Amor Cigano
6 A Ideia
Notas iniciais
Oliver's Pov
Burrice era uma doença? E se sim, podia ser altamente contagiosa? Pior, a burrice de Tommy estava passando para mim? Essas são as perguntas que atualmente mais importam para mim. Precisava saber urgentemente, se Tommy realmente estava sofrendo de burrice aguda e se finalmente estava me afetando.
Eu que sempre me gabei de tomar as decisões mais sensatas — vamos esquecer da minha juventude. Todos fazemos coisas estúpidas quando jovens -, entre nós dois, agora questionava o quão influenciado poderia ser por Tommy num lugar completamente desconhecido, pacato, verde e bem distante da civilização que um dia conheci.
Talvez a teoria que humanos se adaptam a diferentes ambientes, para sobreviver, começava a se aplicar na minha situação atual. Estava ficando louco de pedra em Lian Yu, para conseguir me adaptar. E isso era inadmissível!
Em menos de uma semana, já estava me esgueirando por aí com Tommy, feito o mesmo adolescente inconsequente de antigamente, para ir até um bar. Um bar que nem era lá grandes coisas!
Francamente, deveria correr o mais rápido possível para longe daquela cidadezinha com pessoas inquestionavelmente loucas. O nível de loucura por metro quadrado era incalculável. E muito para minha saúde mental.
— Se Laurel descobrir sobre essa nossa "saidinha", irei por a culpa toda em você. — Anunciei, parando ao lado do banco em que Tommy estava sentado com um ar despreocupado demais para alguém que "fugiu" de casa durante a madrugada, deixando sua esposa inocente para trás.
Começava a desconfiar que essa não era sua primeira vez fazendo esse tipo de coisa... Decerto Laurel nos mataria quando — SE -, descobrisse isso.
Dando um suspiro pra lá de dramático, resolvi que o melhor seria analisar o local da minha provável morte — isso é claro, SE Laurel descobrisse aquela nossa "fugidinha". Passeei os olhos superficialmente sobre o estabelecimento, enquanto sentava na cadeira livre ao lado de Tommy.
Concluí que a minha impressão continuava a mesma: Aquele bar não era lá grande coisa.
Tommy bateu a mão no meu ombro, alheio ao fato que ficaria logo sem ela caso continuasse a fazer isso.
— Não se preocupe cara, ela nunca vai descobrir sobre essa saída!
Tradução: Cedo ou tarde teríamos uma Laurel Lance neurótica querendo nossas cabeças numa bandeja. Com sorte, eu já estaria beeeem longe quando isso ocorresse.
Cético, assenti com a cabeça. Alimentaria as ilusões do meu amigo, ao menos, por hora.
— Se você está dizendo.
Aparentemente satisfeito com a minha resposta, Tommy finalmente fez sinal para o barman nos atender. Entretanto, a cara de decepção que o meu amigo fez ao olhar a cara do sujeito atrás do balcão, não me passou desapercebida.
E muito menos pelo barman, que riu ao notar expressão do meu sutil amigo.
Estranhei aquela atitude. Eu no lugar do homem, já teria retribuído o olhar decepcionado de Tommy com uma chuva de drink na cara. Sim, talvez eu seja um pouquinho agressivo quando não estou TENTANDO ser educado.
— Ei Merlyn, não faça essa cara! Para sua felicidade, só estou cobrindo aqui hoje! Amanhã, o chefe estará de volta.
Elevei uma sobrancelha, dividindo um olhar entre meu amigo e o barman. Os dois pareciam íntimos, o que acalentava a ideia de que Tommy havia dado essas "fugidinhas" muitas vezes antes. Ponderei por alguns instantes, se deveria questionar o mesmo sobre aquele hábito, mas logo descartei a ideia. Quanto menos eu soubesse, melhor.
Como se só tivesse tomado nota de minha presença agora, o barman me fitou.
— Oras, se não temos uma cara nova por aqui! — Exclamou — Me chamo Floyd Lawton e irei te servir esta noite. Como se chama, meu chapa?
Ao ouvir aquele apelido ridículo devo ter feito uma careta bastante cômica, para Tommy ao meu lado começar a rir alto, sem nem ligar para os olhares curiosos que começavam a se dirigir sobre nós. Ah, eu mereço...
Apostava uma grana que Tommy deveria estar morrendo para ter uma câmera na mão nesse momento. Registrar eu, Oliver Queen, quem sempre estava muito alinhado e pomposo — bem, pelo menos desde que deixei os hormônios da adolescência de lado—, seria um marco inédito na sua breve carreira de fotografo.
Ignorando a forma quase íntima com que o sujeito, havia me chamado, resolvi conceder a informação pedida com tanto jeitinho:
— Oliver Queen, prazer. — Segurei a mão de Floyd num breve cumprimento, por cima do balcão. O cara alargou mais ainda o sorriso no rosto, como se tivesse acabado de ganhar na loteria. Olhando por um ângulo diferente, até que ele poderia considerar ter ganho mesmo...
— É claro que é um prazer me conhecer! — Brincou — Sou eu quem vai estar te servindo essa noite.
Quis revirar os olhos diante aquele ar brincalhão — e enjoativamente acolhedor, que todos pareciam ter naquela cidade. Podia afirmar com certeza absoluta que nunca encontrei tantas pessoas por metro quadrado, tão — loucas — sorridentes e felizes que aqui, em Lian Yu.
Contrariando todas as minhas crenças, os habitantes — pelo menos os poucos que havia conhecido ou visto -, pareciam obscenamente felizes com suas vidas naquele lugar pacato. E eu não conseguia entender isso. Quer dizer, conseguia mas não conseguia.
É claro que eu compreendia que existia inúmeras pessoas em Star City que também estampavam um sorriso no rosto — Infernos, eu era um deles!—, sem estarem realmente contentes com sua própria vida...Mas ali em Lian Yu, conseguia enxergar a genuína felicidade brilhando no olhar de cada um.
O que me levava a seguinte questão: O que deixava tão contentes as pessoas por aqui? Num lugar esquecido por Deus e o mundo?
— Meu chapa, pare de pensar — Tommy falou de repente, me olhando com uma atenção fatalista —, vai acabar fritando o restante dos seus neurônios e mesmo assim não vai encontrar a resposta que procura.
Quem iria acabar frito, ou melhor, assado, seria ele...Pensei ranzinza, começando a ter certeza que Tommy estava sobre minha pele, mais do que eu imaginava. Só dele saber os pensamentos que estivera rondando na minha mente, segundos atrás, era prova disso.
De duas, uma: Ou Tommy me conhecia demais e tinha razão. Ou ele era um telepata.
Infelizmente, estava mais inclinado a concordar com a primeira opção...Mas saber que passou pela minha mente, a segunda opção, era a prova concreta de que estava sobre influência de Tommy e que acima de tudo, Lian Yu estava mudando minha forma de pensar.
Agarrei meu drink. Deus me ajudasse.
