Amor Cigano
2 Colisão
Notas iniciais
Oh, inferno...Oliver deveria saber melhor do que se enfiar num lugar no meio do nada numa atitude de rebelião juvenil tardia.
Assim que cruzou os limites de Lian Yu, percebeu o seu erro. O lugar era pacato, velho, nublado, sem graça, tinha muito mato e estabelecimentos que pareciam esquecidos no século passado. Não deveria ter concordado com a ideia de salvar Tommy de cometer alguma bobagem, seja qual fosse ela, sem antes estudar o terreno.
Conferindo novamente o GPS de seu carro, constatou que estava perto da residência de Tommy. Menos mal. Desde o casamento do amigo, não o via e isso fazia meses...Nunca em todos esses anos de amizade, ficaram tanto tempo assim um afastado do outro.
Mas então, Tommy nunca fora casado e muito menos um homem comum que vivia do próprio salário. Para muitos, a atitude radical de Malcolm Merlyn em deserdar o único filho, foi uma surpresa, já para Oliver...Tinha previsto que aquele momento chegaria cedo ou tarde. Infelizmente, não previra que Moira Queen seguiria os mesmos passos do pai de seu melhor amigo.
Agora Tommy vivia uma vida pacata e monótona, num lugar aparentemente igual. Oliver não acreditava nem por um segundo que o amigo estivesse feliz. Contudo, teve que engolir tudo isso quando chegou de frente à casa coloquial com um enorme jardim arborizado, numa estradinha de terra e encontrou Tommy esperando por ele com um sorriso que chegava até aos seus olhos. É claro que já tinha visto aquele mesmo sorriso um bocado de vezes no rosto do amigo, mas aquele brilho em seus olhos? Nunca.
― Estou te vendo, mas ainda não posso acreditar que você está aqui. ― Disse Tommy ainda com um sorriso no rosto e aproximando-se de Oliver que acabara de sair do seu carro conversível que nada combinava com o ambiente onde pusera os pés.
― Acredite em mim, nem eu. ― Oliver respondeu, lhe dando um rápido abraço. ― A perspectiva de te acertar com um taco de baseball foi o suficiente para arrastar o meu traseiro até aqui. ― Completou, afastando-se, agora ele mesmo com um sorriso no rosto.
A declaração foi o suficiente para fazer Tommy revirar os olhos.
― Eu deveria ter desconfiado.
― Sim, deveria. ― Oliver assentiu ― Agora, me diga onde está sua adorável esposa para eu perguntar onde ela guarda os tacos.
Não foi preciso eles darem nem um só passo, para a dita cuja aparecer na frente deles ao redor de um cardigan, indicando que não estava tão alheia ao clima ameno que começava a cair sobre a região. Oliver se deu tapinhas de congratulação mentalmente por ter escolhido uma calça jeans e um casaco de cashmere para fazer aquela viagem. Sua escolha no final, vinha a calhar.
― Olha só se não é a famosa Laurel Lance...
― Em carne e osso. ― Disse, o abraçando amigavelmente. ― E eu quem deveria estar falando isso! ― Acrescentou, afastando-se para o analisar melhor.
Os olhos pareciam um pouco mais caídos, com olheiras profundas debaixo deles, mas fora isso, sua imagem ainda estava perfeita. Barba feita, cabelo aparado, roupas de marca. O protótipo de homem perfeito, exceto que ele não era. Sempre havia algo sombrio serpenteando Oliver, fazendo por vezes, Laurel vislumbrar algo invisível apoiado em seus ombros largos.
O peso do mundo. Ouviu uma vez Tommy sussurrar aquelas mesmas palavras em seu ouvido, enquanto assistiam Oliver dar um dos seus discursos brilhantemente ensaiados durante uns dos eventos rotineiros da QC. Na época, Laurel não soube o quão verdadeiras aquelas palavras poderiam ser.
― Palavras gentis não vão me impedir de te deixar viúva, Srta. Lance. ― Oliver avisou com uma insinuação de sorriso nos lábios, enquanto se balançava para frente e para trás sobre os seus calcanhares.
Detectando o perigo, Tommy resolveu intervir da melhor maneira que poderia naquela situação: Desviando o assunto.
― Ei, ei, ei! ― Ele se intrometeu no meio deles. ― Ela é Srta. Merlyn agora e não Lance!
