Amor à moda antiga
9 Capítulo 8.2
Notas iniciais
Saí do meu quarto e fui para a rua, correndo pelos telhados, atacando toda classe de pessoa que eu via pela frente, deleitando-me com o gosto amargo do fel. Eu matei pessoas, eu estuprei pessoas, eu comi pessoas, mas não me importo com nada disso, porque eu simplesmente não consegui me acalmar. Não conseguia parar de me enfurecer sempre que a memória de Sakura tocando Naruto surgia como flashes em minha mente.
Eu rosnava, rugia, destruía coisas como só os monstros fazem. A raiva, a fúria, o ódio, a inveja, o desespero e todos esses sentimentos que te fazem enlouquecer se apossaram do meu corpo como demônios que precisavam ser exorcizados. Mas ninguém podia tirá-los de mim ninguém teria coragem suficiente para isso, ninguém.
Parei de correr quando eu percebi que estava pisando na grama do parque onde eu me reencontrara Naruto. Isso me fizera recordar de algo que eu queria.
–O que eu quero?! – rosnei alto – O que eu quero?! – numa poça de água eu vi meu reflexo, eu estava bizarro e assustador. Não, eu estava... – Selvagem e sem controle!!! Selvagem e sem controle!!! O que eu quero?! – rosnei de novo. Meus sentidos estavam tão intensos e em níveis tão alarmantes que conseguia sentir os mais mínimos e remotos cheiros, sons e cores. – O que... eu quero?! – rosnei. Só um único nome me veio à mente naquele turbilhão louco de cheiros, formas e pensamentos – Naruto...
Sim, sua imagem sorridente e radiante não saía da minha cabeça.
Era única coisa nítida no caos mental que se apossara de mim. Seu cheiro, seu sabor, seu calor, sua textura, suas cores, seus sons. Era tudo tão palpável como se fosse real, mas eu não me excitava com isso, só me deixava mais furioso, mais ensandecido, mais bestial.
–Naruto... – rosnei baixo e rouco, como se aquele nome tivesse um anestésico, um calmante na minha mente – Naruto... Naruto...! – algo em meio as imagens distorcidas dos meus recentes ataques, me fez lembrar algo que eu queria fazer. – Eu quero... Falar com ele...

Eu tinha que perguntar algo a ele ou não me acalmaria. Fui para um banco e me sentei, analisando meu corpo manchado pelo sangue de pessoas que eu nem me recordava. Meu corpo estava mais forte, as veias saltavam a minha pele, meu pelo estava completamente arrepiado e tudo parecia intensamente interessante. Eu resolvi ligar para Naruto de uma vez por todas e conversar. Disquei rapidamente o número e esperei alguns segundos.
Rosnei furioso, quase esmagando o celular em minhas mãos, quando no primeiro toque eu não fui atendido. Os “tu-tu-tu” de espera me torturavam por causa da demora, mas logo alguém atendeu e eu respirei.
–Alô? – rosnei e esperei a resposta. Ouvi um espirro e depois uma fungada.
–Alô... – a voz sussurrou – Quem é?
–Sasuke Uchiha.
–Ah, Senhor Uchiha! – com essa leve alteração eu entendi que fora Boruto que atendera ao fixo – Boa noite... Está com uma voz estranha. Por que está ligando uma hora dessas?
–Eu quero falar com seu pai... Ele está? – nos meus ouvidos, minha voz parecia normal, mas se ele disse que pareço diferente, é porque devo estar diferente.
–Está sim. Vou passar para ele.
Alguns barulhos de passos correndo, portas se abrindo, sussurros incompreensíveis e um longo bocejo depois Naruto me atendeu e eu notei que ele estava sonolento pela voz.
–Sabe que horas são Scarface? – sua voz me soou como música nos meus ouvidos. Estiquei-me sobre o banco e respirei fundo. Naruto, eu sussurrei mentalmente. Vou confessar: eu adoro quando ele me chama de Scarface.
–Muito tarde?! – sugeri cinicamente. Ouvi-o se mexer na cama, os rangeres das molas e os farfalhar dos lençóis o denunciaram, como se estivesse se posicionando melhor. – Te acordei?
–Não... – ele bocejou longamente, mas ainda conseguiu manter seu tom sarcástico – Até porque eu sou um milionário que não tem que levantar cinco da manhã para trabalhar para pagar as contas no fim do mês... Qual é o seu problema?
–Problema? – tentei parecer amigável, mas foi só nesse momento que notei o quanto minha voz estava grave e rouca, como quando faço sexo com... Naruto – Não tenho problema.
