Amor Cigano
15 Eu te Desafio
Notas iniciais
Algo estava errado.
Esse pensamento parecia tatuado na mente de Oliver, que por mais de uma hora, andava de um lado para o outro, dentro do quarto cedido por Barry. Em completo silêncio, Diggle assistia a cena, sabendo que com certeza algo estava certo, por fim.
Moira sentir-se-ia orgulhosa em ver o descontrole do filho. Após tantos anos tentando manter as rédeas da própria vida, era quase um bálsamo assistir Oliver perdendo as estribeiras por tão pouco — ou ao menos, Diggle supunha. Sabia que a perturbação do amigo fora causada por Felicity, afinal, ela parecia ser a única capaz de desestabilizar Oliver de tal maneira, mas agora só o restava descobrir o que especificamente ela fez para deixá-lo tão agitado assim.
— O que aconteceu? — Resolveu perguntar, porque francamente já não aguentava mais o mistério e não pretendia assistir Oliver durante a noite toda andando de um lado para o outro.
Como se tomasse conhecimento apenas agora da presença do amigo (o que era ofensivo), Oliver parou, piscando os olhos para Diggle, impressionado.
— Há quanto tempo está aqui?
— Tempo o suficiente para saber que você está fora do seu elemento.
— Eu estou fora de meu elemento desde o momento em que pisei nesse maldito lugar! — Oliver explodiu, lançando um olhar sombrio para Diggle, que apenas piscou, impressionado com a agitação emocional exibida.
— O que Felicity fez dessa vez? — Perguntou, sem rodeios, decidindo que uma abordagem direta era a melhor. Em troca, recebendo um olhar desconfiado.
— Como você sabe que ela tem alguma coisa a ver?
Diggle deu de ombros.
— Foi apenas um palpite, mas parece que eu estava certo.
Horrivelmente certo.
— Eu e ela nos beijamos. — Revelou, decidindo que tampar o sol com a peneira, não o levaria a lugar algum.
Oliver teria achado a reação de Diggle hilária, se não estivesse tão ocupado tentando raciocinar que diabos havia acontecido e por que infernos estava sentido algo estranho martelando em seu peito, ao pensar no desgraçado beijo.
Alguma coisa estava errada.
— Oh, ela finalmente te bei-
— Eu que beijei ela. — Cortou rapidamente o amigo. Precisava expor a verdade para receber uma resposta concreta.
Por mais atraente fosse a ideia de deixar Diggle pensando que foi Felicity quem foi pra cima dele, o atual cenário exigia completa honestidade de sua parte. Infelizmente.
— Você....Beijou...Ela... — Uma pausa. Uma pergunta. — Por quê?!
— Queria provar um ponto! — Exclamou inconformado, não apenas por ser obrigado a confessar aquilo em voz alta, como também por se encontrar numa situação inadmissível.
— E provou? — Diggle quis saber, mais interessado do que nunca no tópico em discussão.
— Não! Porque deu tudo errado! — Retrucou Oliver, irritado. O que fez com que Diggle ameaçasse a abrir um sorriso.
— Eu vou querer saber os detalhes?
Oliver desejava que não existisse detalhes para contar. Mas o problema era: Eles existiam.
— O beijo não deveria ter sido daquele jeito... — Murmurou, agora totalmente desolado.
Seu tom provocou graça, já que os olhos de Diggle brilharam, divertidos.
— Que jeito?
— Explosivo, abrasador, longo demais. — E certo demais.
Com um suspiro, Diggle estudou o patrão. Estava trabalhando para os Queens há bastante tempo, logo podia-se dizer que ele conhecia todos muito bem. Sempre julgou Oliver um jovem brilhante, de humor afiado e mente astuta, mas quando o assunto era sobre os aspectos de sua vida amorosa...O Queen podia ser um perfeito obtuso.
Escolhendo suas próximas palavras com muito cuidado, Diggle começou, cauteloso:
— Oliver, acredito que seja hora de você começar levar a sério o que Felicity diz sentir por você. Talvez ela não seja apenas uma jovem mulher se sentindo atraída pela sua aparência... — Suspirou — Talvez ela esteja falando sério.
Era isso que mais assustava Oliver, a ideia de que Felicity de fato estivesse falando sério. Com o beijo, ele queria provar que ambos não sentiriam nada um pelo o outro e assim, arruinar todos os planos adolescentes que Felicity tinha em mente para ele.
Desde o início sua intenção era decepcioná-la com um beijo pra lá de frio, mas foi impossível seguir o próprio plano quando sentiu a boca da Loirinha Problema sobre a sua. A experiência havia sido extraordinária e...Um pouco louca também.
Não fazia ideia que poderia sentir seu coração batendo em seu ombro, até então.
Concluiu que desde o início estivera condenado. Maldita mulher.
— Ou talvez todos estejam ficando loucos.
Diggle teve que dar um pouco de razão ao palpite amargo, mas guardaria isso para sí.
— Ninguém está ficando louco, Oliver. E você sabe disso, pare de inventar desculpas.
Ocorreu a Oliver que conversar com o seu guarda-costas foi um tremendo erro. Não era suposto ele ficar do seu lado nessa situação?!
— Eu não estou inventando desculpas. — Se ouviu dizer — Estou apenas analisando a situação por outro ângulo!
A réplica soava patética até mesmo para os próprios ouvidos.
— Oh, Oliver! — Diggle riu — Você não faz ideia do que te atingiu, faz?
O pior era que fazia, só achava impossível admitir. Vivia num mundo onde conto de fadas não existiam, amor verdadeiro era tão raro quanto ar não poluído e almas gêmeas eram associadas somente com gêmeos consanguíneos ou piadinhas infantis.
Suspirou, precisava voltar à Star City e rastejar por alguma vaga na QC. Se Felicity ficava desnorteada com sua presença, ele após aquele beijo, tinha certeza que começaria a entende-la melhor.
— Te contar tudo isso foi um erro. — Resmungou, finalmente sentado-se na cama. Supunha que andar de um lado para o outro feito uma barata tonta, só ressaltaria o quão patético estava se tornando.
— Assim você me ofende, Oliver. — O tom de Diggle era brincalhão. — Pense pelo lado positivo, poderia ter sido bem pior, você poderia ter contado tudo isso a Tommy.
Oliver grunhiu.
— Eu prefiro enfrentar dez Felicity, que deixar Tommy a par de toda essa história.
Apesar dele ter em mente que logo, logo seu amigo estaria por dentro de toda aquela confusão. Felicity faria questão de comunicar aquilo ao cabeça de vento.
— Contando os eventos, não acredito que enfrentar dez Felicity, fosse um grande sacrifício para você, não é? — Sua voz saiu meio arrastada, zombando.
Foi impossível Oliver não sentir vontade de chutar o guarda-costas até a estratosfera.
— Ha-ha-ha. — Fingiu rir — Você é muito engraçado, Diggle. — Tornou a ficar sério. — Acredite em mim quando digo: Uma Felicity já é o bastante.
Mais do que suficiente, quis acrescentar, mas decidiu que o melhor seria guardar a última parte da sentença para sí. Ele tinha algum limite de exposição por dia.
Diggle cruzou os braços. — Então e agora? O que você irá fazer?
Oliver tinha o conhecimento que fugir não havia adiantado de nada e se tornar caçador ao invés da caça, havia o guiado para esse exato momento, portanto...
— Não sei, mas eu e Felicity encontraremos uma solução. — Juntos.
O jogo de puxar e soltar tinha terminado.
Felicity's Pov
Uma pessoa normal, ao mergulhar, pode desmaiar após ficar dois minutos sem ar; busquei essa informação no fundo da minha mente, tentando me convencer que não estava, de fato, me afogando.
Beijar Oliver seria sempre assim? Arrebatador? Desorientador? De tirar o fôlego? Ainda conseguia sentir meus lábios formigarem, o que era um pouco admirável já que o beijo trocado entre nós aconteceu noite passada e agora, já era um outro novo dia.
Suspirei pela milionésima vez.
— Ihh, cê tá com cara de quem viu a Píton Queen mais uma vez.
O comentário de Curtis foi o suficiente para abalar meu sorrisinho e estado de nirvana completo. Por que eu tive a maldita ideia de o transformar em meu aliado?!
Contando de um até dez, virei para ele, com a minha melhor expressão: Cuidado, estou prestes a surtar! No entanto, mesmo assim, me dignei a respondê-lo:
— Não vi Oliver nu, mas se você quer saber, ele tem a ver sim com o meu bom humor.
O que adiantava eu ter uma vitória e não sair por aí espalhando ela? Estava disposta a passar a informação sórdida para todo mundo que não atendesse por Donna Smoak — já havia entrado em acordo com o meu subconsciente que mamãe era completamente pirada e qualquer informação desse calibre nas "mãos" erradas, poderia desencadear uma confusão daquelas.
Animado com a nova informação, os olhos de Curtis brilharam:
— Ele tem a ver? O que ele te fez? — Parou por uns bons segundos, até escancarar o bocão — NÃO ME DIGA QUE ELE TE JOGOU NO CELEIRO E RESOLVEU BRINCAR DE RODEIO CONTIGO?
Ele é o meu aliado, ele é o meu aliado, ele é o meu aliado. Abri e fechei o pulso, sentindo a palma da minha mão formigar.
Curtis sinceramente era...Uma força da natureza. Acreditava que ele iria conforme o vento levava e aterrissava no melhor lugar possível. Sua lealdade se resumia somente a ele, o que não era de todo ruim. Mas...
— Quem estava brincando de rodeio? — Tommy se aproximou de nós com um sorriso. Examinei que nas suas mãos ele trazia alguns papéis....Franzi o cenho.
— Felicity e Oliver. — Curtis respondeu imediatamente, com uma pitada de malícia.
Elevei uma sobrancelha. Como eu disse, não adiantava nada eu ter tido a minha vitória e não poder gritá-la aos quatro ventos, portanto...
— De fato. — Confirmei, fingindo limpar uma poeira da minha blusa. Podia sentir os olhares chocados que eu estava recebendo. — Não chegou a ser brincadeira completa, mas brincamos.