Estoicamente, continuei sentado no meu lugar, ocupando minha boca com álcool para não precisar trocar palavras com ninguém. Ocasionalmente, balançava a cabeça de acordo com alguma coisa que Tommy estivesse falando, ou soltava alguns grunhidos, comprovando minha sociabilidade seletiva.
Evitei também fazer contato visual com Floyd, quem parecia muito à vontade comigo e Tommy. Não estava procurando por laços de amizade ou qualquer coisa do tipo. Meu tempo em Lian Yu era limitado, assim como minha paciência. Só esperaria Tommy tomar alguma tendência na vida e vazaria.
Mas não sem antes lhe dar a surra com um taco de baseball prometida, é claro.
E também não sem antes dar alguns conselhos para Barry. O garoto era jovem demais para administrar uma fazenda daquele porte sozinho...Na realidade, estava surpreso por ele ter conseguido mantê-la sozinho durante todo esse tempo desde a morte do pai. Como Tommy havia me dito quando cheguei aqui: O garoto era bom.
Mas não o suficiente. A fazenda tinha data limite e só não enxergava, quem não queria. Barry precisava mesmo de um milagre — ou, de uma estratégia muito boa. E já que eu não acreditava em milagres...Esperava que ele conseguisse bolar algum plano bom. Porém duvidava que isso iria acontecer. Se o garoto não conseguiu pensar em nada até agora, era porque já não restava mais nada a fazer.
— Oliver, você tá fazendo aquela cara de novo.
Virei para o meu amigo, que me olhava de maneira divertida. Cerrei os olhos e segurei com mais força meu copo. Ainda bem que não era de plástico.
— Que cara? — Perguntei, já sabendo que iria me arrepender por isso.
— Aquela cara que você sempre faz quando está pensando em algo obscuro. — Gesticulou as mãos de um lado para o outro — É tipo a cara de alguém com diarreia.
Ouvi o barman rir alto da minha desgraça em forma de gente, chamada Tommy Merlyn. Abri a boca, pronto para dar uma bela duma resposta ao meu querido amigo, quando sem mais nem menos, o barman soltou uma exclamação surpresa e deixou o copo que estava segurando na mão, cair.
Franzi o cenho diante a atitude atípica para um profissional naquela área. Esperava que o seu chefe não estivesse ao redor, ou ele teria sérios problemas.
De repente, burburinhos começou a preencher o ambiente e Floyd, ao invés de recolher o estrago que havia feito, continuou parado no mesmo lugar, feito uma estátua, olhando para algum ponto atrás de mim. Curioso para saber o motivo daquele olhar de idiota no seu rosto — e também para saber o motivo dos burburinhos, já que não sou de ferro -, virei para trás e foi a minha vez de quase deixar cair o copo que segurava.
EU ESTAVA SENDO SEGUIDO!!!!
Essa era a única explicação para Felicity — O'Hara — Smoak estar parada bem na porta de um barzinho de esquina, de madrugada, com Sara Problema Lance de um lado e o seu amiguinho Curtis Holt do outro. Atrás dela eu podia ver a cabeça de Rene.
Era fato que não conhecia nenhum dos três com grande profundidade — excluamos Sara da equação, por favor -, mas era óbvio demais para qualquer um que visse Felicity pela primeira fez, soubesse logo de cara que ela não era o tipo de garota que frequentava um barzinho suspeito durante a madrugada.
Ou ao menos, ela não aparentava ser esse tipo. Mas mais uma vez, não poderia me deixar levar pelas aparências. Afinal, não foi ela quem me abordou no primeiro dia feito uma louca? Não conseguia esquecer suas palavras gritadas para os quatro ventos.
"Você é o homem da minha vida!"
Huh-hmmm. Eu definitivamente não deveria duvidar dela.
Desviando os olhos do rosto da O'Hara loira, olhei meu amigo, esperando que ele tivesse um plano de fuga já pronto. Precisávamos fugir o mais rapidamente possível. Havíamos sido descobertos! E por mais que eu tivesse jogado umas boas pragas — admito — para cima dele, quando o mesmo me acordou no meio da madrugada para me arrastar até aqui, não queria ser pego em flagrante com ele.
Mas, para a minha desgraça — mais outra para a coleção -, ao fitar Tommy, percebi que o idiota estava sorrindo. Não demorou muito para o meu cérebro captar que eu havia caído numa maldita armadilha arquitetada brilhantemente pelo meu melhor amigo e muito provavelmente, por sua queridíssima cunhada, se eu fosse considerar o sorriso estampado no rosto de ambos.
Tentando não cometer suicídio ou um homicídio, comecei a puxar na minha mente umas aulas super educativas e efetivas de yoga, que uma vez fui obrigado a comparecer, graças à Moira. Segundo ela, eu vivia estressado por conta do trabalho. E eu para provar que não estava nada estressado — estava sim -, acatei sua "sugestão". No final, acabou que ela estava com a razão...Mas ela nunca soube disso. E continuaria sem saber, se dependesse de mim.
— Eu vou te matar. — Declarei simplesmente, provando que talvez as aulas de yoga não me foram nada uteis. Bem, ao menos eu tentei né?!
Com prazer, assisti o sorriso no rosto de Tommy desaparecer com a mesma rapidez em que apareceu. A-ha. Isso sim eu poderia chamar de reviravolta bem vinda.
— A ideia não foi minha. — Encolheu os ombros e fez cara de cachorro sem dono. Ah, sei. — Foi de Sara. Ela quem arquitetou tudo, eu juro!
O olhei desconfiado.
— Que tempo você teve para falar com Sara em particular?
Até onde me lembrava, Sara só falou comigo em privado. Não com Tommy.
Lentamente, o mesmo sorriso de antes voltou para o seu rosto.
— Ela me mandou uma SMS.
Ual, então por aqui tinha mesmo sinal e eu estava sendo somente ignorado pela minha família. Legal.
Fechei a cara e virei no meu lugar, apoiando um braço no balcão. Contemplei a ideia de sair correndo para fugir das duas loiras problemas, mas logo voltei atrás. Eu não fugiria de um estabelecimento só por causa de duas mulheres.
Pior que tá não podia ficar.
(...)
Foda-se, eu ia embora.
Pior que tá, podia ficar sim.
Minha educação era limitada demais para sobreviver a esse calvário que era ter Sara Lance me lançando olhares sujos, Tommy Merlyn soltando piadinhas grotescas no meu ouvido, Curtis Holt falando cada coisa depravada que iria fazer à todo homem ao redor e para completar, os olhares de adoração de Felicity. Sobre mim.
Ela simplesmente não parava de me olhar. Ela não falava nada, só olhava e se esse era o seu novo jeito de me deixar desconfortável, estava funcionando muito bem, obrigado.
Se eu não saísse correndo para o mais longe possível daqui, iria morrer. Logo. E isso nada tinha a ver com os homens que não estavam aceitando muito bem as cantadas de Curtis. Imagine.