Oh, ele parecia uma criança birrenta...Oliver observou divertido, percebendo que sentira mais falta do amigo nos últimos meses do que imaginava.
― Tá, tanto faz, isso não muda o fato de que eu ainda estarei procurando por um taco de baseball pelos próximos minutos.
Tommy jogou as mãos para o alto, logo em seguida, fazendo as mesmas repousarem contra sua cintura.
― Realmente homem, em quem sua lealdade repousa aqui?!
― Na pessoa que me fazer melhor oferta. ― Respondeu num tom entediado, adquirindo uma expressão igual, resultando com que o casal de amigos bufassem em uníssono.
― Por que eu ainda me surpreendo com você? ― Tommy resmungou, empurrando o ombro em Oliver, que se limitou a soltar uma risadinha depreciativa.
― Não faço a menor ideia...
Laurel cruzou os braços com firmeza, tentando espantar o frio que caía em Lian Yu e perguntou sem preâmbulos:
― O que vocês estão esperando para entrarem? Não passei o dia inteiro arrumando o quarto de hóspedes para Oliver congelar aqui fora!
Sem esperar por uma objeção, Oliver começou a caminhar tranquilamente em direção à casinha coloquial e adorável pertencente aos seus amigos, deixando para trás ambos e sua bagagem.
Depois de um silêncio sepulcral, Tommy perguntou em voz alta, ainda parado no mesmo lugar:
― Ele espera que eu leve sua bagagem, certo?
Com um ar solene, Laurel encarou o marido:
― Recomendo que você seja rápido na tarefa, pois aposto que você não quer pegar um resfriado...Boa sorte com tudo isso, querido! ― Acrescentou, antes de andar apressadamente para longe, deixando para trás Tommy estupefato encarando a cena onde seu melhor amigo e esposa, o deixavam à própria sorte.
― Não existem mais pessoas leais nesse mundo!
Ele não estava errado.
(...)
De todas as bobagens que Oliver ouviu sair da boca de Tommy, em todos esses anos de amizade, com certeza aquela foi a mais ridícula e pior. Começava a compreender agora o desespero de Laurel via SMS. Tommy só poderia ter perdido a cabeça!
― Você está me dizendo que quer se tornar um...cowboy? ― Perguntou lentamente, tentando ainda absolver que aquilo saiu dos lábios do seu inconvertivelmente amigo playboy, mas falido. De novo, cortesia de Malcolm Merlyn.
Com um sorriso entusiasmado, Tommy confirmou a história acenando a cabeça efusivamente, como se não enxergasse nada de errado em sua sentença. Diferente de Laurel, que agora torcia as mãos sobre o colo, aparentemente tentando não enforcar o próprio marido.
― Sim! Conheci um fazendeiro há alguns meses e ele está disposto a me ensinar tudo que sabe! E eu já tenho um emprego na fazenda dele, então acho isso um bom sinal... ― Disse ele, ainda sem desmanchar o sorriso ― Começo essa semana, mas passei os últimos dias visitando sua fazenda e não acho o trabalho tão difícil quanto dizem...Realmente, já pensei em tudo! Nada pode dar errado!
Nada. Pode. Dar. Errado.
Se havia algo que Oliver aprendeu em todos esses anos, era que não deveria jamais subestimar aquela frasesinha matreira.
― Você tem certeza disso? Já pensou no assunto com cuidado?
Tommy revirou os olhos.
― É claro que eu pensei nisso tudo com cuidado! Por meses, não faço nada além de pensar nisso com cuidado... ― Resmungou ― A cada dia você se parece mais com um homem de negócios.
Oliver não perdeu a ofensa, mas resolveu deixar o taco de baseball de lado por hora. Primeiro as coisas importantes.
― Quem é esse fazendeiro que conheceu? ― Quis saber, medindo as palavras que falava. ― Acha que ele tem boas intenções ao te oferecer o trabalho? Mas além de tudo, acha rentável investir nesse...projeto?
Para sua total desgraça, Tommy riu, como se tivesse acabado de ouvir uma piada. Até Laurel tremeu os lábios, tentando ocultar a risada.