E eu queria brincar novamente...E quem sabe da próxima vez, a brincadeira fosse completa.
Levantando a cabeça, encarei Tommy completamente embasbacado olhando pra mim. Sua boca estava literalmente aberta.
Já Curtis foi muito mais rápido em se recuperar.
— Santinha das gays, me conta tudinho desse babado agora! — Exigiu o sem vergonha, com brilho nos olhos.
Soltei uma risadinha, voltando a sentir toda a felicidade que me preenchia durante aquela manhã.
— Ele me beijou. — Contei, incapaz de segurar o sorriso.
O sentimento de embaraço ou de ter dito algo errado, não chegou. O que apenas me fez sorrir mais.
Tommy piscou os olhos.
— Ele te beijou?
Assenti com a cabeça, sentindo meus lábios tremularem.
— Sim, ele me beijou. Chocante, eu sei.
Mas eu não dizia que era chocante por eu ter sido beijada por Oliver Queen. E sim por ele ter tomado a iniciativa, ele, o homem controlado e sério; o homem praticamente inalcançável. Tommy parecia ter captado isso também.
— Você tá mentindo! — Curtis acusou, com certeza incapaz de digerir que eu, sim, fui beijada por Oliver Queen.
Não me abalei.
— Não estou mentindo, é a mais pura (e gloriosa) verdade.
Curtis fez cara feia.
— Eu preciso de provas, testemunhas. Senão, não vou acreditar em você.
Revirei os olhos. Como se Curtis acreditar em mim ou não, fosse necessário em minha vida.
Dei de ombros. — Pergunte a Oliver.
Ele podia ser durão, mas no fundo da minha alma eu sabia: Ele não negaria a verdade. Jamais.
Correr sim, negar não.
Agora a expressão do malandro se tornara mais séria e a desconfiança que via em seus olhos, havia se dissipado. Ele finalmente acreditava em mim.
E estava chocado.
— Santinha da transparência, você e o bofe se pegaram mesmo... — Pausa altamente dramática — Me ensina a macumba?
Eu. Não. Devo. Matar. Meus. Aliados.
A tensão que segurava os ombros de Tommy acabou e imediatamente, ele soltou uma risada divertida, mas eu ainda conseguia enxergar algumas sombras em seus olhos. Era a primeira vez que eu não conseguia ler o playboy brincalhão.
O que estava se passando na mente de Tommy?
— Finalmente alguém quebrou o gelo de Oliver. — Ele brincou, mas ainda não parecia totalmente confortável.
Interessante.
— Acho que quebrei mais coisas em Oliver.
A essas horas ele com certeza acreditava em Nyssa e passaria ouvi-la com atenção e talvez, quem sabe, com uma pitada de assombro também. Suas previsões eram certeiras demais, tanto para o bem quanto para o mal.
Por fim, as sombras que espreitavam os olhos de Tommy se esvaíram, dando lugar a um interesse genuíno.
— Que coisas exatamente? — Ele perguntou, despontando um sorriso.
Não consegui segurar o meu próprio.
— Coisas. — Apenas para não ser tão cruel, acrescentei. — Pergunte a ele.
— Espero que não tenha sido a bingola do bonitão — Curtis resmungou —, ou vou ter que cair no tapa com você, mocréia.
Curtis era uma das raras pessoas que eu conhecia e parecia implorar, constantemente, em levar umas sacudidas.
— Você não precisava ajudar Rene a pendurar os últimos balões? — Rebati, recordando onde meu amigo estava no exato momento.
Com o festival batendo na porta, todos estávamos terminando os últimos preparativos para cair na gandaia na próxima noite. Lian Yu, inclusive, começava a ficar movimentada com a chegada de parentes e antigos residentes do vilarejo.
Notei que esse ano teríamos mais jovens que idosos, o que poderia ser um problema. Jovens a flor da pele, poderiam causar enormes confusões e como eu era um farol ambulante para problemas...
— Não precisava não, mas agora que você falou, preciso! — Aloprado murmurou, dando meia volta e indo saltitante em direção a Rene, que quando notou o malucão chegando, largou seus balões e zarpou fora.
Mas sua atitude não adiantou de nada, uma vez que Curtis tomou fôlego para persegui-lo. Foi impossível segurar a risada.
— Então, você e Oliver, ein? — Tommy chamou minha atenção, acabando com a minha felicidade em ver Rene se ferrando MAIS UMA VEZ, na mão de Curtis.
Séria, o estudei por um longo momento, atrás de algum sinal que expressasse julgamento. Contudo, ele ainda mantinha aquela mesma postura que me fazia dar voltas imaginando que infernos estava se passando por sua mente, tornando minha tarefa impossível.
Considerei conduzir a situação com delicadeza:
— Sim, alguma objeção? — Ok, deixa pra lá a delicadeza.
Ele soltou uma risadinha.
— Não, só um conselho.
Lá vinha o discurso parental...
— Hm, diga.
— Se o que você sente por Oliver é real, por favor, não abra mão dele jamais.
Eu não esperava ouvir isso. Agora era eu a única a encará-lo completamente embasbacada, faltando alcançar meus sapatos com a minha boca.
Perante minha reação, Tommy deu tapinhas no meu ombro, sem esconder a alegria que sentia. Por Deus, até os olhos dele sorriam para mim!
— Estou realmente feliz que Oliver tenha encontrado alguém como você. — Continuou, desprezando totalmente meu estado quase catatônico. — Desde que o Sr. Queen morreu, meu amigo não tem sido o mesmo. Claro que houve mulheres na sua vida desde então, mas... — Lembrei como respirava. — Mas acredito que você é a perfeita pra ele.
POR QUE INFERNOS ELE ACREDITAVA NISSO?!
Quer dizer, tinha plena consciência da minha aparência aceitável e da minha personalidade brilhante, mas...Mas achar que Oliver Queen, num dia normal, poderia me ver atravessando uma rua e pensar "Nossa, que mulher bonita!", era meio louco.
Soltei uma risadinha esganiçada.
— Não me dê muitos créditos, Tommy. Se não fosse pela previsão de Nyssa, eu jamais teria tentado me aproximar de Oliver.
Seus olhos buscaram os meus.
— Besteira! Com ou sem previsão o resultado teria sido o mesmo. — Me lançou uma olhadela perspicaz — Você está apaixonada por ele, não está?
Franzi o cenho, sentindo minhas bochechas esquentarem. Após o beijo que trocamos, tinha total certeza da minha resposta.
— Sim, mas e daí? Numa realidade normal, ele sequer me olharia. — Abaixei o olhar, começando a arrastar o meu pé no chão numa atitude patética. — Eu nem sei se ele é capaz de se apaixonar por mim...
De me amar.
Gostar? Sim, sem dúvidas. Sua reação após o beijo deixara isso explicito, mas se apaixonar? Amar? Era outros quinhentos.
— Você é uma tola se acredita nisso. — Tommy pareceu captar minha guerra interna, se sua voz macia ao declarar isso, era alguma indicação. — Qualquer homem com cérebro é capaz de se apaixonar por você, Felicity Smoak.
Levantei a cabeça, grata pelas palavras. Tommy podia ser um idiota 50% do tempo, mas durante os outros 50%...
Pulei em cima dele, o abraçando. Ele havia dito as exatas palavras que eu precisava ouvir.
— Caraca, a gente não pode te deixar um minuto sozinha que já cai em cima do primeiro ex-playboy à vista!
POR QUE EU?????
Me afastando rapidamente de Tommy, fitei Curtis que nos lançava dardos pelos olhos. Aparentemente sua empreitada em cercar Rene, havia falhado miseravelmente, droga! Agora teria de o aturar por mais tempo que o necessário.
— Não conseguiu alcançar Rene? — Tommy perguntou, divertido.
Curtis mostrou os dentes.
— Consegui, mas ele correu para os braços de uma baranga.
O que? Essa era nova!
— Rene está com uma mulher? — Tommy parecia tão impressionado quanto eu — Quem??
Exibindo um beicinho ridículo, Curtis cruzou os braços, emburrado.
— Não sei quem é, mas até o final do dia irei descobrir.
Oh, pobre alma mortal.
— Até o final do dia estaremos no festival. — Tentei ainda salvar a dita cuja que estava, milagrosamente, se engraçando pra cima de Rene. Ou ele pra cima dela.
— E daí? Ela vai estar também. — Rosnou — E ele. Vou destroçar aquela oncinha todinha! Como se atreve a me trair NA MINHA FRENTE?
Não sabia se era mais perigoso Curtis tomar interesse por alguém ou Curtis se desinteressar por alguém. Estremeci, pressentindo confusão a vista.
E como Tommy não é nada besta, também sacou que a situação ficaria tensa, portanto...
— Hmm, acho que vi Laurel por ali. — Inventou, vazando na mesma hora. Nunca vi alguém andar tão rápido quanto Tommy quando se tratava de fugir de situações constrangedoras/alarmantes/homicidas.
Fui deixada sozinha com o maluco e debati internamente se eu dava corda para aquela sua mais nova maluquice ou deixava o troço quieto. Mas é claro que Curtis decidiu por mim:
— Temos que tirar a baranga de jogada e depois esfolar o Rene vivo por essa traição. — Declarou, com um olhar meio alucinado.
Discretamente, dei um passo para trás, enquanto procurava com o olhar alguma salvação. Para o meu grande prazer, vi Nyssa parada perto do lugar onde estava ficando os touros que participariam do rodeio que rolaria durante o festival.
Suspirei, aliviada.
— Nossa, acho que Nyssa está me chamando! — Disparei, picando minha mula e deixando Curtis para trás, apostava que ele também já começava a fazer juras de morte à minha pessoa, salientando minha tese sobre a nossa parceria ser a mais curta da história.
— Olá Nyssa! — Saudei minha querida amiga, com o sorriso mais tosco do mundo. O bom humor começava a voltar.
Oliver Queen me beijo-ou, Oliver Queen me beijo-ou, Oliver Que-
— Olá, Felicity. — Foi o cumprimento xoxo que recebi. Tardiamente notei o semblante não muito bom de minha amiga.