— Não consigo acreditar que você está aqui, Felicity. — Floyd falou pela centésima vez, encarando Felicity num misto de admiração e reprovação. Mas nem isso a fez prestar atenção no coitado. — Barry vai te matar. — Acrescentou e finalmente, finalmente, ela desviou aqueles olhos de raposa para longe do meu rosto que já deveria estar aquecido de constrangimento.
Deveria me lembrar de deixar uma gorjeta bem gorda para Floyd, antes de ir embora.
— Barry não precisa saber que eu estive aqui. — Ela murmurou, se debruçando sobre o balcão. Entrecerrei os olhos, com o ato dela. Poderia até ser uma cena sexy, se ela estivesse vestida propriamente para isso. Coloquei um dedo no queixo e ouvi a risadinha nojenta de Sara atrás de mim.
Nem me dignei a olhá-la. Estava mais interessado em saber como Felicity convenceria Floyd jurar lealdade à ela. Todo mundo parecia gostar demais de Barry para enganá-lo.
— Ah é, e como você espera que isso aconteça, baixinha? — Ele zombou, jogando o pano que estava usando para secar alguns copos, no ombro. — Posso até não contar a Barry que você estava andando por essas bandas, mas...Todo mundo que está aqui te conhece.
Ele tinha razão. Esperei Felicity sair com alguma solução.
Mas surpreendentemente, ao invés dela, quem falou foi Rene, bastante compenetrado:
— Felicity está comigo aqui, logo, para todos os efeitos, Barry está consciente de sua localização. Barry confia em mim e sabe que jamais levaria Felicity para um lugar, a essa hora, sem lhe avisar. — Piscou os olhos — Todos devem estar pensando exatamente isso, afinal, sou um capataz de confiança.
Ele falou com tanta certeza, que até eu quase me deixei convencer. Se não fosse o pequeno detalhe de Felicity ter deixado claro, segundos atrás, querer “barganhar” a lealdade de Floyd.
O barman ainda podia delata-la. Contudo, ele não parecia muito disposto.
— Como disse, se depender de mim, Barry jamais ficará sabendo dessa aventurazinha de Felicity. — Disse ele — Mas, só não sei sobre os outros. Não é só mulheres que são fofoqueiras.
Rene assentiu com a cabeça, compreendendo.
— Eu sei, mas até o final dessa noite, todos aqui estarão tão bêbados que vão esquecer até o caminho de casa.
— Deus te ouça. — Ouvi Felicity resmungar baixinho, olhando para baixo, tentando evitar contato visual com qualquer suposto conhecido. Gostei da atitude. Quem sabe ela não ficasse dessa maneira pelo resto da noite?
— Viado, será então que consigo dar um Boa noite Cinderela em alguém por aqui???? — Curtis se intrometeu no assunto. Seus olhos brilhavam tanto com a possibilidade, que entrei em acordo comigo mesmo de JAMAIS tirar os olhos do meu próprio copo.
Não duvidava da capacidade de ninguém em me drogar. Já tinha um amigo traíra mesmo; tudo era possível.
— Tente chegar perto do meu copo, que irei fazer você dar um passeio em cima de Profeta. — Rene ameaçou ranzinza, tirando o copo de vista do tarado.
— Ihh viado!!! Isso era pra ser uma ameaça? — Soltou uma risadinha afetada — Saiba que me oferecer um cavalão pra montar não é ameaça, e sim uma honra!!!!
Felizmente, foi a minha vez de rir.
— Sim, vai ser uma honra quando Profeta quebrar essas patinhas que você chama de pernas. — Rene grunhiu, irritado.
Curtis fez um beicinho ridículo e podia jurar que vi uma lagriminha escorrer pelo canto do seu olho direito.
— Você é uma bicha muito má, sabia?
E ele era um homem morto, se fosse considerar o olhar mortal que Rene estava lançando.
Pelo canto dos olhos, vi quando Floyd aumentou o som do bar, tentando desviar a atenção de Rene para evitar um possível assassinato. Sua tática foi eficaz, contudo, foi minha vez de quase deixar escapar alguma lágrima ao ouvir aquele horror country bem alto zunir no meu ouvido.
Gente, isso só poderia ser castigo...
— Ahhh, vamos dançar, Sara!! — Tommy levantou animado, oferecendo uma mão para Sara que sem nem pensar duas vezes, pegou.
Curtis, obviamente bastante animado, se juntou à dupla e sem escolha alguma, Rene se levantou também. Mas não sem antes fazer um sinal de ameaça com os dois dedos, deixando claro que ficaria de olho em mim e na Loira Problema, sentada ao meu lado.
Quase ri da sua atitude. Tava mais fácil EU ser atacado, do que ELA ser atacada.
Num piscar de olhos, me vi envolvido na conversa mais bizarra da história, patrocinada por ninguém menos que Felicity Smoak — a mulher mais peculiar que já encontrei.
— Você tem irmãos?
Tá bom, a conversa nem era tão estranha assim. Eu que cismei mesmo com a loirinha. E ela comigo, para meu azar.
— Uma só. — Até onde sei, quis acrescentar mas achei melhor não.
Quanto menos incentivasse uma conversa com Felicity — ainda mais desse tipo, onde poderia denegrir a imagem de minha mãe ou do meu pai, permanente. -, mais fácil ela captaria a mensagem de: Não tô interessado em você. Ou em ninguém. Pelo menos, não desta região.
— Eu não tenho nenhum. — Ela comentou e eu assenti com a cabeça.
— Não é tão legal quanto aparenta, mas também não é tão ruim. Tem os seus momentos.
Que bosta havia acabado de sair da minha boca? Já estava ficando bêbado? Um pouco mais atento, olhei o copo na minha mão. Deveria ser o meu quinto e definitivamente seria o meu último, por considerar minha última frase.
Observei quando Felicity torceu o nariz, e fez uma carinha até que...fofa, indicando que estava claramente confusa com a minha resposta. Tudo bem, entendia, até eu estava.
— Ah, sim, entendi.
Entendeu não.
— Qual o nome da sua mãe? — Ela voltou questionar e eu contemplei a ideia de voltar a beber.
— Qual é o nome da sua mãe?
Felicity se limitou a franzir o cenho. Ha! Parecia que ela não gostava de ser a interrogada.
— Por que você quer saber?
Dei de ombros.
— Por que você quer saber o nome da minha mãe?
— Curiosidade. — Fingiu desinteresse, encolhendo os ombros. Ahãm, tá.
— Então, essa é a minha resposta também. — Sorri zombeteiro — Curiosidade.
Ah se a minha mãe estivesse por perto...Eu ia levar na cara pela minha veia impertinente.
Por fim, Felicity ficou muda, deixando aquela música horrível preencher o espaço que eu havia estabelecido, entre nós. Melhor assim.