–Você está rosnando, Scarface. Você está irritado e doido para descarregar em alguém. Não pode enganar essas orelhas gigantes que eu tenho. – tive que rir de seu comentário.
–Sim, eu estou muito irritado, furioso, pronto para matar qualquer um. – fechei os olhos, sentindo os frios tons da voz de Naruto percorrerem a minha mente, como se fosse uma doce flauta. Como um homem podia ter uma voz tão boa de ouvir? – Eu estou...
–Selvagem e sem controle. – ele me completou.
Abri meus olhos e me sentei subitamente.
–Como adivinhou só de ouvir a minha voz? – indaguei extremamente curioso. Telepatia não existe, isso eu sei, mas sei de ligações tão fortes que são capazes de se sentir o que o outro sente, de se saber o que outro pensa só com a interpretação dos sinais. Minha mãe me falara isso uma vez. Era assim que ela me entendia, ela disse que depois de muitos anos aprendera a ler os “meus sinais”. – Você é vidente?
–Não, seu idiota. – de repente eu ouvi algo parecido com uma mistura de borbulhar com um arranhar. Arrepiei-me com aquele som estranho – Uma besta reconhece outra. – sua voz saiu grave, perigosa, excitante. Senti um arrepio no meu baixo ventre com aquele rosnado contínuo e baixo. De repente aquele som parou e um bocejo sonolento me trouxe a realidade – O negócio é não reprimir, não negar o que se é, não se temer o que se tem dentro da mente, é assim que eu aguento viver comigo mesmo todos os dias...
–Isso é incrível. Você é incrível Naruto. – murmurei me deliciando com aquelas palavras – Sabe o que eu queria de verdade? – ele nada disse – Eu queria ter sexo com você.
–Não, não é o que você quer. – franzi o cenho. Não é o que eu quero? – Está dizendo isso porque está com os hormônios a mil por segundo. Você pensa que sexo vai te acalmar, mas se transar do que jeito que está agora, só vai piorar o seu estado. O que é que você quer?
Aquela pergunta foi como um soco na minha mente. Respirei fundo e me levantei do banco, caminhando pela grama fria, entrelaçando meus dedos nos fios verdes e molhados do chão, sentindo as plantas dos meus pés relaxarem. Caminhei devagar, em círculos, em oito, em toda forma de caminho que pudesse ser feito naquele parque. Fitei-me em outra poça e vi que meu físico diminuíra de tamanho, minha aparência estava mais calma, cada vez mais parecida com a que eu estava acostumado a ver todos os dias.
–Conversar. – respondi com alguma vergonha, apesar de sorrir.
–São duas da manhã, seu filho da puta. – ele falou seriamente – Eu posso estar aposentado, mas ainda sou atuante como uma Sombra... Eu devia te prender por importunar o meu sono, que eu tenho tão pouco de direito. – eu ri, acabando por provocar risos nele. Ouviu-o se mexer novamente – Espera um minuto Sasuke, porque eu acabei de me tocar que são duas da manhã e existem seres que pensam que são morcegos para estarem acordados ainda.
Respirei fundo e esperei. Por alguns instantes eu ouvi Naruto reclamar a Boruto sobre a hora e sobre o que ele ainda fazia acordado. Alguns instantes depois, eu ouvi a porta se fechar e sua respiração perto do fone do aparelho. Eu estava me sentindo um adolescente conversando com a namorada, um pouco nervoso, mas calmo.
–O que é que você quer conversar? – ele me perguntou com cansaço na voz – Seja breve, por favor, que eu tenho que dormir um pouco ainda. Vá direto ao assunto.
Pensei um pouco. Conversar não era suficiente ainda, eu tinha que vê-lo, sentir seu cheiro, tocar sua pele e, se possível, beijar a sua boca. Respirei fundo, engoli em seco e tentei dizer algo, mas eu sabia que iria gaguejar, então pensei mais um pouco e por fim disse algo:
–Eu posso te ver amanhã? – perguntei sem malícia.
–Para quê?
–Para conversar. – eu sorri colocando um braço acima da cabeça. Tomei o caminho de casa lentamente, como se contasse os passos e remontasse as pedras.
–Mas tu num queria conversar agora? – ouvi-o se deitar lentamente na cama.
–Pensei melhor, levando em consideração que eu sou um trabalhador assíduo com uma rotina que começa antes do sol nascer e só termina depois que a lua já desponta no céu, e acho que seria melhor conversarmos amanhã. – usei o mesmo sarcasmo que ele.