Franzi o cenho, imaginando por que diabos Nyssa estaria de mau humor num dia tão feliz quanto esse...
— Hmm, tá tudo bem? — Perguntei, receosa. Nyssa não era conhecida por ficar chateada facilmente, logo eu julgava que seja o que for que a fez ficar de cara amarrada, era BASTANTE significante.
Ela me encarou com um olhar expressivo.
— Sua pergunta não foi muito inteligente.
Ouch!
— Desculpe. — Ao menos eu tentei né?!
Ela acenou com a mão. — Não se desculpe, não é a sua culpa meu humor. — De repente, um sorriso sugestivo surgiu em seus lábios. — Pode me dizer o motivo da sua alegria? Consigo vê-la em seus olhos.
Ual, eu sequer estava sorrindo!
— O motivo da minha alegria? — Arqueei uma sobrancelha, começando a fingir olhar minhas unhas. — Claro que é o festival que vai acontecer hoje...O que mais me faria feliz?
— Oliver Queen.
Só de ouvir o nome dele, um canto da minha boca se levantou.
Solte a bomba, solte a bomba, solte a bomba!
— Ele me beijou.
Ela piscou, devagar.
— Bem, não se pode fugir do próprio destino.
— Sim, eu nunca deveria ter duvidado de você.
— Você duvidou de mim? — Agora ela ostentava um olhar ofendido. Ops.
— Eu? Duvidar de você??? Pffff.
Seu olhar apenas se intensificou, me fazendo soltar uma risadinha nervosa. Merda!
— Quer saber? Já falamos demais sobre mim, que tal mudarmos um pouco o foco? — Resolvi tentar mudar de assunto para evitar ser assassinada. — Como você está? Como vai o seu lance com a Sara? Vai vir no festival com ela?
— Sua língua parece uma metralhadora.
Fiquei vermelha com o seu comentário. Poxa, a gente tá aqui na maior humildade perguntando se tá tudo bem com a pessoa e ela solta isso...Sacanagem!
— E respondendo uma das suas perguntas: vou vir para o festival com Sara sim. — Ela acrescentou, provavelmente com pena da minha cara de cachorro chutado.
Abri um sorriso, me recuperando do chute rápido.
— Ótimo! Odiaria saber que você e Sara já não estão mais juntas. — Pausa — Agora, me diz, se está tudo bem entre você e Sara, por que infernos você está tão mau humorada?
Se eu estava pressionando onça com vara curta? Sim. Se eu iria me arrepender disso mais tarde? Provavelmente. Mas eu conseguia parar? Não.
Nyssa era uma das poucas pessoas em Lian Yu que eu poderia chamar de amiga com a maior convicção do mundo, logo me preocupava quando tinha algo a aborrecendo ao ponto de deixá-la com cara de poucos amigos.
Ela estreitou os olhos.
— Acredite quando digo: você vai descobrir logo o que infernos está me incomodando.
Por que eu tinha a sensação de que eu não iria gostar nada disso?
Como se detectasse problema no ar, Curtis caminhou até nós segurando uma...corda? Foi impossível não chegar um pouco mais perto de Nyssa, atrás de proteção.
O que aquele maluco tava aprontando?
— Curtis, por que você tem uma corda na sua mão? — Quis saber, tenebrosa. Minha mente já começava a fazer mil planos para fugir ao primeiro sinal de homicídio à vista.
— Pra matar Rene. — Respondeu, com a voz sem emoção, enquanto começava a rodar uma ponta da corda. A cena teria me arrancado uma risada — por ser tão ridícula-, caso eu não estivesse tão ocupada tentando checar discretamente minha calcinha.
Ela estava borrada?
— Você não tá falando sério, né?! — Berrei, incapaz de me controlar por mais um segundo.
Num minuto ele estava me encarando, completamente sério; e no outro, seus ombros tremiam, enquanto ele soltava uma gargalhada estrondosa. Até Nyssa havia se juntado a ele!
— Socorro racha do sertão, não acredito que você caiu nessa! — Exclamou Curtis, ainda sem fôlego, rindo horrores. — Acha mesmo que sou uma bicha burra??? Na cadeia não tem rosa! E rosa é a minha cor, todos sabem!
Oliver escolheu esse instante para dar as caras.
— É verdade, rosa é a cor dele. — Falou, apoiando o seu braço ao redor dos meus ombros, na maior naturalidade.
Engoli em seco ao sentir o seu toque. Por que ele estava fazendo isso? Como o esperado, ele estava impecável vestindo um jeans e uma blusa polo que gritava "EU SOU RICOOOO". Seu rosto sexy também ajudava no look destruidor-de-lares. Era questão de tempo para eu começar a hiperventilar com aquele homem ainda apoiado em mim.
— Ahn, uh, er...Oi Oliver. — Saudei, mais gaga que Lady Gaga cantando o fim do refrão de Poker Face.
Ele me olhou, com os olhos risonhos.
— Olá, Felicity. Está tudo bem? Espero que você tenha tido uma ótima noite de sono.
Ele...estava flertando COMIGO? Oh santinha das taradas!
Não era só eu quem estava boba com aquela demonstração de intimidade em público. Curtis também.
— Nossa, você pegou mesmo o tesudão. — Ele comentou, impressionado. Se eu pudesse cavar um buraco e me enfiar nele, cavaria. — Tô passada bicha, pensei que tivesse sido algum delírio da sua mente.
É ele quem tem a mente despirocada e sou eu quem acaba sendo a iludida? Te contar viu!
Sem saber o que dizer para Curtis, guardei silêncio, aguardando um milagre acontecer para fazê-lo desaparecer da minha frente.
— Controle-se, Curtis. — disse finalmente Nyssa, provavelmente sabendo que eu estava a dois passos de surtar.
Com medo do que poderia acontecer com ele, Curtis se calou. Era incrível como o maluco morria de medo da Nyssa, mas na primeira oportunidade rugia para o vento que cedo ou tarde, se consultaria com ela para saber sobre seu destino com o oncinha (Rene). Fracote.
— Isso Curtis, controle-se. — Oliver repetiu com a voz macia. Me arrepiei toda. Como um macho desses conseguia ser real? — É feio ficar falando do relacionamento alheio.
É isso ai mesm- Pera aí, o quê?!
Engasguei.
— RELACIONAMENTO? — Curtis abriu a bocona rapidinho, ignorando completamente Nyssa. — QUE RELACIONAMENTO?
Era a primeira vez que eu queria Oliver respondendo alguma pergunta de Curtis.
— O meu e de Felicity. — Respondeu preguiçosamente, ainda apoiado em mim. Seu cheiro começava a me inebriar, o que causava uma tremedeira maluca em minhas varetinhas, vulgo pernas. — Ainda não sei como nomea-lo, mas definitivamente temos algo.
Oh meu Deus, oh meu Deus, oh meu Deus! Eu não iria começar a dar pulinhos histéricos, eu não iria.
— Ihh, começou o show de horrores. — Ouvi a voz debochada de Curtis, enquanto eu, uma completa adulta, começava a mexer os calcanhares.
Ok, deixa pra lá não começar a dar pulinhos histéricos feito uma criança num parque de diversões. Tava louca para comemorar minha vitória, espalhar a notícia para todos já não bastava.
— Até parece que você não teria a mesma reação. — Grunhi, ainda mexendo os pés loucamente.
Ele virou o rosto, emburrado.
— Fico contente por saber que você não está mais fugindo do inevitável. — Nyssa comentou, enviando um olhar astuto para Oliver.
— Felicity é uma força da natureza. — Disse ele, apertando um pouco mais o meu ombro e fazendo minha calcinha pegar fogo. Se só com essa parte do corpo ele conseguia me derreter, imagine na hora do vamo ver??? Ok, foco Felicity. — Cansei desse jogo de ping pong, o que será, será.
— E será uma putaria daquelas se a Felicity continuar te olhando como o último pedaço de carne no mundo.
Devo dizer quem falou isso? Com um rosnado me livrei do braço de Oliver sobre os meus ombros e parti para dar na cara daquele viado sem noção. Esqueçam da nossa parceria! Não precisava mais da ajuda dele mesmo.
— Ei, ei, ei. — Oliver me puxou pelo cós de minha blusa, impedindo que o milagre na terra ocorresse. — Não vamos causar uma cena logo hoje.
Poxa, eu só queria fazer um favor para humanidade!
— Isso, racha! Escuta o bofe! — Curtis gritou, se escondendo atrás de Nyssa. — Lembra que hoje é dia de festa, não de funeral!
Contando de um até dez, tentei controlar minha ânsia de chutar aquele pentelho perdido para longe. E quando pensei que isso não seria possível (controlar minha raiva), Slade chegou, com aquele seu típico andar estranho onde dava a impressão que tinha uma perna mais longa que a outra.
— Ora, veja só quem encontrei por aqui! — Sladeloki já exibia aquele seu sorriso perigoso. — A turminha do barulho.
Ai que nome brega.
— Turma do barulho? — Visivelmente já recuperado, Curtis saiu de trás da Nyssa, todo pomposo. — Homem, se você acha que isso aqui é fazer barulho, é porque nunca me encontrou no particular.
Ah, meu Deus...Curtis estava realmente dando em cima de Slade? LOGO SLADE?!
Inabalável, o sorriso perigoso continuou no rosto da Praga 1 (Slade) enquanto observava a Praga 2 (Curtis) intensamente.
— Você é bem inconveniente, não? — Ele finalmente disse, numa voz baixa e divertida. Apostava que Curtis já estava louco para pular em cima dele.
— Ai docinho, pode apostar! — Confirmou, extremamente animado para quem estava ao ponto de levar um chute na bunda. — Sou tudo que começa com in: Inconveniente, instigante, incomum e inabalável!
— Esqueceu o indecente. — Murmurei.
Os olhos dele ergueram-se até os meus, afiados.
— Não só eu, né queridinha? Se me recordo bem, encontrei esses dias no seu quarto uns li-
— Ou, pera aí! — O interrompi, desesperada. — Retiro o que eu disse! Não precisa me atacar não.