— Donna Smoak. — Ela falou de repente, me fazendo quase saltar pra fora da cadeira. A olhei interrogativamente — O nome da minha mãe é Donna Smoak. — Explicou calmamente, com um sorriso renovado no rosto.
Mas é claro que a O'Hara Loira não desistiria tão fácil assim.
Me aborreci.
Quando é que Tommy pararia de dançar com Sara e voltaria ao meu resgate?
— Agora é a hora onde eu falo o nome de minha mãe e alimento sua curiosidade? — Retruquei num tom bastante afável, contudo, sentia o sangue em minhas veias queimar feito as labaredas do inferno.
Finalmente estava perdendo minha paciência.
Felicity me olhou fixamente com um ar pensativo, por alguns segundos, até balançar a cabeça negativamente.
— Não, não...Acho melhor não. Prefiro que você me responda se tem namorada.
Me engasguei surpreendido com a mudança de tema.
— O...quê?
Sua expressão não tinha se alterado. — Tô perguntando se você tem uma namorada.
Ah, a descarada. Já estava indo com sede ao pote. Não podia a culpar, eu era um potão de ouro.
Mas já estava na hora de acabar com esse jogo.
— Escute bem, Srta. Smoak, não acr-
— Ei, companheiro! — Tommy chegou no exato momento, interrompendo a sentença que acabaria com todos os sonhos cor-de-rosa de Felicity — Voltamos!
Não. Brinca. Interessante como Tommy escolhia os melhores momentos para aparecer. Estreitei os olhos e calculei mentalmente em quanto tempo chegaria à porta do estabelecimento, caso precisasse correr de Tommy, após jogar minha bebida na cara dele. Estava precisando urgentemente fazer isso. Minha mão tava coçando!
— Você bem que poderia dançar também, tentar se animar um pouco. — Sara comentou ofegante, ao lado de Tommy. Seu rosto estava vermelho e um suor teimoso descia pelo seu pescoço. Ah, com certeza ela aproveitou bastante a dança com Tommy.
Deixa só quando Laurel descobrir isso...
Abri um sorriso sugestivo.
— Isso foi um convite?
Totalmente pega de surpresa, Sara ficou imóvel e pelo canto dos olhos, notei Felicity se mexer incomodada. Interessante.
— Não foi isso que eu quis dizer...
— Mas foi isso que eu entendi. — A interrompi — E não vai tirar pedaço você dançar comigo também, certo?
Os olhos de Sara cresceram de tal maneira, que quase me fez considerar dizer que tudo não se passava duma brincadeira. Quase.
Porque meu cérebro começava a projetar um plano pra lá de diabólico.
— Não, mas...
— Ótimo! — Me levantei da cadeira, não deixando que ela completasse sua frase. Com uma confiança que toda a geração Queen adquiria ao nascer, me dirigi até a pista de dança, sabendo que Sara estaria logo atrás.
Quando ela parou na minha frente, seus olhos brilhavam feito lava de um vulcão ativo. Ela estava furiosa e eu, exultante. Era um passatempo meu irritar as pessoas que atrapalhavam minha vida, fazia um bem para minha saúde...
— Você não precisava fazer isso. — Ela resmungou, olhando de maneira colérica na direção que Felicity estava, provavelmente já jogando dardos com os seus olhinhos pra cima de nós.
Lhe lancei o meu melhor olhar inocente, enquanto começávamos dançar aquela música horrível que servia mais para me desanimar, do que animar.
— Fazer o que? Não me diga que você não queria dançar?
Ela bufou.
— Você sabe muito bem do que eu estou falando.
— Um esclarecimento seria bem vindo.
Se possível, sua carranca se aprofundou mais e num instante, uma dor aguda tomou posse da minha canela direita, fazendo-me soltar um grunhido nada elegante.
Vaca!
Ela abriu um sorriso brilhante na minha direção.
— Agora ficou claro o bastante para você? — Perguntou petulante e se eu não fosse tão educado — ou fingisse ser, na maioria das vezes -, teria dado um pisão no seu pé.
— Preciso de um favor seu. — Fui direto e observei como seu sorriso se desmanchou tão facilmente com aquelas palavrinhas mágicas. Ha! — Na realidade, você vai fazer um favor para mim. — Acrescentei com força e ela resfolegou ultrajada.
— Me desculpe?!
— Desculpada. — Pisquei um olho e ela ficou vermelha. De raiva, certamente. — Agora, voltemos a falar sobre o favor que você irá fazer para mim...
— Eu não vou fazer favor algum para você! — Ela me interrompeu toda revoltadinha e eu revirei os olhos. Estava cercado de pessoas dramáticas.
— Preciso que você finja ser minha namorada. — Soltei logo de uma vez, sem paciência alguma para aturar chilique de uma Lance. Elas eram especialistas nesse assunto e disso, eu sabia muito bem. Anos de experiência.
Ela me olhou com tamanho horror, que pareceu até que eu estava com uma bandeira nazista levantada, enquanto saldava Heil Hitler. Foi minha vez de me sentir ofendido com sua reação.
Nem tava pedindo pra ela matar alguém, oras!
— Eu fingir ser sua namorada? — Ela riu, incrédula — Você só pode tá de brincadeira!
Adotei uma expressão mortalmente séria, esperando que ela entendesse que não estava brincando coisa nenhuma.
— Não tô brincando, Sara.
— Oliver, não vou fingir ser sua namorada. — Ela revirou os olhos — Eu sou sua ex, pelo amor! Não vê quão ridículo seria isso?
Seria ridículo, de fato, se estivéssemos em Star City, mas já que esse não era o caso...
Levantei o queixo. — Não importa se é ridículo ou não, preciso da sua cooperação no meu plano.
Ela arqueou uma sobrancelha, com desdém.
— Seu plano é estúpido, seja qual for.
Loira desgraçada. Alguém um dia teria de acabar com aquela arrogância dela. Se bem que em matéria de arrogância...Eu tinha mestrado.
— Meus planos são excelentes!
— Só se for na outra vida. — Ela replicou, inconsciente que seu pescoço poderia ser logo levado a leilão se a mesma continuasse tirando umazinha com a minha cara.
— Se você não me ajudar, vou contar pra Laurel toda a verdade. — Ataquei e com prazer assisti o aspecto desdenhoso de Sara se esfumaçar feito pó assoprado.
Ha! Quem ri por último, ri melhor, não é mesmo?!
— Você não se atreveria! — Ela se recuperou feroz. O aperto de sua mão ao redor da minha, se intensificou. E se eu não fosse — não sou — o gentleman¹ que todo mundo pensa que sou...Ela já estaria com os dedinhos quebrados.
— Não apostaria muito nisso, Sara. — Ronronei, não perdendo o ritmo da dança.
Tá, confesso, até que dançar aquela estúpida canção que estava tocando, era legal. Principalmente quando eu conseguia sentir a derrota da minha frenemy² em questão.
Ela ficou em silêncio por um tempo, provavelmente pensando nas suas alternativas — que eram pouquíssimas, vale frisar.
