alguma novidade...)

— Não sei não, isso é uma novidade pra mim. Desde quando você torce para nós?

Seus castigos lendários sempre me falaram outra coisa.

Barry se encolheu.

— Você não achou mesmo que todas as vezes que eu colocava você e Oliver juntos para fazerem alguma tarefa na fazenda, era porque julgava ser uma boa ideia, né?

Pisquei, recordando da época onde Barry confinou Oliver a uma sala pequena comigo, apenas para averiguar os papéis importantes do falecido Henry Allen. Cara, até mesmo Barry esteve agindo pelas minhas costas?!

— Eu não sei se fico impressionada ou irritada por você nunca ter compartilhado suas ideias incríveis em juntar eu e Oliver. — Falei finalmente.

Barry poderia ter nos poupado bastante tempo e constrangimento.

Ele riu. — Sinta-se impressionada Felicity, como disse, nada de pensamentos negativos hoje.

Hmm, sei.

Não muito convencida com essa sua veia otimista, voltei meu olhar para o espelho. Precisava com urgência arranjar uma roupa boa o bastante para me encontrar com Oliver e também uma que não me fizesse pagar algum mico monumental.

Lembrando de como seu olhar havia queimado sobre meu corpo quando me viu vestida com o uniforme do restaurante, optei por finalmente por uma calça jeans. Também era um bom negócio ir de calça porque assim, não correria risco de cometer gafes e ainda conseguiria valorizar minha bunda.

— Oliver vem te buscar? — Barry perguntou de repente, desviando minha concentração.

— Não... — Respondi, relutante. — A verdade é que ontem quando ele me ligou, fiquei nervosa e pedi pra ele me esperar no restaurante de Caitlin. — À menção da minha chefe, notei os olhos de Barry brilharem. Se fosse em outras circunstâncias, sua reação me deixaria com um sorriso divertido. — Não sei o que aconteceria caso eu entrasse logo de cara num carro com Oliver.

Nunca sabia como agir direito ao redor daquele homem. E verdade seja dita, após um ano, ele continuava tão ou mais bonito quanto antes. O efeito que ele ainda tinha sobre mim era quase indecente.

— Quer que eu te leve?

Queria dizer não, afinal, não precisaria de mais testemunhas durante o meu encontro — Caitlin já seria o suficiente nos espionando em algum ponto estratégico do estabelecimento -, mas ao olhar para os meus saltos, decidi dar de ombros e aceitar.

Se eu já estava no inferno, que mal faria me queimar um pouquinho mais, certo?

Dando os últimos retoques (que consistiu em apenas um batom vermelho e na limpeza do meu óculos), soltei meu cabelo e concluí que estava pronta pra ir nesse tal encontro. Só precisaria acalmar meus nervos até lá, só isso. Coisa básica.

(...)

COISA BÁSICA UMA OVA!

Não só Caitlin e Barry seriam testemunhas do meu encontro oficial com Oliver, nããããão! Pra minha grande desgraça, estavam Tommy e Curtis, sentadinhos numa mesa, jogando olhares curiosos, divertidos e apreensivos para onde eu e Oliver estávamos sentados, super tensos com toda essa plateia.

Tudo teria sido imensamente perfeito, tinha certeza, se ninguém estivesse por perto. Exemplo disso foi como fui recepcionada por Oliver ao me ver. O homem parecia pela primeira vez na vida (Tá bom, menti. Quase sempre na minha presença ele parecia sem palavras, mas por razões diferentes!) sem fala e eu juro de pés juntos, os olhos dele brilharam! Sua inspeção toda não tinha sido NADA discreta, o que tinha feito meu rosto aquecer — de prazer, confesso.

— Você está muito bonita. — Elogiou, pela segunda vez na noite. A primeira foi assim que me viu.

De novo, meu rosto aqueceu.

— Obrigada Oliver, você também.

Não menti, porque Oliver estava sempre bonito. O homem poderia rolar na merda e ainda assim estaria bonito (fedido, mas ainda bonito).

Ele limpou a garganta. — É estranho admitir isso, mas acho que estou nervoso.

Graças a Deus!

Mascarando uma confiança que no momento eu NÃO TINHA, levantei uma sobrancelha, fitando diretamente os seus olhos.

— É mesmo? Não vejo motivo pra isso, Oliver. Continuo sendo a mesma Felicity de sempre.

Tá bom, talvez eu tenha dado muito nessa minha pequena performance, já que o maldito homem estreitou os olhos, pegou a taça de água (0 álcool para quem estava dirigindo, alôô) e a bebeu em apenas um gole.

— Eu não estou nervoso por conta disso. — Disse finalmente, também me encarando diretamente. Sua expressão agora não denunciava absolutamente nada, o que cumpriu com o efeito de fazer minha máscara de confiança rachar um pouquinho. — Estou nervoso porque faz muito tempo que não saio em um encontro.