Oliver soltou uma gargalhada.
— Ah, Felicity! Até parece que ninguém sabe dos seus livrinhos indecentes.
É O QUÊ?!
Nyssa também riu, se juntando à minha humilhação pública:
— Você não os esconde bem e Sara tem uma boca grande.
Morri, é isso.
— Alguém se importa em me explicar? — Slade de repente perguntou, apontando um dedo na minha direção e de Oliver.
Só aí notei que ele ainda segurava firmemente o cós da minha blusa, numa proximidade bastante suspeita. Fiquei em estado de alerta rapidinho.
— Explicar o que? — Me fiz de desentendida, não disposta a dar material para o maior fofoqueiro de Lian Yu.
Com os olhos semicerrados, ele olhou de mim para Oliver lentamente, até franzir a testa em...reprovação? Que diabos estava passando na mente daquele lunático? Preocupação salpicou na minha pele feito sal.
— Oh Oliver, eu disse para você ficar longe dessa pirralha.
Pisquei os olhos.
— Perdão? — Eu só poderia ter escutado errado.
Me ignorando completamente, Slade estalou a língua nos dentes e balançou a cabeça negativamente, ainda encarando Oliver.
— Garoto, eu falei que se meter com ela só lhe traria problemas.
AH, NÃO!
Não perdi tempo, avancei pra cima do gigante, com toda a intenção do mundo de afundar a cara dele, mas mais uma vez, meu garanhão impediu da tragédia ser feita, ao me segurar pelo cós da minha blusa novamente.
Acho que eu teria que ficar peladona pra ele me impedir de fazer alguma coisa...
— Eu gostaria que você tentasse isso, Felicity, pode ser interessante. — Era a voz de Oliver, cheia da malícia e diversão. — Imagino onde vou poder segurá-la para mantê-la quieta.
OHMEUDEUS! EU HAVIA FALADO AQUILO EM VOZ ALTA!
Congelei, mortificada. Por que minha língua conseguia ter vida própria nos piores momentos????? POR QUÊ?
— THIS. GIRL. IS. ON FIIIIIIIIIIIIIIIIRE. — Curtis gritou subitamente, empinando a bunda na direção do MEU garanhão. Bastou seu surto para me fazer acordar do meu torpor induzido pela semi-humilhação.
Claramente não fui a única atingida pela onda de calor proporcionada pelas palavras do Sr. Tesão.
— Curtis, cala a boca. — Estreitei os olhos — E Slade, tente não se meter na minha vida.
Arrogante, ele levantou uma sobrancelha diante meu tom autoritário.
— Me meter na sua vida? — Teve a audácia de soltar uma risadinha prepotente. — Oras, Felicity! Parece até que você está tentando me chamar de Donna Smoak, sabe, SUA MÃE, aquela mesma que ADORA ouvir TUDO sobre sua vida e se meter em CADA decisão. — Um sorriso selvagem apareceu no seu rosto, fazendo minhas mãos suarem. — O que me faz pensar...Ela tá sabendo dessa sua aproximação com Oliver?
Meu coração começou a bater de forma irregular, só de imaginar um cenário onde Donna Smoak ficava sabendo do meu não-oficial-e-não-nomeado-relacionamento com Oliver. Ela causaria um estardalhaço e sem sombra de dúvidas, espantaria Oliver para bem longe num piscar de olhos!
Mamãe era maluca de pedra.
Em pânico, olhei para Oliver, atrás de alguma ajudinha básica. Como eu deveria conduzir essa situação? Blefar? Pedir de joelhos pra Slade não abrir o bico perto de Donna? Matá-lo?
Ignorando o primogênito de satanás, Oliver me lançou um sorriso tranquilizador.
— Não se preocupe, Felicity. Sua mãe a essas horas já sabe de tudo, uma vez que você fez questão da notícia chegar até os ouvidos de Tommy.
Oh, merda.
— FELICITYYYYYYYYYY!
NÃÃÃÃÃOOOOO!!!
Como se só para concretizar o meu pesadelo, Donna apareceu no horizonte de braços abertos e correndo na minha direção, atrás dela se encontrava um Tommy risonho. O traidor havia contado a novidade.
Mil vezes merda!
— Por que essas coisas só acontecem comigo?! — Resmunguei, pé da vida.
Oliver me olhou descrente. — É sério que você não sabe?
Revirei os olhos.
— Foi uma pergunta retórica. E você deveria ficar do meu lado, aliás.
Imaginei que ganharia uma réplica, mas ele apenas riu e deu de ombros. Era incrível o quão bem humorado Oliver podia ficar após um beijo.
Aflita, percebi que minha mãe se aproximava cada vez mais, e como sou uma pessoa madura...
— Hey Oliver — Virei para o meu garanhão e estalei um beijo rápido na bochecha dele, o surpreendendo. —, te encontro hoje a noite no festival!
...Corri na direção oposta. Eu que não teria aquela conversa constrangedora com Donna Smoak na frente de testemunhas altamente duvidosas.
(...)
No final, fazer Donna Smoak desistir de me perseguir quando havia inúmeros coroas solteirões ou viúvos de visita a Lian Yu, foi uma tarefa pra lá de fácil...Difícil mesmo era tentar encontrar o look perfeito para ir até o festival. Ao mesmo tempo em que queria impressionar Oliver, também queria encontrar a roupa socialmente aceitável. E sim, minha ideia de impressionar incluía somente uma calcinha e sutiã, por isso meu dilema.
— Eu se fosse você, me vestiria pronto para ser desembrulhado.
E Curtis não estava ajudando em nada.
— Não, não acho que essa seja a melhor tática. — Thea negou. — Você deve fazer um cara imaginar o que tem por baixo dos panos.
Nem parecia que estávamos falando do irmão dela.
Pegando um vestido relativamente novo, virei na direção de Laurel, que estava sentada na minha cama.
— Laurel, o que você acha?
Até onde eu sabia, ela foi a única conquistar Oliver (por um curto período de tempo) naquele quarto. Se pudesse, pediria a opinião de Sara, mas a mesma nesse momento, estava na cabana de Nyssa, também se preparando para o festival. Portanto...
Esperei por sua resposta.
— Acho que Oliver vai gostar de qualquer roupa que você vestir. — Disse ela, com cuidado. — Ou não vestir.
Franzi o cenho, notando que ninguém estava me ajudando muito. Não queria palavras delicadas, queria a verdade nua e crua. Agora que mantinha o interesse de Oliver, pretendia mantê-lo para sempre no meu radar e em consequência, em Lian Yu.
Faria o possível para manter meu garanhão justamente aqui. Ele era meu.
— Bem, se você quiser eu posso te emprestar uma roupa. — Thea disse de repente, chamando minha atenção. Seu olhar transmitia que ela me entendia.
Sorri, timidamente. Finalmente alguém dentro daquele quarto me compreendia, o pensamento era reconfortante.
— Eu gostaria sim, por favor.
Não era hora de recusas, precisava usar todas as minhas armas disponíveis para nocautear Oliver Queen.
— Ah, não! — Curtis pulou para fora da cama. — Se é assim, eu também quero uma de suas roupas de grife emprestada! Não é só a sirigaita do sertão que pode ter essa mordomia não!
Me diga novamente: Por que eu escolhi justamente Curtis para ser o meu bode expiatório?
Thea fez uma careta.
— Se você encontrar alguma roupa minha que te sirva, considere sua.
Eu ri diante o seu desafio injusto. Curtis era simplesmente dois dela, logo ficava óbvio para qualquer um, que nenhuma de suas roupas caberiam nele.
— Desafio aceito, tampinha.
Resignada, Thea foi até a sua mala, abrindo-a e escolhendo peças aleatórias para nos mostrar. O processo durou por longos minutos — onde Curtis soltava gritinhos histéricos quando via alguma peça da Gucci ou Versace, e eu fingia não surtar internamente -, até eu identificar algo interessante no meio daquele emaranhado de roupas.
— Por que você tem uma pedra no meio de suas coisas? — Perguntei curiosa, olhando o objeto se destacar no meio de todo aquele caos.
Seu formato era atípico, parecido com uma ponta de flecha.
Thea riu, perguntando a pedra.
— Ah, essa pedra tem uma história interessante. Oliver e papai haviam viajado juntos de férias e eu fiquei para trás com mamãe, pois eu tinha contraído catapora. — Ela revirou os olhos com a lembrança — Fiquei tão chateada que ameacei nunca mais falar com Oliver. Quando ele voltou de viagem, me deu essa pedra falando que o significado do nome dela, hōzen, significava reconectar. Foi seu pedido de desculpas, na época eu tinha doze anos.
Me aproximei um pouco e ela me ofereceu a pedra. Achei toda essa história até que um pouquinho...fofa. De todas as coisas do mundo que Oliver poderia oferecer como um pedido de desculpas, ele decidiu por dar uma pedra com um significado enorme para a irmã.
De repente encontrar a roupa perfeita para o impressionar, se tornou fácil.
— Thea, obrigada por oferecer suas roupas, mas acho que não serão mais necessárias. — Falei decidida, devolvendo a pedra.
— Mulher, você ficou maluca??? — Curtis me olhou como uma cabeça tivesse crescido no meu ombro — Como assim recusar roupas de grifes??? Tinha que ser pobre!
Contando de um até dez, me segurei para não avançar naquele viado abusado.
— Curtis, não seja cruel com Felicity. — Laurel se meteu, enviando um olhar de aviso para Curtis.
— Olha, eu só vou atender o seu pedido porque sei que você é advogada do diabo. — Rebateu o sem vergonha, torcendo o nariz. — E eu não quero ser preso.
Ignorando completamente Curtis, me dirigi novamente até o meu guarda-roupa, o vestido meio vintage (porque ele não era nem tão velho mas nem tão novo, e eu queria chamá-lo dessa maneira) iria servir. Enfim contente com a minha escolha, me dirigi até o banheiro, fazendo pouco caso do olhar incrédulo que Curtis lançava para o meu vestido escolhido. Provavelmente na sua cabeça eu era alguma louca por ter recusado as roupas perfeitamente caras de Thea.