— Ok, fale o que eu preciso saber. — Ela disse, soltando um suspiro e exibindo um olhar cansado.
Feliz, assenti com a cabeça. O gostinho da vitória era sempre muito bom.
— Meu tempo aqui em Lian Yu é limitado e como eu detesto causar dramas desnecessários... — Ganhei um olhar de "Sério Oliver? Você tá falando isso mesmo?" mas eu o tratei de ignorar. Até os pensamentos das pessoas para comigo, eram caluniosos. Tsc, tsc. Eu deveria começar a pensar em processar. —...decidi me livrar do meu problema, chamado Felicity Smoak com a sua digníssima ajuda. — Continuei e assisti uma veia saltar na sua testa. Alguém estava ficando nervosa... — Pelo pouco que observei, a Srta. Smoak parece fazer o tipo que não larga o osso, mesmo que ele esteja cheio de veneno. Percebendo isso, mais somando sua chegada abrupta aqui em Lian Yu, tive a excelente ideia de fingir um namoro com você, para solucionar essa situação do jeito mais pacífico possível. — Soltei um suspiro longo e entediado, fazendo muito pouco caso do assunto. Afinal, já estava para resolver ele. — Antes a Felicity Smoak sair desiludida por não ter uma chance comigo, por meu coração pertencer à outra, do que eu rejeitá-la por não querê-la de forma alguma. — Completei, dando meu discurso por encerrado e esperando que Sara entendesse minhas intenções da melhor forma possível.
Isso sim era ser um gentleman. Mamãe estaria orgulhosa.
— Acabei de virar amiga da Felicity, não posso fazer isso! — Ela exclamou, aparentemente apavorada com a perspectiva de se juntar àquela farsa comigo.
— O que tem? Não é como se você fosse ficar para sempre aqui e ser melhor amiga dela até o fim dos seus dias na terra. — Retruquei num tom glacial, não deixando espaço para ela fugir da verdade.
Podia estar sendo cruel, mas ao menos, estava sendo sincero.
Sara não iria ficar para sempre em Lian Yu e tampouco se tornaria inseparável de Felicity. E ela pareceu compreender isso, ao abaixar o olhar por um momento e depois balançar a cabeça num gesto positivo.
— Tudo bem, aceito sua proposta. — Levantou o rosto e exibiu um sorriso irônico que me deixou em alerta. Por que ela estava sorrindo? — Mesmo sabendo que nem isso irá parar Felicity de tentar te conquistar.
Por que ela parecia ter tanta certeza disso? Estreitei os olhos, desconfiado.
— Bobagem. A garota é de cidade pequena, não vai querer tentar alguma coisa com um homem comprometido.
Dessa vez Sara riu. Alto. Riu como se tivesse acabado de ouvir uma piada. E eu não gostei disso.
— Querido, acho que você está subestimando nossa Srta. Smoak. — Pausa dramática — Aliás, estou dividindo quarto com ela e se algo me acontecer, estou te responsabilizando. Tirar cola de cabelo dá muito trabalho.
Pisquei os olhos, impressionado.
— Alguém já colocou cola no seu cabelo antes?
Ela piscou de volta.
— De tudo isso, você só focou nessa parte?
— E em que outra parte eu deveria focar?
Ela começou a olhar pro teto, resmungando alguma coisa. E não pela primeira vez na vida, senti minha nuca queimar. Sabendo exatamente a quem me dirigir, olhei na direção de Felicity e não foi com surpresa que notei ela nos observando de maneira assassina.
Estava na hora do show.
Virei para Sara e deslizei minha mão até sua cintura, a puxando para mim. Senti como ela ficou tensa e tive que me controlar para não começar a rir e estragar toda a encenação.
— Não se preocupe, não vou te beijar. — Eu disse divertido e ela levantou uma sobrancelha.
— E o que exatamente você irá fazer?
— Vou simular, querida.
E antes de simular, um pensamento interessante cruzou minha mente: A amizade de Sara e Felicity seria a mais breve da história, após os acontecimentos dessa noite.
Felicity's Pov
EU VOU DESCER O CACETE NAQUELA LOIRA FALSA!
Foi com horror, indignação, ódio, áurea assassina, que assisti quando o MEU GARANHÃO, beijou Sara bem ali no meio da pista de dança, sem nem ligar para os olhares que estavam chamando atenção.
Desci da minha cadeira na hora. E como se já soubesse minhas intenções, Rene parou na minha frente.
— Sai da frente, Rene! — Exigi, pronta para incorporar o Rambo e encarar até Rene se fosse preciso. Eu ia pipocar minha mão na cara daquela loira falsa.
Onde já se viu pegar homem alheio?!
— Loira, até você se acalmar, não vou te deixar sair daqui. — Ele declarou com firmeza, cruzando os braços e exibindo seus bíceps. Era claro o motivo da sua atitude: Estava querendo passar a mensagem de que era mais forte do que eu e se fosse preciso, usaria a força para me impedir de causar uma ceninha com a loira falsa.
Traíra idiota! Deveria saber que seria imediatamente trocada por um par de seios estrangeiros.
Bufei desanimada, homens eram todos iguais!
Ressentida, voltei para o meu lugar. Começava a arquitetar um plano muito bom de vingança para aquela loira safada que tinha dito ser minha amiga, mas na primeira oportunidade, tomou o meu macho.
— IIIH BARBIE DO SERTÃO, PERDEU O BOY!!!
Interrompendo meus pensamentos vingativos, Curtis gritou no meu ouvido, segurando um copo enfeitado com um guarda-solzinho ridículo. Trinquei os dentes e fechei os punhos.
Descer o tapa naquele pavão de araque seria revigorador.
— Acho melhor você controlar sua língua ou sumir da frente dela, Curtis. — Tommy recomendou sabiamente, me olhando de modo atento. Diferente de Rene, ele não parecia tenebroso sobre as minhas futuras reações...Ele parecia mais estar se divertindo com minha situação.
Idiota! Será que ele não percebia que estávamos enfrentando uma situação que merecia um alerta vermelho?
Entrecerrei os olhos.
— Não quero mais dividir quarto com Sara.
Se eu estava tentando evitar um assassinato em potencial? Sem dúvida. Se eu iria conseguir? Talvez.
— Então ela vai ter que dormir no galinheiro, pois eu que não vou dividir quarto com ela! — Curtis soltou, empinando o nariz lá pro teto e sequer me encarando.
Pavão pomposo. Ao que parecia, Sara não podia nem contar com o seu atual "amigo", o que não me incomodava nem um pouco...Quer dizer, em partes. Vai que a Loira Falsa resolvia pedir abrigo na casa de Tommy? Especificamente no quarto de Oliver?
Ah, não!
Virei para Tommy e agarrei o seu braço.
— Tommy Merlyn, você sabe que fornicação fora do casamento, é pecado né?