Opa, acabei de obter informação grátis? Ou deveria cavar por mais?

— Você não saiu com nenhuma mulher durante o seu tempo em Star City?

Cavar por mais, foi minha resposta obvia.

— Não, não existia nenhuma mulher especial lá. — Ele fez uma pausa — E você? Saiu com alguém aqui em Lian Yu?

Senti vontade de rir com a sua pergunta, contudo, do jeito que Oliver manteve seus olhos no meu rosto, me senti incapacitada de fazer alguma coisa além de confessar a verdade. E o teor do tema também exigia uma certa seriedade da minha parte.

— Não. — Balancei a cabeça. — Não houve nenhum homem especial na minha vida enquanto você esteve fora.

Uma expressão satisfeita tomou conta do seu rosto, entretanto, rapidamente Oliver começou a esfregar a própria barba, tentando disfarçar o seu contentamento com a informação. Ah, homens... Girei os olhos, pegando minha taça e sentindo um alívio nos meus ombros.

Não pude analisar melhor meus sentimentos e reações, uma vez que Caitlin com um sorriso sorrateiro, parou do lado da nossa mesa, segurando um bloquinho de notas.

Apertei os olhos, tentando mandar um aviso de "Dê o fora ou sofra as consequências" que prontamente, ela ignorou.

— Boa noite, vocês já decidiram o que irão comer?

Contorci-me no meu assento. — Traga o prato do dia, tenho certeza que será o suficiente.

Olhei para Oliver, esperando sua aprovação e graças a Deus, ele assentiu com a cabeça, em acordo. Tanto quanto eu, ele queria logo se ver livre do olhar conhecedor de Caitlin... E dos outros. Pelo canto dos olhos, conseguia localizar perfeitamente bem Curtis, Tommy e Barry nos espiando.

Soltei um grunhido baixo.

— Eles são todos idiotas, ignore-os. — Oliver disse apontando o queixo para o Trio Parada Dura e fazendo um sinal obsceno para eles.

Levantei uma sobrancelha. — Desde quando você faz esse tipo de coisa em público?

Ele piscou pra mim.

— Hoje em dia tem pouca coisa que eu não faça, Felicity.

Espera, ele acabou de flertar comigo? Ou isso foi apenas uma sentença inocente?

— Ah é? Então me dê um exemplo do que você hoje em dia faz.

Que foi? Se ele queria jogar...

Seu pomo de adão começou a trabalhar de maneira interessante.

— Tenho uma ideia, mas não posso fazer em local público. — Malícia iluminou seus olhos — Se é que você me entende.

SANTINHA DAS VIRGENS, EU ENTENDI!

— Eita cacete! — Ouvimos Curtis suspirar alto — O Garanhão tá doido pra mostrar o equipamento dele!

— Cala a boca, Curtis! — Tommy mandou.

Quase ao ponto de começar a abanar meu rosto e jogar água nos meus países baixos, respirei fundo, tentando ao máximo me controlar e ignorar a plateia que ainda estava em atividade nos assistindo.

— Hmm... — Limpei a garganta — Quais são seus planos agora que você está aqui em Lian Yu? Ou já mudou de ideia?

Se minha voz saiu um pouco agressiva no final, foi só porque eu queria porrar Tommy e Curtis... Só por esse motivo. Não tinha NADA a ver com Oliver, imagine...

Ele me observou cuidadosamente, parecendo contemplar o que iria dizer. Ele estava certo em fazer isso. Dependendo da sua resposta, ele levaria um chute, seguido de um banho de água e depois um soco.

— Não mudei de ideia. Meus planos continuam os mesmos desde que pisei aqui de novo.

Sua forma deliberada em transformar isso numa conversa enigmática apenas me atentou mais.

— E eles seriam...

Ele inclinou a cabeça para o lado, um sorriso espalhando-se pelo seu rosto. — Eu. Você. Juntos. Por um longo, longo tempo.

Adeus mundo, Felicity Smoak acabou de morrer. Estou na vida pós-morte, é isso.

— Caraaaaalho!!! — Esse era Curtis, ao fundo — Ele acabou de se declarar mesmo? Puta me-

— Curtis, calado. Ou eu vou te socar. — Tommy.

— Sou invisível, macumba saravá solta um peido e sai fubá!

Isso estava longe de uma declaração, mas o homem sabia muito bem como mexer comigo e esquentar o meu peito. E não tô falando do jeito erótico! Suas palavras e convicção nelas, desencadearam uma emoção que me deixou tão confortável e aquecida por dentro, que por alguns minutos, me atrevi a esquecer sua palhaçada de perder contato total comigo pelos últimos meses.

Justo ou não, Oliver Queen ainda me tinha.