Tomando o meu tempo, vesti o meu vestido, pus minhas botas de cowgirl e soltei meus cabelos rebeldes. Por mais atraente a ideia de ir ao natural fosse, optei por passar um blush básico e um batom clarinho, para não ficar tão espalhafatosa ou tão apagada. Óculos fora e lentes dentro, saí do banheiro e fui em direção ao meu quarto, esperando não encontrar um cenário terrível uma vez que deixei Curtis, Thea e Laurel sozinhos.
Bem, não encontrei um cenário tão...terrível. Encontrei apenas um cenário onde Curtis estava deitado na beirada da minha cama, de cabeça para baixo, lendo um dos meus famosos romances.
MERDA!
— Você quer largar o meu livro?! — Avancei na sua direção, tomando minha preciosidade de suas mãos.
Tinha certa urgência em encontrar um local mais apropriado para esconder meus tesouros.
— Ah, pelo menos dessa vez você não nega que tem livros eróticos. — O desgraçado teve a audácia de comentar, com um sorriso lascivo.
Poxa, eu definitivamente iria terminar minha aliança com Curtis ao afundar a cara dele em esterco de cavalo, juro.
Detectando treta no ar, Laurel decidiu se intrometer:
— Agora que Felicity está pronta, que tal já irmos para o festival? Aposto que os caras estão impacientes nos esperando lá.
— Laurel tem razão. — Thea ajudou — Conhecendo Roy como conheço, a essas horas deve estar cavando um buraco no chão de tão impaciente ou...aprontando com Tommy.
Laurel pareceu estremecer apenas com a ideia. Eu também.
A combinação festival, cavalos, rodeios, Roy e Tommy, não parecia promissora. Na realidade...
— É melhor irmos logo. — Declarei, jogando meu livro em cima do meu guarda-roupa e apressando o passo em direção à porta.
Deus, eu tinha a sensação que esse festival prometia muitas emoções.
(...)
— PUTA MERDA!
Essa foi a reação de Curtis ao chegar no local onde ocorria o festival e pra ser bem sincera, foi a minha reação também. O ambiente estava todo decorado com luminárias em formato de balões, barraquinhas de comidas estavam espalhadas, um parque enorme havia sido montado para a diversão das crianças e pra completar o cenário, a área de rodeio estava pronta e a todo vapor.
Conseguia enxergar de longe cowboys prestes a montar no touro e a multidão ir ao delírio. Óbvio que foi fácil encontrar Tommy bem no meio deles.
— Pressinto desastres. — Foi a única coisa que Laurel murmurou antes de marchar em direção ao seu marido problemático. Eu ri com a cena.
Conhecendo Tommy, até o final daquela noite, ele já teria feito Laurel ter dois derrames.
— Caraca minha garota, você tá lindona!
Ah, não!
Gemendo, olhei para a criatura que me daria derrames durante esse festival. Parado na minha frente, estava Akio, vestido feito um cowboy, usando chapéu e tudo.
— Akio, onde está a sua mãe? — Perguntei, louca para tirar o pirralho do meu pé.
Era incrível a capacidade de Tatsu "perder" o filho de vista constantemente. E não, eu não estou a julgando. Se eu tivesse um filho igual Akio, o perderia para sempre de vista. Mas o triste era que quando isso ocorria, ele dava jeito de aparecer bem diante DA MINHA PESSOA.
— Mamãe está em algum lugar por aqui conversando com tio Barry.
Ótimo, isso queria dizer que a mãe da criatura das trevas estava por perto.
— E onde está tio Barry?
— Em algum lugar conversando com a minha mãe.
Eu vou matá-lo.
Avancei na sua direção, pronta para arrancar a localização de Tatsu, quando notei que bem atrás dele, tinha uma garotinha de cabelos ruivos desgrenhados, usando um vestidinho e o admirando como se ele fosse alguma espécie de super herói.
Franzi o cenho. Seria possível alguém sentir uma paixonite aguda por Akio?
— Ei Akio, qual é o nome da sua amiguinha? — Questionei, super interessada. Aquela pequena borboletinha poderia me salvar de Akio. Pelo menos por algumas horinhas.
Como se notasse sua presença só agora, ele olhou para trás, confuso.
— Ah, essa é a Emmylou Hayes. — Após algum tempo ele respondeu, não parecendo nenhum pouco animado. Senti pena da garota. — Ela é uma colega de classe.
Tímida, ela me cumprimentou com um sorriso e aceno de cabeça. Puxando na minha mente recordei que os Hayes era uma família grande e próspera de Lian Yu. Se Akio parasse de ser um pirralho teimoso, quem sabe não enxergasse o que o futuro estava reservando pra ele ao lado dessa garota?
— Prazer em conhecê-la. — Pisquei na sua direção — O que estão fazendo por aqui? Por que não estão no parque aproveitando toda a diversão? — Virei para Akio, tentando ser simpática. — Aposto que sua amiga gostaria de um algodão doce.
E essa não era eu definitivamente tentando me livrar de Akio.
Com uma expressão de puro desinteresse, Akio balançou as mãos. — Ela não é a minha amiga, só uma colega de classe. Não se preocupe, ela pode comprar o próprio algodão doce sozinha.
— Wow! — Curtis exclamou abismado, olhando Akio. — O filhote de satã consegue ser cruel até com criancinhas indefesas. Tá merecendo um chute nas bol-
— Curtis! — O cortei antes que fosse tarde demais. — Aposto que Akio não quis dizer isso, certo Akio?
Pelo meu olhar intenso, esperava que ele captasse não existir outra resposta além de "Certo, tia Felicity".
Mas como toda a espécie de cromossomo y nesse planeta só existia para me contrariar...
— Errado, eu quis dizer cada palavra. — Retrucou petulante — Emmylou pode se virar, prefiro ficar aqui com a minha Felicity.
Meu Deus, aquele pirralho estava tentando marcar território.
— Sua Felicity? — Soltei exasperada — Eu não sou sua Felicity.
Atrás de mim conseguia ouvir a risada de Thea, achando tudo isso muito engraçado. Hahahaha, isso porque não era ela tendo que lidar com um tampinha apaixonado por você. Estreitei os olhos, achando o humor negro dos Queen pra lá de inconveniente no momento.
— Olha Felicity, eu vou acabar não te amando mais ein. — O tampinha ameaçou, todo sério. Tive que rir.
— Sim, por favor, pare. E aproveite para sair com a sua amiguinha Emmy.
Como se pressentisse que o caldo iria entornar, Tatsu surgiu ao lado de Barry e assim que viu Akio conversando comigo, correu imediatamente na direção do filho. Certamente sabia que ele estava me apurrinhando.
— Akio Yamashiro, como você se atreve a fugir de mim enquanto estava distraída conversando com Barry?
Epa que o caldo definitivamente iria entornar!
Fingindo um sorriso inocente, o mini capeta fitou a mãe. — Eu fiz isso? Mamãe, eu jamais faria isso contigo! É que eu vi a Felicity e vim correndo até ela, foi automático.
Ai que fingido, me usando como desculpa!
— Confesso que ele consegue ser mais criativo que Oliver na idade dele. — Thea comentou divertida, cruzando os braços, enquanto observava a cena.
Me interessei.
— Oliver costumava aprontar muito?
Thea arqueou a sobrancelha. — Esqueceu quem é o melhor amigo dele? Bastava Tommy o desafiar a fazer qualquer coisa, que ele fazia. Oliver sempre detestou ser desafiado.
Hmm, interessante.
— Também sempre detestei ser motivo de fofocas no círculo de amizades da minha irmãzinha.
Feito mágica, Oliver surgiu do meu lado, jogando o braço em volta do meu ombro e me puxando na sua direção. De novo. Oh Deus, eu poderia me acostumar com isso.
Ignorando completamente os olhares de Barry e Akio, Oliver me estudou por alguns segundos, até soltar um sorriso maroto e declarar em alto e bom som:
— Srta. Smoak, você está muito bonita nessa noite.
Dispensável dizer que um sorriso bobo começou enfeitar o meu rosto, né?
— Obrigada, você também. — Disse, reparando na roupa que ele usava. Julgava que o homem seria impecável até vestindo uma manta!
— Ai, tô ficando roxo de inveja! — Curtis se manifestou, nos fitando com nojo. — Até a ralé conseguiu um bofe e eu nada, maldita onça traidora!
Falando em Rene...Olhei ao redor, à procura do dito cujo. Estava curiosa em descobrir quem era a tal mulher que Curtis o havia visto junto, mais cedo.
— Rene está na arena de rodeio junto com Tommy. — Oliver respondeu minha pergunta silenciosa, indicando que ele estava mais sincronizado comigo que eu imaginava.
— Sabia que esse desgraçado tava montado em alguma coisa. — Aloprado se meteu, abanando as mãos. — Bem típico dele.
Bufei.
— Você fala como se o conhecesse há anos e não por meses.
O doido resfolegou, ofendido:
— Vai me atacar agora é? Você deveria estar do meu lado!
Abri a boca, pronta para me defender desse ataque, quando Akio foi mais rápido:
— Ei cara! Pode tirando as mãozinhas da minha gata! — Gritou, olhando Oliver como se a qualquer momento fosse lhe acertar dardos pelos olhos. — Que intimidade toda é essa? Aqui não se respeita mais o amor dos outros não?!
Ai, era só o que me faltava...
Com um pedido de desculpas sem graça, Tatsu começou a rebocar Akio para longe — enquanto ele ainda protestava a plenos pulmões o quão injusto era tudo isso -, Emmylou seguiu eles em silêncio. A garota definitivamente tinha uma queda pelo moleque.
Após um longo silêncio, Oliver me olhou com um sorriso sugestivo.
— Então Felicity, você gostaria de dançar comigo?
Pisquei, atordoada. Seus olhos estavam sérios mas sua boca exibia aquele sorriso que me fazia ter dúvidas da veracidade da pergunta.
— Você está realmente me perguntando isso? — Quis saber, sabe, só para não me envergonhar desnecessariamente na frente de Barry...Ou de Thea. E Curtis que se dane.