Vi quando sua boca se abriu quase um palmo e seus olhos se ergueram.
— EI!! POR QUE VOCÊ TÁ FALANDO ISSO PRA MIM? — Gritou, puxando o seu braço de minha mão — EU NÃO TÔ FAZENDO NADA!
Obviamente, Curtis e Rene começaram a rir, apreciando o surto do Merlyn. Até eu se não estivesse fula da vida, estaria dando boas risadas. Para quem fugia de casa durante as madrugadas para se divertir, Tommy era um belo dum cagão.
— Ihh, parece que alguém aqui tem rabo preso... — Curtis provocou, com um sorriso safado. Se possível, Rene riu mais ainda.
Tommy dedicou um olhar fulminante para Curtis.
— Ao seu redor, é melhor ter um rabo preso mesmo. — Ele retrucou e Rene fez um sinal positivo, concordando.
— Que tal vocês focarem no meu problema? — Questionei, cruzando os braços revoltada por estar sendo ignorada.
ERA EU QUEM ESTAVA COM PROBLEMAS AQUI!
— Qual deles, Felicity? — Rene zombou, alheio ao perigo que estava correndo por mexer com carga explosiva, que no caso, era euzinha.
Descruzei os braços e para não acabar enforcando alguém — aka Rene -, apoiei as mãos no balcão, começando a tamborilar os dedos sobre o mesmo.
Essa noite era suposta ser 'A noite', mas como deixei-me levar por uma cobra traiçoeira, estava sendo 'A noite do Desastre', contudo não por muito tempo, prometi a mim mesma. Sempre fui uma pessoa muito pacífica, mas até então nunca tinha encontrado ninguém que despertasse o meu interesse — a visão de Nyssa pode ter o incentivado, porém a espécime em questão também ajudou. Oliver Queen era a personificação do pecado.
Portanto, passaria a usar como sina a frase: No Amor e na Guerra vale tudo. Inclusive até mesmo umas loucurinhas.
E de loucuras eu entendia bem.
Bati minha mão no balcão, chamando a atenção de Floyd que deu um pulinho de susto.
— Me serve um drink, Floyd. — Pedi e suas sobrancelhas arquearam com dúvida.
— Você está mesmo me pedindo uma bebida alcoólica? Tem certeza?
— É claro que estou. — Resmunguei irritada — Não é pra isso que todos vem aqui? Se divertir? Dançar e beber? Por que eu não faria o mesmo?
Ele abriu e fechou a boca por diversas vezes, até soltar um suspiro alto e dizer:
— Você é diferente, Felicity.
Oh sim, eu com certeza era diferente. Fechei a cara.
— Eu não sou mais criança e nem preciso mais de babás.
Floyd ergueu a mão.
— Não, você só é uma boa garota que não deveria estar aqui. — Dedicou um breve olhar de advertência para Rene, que apenas deu de ombros e voltou a me encarar. — E sim, eu não teria nenhum problema de te servir alguns bons drinques, se Lian Yu não fosse um lugar minúsculo e as pessoas não falassem. — Estremeceu — Não quero ter o meu corpo jogado em algum rio por embebedar você.
Ele tinha razão. Minha reputação realmente era do tipo boa, uma vez que eu me neguei a sair por aí igual minha mãe, quem costumava flertar com todos os homens por pura diversão. Na percepção dos outros, eu era quase uma santa.
Entretanto, ser quase uma santa não me ajudaria em nada — pelo menos, por hora. Portanto, sem nem pensar duas vezes, tomei o copo de Tommy e numa virada só, engoli goela abaixo o conteúdo.
Tardiamente, percebi que tinha sido uma péssima ideia fazer isso.
— AAAAAHH!! — Gritei, para logo em seguida, tentar cuspir aquela bebida do inferno para fora de minha boca. Era horrível!
Diante minha reação, Floyd e os demais presentes começaram a rir alto, como se estivessem presenciando algum stand up gratuito. Mais constrangida do que irritada, devolvi o copo ao dono. Ninguém precisava beber mesmo para se divertir...
De novo, sem nem pensar muito, puxei Curtis pelo pulso.
— Ai viada, cuidado com a mercadoria de luxo! — Ele exclamou, tropeçando nos próprios pés.
Revirei os olhos.
— Cala a boca, Curtis. — Mandei, caminhando em direção à pista de dança com ele.
— Oh garota, não me manda calar a boca não, porque senão eu colo o tapão nas suas fuças! — Ameaçou, enquanto tentava travar os pés para parar de ser arrastado por mim.
Soltei uma risadinha desdenhosa.
Se ele não conseguia nem me impedir de arrastá-lo até uma pista de dança, imagine pousar a mão na minha cara.
— Ei, o que estamos fazendo aqui na pista de dança? — Ele questionou, assim que parei e soltei seu pulso.
Curvei os lábios num esgar.
— Que é que você acha?
De maneira inocente, ele piscou os olhos na minha direção.
— Mas eu sou gay!
— E?
Fez cara de nojo.
— E eu não vou dançar contigo. — Torceu o nariz — Nem se fosse hétero dançaria.
Viado escroto.
— E eu se fosse gay também não te pegaria! — Retruquei exasperada — Então estamos quites, querido.
Acreditem ou não, mas ele fez beicinho e podia jurar de pé junto que os seus olhos brilharam contendo lágrimas não derramadas. Sentindo minha consciência pesada, abri a boca para pedir desculpas, quando de repente Curtis começou a requebrar feito uma lacraia na minha frente.
QUE. INFERNOS. ERA. ISSO?
Boquiaberta, fitei a cena.
— Que foi viada, não queria dançar? — Ele indagou ainda se requebrando todo. A multidão ao nosso redor, assistia a cena soltando risadinhas e ocasionais gracejos, incentivando o pavão a continuar com sua dança do acasalamento. — Vambora dançar, Barbie do Sertão!!!
Sem mais opções — mentira, eu tinha sim várias opções -, me juntei à Curtis. Como o ditado sempre dizia: Pra quem já tá molhado, um pingo é besteira!
(...)
Deixa pra lá, besteira mesmo era estar dentro dum porão de bebidas, com Curtis Holt.
Após nossa pequena demonstração de como NÃO DANÇAR, a pista de dança se encheu de pessoas, dispostas a arriscarem alguns passos tão ou mais horrendos quanto os nossos. E então, bem no meio da agitação, Curtis vislumbrou uma entrada e cá estávamos nós, sentados no chão, cada um com uma garrafa do lado.
Havíamos encontrado a entrada para o paraíso! Ou inferno, se fossemos considerar a possibilidade de a qualquer momento, sermos flagrados por Floyd, dentro da salinha onde era conservada as bebidas.
— Essa não foi uma boa ideia. — Eu disse, tomando mais um gole daquele líquido carmesim. Quem diria que vinho tinto, era bom?!
Como resposta, Curtis arrotou alto do meu lado.