— Você está me propondo, Sr. Queen? — Brinquei, tentando camuflar a pontinha de esperança na minha voz.

Verdade seja dita: Já estava perdida desde a primeira vez que o vi.

— Não. — Ele riu — Isso seria muito arrogante e rápido da minha parte. — Merda! — Quero namorar com você, sair em encontros com você, rir com você, aproveitar a vida com você durante muitos e muitos anos. — Macacos me mordam, mas acho que minha garganta está ficando congestionada! — Felicity, eu estou me comprometendo a uma vida de aventuras só com você. Apenas você. — Seus olhos carregavam tanta emoção ao me encarar... — Você disse que Nyssa contou a você que eu sou o homem da sua vida... A verdade é que você é a mulher da minha vida. — Ele revelou — Você mudou minha vida de uma forma que eu jamais imaginaria... Felicity Megan Smoak, se eu precisar rastejar por você, eu vou. Você é a minha garota e eu amo você.

— Porra, EU quero ser a sua garota! — Curtis gritou afoito. Pude ouvir o som de um tapa — Ai cacete! Não posso mais ter liberdade de expressão mais não?

— Curtis eu vou afundar sua cara! — Tommy ameaçou.

— Curtis e Tommy! — Caitlin.

— Calados! — Barry.

Com os lábios trêmulos e coração acelerado, eu fiz a única coisa que podia fazer. Me levantei da mesa e atravessei a distância que me separava de Oliver. Ele também não perdeu tempo imaginando o que eu faria. Não precisava.

Pode parecer estranho (tenho fé que um dia você entenderá) mas quando meus lábios colaram contra o dele, numa troca frenética de saliva e oxigênio (não se encolha!), nunca respirei tão bem. Foi como renascer.

Oliver Queen me amava, e eu o amava também. Há tipo, muito, muito, MUITO tempo.

— ESSE É O MEU GAROTO! — Tommy comemorou, arrancando uma risada de Oliver que vibrou em todo o meu corpo.

Comecei a rir também. Não seria a nossa história se não existisse aqueles fofoqueiros pra tirar sarro."

Sorri com a lembrança. Durante todos os nossos anos juntos após esse encontro, Oliver havia cumprido essa promessa. Viajamos para lugares exóticos, curtimos juntos os festivais de Lian Yu, participamos de competições idiotas, abrimos um negócio juntos (Apesar de ser mais meu que dele, segundo Oliver, ele se conformava em ser um trabalhador de meio-período e um pai de LONGO período. O homem adorava passar o tempo com os filhos.), vivemos todos os tipos de aventuras possíveis e impossíveis durante todo esse período.

E o melhor era saber que existiriam mais outras para a gente poder explorar com o decorrer dos anos.

Acariciei o seu rosto. — Obrigada por ter acreditado em mim, Oliver. Você me deu asas.

Sua expressão maliciosa, se suavizou e senti quando sua mão puxou carinhosamente o meu rabo de cavalo.

— Nah, eu só a avisei que você as tinhas.

Feliz da vida (isso já se tornou cotidiano) me debrucei sobre o meu marido, disposta a agradecer propriamente por todos esses mágicos anos, quando o som de alguém limpando a garganta bem ali no corredor, arruinou todos os meus planos.

Num pulo, me separei de Oliver com medo de que Barry tenha nos pego em flagrante. Os anos poderiam passar, mas ainda achava constrangedor ficar ao redor de Barry enquanto dava uns amassos no meu próprio marido. Oliver, por outro lado, sempre achava "fofa" a minha reação diante essas situações.

Porém, para a nossa sorte, era somente Nyssa. Pelo sua aparência, tinha acabado de acordar.

— Só vim buscar um copo de água. — Nyssa disse, acenando para nós num cumprimento lento.

Parecia que ela estava mais dormindo que acordada, no entanto, não me deixaria levar pelas minhas suposições. Nyssa conseguia ser uma mulher altamente atenta em qualquer situação.

— Mia e Lucas dormiram agora. — Oliver soou alegre, ao comunicar isso para Nyssa.

Era claro que o patife estava me provocando ao usar esse tom. Ele sabia que Nyssa acabaria pensando besteira, o que era certo — mas ela não precisava ter tanta certeza das nossas perversões, correto?

Ela ergueu uma sobrancelha e de repente, me pareceu muito mais atenta que há um segundo atrás. Eu disse.

— E suponho que vocês também estejam indo dormir?

Oliver, o desgraçado, abriu um largo sorriso e como quem não queria nada, me puxou pela cintura.

— Ahãm, estamos indo para a nossa cama.

Soletre idiota comigo: O-L-I-V-E-R.

Acertei-o com um tapa no peito, porém o idiota apenas riu, não levando a sério o risco que sua saúde estava correndo justamente comigo nesse momento.