— É claro que estou. — Respondeu ele, mexendo as sobrancelhas.
E bem, digamos que sua resposta fez meu coração disparar e minhas mãos estremecerem. OLIVER QUEEN QUERIA DANÇAR COMIGO!!! ALGUÉM ME SEGURAAAAA!!
— Aw, que bonitinhos! — Thea bateu palminhas, toda contente em ver seu irmão investindo na minha pessoa. Eu também estava. — Vão logo dançar e esqueçam da gente!
Como se ela precisasse falar duas vezes...Sem cerimônias, Oliver me puxou em direção a pista reservada apenas para dança que contava com a mesma iluminação do festival mas com a sútil diferença que nas extremidades da pista, continha todas as espécies de flores para enfeitar o ambiente.
Alguns casais já dançavam ao som de uma música country antiga mas que não falhava em agitar a galera. Novamente, olhei em dúvida para Oliver. Será que ele sabia dançar esse tipo de música?
— Sua fé em mim é comovente.
Ops, parece que não apenas pensei o meu último pensamento.
Sem graça, encarei o Sr. Tesão.
— Desculpe, mas eu não consigo imaginar você dançando alguma música country por aí.
Um brilho presunçoso apareceu em seus olhos e SENHOR, ACHO QUE MOLHEI MINHA CALCINHA.
— Oh Felicity, acredite quando digo que eu já dancei de tudo nessa vida.
Por que eu tinha a impressão que ele estava falando sujo comigo?
— Tudo bem, então me mostre seus movimentos Sr. Queen. — Flertei de volta pois não sou menina besta.
Com uma confiança invejável, Oliver me guiou até a pista de dança e como se estivesse em seu elemento natural, começou a dançar feito um cowboy raiz, muito confortável em sua própria pele. É claro que sua confiança foi o suficiente para me soltar e antes que eu percebesse, estávamos os dois rindo ao mesmo tempo que inventávamos novos passos.
— Essa música¹ combina contigo. — Ele disse com uma piscadela, colocando uma mão atrevida (mas MUITO bem vinda) um pouco acima da minha bunda. Se ele escorregasse ela mais um pouquinho...
Revirei os olhos, prestando atenção na letra da música.
— Eu não sou tão ruim assim. — Resmunguei, apoiando minhas mãos em volta do pescoço dele.
Após tanta perseguição, era bom poder ter liberdade o suficiente para ficar nessa intimidade com ele.
Ele não falou nada, apenas sorriu pra mim, me fazendo ter certeza absoluta de que teria um sério caso de Niagara Falls² na minha calcinha após esse festival.
Quando por fim a música terminou, eu e Oliver tomamos fôlego para mais outra rodada de dança e flerte, quando INFELIZMENTE, o carma da minha vida destruiu todos os meus planos:
— Roceira, você precisa vir comigo agora! — Curtis já chegou me puxando pelo braço.
— Até parece que você está me dando alguma opção aqui. — O olhei atravessada, tentando soltar meu braço.
Poxa, será que eu jamais teria um momento de paz com o meu Garanhão?!
Meu plano até o final dessa noite consistia em o arrastar até um arbusto e lhe dar uns amassos épicos, que o fariam ficar tão desnorteado, que no final nós dois teríamos que ir até a igreja pedir absolvição pelos nossos pecados.
— Se você sabe disso, então porque está tentando resistir? — Ele rebateu indignado, me puxando com mais força ainda.
Sem mais escolhas, larguei o braço de Oliver — que estava me servindo de âncora -, e com um pedido de desculpas me afastei dele, que nos observava com um sorriso sacana no rosto.
Não entendia o bom humor dele em ver saindo com Curtis...Quer dizer, que graça tinha em perder uma ótima companhia como eu para ficar sozinho num festival? Torci o nariz, começando a suspeitar. O que o Queen estava querendo aprontar?
(...)
Caramba, Curtis estava certo!
Rene definitivamente estava ao lado de uma mulher.
Boquiaberta, estudava meu amigo, por trás de um panfleto idiota sobre esses fanáticos religiosos que sempre diziam que o fim estava próximo. Mas julgando o novo status de Rene...talvez esse pessoal tivesse um pouco de razão.
— Ah, mas eu vou enfiar o cacete nesse traidor, ah se vou! — Curtis murmurava do meu lado, também escondendo o rosto atrás de um panfleto, ao mesmo tempo em que espiava sua oncinha. — Tá vendo roceira? Eu te falei! — Cutucou o meu braço de maneira rude, fazendo-me soltar um rosnado que foi ignorado com sucesso. — Preciso me vingar desse bandido.
Elevei uma sobrancelha, agora muito mais interessada que antes. Ferrar com Rene sempre tinha um espaço na minha agenda.
— O que você pensa em fazer com ele?
Exibindo um beicinho tosco, Curtis elevou um dedo até o queixo, pensativo. Ficou nessa por uns bons segundos, até um brilho cruzar o seu rosto.
— Ah, já sei! — Gritou, jogando o panfleto de lado e começando a mexer no bolso da calça verde escandalosa. Receosa, observava a cena entre a vontade insana de correr para longe ou assistir tudo de camarote.
Optei pela última opção.
Tirando um frasquinho suspeito do bolso, Curtis me encarou com um sorriso malicioso. Demorou alguns segundos até eu identificar o que era, mas quando o fiz...Resfoleguei, de olhos arregalados.
— Eu não acredito que você anda por aí com isso, Curtis!
O viado só podia estar afim de matar alguém!
Ele me olhou com uma expressão petulante. — É claro que eu ando com isso por aí, nunca se sabe.
Nunca se sabe o que? Quando ele vai pirar o cabeção e decidir assassinar alguma pessoa?!
— Isso não vai prestar. — Falei, na esperança de fazê-lo desistir daquela loucura. Mas é claro que ele nem se abalou.
— Ih, relaxa roceira, vou usar um pouquinho só. E olha como sou legal, vou esperar ele montar no touro, fazer seu showzinho e aí sim atacarei. Não quero ficar viúva nem tão cedo!
Ok, vendo dessa forma, até que seu plano de ação era razoável...Afinal, ele não pretendia matar Rene. Aparentemente o pó de mico só seria jogado sobre o meu amigo, quando ele vazasse do touro. Aprumei os ombros, estava ok com isso.
— Tudo bem, como faremos isso?
Feliz por eu ter concordado com a sua loucura, Curtis bateu palminhas, super excitado.
— Vamos nos aproximar do alvo e jogar o pó dentro do chapéu dele.
Espionando mais uma vez por detrás do panfleto, estudei o perímetro e não pude segurar o suspiro satisfeito ao constatar que chegar perto de Rene, sem levantar suspeitas, seria mais fácil que o imaginado. Tommy e Laurel estavam sentados com ele, numa conversa animada. A suposta namorada continuava quieta do lado oposto dele, assistindo tudo com um sorriso complacente no rosto.
Hm, interessante.
— Entendi, mas como fazemos isso sem levantar suspeitas? — Perguntei, não querendo margem de erro nesse plano. — Rene só tira esse chapéu quando...
Opa.
— ...quando monta. — O safado completou por mim.
Num é que a bicha era esperta? Só deixaria Rene montar aquele touro porque sabia que o bestão não poderia subir nas costas de um touro usando chapéu, não por preocupação em acabar matando o coitado no ato. Estreitei os olhos, Curtis era mais perigoso que aparentava...Deveria tomar cuidado com ele.
Sem escolha (mentira, eu tinha várias), dei as honras ao aloprado e o deixei guiar nosso caminho até a turminha da fofoca e a vítima da nossa próxima picuinha. Pra ser honesta, o plano era tão simples e limpo, que eu não achava que ele poderia dar errado.
Doce engano.
(...)
— Eu nunca mais quero sair desse lugar! — Tommy falava animado igual pinto no lixo.
O cara tava completamente encantado e alucinado pelo festival. Foi inevitável não exibir um sorrisinho conhecedor. Lian Yu podia ser pacata e chata, mas quando era dia do famoso festival...
— Até parece que você conseguiria sair daqui de qualquer jeito com esse seu status de playboy falido. — Curtis debochou, sentadinho no seu assento ao lado do ex playboy.
— Ai, que agressão é essa?! — Tommy levou uma mão até o coração, fingindo dor. — Poxa Curtis, pegou pesado agora. Ainda não superei meu passado.
— Pois acho bom você o superar logo. — Laurel se manifestou, lhe enviando um olhar mortal. — Ele te condena.
Balancei a cabeça em acordo, mesmo não abrindo meu biquinho de pombo para entrar nessa discussão.
Ofendido, Tommy trocou um olhar com a esposa. — Ah é? Só eu que tenho um passado que condena agora?
Rene fez uma careta.
— Cara, se eu fosse você não iria por esse caminho.
E eu se fosse ele, sairia correndo para longe de Curtis o mais rápido possível. Seguindo a trama do aloprado, nos aproximamos na maior cara de pau, puxamos assunto, descobrimos que o nome da "nova amiguinha" de Rene era Dinah — estava recém chegada em Lian Yu, não sabia ainda se o seu lance com Rene era coisa de guia turístico ou pintou um clima -, e que logo mais ele montaria no touro, deixando seu chapéu de bobeira para Curtis jogar o pó de piripipim.
— Escute Rene. — Finalmente me manifestei, ganhando alguns olhares incrédulos. Tudo bem, eu entendia. Era raridade eu concordar com qualquer coisa que Rene falasse. — Sua mulher é uma advogada e filha de policial, tem certeza que quer provocá-la?
Relembrando esses fatos, Tommy estremeceu e sabiamente, decidiu se manter de bico calado. Esse tal Sr. Lance deveria tocar o terror mesmo viu.
Para a nossa sorte (minha e de Curtis, a dupla das bestagens), Rene foi chamado para montar no touro e sem perder tempo, Curtis fez sinal para eu distrair Laurel, Dinah e Tommy. Apesar de não precisar distrair esse último nenhum pouco. Tommy já estava em êxtase assistindo Rene tentando se matar nas costas de um touro.