— Essa foi uma ótima ideia, viada. — Replicou, soltando uma risadinha e rolando sua garrafa já vazia, no chão.
Em silêncio, assistimos a garrafa rolar até bater contra um...pé? UM PÉ? De olhos arregalados, virei para Curtis e ele para mim. Sua expressão era a mesma que a minha: Horrorizada.
Não era suposto só nós dois estarmos dentro daquela salinha mal iluminada e deserta, enchendo a cara? E se alguém passou por nós, como não vimos e nem ouvimos a porta bater? Eu era cega mas nem tanto...MEU DEUS, SÓ PODIA SER O DEMÔNIO!
Parecendo chegar na mesma conclusão que eu, Curtis se levantou num pulo e eu imitei ele. Ou pelo menos, tentei né...A bebida havia nublado minha mente, fazendo-me trocar os pés e quase ir de cara com uma prateleira recheada de bebidas, porém felizmente, me agarrei à Curtis...Que só não tombou por intervenção divina.
— AVE MARIA CHEIA DE GRAÇA, PEPEÔ, SOCORRO. — Curtis gritava, correndo em direção à porta mas se atrapalhando todo na tarefa de abrir a mesma.
Apavorada, lhe dei uma acotovelada e passei na sua frente, tentando abrir aquela maldita porta do inferno.
— SENHOR, ME DESCULPE POR FURTAR O NÉCTAR ALHEIO, NUNCA MAIS FAÇO ISSO!! — Curtis rogava, ajoelhado no chão, dedicando breves olhares para a direção do pé que começara a fazer um movimento ritmado contra o piso.
O demônio estava impaciente e eu quase mijando nas calças.
— SENHOOR NAO ME DEIXA MORRER COM ESSE PAVÃO ALOPRADO NÃO!!!! — Comecei a algazarra também, batendo o punho contra a porta, na esperança de alguém nos ouvir.
Ofendido, Curtis levantou-se rapidinho, esquecendo o demônio que estava dividindo ambiente conosco.
— Como é que é, mocréia? — Ele parou com as mãos na cintura e eu o olhei de cima a baixo. Valei-me Deus, morrer ao lado desse pavão seria castigo demais! — Repete o que tu falou, sua caipira do araque!
Ele me chamou de quê?!
— Repete você, o que falou. — Exigi entredentes, já imaginando meu punho enterrado nas fuças dele.
Ele ofegou.
— Só vou repetir, quando você repetir.
— E eu só vou repetir, quando você repetir.
Estávamos parecendo dois papagaios com defeito.
Ele abriu a boca, pronto para retrucar quando aquele mesmo barulho ritmado, nos fez paralisar de medo e cancelar a próxima grande guerra épica de farpas.
— Jesus, Maria e José. — Curtis pronunciou, fazendo o sinal da cruz. E eu, num despertar milagroso, voltei a focar na fechadura da porta, com muito mais empenho que antes.
Dessa vez, a maldita se abriu soltando um barulho fantasmagórico de casa mal assombrada e tanto eu, quanto Curtis, saímos correndo para longe dali, imaginando que diabos havíamos acabado de testemunhar.
Será que havia sido a bebida ou...alguma outra coisa?
Tenebrosa, olhei para Curtis e ele retribuiu o olhar.
— Foi a bebida e não se fala mais nisso! — Declarou, categórico e eu assenti com a cabeça, engolindo em seco.
Certamente havia sido a bebida, afinal, o que mais poderia ser?! Um fantasma? Ri com o pensamento, puxando Curtis para a pista de dança comigo novamente.
Localizei Oliver e Sara sentados no barzinho conversando, Tommy fazia companhia para eles.
Apertei os olhos, resignada a começar pensar numa nova estratégia para conseguir apanhar o garanhão, assim que esta noite infernal acabasse. Porém, enquanto minha brilhante mente não começava a trabalhar nessa estratégia ainda inexistente — mas que com certeza, seria revolucionária e promissora quando existisse -, me ocuparia em me divertir.
Não fugi de casa por nada e não seria Oliver Queen, quem me pararia!
(...)
Eu e Oliver estávamos sentados no prado localizado há quilômetros da fazenda e que tinha como ornamento, uma cachoeira que Barry e eu costumávamos visitar quando crianças. O clima estava ameno, mas com promessas de uma grande tempestade, se fosse considerar as nuvens negras começando a cobrir o céu. Não entendia o motivo de eu e Oliver estarmos nesse lugar, e não tinha muita certeza, se iria gostar da resposta.
Oliver me olhava fixamente, em silêncio. E como o esperado, aquele olhar conseguiu causar o efeito desconcertante de esquentar o meu rosto e ativar cada célula do meu corpo, enviando choques até a ponta dos meus dedos. Interessante como um olhar — na realidade, o olhar -, da pessoa certa, causava um rebuliço de emoções. Esperava um dia causar o mesmo efeito sobre alguém. Especificamente sobre ele. Oliver Queen.
— Que foi? — Perguntei, ao perceber que ele continuava quieto ao me encarar.
— Felicity, não se pode voar com as asas quebradas.
Ele disse finalmente e senti uma dor de cabeça chegando. Que diabos ele queria dizer com isso?!
Abri a boca, prestes a questioná-lo, quando o clima mudou drasticamente e uma tormenta começou a nos assolar. Com pressa em me proteger, levantei num pulo e quando olhei para baixo, especificamente o ponto onde Oliver estava, ele já não mais se encontrava.
Pisquei abismada, olhando o lugar. Como assim ele havia desaparecido? E por que o clima havia mudado de forma tão drástica? O que Oliver quis dizer com asas quebradas? Da mesma maneira em que o tempo fechou, de repente, as nuvens negras desapareceram e uma luz tão forte se propagou em todo o ambiente, que fui obrigada a fechar os meus olhos. E ainda para rechear o bolo, fui ofertada por uma grande dor de cabeça, que me fez ofegar.
Não aguentando mais, resolvi abri os olhos e me deparei com...O céu?
Pisquei os olhos, sentindo minha cabeça pesada mas não apenas ela. Havia algo em meu peito também que pesava. Ainda desorientada pelo o sonho que tive e por aquela dor infernal que se alojara na minha cabeça, tentei me levantar o mais lentamente possível, suspeitando que a famosa ressaca havia se apossado do meu corpo.
Nunca antes havia passado por isso, entretanto, já havia testemunhado diversas ressacas na vida, para saber como era uma.
— Ai. Meu. Deus. — Gemi, caindo para trás e desistindo da minha missão de levantar do lugar. Não fazia a mínima ideia de onde estava, só que era em algum campo aberto. E isso não podia ser um bom sinal.
Quer dizer, como eu havia parado aqui? Por que? E...Num último esforço, inclinei minha cabeça, tentando olhar para baixo e a visão que tive me fez arregalar os olhos, amedrontada.