― Oh, relaxe! Barry Allen, não tem mais do que boas intenções em cada cédula de seu corpo. Foi a primeira pessoa que conheci ao chegar aqui e tenho que dizer, o garoto é bom. ― Disse com uma piscadela marota ― E sim, é bastante lucrativo ter uma fazenda para vender cabeças de gado nessa região, o solo é propício e o clima também.
Ah, agora sim o X da questão estava aparecendo, Oliver pensou estudando atentamente Tommy. Começava a ser óbvio que o súbito interesse de Tommy naquele assunto surgiu meramente por estar parado, sem dinheiro e se sentindo um inútil, uma vez que era Laurel quem estava trabalhando na casa.
Não que o trabalho dela fosse tão bom quanto o que tinha em Star City, não. Pela breve conversa que tiveram, antes de entrarem nesse tópico, Laurel conseguiu logo na primeira semana um emprego no único fórum de Lian Yu. Diferente de Tommy, que aparentemente, não tinha qualificação para nada, uma vez que iria herdar o cargo de CEO da Merlyn Global Group e para isso não precisava de diploma algum, só um teste de DNA. Não que ele precisasse fazer um, de qualquer jeito.
Logo Oliver podia concluir que Tommy estava se sentindo um merda. E mesmo que Oliver próprio nunca tivesse sentido nada muito semelhante a este sentimento, compreendia o amigo.
O caso era: Tomar decisões em momentos desesperadores, era um erro. E desespero, mais decisões, com a mistura de gados e playboy falido...Nunca era bom.
― Gostaria de o conhecer. ― Declarou, sentindo uma pontinha de curiosidade no âmago do seu ser sobre o tal Barry Allen que parecia ser julgado um ótimo cidadão pelos seus amigos.
Tinha total segurança no julgamento de Laurel, entretanto, até ela às vezes poderia ser cegada por Tommy, ainda mais quando ele queria muito algo. E ele parecia muito querer se tornar um cowboy na fazenda de Barry. Portanto, era melhor ele mesmo inspecionar o sujeito com os próprios olhos.
Tommy encolheu os ombros e Oliver visualizou uma centelha de gratidão nos olhos de Laurel. Ela já deveria saber o motivo dele querer conhecer Barry Allen.
― Bom, podemos providenciar isso.
― Ótimo, quanto mais cedo, melhor.
Feito mágica, a campainha soou, fazendo Tommy pular do seu assento e correr em direção à porta, como se do lado de fora, Scarlett O'Hara estivesse o aguardando. Quando Oliver estava prestes a fazer algum tipo de piada, identificou um timbre feminino ressoar pelo o ambiente, indicando que Tommy de fato, estava conversando com uma mulher. Estranhamente, sentiu os pêlos da nuca eriçarem.
E quando a criaturinha surgiu na sua frente, a voz finalmente tomando rosto, Oliver comprovou que estava de frente dum completo oposto de Scarlett O'Hara. A figura diminuta, loira, com rosto de moleca, que acabara de passar pela soleira da porta, não parecia minimamente com a personagem morena com curvas exuberantes e olhos perigosos.
Contudo, Oliver não pôde fazer uma análise mais profunda ao ser pego pelo o olhar da mesma. Assim que ela o viu, parou de falar e ficou estagnada no lugar. Sequer piscava. Francamente não se surpreendeu muito, uma vez que era um cara rico e por diversas vezes na sua vida, passou por semelhante situação com mulheres deslumbradas demais com a sua aparência e status.
Entretanto, pensou que estava imune àquele tipo de mulher naquele lugarzinho no meio do nada. Obviamente enganara-se, pensou prestes a exibir seu costumeiro sorriso zombeteiro, quando foi surpreendido pela a próxima atitude da mulher:
― Você é o homem da minha vida! ― Ela gritou feito uma lunática, apontando um dedo na sua direção.
E como se estivesse tendo um presságio ruim, Oliver sentiu um arrepio perpassar sua coluna, deixando ele estagnado no lugar dessa vez.
De todas as mulheres com quem se encontrou nos últimos 30 anos de vida, nunca uma foi tão original e única quanto aquela. E Oliver sentiu, bem lá no fundinho, que isso seria um problema.
A pequena ninfa parada bem na sua frente, lhe apontando um dedo minúsculo e com os olhos arregalados, tinha a promessa de o sacudir até medula, bem escrita em sua testa.
Felicity Smoak acabava de colidir com o seu mundo.
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