Ouvi-o rir baixo e bocejar mais uma vez, porém dessa vez mais breve.
–Eu queria te perguntar algo e conversar sobre isso, mas não dá se você tiver que acordar cedo amanhã... Não quero ser culpado pelo seu desemprego. – outro riso – Sério, cara. Eu não quero te causar mais problemas.
Ele demorou a responder.
–Já dormiu Naruto? – chamei.
–Quase, Sasuke... – ele respondeu com um bocejo – Mesmo que eu queira, essa sua voz noturna – Naruto assumiu um tom de sinceridade que me surpreendeu – falando baixo no meu ouvido me causa uns arrepios que não me deixam dormir... É muito bom de sentir, mas muito ruim para quem quer dormir. – eu fiquei boquiaberto com a confissão repentina – Só tem um problema para a gente se ver amanhã.
–Qual? – me apressei, para caso houvesse forma de contornar.
–Pela manhã eu vou ensaiar para uma apresentação a noite num bar... À tarde eu vou resolver umas coisas de Bolt... Se quiser conversar comigo, vai ter que ser durante os meus ensaios.
–Pode ser! – respondi de imediato. – Onde é?
Outro bocejo.
–É aquele studio de dança pertencente à Ino Yamanaka, acho que você sabe quem é, aquela bailarina russa que fez fama e fortuna uns dez anos atrás, largou tudo, foi para o circo e de uns tempos para cá abriu uma escola de dança.
Aquele nome me trouxe completamente para a realidade e para as razões que eu queria conversar com Naruto. Aquele nome, Ino Yamanaka, lhe fizera lembrar-se da guerra, das mortes, do casamento obrigado, do estupro, dos sentimentos ruins, das mortes, dos assassinatos, de tudo o que lhe ocorrera naqueles últimos dias. Eu poderia ter sentido raiva, mas meu corpo estava mais calmo, porque de alguma forma, Naruto estava ali.
–Sei quem é. – sorri satisfeito por saber onde era, apesar de não gostar de quem era a dona do lugar. Ino era amiga de Sakura, isso é verdade. As duas podiam se aliar por um bem comum, pois Ino odeia os Uchihas por eu a te rejeitado, enquanto Sakura havia sido rejeitada por Naruto, de modo que poderiam ser aliadas entre si, porém minhas inimigas. – Ela é amiga da Sakura, sabe? – comentei por alto, me aproximando do território da minha casa.
–Quem é Sakura?
Eu ri baixo com sua falta de memória, ou deveria ser por causa do sono? Quem poderia dizer afinal de contas? Ponto positivo para mim.
–Aquela punk de cabelo rosa que se apaixonou por você, que estava no bar com a gente.
–Sim...! – mais um gostoso bocejo no meu ouvido – Lembro-me agora... A pois, é lá na amiga da sua amiga. – eu ri da resposta, abrindo a porta de casa e entrando devagar. A casa estava silenciosa, escura e praticamente abandonada, mas mesmo com o telefone no ouvido, eu conseguia ouvir os barulhos noturnos da minha família. Ressonar, ronronar, respirar, roncar, balançar, ranger, estalar, caminhar, entre outras situações.
–Sei, sei, estarei lá, lá pelas oito.
–Então até amanhã... – sua respiração lenta e sonolenta começava a me provocar os primeiros arrepios do sono – Digo, até mais tarde... Bom descanso, Sasuke e bons sonhos.
–Obrigado.
Desligamos e eu finalmente entrei em meu quarto. O buraco ainda estava na parede e o tapete ainda estava revirado. Bocejei brevemente e fui para o banheiro me limpar. Mais uma constatação de que Naruto era a pessoa certa para mim e não o estranho com quem eu iria me casar, que a Senhora Mito me avisara posteriormente. Eu ficara selvagem e sem controle, tal como Madara me ensinara, por causa de Naruto, mas fora ele próprio que me acalmara.
Eu iria me casar com o neto de Mito, uma pessoa estranha, que nem ela mesma conhecia bem por ele evitar contatos com a família. Provavelmente ele também não sabia que iria se casar comigo, ou então estava evitando a família por causa desse casamento obrigado. Eu deveria fazer o mesmo. Fugir daqui e esquecer tudo isso, mas um Uchiha nunca foge das suas obrigações, um Uchiha nunca abaixa a cabeça, nem para perder. Se eu fui treinado para a guerra, então o jeito é tratar esse casamento como uma estratégia de batalha, nada mais.
Só que eu não quero que seja assim.
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