Uma botinha dourada berrante inconfundível estava estacionada bem no meu peito, indicando que ela era o motivo de eu estar com o mesmo pesado. Mas que infernos...Num rompante de fúria e loucura, me levantei na toda e consegui empurrar rudemente o pé de Curtis para longe de mim, fazendo o mesmo acordar sobressaltado.
Entretanto, o seu surto não foi o que mais me chamou atenção. E sim ver que Oliver, Rene, Tommy e Sara também se encontravam "desmaiados" ao nosso redor. Mordi o lábio, começando a me preocupar de verdade.
Que droga tinha acontecido? Não conseguia me lembrar de nada!
— Mas gente, que surubão aconteceu aqui ein! — Curtis comentou safado, ao notar também os indivíduos desmaiados perto de nós.
Senti o meu sangue gelar. E se ele estivesse certo? Frenética, comecei a conferir minhas roupas e com um suspiro aliviado, constatei que nada tava faltando. Seria trágico demais participar de uma orgia com Curtis e Rene. Eca! O último era como quase um irmão para mim.
Abri a boca, pronta para provavelmente retrucar o pavão ou quem sabe, também começar a surtar, quando os nossos companheiros resolveram dar o ar da graça acordando soltando gemidos iguais ou piores que os meus.
Pelo menos eu não era a única sofrendo com uma ressaca. Isso me fez obscenamente feliz. Bem que Oliver e a Loira Falsa mereciam uma vingança, se não a minha, a de Deus. Se bem que isso tava mais pra justiça divina...Ok, que seja.
Encontrando alguma dificuldade, observei Oliver se levantar lentamente, com Tommy à tira colo. E não pela primeira vez, tive a nítida impressão que Oliver cuidava de Tommy como se fosse sua babá, ou sei-lá-o-quê.
— Que infernos aconteceu? — Oliver deu voz aos meus pensamentos, olhando ao redor abismado. Curvei os lábios, contente.
Interessante como ele parecia perder as estribeiras quando não estava no controle da situação. O fazia parecer até humano.
— Não sei, potro, me diz você. — Curtis propôs, lançando um olhar sugestivo para o meu objeto de afeto. Dei um chute nele. — Ai viada! Calma, não precisa partir pra agressão não!
Grunhi, segurando o xingamento que gostaria de soltar.
— Meu Deus!! — Rene exclamou, ao se levantar e olhar para todos os lados possíveis.
Franzi o cenho, ao observar sua atitude. Parecia que ele reconhecia o lugar onde estávamos e por mais conhecedora de todos os lugares de Lian Yu, esse lugar em especial, fugia de minha memória. Inevitavelmente, senti um frio na espinha.
— Que foi? Você reconhece esse lugar? — Perguntei em alerta e Rene me dedicou uma expressão mesclada em assombro e incredulidade.
— Você não reconhece?
Dei um passo para trás. Por que ele parecia aterrorizado?
— É claro que ela não reconhece, se ela perguntou! — Tommy se intrometeu, mau humorado.
Sua ressaca parecia a pior, por considerar o quanto ele se esforçava para manter os olhos abertos e mesmo assim, eles continuarem apertados.
Ignorando Tommy — provavelmente para evitar sair no soco com ele -, Rene caminhou até minha direção. Esperei pacientemente para que ele soltasse a bomba — ou não tão pacientemente assim, uma vez que estava batendo o pezinho no chão, bem do jeitinho que fazia sempre quando estava nervosa.
Ele pareceu perceber minha ação, e por desgraça, deu um passo para trás, receoso. Ah não! Começou agora termina!
— Rene, fala logo o que você tem que falar. — Pedi super educada, quase descendo o tapa também nele.
Visivelmente desconfortável, ele abriu o bocão:
— Felicity, estamos na propriedade de Damien Darhk.
Demorou exatos 30 segundos para minha ficha cair.
O mais calmamente possível, alisei a minha roupa, eliminando qualquer amassado ou sujeira e quando terminei essa tarefa, sorri para cada um presente e com uma voz afável, proclamei:
— Legal gente, é o seguinte... — Ampliei mais o sorriso e comecei a retroceder lentamente, nem ligando para o meu ato covarde. — TÁ NA HORA DE PICAR A MULA E IR EMBORA!
E comecei a correr loucamente. Estávamos no terreno de um doido aloprado pior que Curtis! Todos em Lian Yu não se atreviam nem a por o pezinho em alguma terra desse ser pirigótico. Corria boatos de vento em polpa que Damien Darhk era praticante de bruxaria, além de fazer sacrifícios humanos.
E sua aparência quase diabólica, ressaltava os boatos que faziam qualquer um temer estar na sua presença.
Se tudo não passava de lenda ou não, eu não fazia a menor ideia. Contudo, só tinha certeza de uma coisa: NINGUÉM, JAMAIS, SE ATREVIA A INVADIR A PROPRIEDADE DARHK. E nós termos feito isso, era um problemão que poderia nos levar à cova.
Bem que eu disse que Barry ouviria falar sobre a nossa noitada...Merda!
— DE QUEM FOI A ESTÚPIDA IDEIA DE INVADIR AS TERRAS DO DARHK? — Rene questionou exasperado, correndo ao meu lado.
Cerrei os lábios e dei de ombros. Também gostaria de saber quem teve essa estúpida ideia!
— POR QUE VOCÊS ESTÃO CORRENDO? — Tommy nos alcançou, ofegante. Parecia que alguém ali se tornava sedentário após uma bebedeira. — ALIÁS, POR QUE NÓS ESTAMOS CORRENDO?
Olhei por cima dos ombros e constatei que ele tinha razão: Geral tava correndo e sem nem sequer saber o motivo, ótimo! Parecia que eles eram bem adestrados. Ok, parei.
— Você quer mesmo conversar uma hora dessas? — Perguntou Rene, fechando a cara.
— Viada, pode contando logo o motivo de eu estar correndo igual uma galinha atrás de milho! — Curtis exigiu, correndo daquele jeitinho afeminado dele: Nas pontinhas dos pés.
— Tô com Curtis nessa! — A Loira Falsa resolveu se manifestar e só de sacanagem, entrei na frente dela, a barrando. Ha! Fique por último, maldita!
Sem parar de correr, Rene dedicou um olhar ameaçador para cima de Curtis pelo "viada" e o pavão obviamente soltou uma risadinha, perdendo a noção do perigo.
Oh Deus, se sobrevivêssemos, Rene faria questão de matar Curtis logo em seguida. Certeza.
— Tem como alguém explicar logo o que está acontecendo? — Oliver finalmente abriu a boca, também fazendo uma exigência.
Fui revirar os olhos igual Rene e quase capotei. Quase.
— Estamos na propriedade de um psicopata, só isso. — Respondi com um sorriso cínico, ao me recuperar da quase queda.
— NÓS ESTAMOS AONDE?
Não preciso nem dizer que quem soltou esse berro foi Curtis e que logo em seguida, ele caiu desmaiado no chão, né?
É, estávamos todos perdidos, para não dizer outra coisa...
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