Realmente, não entendia o apelo que os homens viam em fazer esse tipo de coisa...Era por essas e outras que eu não sentia pena quando um cara era atingido por algum touro. Eles simplesmente procuravam por isso.
Seguindo o plano, comecei a distrair Dinah e Laurel como uma conversa pra lá de suspeita, enquanto pelo canto dos olhos, notava Curtis roubar o chapéu de Rene e tirar do bolso o pó e...uma cola? O maluco iria jogar cola dentro do chapéu pro pó grudar? Puta merda!
— ISSOOOO!!! — Tommy berrou de repente, fazendo o aloprado do Curtis quase jogar o chapéu pra longe.
Atônita, olhei na mesma direção que Tommy berrava e não fiquei impressionada por ver Rene sendo jogado no chão pelo touro. A plateia vibrou com a cena, soltando gargalhadas e outros batendo palmas, deixando claro que a performance de Rene foi legal.
Revirei os olhos.
— Homens. — Dinah bufou.
Concordei com ela.
Todo sujo de terra mas com um sorrisão na cara, Rene se encaminhou até nós. Essa foi a minha deixa e a de Curtis para levantar o traseiro e sair o mais rapidamente possível daqui, antes que a merda acontecesse e Rene desconfiasse da gente.
Mas não fomos longe demais na nossa fuga, já que no meio do caminho, encontramos Thea, Roy e Oliver caçando por alguns assentos para assistirem o rodeio. Meeeeerda!
— Eu não sabia que você fazia o tipo que gostava de assistir essas coisas. — Mais acusei que falei, quando Oliver me viu.
Nada intimidado com o meu tom, o Sr. Tesão abriu um sorriso que fez meu estômago revirar. Ah, aquele sorriso...
Dane-se o plano idiota de Curtis, se aquele homem queria assistir um rodeio, eu provavelmente seguraria a mão dele e assistiria toda essa merda.
— Eu não faço. — Respondeu, num tom macio. — Mas Tommy faz.
— E Tommy ainda vai entrar nessa competição idiota. — Thea acrescentou.
Franzi o cenho. Tommy iria montar um touro?
— O playboy falido vai montar também? — Curtis se intrometeu, já rindo. — Eita, não sabia que ele também gostava de montar numa coisona!
Idiota pervertido.
— Tommy adora. — Roy entrou na zoação de Curtis — Adora tanto que resolveu provar suas habilidades aceitando um desafio feito por Rene há algum tempo atrás.
Por que isso começava a cheirar mal?
— Que desafio? — Quis saber, tenebrosa.
Sei lá, tava começando a ter uma sensação estranha.
— O desafio de se manter por oito segundos em cima do touro, enquanto com a mão livre segura o chapéu de cowboy. — Thea respondeu, com um ar de reprovação.
Dei um passo para trás.
— Que chapéu de cowboy? Tommy não tem nenhum.
— O de Rene, é claro.
Espera aí...Tommy queria montar num touro com uma mão só, enquanto mantinha a outra ocupada segurando a porra de um chapéu batizado com pó de mico durante 8 segundos? PUTAQUEPARIU, AGORA É QUE LASCOU!
Curtis e eu nos entreolhamos. Apostava que ele conseguia ler na minha testa o LASCOU do mesmo jeito que eu conseguia ler na testa dele.
Ferrou, ferrou, ferrou, ferrou demais!
Imediatamente olhei para trás, procurando por Tommy nas arquibancadas mas é claro que o filho da mãe já estava mesmo montado no touro. Usando a desgraça do chapéu na cabeça.
Puta merda, eu vou deixar Laurel viúva!
Comecei a suar frio.
Alheio ao meu surto interno e o de Curtis (ou pelo menos não querendo se envolver em mais uma das nossas confusões), Oliver decidiu guiar Thea e Roy em direção aonde Laurel estava sentada, nos deixando para trás, paralisados.
— Ai cacete, o que a gente faz? — Curtis finalmente se manifestou, virando para mim, igualmente ou até mais desesperado que eu. Um assassinato não estava NOS MEUS PLANOS.
Aflita, comecei a botar minha mente para trabalhar. O que a gente fazia? Tínhamos que arranjar um jeito de tirar Tommy da garupa daquele touro, mas como?
— Precisamos parar esse rodeio. — Declarei nervosa, prestes a ter um troço.
— E como a gente faz isso criatura dos infernos?
Nossa, se eu não estivesse tão desesperada, eu lhe mostraria bem o inferno.
— Sei lá, pensa em alguma coisa, esse plano maldito foi seu! — Me revoltei e com razão.
Soltando um som estrangulado, o aloprado olhou de um lado para o outro e num surto de inspiração total, gritou:
— TÁ BOM, EU TIVE UMA IDEIA.
Antes mesmo que eu pudesse questionar que porra de maldita ideia aquela mente perturbada teve, o sacana pulou a grade de proteção da arquibancada, e saiu correndo em direção a...arena. PUTA MERDA, AGORA SERIAM DOIS MORTOS!
Marchei o mais rapidamente possível para onde Oliver estava, já pronta para pedir perdão para ele e Laurel. Esperava que ele pudesse encontrar um novo melhor amigo rápido e que Laurel não tirasse Oliver de mim quando ficasse viúva.
— O que aquele louco está tentando aprontar? — Oliver perguntou, assim que cheguei do lado dele.
Seu rosto exibia um misto de confusão e diversão, olhando Curtis correndo daquele seu jeitinho afeminado (na pontinha dos pés), enquanto recebia vaias dos cowboys por estragar o show para eles. O aloprado só parou quando chegou bem no meio da arena e sem mais nem menos, começou a rebolar feito uma lacraia louca, tirando sua blusa e a girando no ar.
Boquiaberta, assistia todo aquele vexame. Mas que palhaçada ele estava fazendo?!
Como só de sacanagem, o cara que cuidava do som colocou para tocar It's Raining Men e foi aí mesmo que o doido se empolgou.
— Nossa, isso tá melhor do que eu imaginava! — Roy ria de chorar, escorado em Thea.
Oliver, Laurel, Rene e Dinah não estavam tão diferentes assistindo o show de horrores. Eles riam tanto que logo mais estariam rindo pelos olhos e molhando as próprias calças. Sem mais o que fazer, me entreguei também, começando a rir.
As vaias de antes foram substituídas por aplausos e assovios, Curtis conseguiu dar tempo o suficiente para Tommy desmontar do touro e sair correndo para longe da arena enquanto faltava arrancar os próprios cabelos.
É, Curtis definitivamente sabia como parar um rodeio.
(...)
— MELHOR. DIA. DA. MINHA. VIDA!!! — Curtis gritava aos quatro ventos, chapadão.
— Pior. dia. da minha vida. — Tommy choramingava ao lado de Laurel, enquanto segurava uma garrafa de cerveja. Metade do seu cabelo estava raspado, tornando a cena muito mais cômica.
Após o showzinho de Curtis e a corrida desenfreada de Tommy para fora do touro, tentando se livrar do chapéu endemoniado, todos nós resolvemos nos reunir na plantação semi abandonada do Sr. Jones, para cumprir com a nossa tradição. E quando digo nossa é de todos da fazenda Allen, com exceção de Nyssa que detestava qualquer coisa ilícita — no entanto, até ela essa noite estava presente, com certeza por conta de Sara que estava pendurada em seu braço.
Nyssa tinha uma história delicada com a lei, uma vez que o pai dela era um bandidão daqueles e faz alguns anos que está preso por inúmeros delitos. Pensar em Ra's Al Ghul me deixava com um gosto amargo na língua.
— Ora Tommy, você bem que precisava mesmo mudar esse teu penteado ultrapassado. — Oliver debochou do amigo, dando um tapinha na nuca dele.
Eu ri com vontade. Tommy estava ridículo com só uma banda da cabeça raspada e ele sabia disso.
— Hahaha, muito engraçado você, Oliver. — Tommy colocou as mãos no quadril e virou-se para Rene, que também se divertia olhando a cabeça raspada do ex-playboy. — Rene eu não imaginava que você pudesse ter piolho!
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— Ei, eu não tenho piolho! — Rene gritou, ofendido.
De esguelha, percebi Curtis já se esgoelando no chão. O maluco ficou felizão quando Dinah não foi convidada para participar da "tradição Allen" e agora certamente estava mais contente ainda por Tommy julgar Rene piolhento.
— Ah não? — O ex-playboy ironizou — Então como você me explica essa situação? Foi só colocar o seu chapéu pra coceira começar.
Laurel assentiu, de acordo com o marido pela primeira vez na noite.
— Gente, eu já tenho um novo apelido para Rene: Oncinha Sarnenta.
É claro que Curtis achou impossível controlar a própria língua.
Mais um pouco e esse aloprado acabaria nos denunciando, merda!
Imitando Sara, agarrei no braço de Oliver, mas foi mais por sobrevivência (mentira) que por vontade. Ele sequer piscou com a minha ação, na realidade, agiu como se fosse a coisa mais normal do mundo me ter pendurada nele.
Nem senti as borboletas voando na minha barriga, imagine!
— Você vai ver o oncinha sarnenta quando eu afundar sua cara no estrume! — O sarnentinho ameaçou todo raivoso, mas como Curtis é Curtis, adorou.
— Rene vamos tentar manter a calma, sim? — Barry tentou apaziguar a situação.
Pisquei os olhos, impressionada em como ele estava levando tudo isso. Imaginava que ele seria o primeiro a perceber a PÉSSIMA ideia que foi convidar Curtis ou Tommy para nossa tradição, mas...Barry parecia ignorar as possíveis tragédias que essa dupla poderia proporcionar.
— Nossa, olha o tamanho desses monstros! — Mudando o foco, Roy apontou em direção a três tratores parados ao redor da plantação do Sr. Jones.
Para ele, os automóveis com certeza pareciam coisa de outro mundo, mas já para nós...Eu, Barry, Rene, Nyssa e Rory trocamos um olhar nenhum pouco impressionado.