Embaraçada, virei para Nyssa:

— Ele tá assim porque também foi picado. — Deixei uma risada histérica escapar minha boca — Não o leve a sério, Nyssa!

Só de sacanagem, o homem beliscou minha cintura, quase arrancando um berrão da minha boca.

Praga abusada! Iria triturar as bolas dele mais tarde!

— Isso vai ter volta. — Sussurrei entredentes, ainda encarando Nyssa e tentando disfarçar o indisfarçável.

— Querida, eu estou contando com isso. — Ele sussurrou de volta, dando uma longa fungada no meu pescoço.

Oh, esse homem...

— Ah sim, entendi. — Nyssa maneou a cabeça, uma expressão de "Eu sei o que vocês estão pensando em fazer" rachava seu rosto. — Boa noite, então. — Ela desejou, e sem perder tempo, comecei a rebocar Oliver para longe daquele corredor. Ou seria ele me rebocando? Não sabia mais quem tinha pressa de desaparecer das vistas da cigana.

— Oliver? — Chamou Nyssa, de repente, fazendo-nos pausar a nossa mini-maratona.

Merda!

Me lançando um último olhar quente, que me prometia uma loooonga noite de atividades, Oliver girou para encarar Nyssa novamente:

— Sim?

— Você ainda duvida? — Ela perguntou, serenamente.

E sei lá, por mais que eu estivesse calada, de costas pra Nyssa, parada bem no meio do corredor, parecia até que ela estava bem atrás de mim fazendo essa pergunta. Senti um calafrio subir pela espinha.

Houve um longo silêncio (que me deixava mais tensa e cagada, a cada segundo, preciso confessar), até Oliver responder, num tom suave:

— Parei de duvidar faz anos.

E foi isso. Sem mais nenhuma palavra, Nyssa foi embora e Oliver voltou para onde estava, parando ao meu lado e segurando minha mão.

Queria perguntar do que se tratava toda aquela interação, mas bem no fundinho, eu já tinha a minha explicação.

— Então Felicity, pronta para uma nova aventura? — Disse ele arrastadamente, estudando meu rosto de perto. Sua mão continuava apertando a minha, enquanto seus olhos brilhavam com malícia... E amor.

Feliz, satisfeita, cheia... Não segurei o meu sorriso insolente.

— É claro, Oliver. — Eu pisquei para ele. — Não acredito que só você mereça ser picado essa noite.

E saí em disparada em direção ao quarto que Barry disponibilizou para nós durante essa noite, ouvindo a risada alta de Oliver atrás de mim.

A cigana acertou quando disse que Oliver Queen seria o homem da minha vida.

O homem me deu filhos, netos, bisnetos e me fez rir até o final, transformando nossa história numa incrível e enorme aventura que ressoaria através dos tempos.

Mas eu não quero o bom

E não quero o bom o bastante

Eu quero o não consigo dormir e o não consigo respirar sem o seu amor

Na varanda da frente e mais um beijo

Se não faz sentido pra mais ninguém

Quem se importa se tudo que penso é você

Eu procurei no mundo inteiro e agora eu sei

Não é certo se não te faz perder a cabeça

Sim, eu não quero o fácil

Eu quero o louco

Você vai estar comigo, querida?

(...)

Eu sei que somos loucos

Por isso vamos ser loucos

"I Want Crazy" — Hunter Hayes

FIM

Notas finais
E acabou..... Para o bem ou para o pior, esse foi o final de Amor Cigano. Eu sempre visualizei o final com Oliver de alguma maneira parando em Lian Yu e Felicity abrindo sua própria empresa, só não imaginava os percalços que eles percorreriam até esse final. Ahãm, você leu certo, Rene sempre teve uma queda por Felicity, Barry era Team Olicity desde o início e sim, todos tiveram um final feliz... Até mesmo Akio. Surpresa. Agora deixa eu agradecer a paciência, comentários, recomendações e mensagens de vocês durante todo esse tempo que Amor Cigano esteve na ativa. Todas as palavras que vocês me enviaram, SIGNIFICARAM MUITO pra mim. Fico honrada de ter vocês como leitoras ♥ muito obrigada de coração. Assim como qualquer outra fanfic que já digitei, Amor Cigano foi muito especial pra mim. Sempre falo para os mais próximos que não tem graça nenhuma você escrever algo só por escrever, você tem que GOSTAR do que está escrevendo e ainda se divertir (pelo menos um pouco) com isso. Portanto, se posso deixar um conselho aqui para as futuras ficwriters, é esse. Só continue um projeto se você está se divertindo. A menos que você consiga seguir na força do ódio, aí é outro assunto (e tenho certeza que você vai precisar de muito mantimento pra se alimentar depois). Enfim, chega das minhas divagações ENORMES. Um beijo para todas, um GRANDE obrigada de novo pelas recomendações, reviews e paciência. E até logo! ♥♥♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!