— Esses tratores são usados para arar a plantação do Sr. Jones. — Explicou Barry, olhando ao redor pensativo. — Mas pelo que vejo ele já não faz isso há muito, muito tempo, o que é estranho. Quer dizer, eu não deixaria meus tratores largados por aí assim.
— Barry, estamos em Lian Yu, ninguém jamais roubaria alguma coisa do Sr. Jones ou de qualquer outra pessoa. — Rory justificou o óbvio com sua carinha de criança inocente.
Sara balançou a cabeça, de acordo.
— É verdade, nunca conheci lugar tão tranquilo quanto esse.
— Hmm, acho que Lian Yu ainda pode te surpreender. — Comentou Nyssa, daquele seu jeito misterioso e obviamente senti os pelos do meu braço eriçarem.
Poxa, Nyssa deveria parar com isso! Ou me ensinar como fazer isso.
— Ok, vamos logo acender essa fogueira e beber até amanhecer! — Exclamou Rene, animado com a perspectiva de beber, cair e NÃO levantar.
Geralmente, a nossa tradição consistia em assistir um Rene muito bêbado brigando com Rory, enquanto eu e Barry nos divertíamos gravando vídeos das presepadas deles ou pregando alguma travessura na plantação do Sr. Jones.
Contudo, pela expressão de desgosto de Tommy, esse ano teríamos alguma outra tradição...
— Sério que você está ansioso pra fazer SÓ isso? — Tommy fitava Rene incrédulo.
Ofendido, meu amigo sarnento levantou o queixo.
— E o que mais você sugere que façamos?
AH NÃO!
POR QUE ELE PERGUNTOU JUSTAMENTE ISSO?
Eu esperava algum comentário malcriado ou quem sabe uma explicação altamente lógica para explicar nossa tradição inocente, MAS NÃO RENE DANDO TRELA PARA AS LOUCURAS DE UM EX PLAYBOY QUE ERA CAPAZ DE TUDO! Até de montar em cima dum touro sem nunca ter feito isso antes.
— Hora de vazar. — Oliver murmurou baixo perto do meu ouvido, fazendo eu ter um calafrio gostoso.
Como ele conseguia ser tão gostoso sem nem se esforçar? Deveria ser proibido.
— Com você, vazo em qualquer hora. — E em qualquer lugar.
Deus me perdoe pelo pecado.
Soltando uma risada leve, Sr. Tesão me encarou dum modo tão intenso que acho até que minha calcinha tinha se desintegrado instantaneamente.
Aaaaaaaaah, o poder daquelas lazúlis.
— Os dois safados querem parar de flertar?! — De repente Curtis esbarrou na gente, fazendo eu me soltar do garanhão de maneira abrupta. — Estamos numa situação difícil aqui.
EU IA MATAR ESSE DESGRAÇADO!!!
— Que situação difícil? — Rory infelizmente perguntou, me impedindo de matar Curtis no ato.
— A situação onde Rene pergunta justamente para Tommy o que ele quer que façamos numa plantação abandonada, altas horas da noite. — Foi a resposta atravessada de Sara.
Ela mais do que ninguém deveria saber que iria dar merda tudo isso.
Relancei um olhar para o meu garanhão, se ele quisesse correr agora mesmo, eu correria junto com ele. Fazendo um sinal discreto na minha direção, tive a certeza que Oliver faria justamente isso — fugir comigo -, até que...
— Ei, Oliver, eu te desafio a apostar corrida de tratores comigo! — PUTAQUEPARIU, maldito seja Tommy Merlyn. — É essa a minha ideia para animar essa noite.
Caraca, eu crente que o maluco iria querer parar de flertar com o perigo após seu fiasco com o touro...
Concentrada, fitei o rosto de Oliver, esperando por algum outro sinal ou quem sabe, uma risadinha debochada da parte dele por ter ouvido esse desafio ridículo, mas nada saiu. Quer dizer saiu sim, porém não gostei nenhum pouco:
— Ok, desafio aceito.
POR QUE???????
— Ah não, eu também quero! — Roy pulou excitado, batendo palmas. — Vamos nós três apostar uma corrida com esses tratores.
— Melhor, vamos em dupla pra eu poder participar também. — Disparou Curtis, querendo se aproveitar da situação. Como os tratores só tinham assento para uma pessoa, o malandro certamente estava querendo ir no colo de alguém.
Jesus, isso só poderia ser um pesadelo.
— Ai, eu vou querer ir com a Oncinha Sarnenta! — Ele continuou todo empolgado, já exibindo um sorrisinho malicioso pra cima da sua vítima.
— Ih, sai fora! Monta com Roy! — Rene inventou de última hora, saindo correndo para reivindicar o seu próprio trator.
Feito crianças, Roy, Tommy e Oliver saíram correndo em direção aos últimos tratores disponíveis, ignorando completamente os olhares de "Isso não vai prestar" que eu e Barry estávamos os enviando.
Para a minha sorte e de Oliver, ele conseguiu chegar a um trator livre...Mas não por muito tempo. Disposto a participar dessa loucura, Roy começou a tentar invadir o automóvel do meu garanhão.
— Sai fora Roy, se quer sentar no colo de alguém, sente no de Tommy! — Oliver bradou, empurrando o cunhado com um chute.
— Homens, tão maduros... — Thea murmurou do meu lado, lançando um olhar debochado pra cima do irmão e namorado, que ainda discutiam sobre quem iria participar ou não daquela corrida.
Tinha que admitir: Assistir Oliver agindo como um mero mortal, pelo menos por um dia, estava sendo uma experiência e tanto!
Jamais poderia imaginar as mil facetas que esse homem escondia por baixo duma máscara de seriedade e resolução.
— Eu que não vou subir nesse troço sozinho! — O Aloprado cortou os meus pensamentos filosóficos, ao gritar — Abortar missão, mayday peidei.
I-D-I-O-T-A.
Foi inevitável não acabar olhando para o céu, à procura por uma chuva de meteoros. Curtis sendo sensato? Só poderia ser um sinal. Um sinal ruim.
Ignorando completamente os perigos da escolha totalmente equivocada — e besta — que tomou, Oliver, Tommy e Rene começaram a acelerar os tratores e num piscar de olhos, estávamos todos comendo poeira. Ou no caso, mato.
— Isso não vai dar certo... — Barry parou do meu lado oposto, franzindo a testa ao assistir a cena.
Balancei com a cabeça, revoltada.
— É claro que não vai dar certo! — Apontei histérica para onde eles estavam se dirigindo. — Onde já se viu fazer competição de tratores?
— E no escuro?! — Thea acrescentou, também puta da vida com a irresponsabilidade do irmão.
— E no mato?! — Laurel se juntou.
— Não gente, não estou falando que isso não vai dar certo por estes motivos e sim...
— E sem mim?! — Roy interrompeu Barry, super animado. Em troca, ganhou um tapa na cabeça cortesia de Thea.
— Roy, tu se manca ein! — Laurel faltava fulminar o calango de gente — O assunto aqui é sério.
— Ah gente, não exagera né? É só uma diversão boba.
— Que exagero o que garoto?! — Curtis também se enfiou na discussão, todo daquele seu jeitinho cômico. Botou a mão na cintura e tudo. — Os bofes maravilhas tudo tentando se matar e você acha que estamos exagerando? Pensa na tragédia que seria perder não um, mas três pintos de qualidades?
Encarei Curtis horrorizada. Meu Deus, eu não havia pensado nisso!
— Tem como vocês me deixarem falar? — Barry explodiu, fazendo todos pularem, com exceção de Nyssa porque bem, nada ou ninguém assustava Nyssa. De novo, eu gostaria que ela me ensinasse como fazer isso.
— Eita, até o poneizinho grita! — Curtis exclamou, examinando Barry com um ar divertido, impressionado e um pouquinho louco.
Ok, deixa pra lá, o Aloprado também não era um dos que se assustavam fácil.
Meu amigo corou com a observação do doido, contudo, decidiu sabiamente ignorá-lo.
— O que estou tentando dizer é o seguinte...Eles estão indo em direção ao lago.
Virei para trás, já sentindo a pressão cair. Para os outros levaria algum tempo pra assimilar as palavras de Barry, afinal, eles não sabiam quase nada sobre a vida no campo, mas quanto a mim...Saquei na hora o que ele quis dizer.
Como se eu estivesse assistindo um maldito acidente de trem, localizei Tommy, Oliver e Rene indo com tudo em direção aos limites da plantação do Sr. Jones e como só para comprovar as palavras de Barry, ouvi Oliver ser o primeiro a gritar (provavelmente percebendo na merda onde se enfiou) para Tommy:
— DÁ A RÉ, DÁ A RÉ!!!!
— COMO SE DÁ RÉ NISSO?? — Tommy.
— MEU DEUS NÃO TEM RÉ — Rene.
— PORRAAAAAAAAAAAA!!!! — Tommy.
—TAQUEPARIU! — Oliver.
Depois disso, vi tudo em câmera lenta (apesar de ter plena consciência que tudo ocorreu tão rápido quanto um flash), Rene pulou para fora do trator, Oliver quando notou que iria se estrepar batendo numa árvore, pulou fora também. E Tommy...Ah, Tommy! Continuou seguindo reta e acabou voando até o lago do Sr. Jones, soltando um berro digno de Curtis.
A boca de Laurel se abriu.
— Eu fiquei viúva, não fiquei?
Um silêncio sepulcral caiu entre nós, até ouvirmos Tommy gritar:
— MELHOR. DIA. DA MINHA VIDA!!! — Pausa — Podemos fazer isso de novo após alguém me resgatar desse lago? Tô achando que entrou algumas folhas no meu rabo.
Ok, uma coisa era certa: Eu jamais me esqueceria desse festival. Jamais.
Por que não desiste?
Nem chega a ser uma perda,
Aposte na favorita e boa sorte
(...)
Isto tudo deveria fazer sentido
Mas não faz
Aí está o seu problema, ai está o seu problema
Você continua vendo distorcido a mulher errada
Agora você pode ver que eu o amo?
Você não pode ver que ela não
Mas você apenas continua esperando
Aí está o seu problema
“There's your Trouble” — The Dixie Chicks¹
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