Amor à moda antiga
29 Capítulo 26.2
Notas iniciais
As duas crianças fitaram o pai de relance, se entreolharam e deram de ombros. Pareceu-me que elas nem deram ouvidos, continuaram correndo e eu as acompanhei com os olhos até chegarem à escada. Posicionei-me melhor do sofá. Elas estagnaram lá, tremendo ao olhar para cima. Naruto estava parado alguns degraus acima, vestindo um short laranja – por que laranja? – e uma camisa branca de botões e mangas longas.
Havia uma toalha em sua cabeça, cobrindo os cabelos molhados e sua cara de surpresa que eu tenho certeza que ele mostrou ao ver os sobrinhos.
Ele fitou as duas crianças com panelas na cabeça.
–São minhas panelas? – os dois assentiram temerosamente. – Minhas colheres de doce? – os dois assentiram de novo, suavam. Naruto pegou as duas panelas e as colheres, foi para a cozinha. – Mas que porra foi que...? Menma! – ele gritou.
Falei que tretas iam rolar.
–Desculpe, irmão. Eles deveriam estar fazendo o dever de casa, mas eu tive que sair e...
–Quantas vezes eu já te disse para não dar minhas panelas para eles brincar? Sabe quanto custou esse paneleiro?! – ele mostrou as panelas – Sabe como é difícil achar colheres de uma madeira de qualidade?! Essas aqui são contrabandeadas, seu idiota!
–Eu não sabia! – ele falou em sua defesa – Juro que não sabia!
Naruto puxou Menma para dentro da cozinha e ali eu os ouvi discutirem aos sussurros. Depois, a voz do loiro mudou o tom e eu tive certeza que ele estava dando um sermão. Alguns minutos depois, Menma saiu de lá com o semblante aflito, buscou seus dois filhos e foi para fora da casa, pegando a van que estava estacionada de frente ao jardim e partindo.
Levantei-me e fui para a cozinha. Tudo ficara silencioso demais. Recostei-me no umbral da porta e fitei juntar seus utensílios espalhados pelo chão. Por sorte, nada quebrara, mas havia potes abertos e derrubados no chão, com todo o conteúdo para fora. Sujeira, muita sujeira.
–Desculpe-me por isso Sasuke. – ele falou num suspiro cansado – Meus sobrinhos têm problemas para obedecer Menma porque eles...
–São de espécies diferentes. – interrompi sua fala – Eles são lobos e ele é um cão. É bem notável a diferença entre eles. – ele assentiu – Quem é a esposa dele? – cruzei meus braços e observei-o retomar a limpeza.
–Uma loba chamada Karin... Não sei onde ele a conheceu, nem como foi que se apaixonaram, nem que boba foi que aconteceu, só sei que estão juntos há uns vinte anos. – falou puxando os lábios para baixo, formando um bico perfeito para ser mordido. Mas enfim.
–Quem é Karin? – eu sabia que ela era a prima dele, só queria ter certeza ouvindo a confirmação vinda dele próprio.
–A mulher dele. – ele respondeu bobamente.
–Aquelas crianças...
–Filhos dele. – completou.
–Eu sei! – falei irritado – Eu quero saber é como eles se chamam!
–Yumi, a menina, e Ame, o menino. Os primeiros filhos lobos nascidos depois do massacre dos Uzumakis. Lindos, não? – concordei quase não concordando – Uns desordeiros de primeira!
–Sei.
Naruto terminou de catar o que estava espalhado e guardar, então, no meio tempo de limpar o chão, gritou por uma tal de Naruko. Foi tão repentino o grito que tanto eu como o resto da casa se assustou. Ouvi barulho de correria e risos femininos vindos do andar superior, farejei brevemente o ar e entendi que havia outra raposa naquela casa.
Não era uma única pessoa que respondia ao chamado dele, eu diria, no mínimo, duas. Mas só uma das duas era raposa, isso eu tive certeza.
Uma loira de seios fartos, longas marias-chiquinhas loiras e corpo um pouco desproporcional ao tamanho dos peitos apareceu rindo, acompanhada por outra mulher, porém de cabelos vermelhos intensos, com quadris largos e um aspecto forçadamente feroz, usava óculos semelhante à Yumi. Uma loba.
Aquela mulher loira me lembrou um pouco de Tsunade. O aspecto forte e imperioso. Naruko era a cópia magra e feminina de Naruto, com certeza, e com um pouco mais de noção.
Ou não.
–Você é um dopplerganger mal feito meu mesmo, né! – ele comentou sorrindo. Naruko deu de ombros e me fitou, piscando um olho – Sabe que dia é hoje?
–Sexta. – ela sorriu.
–Qual sexta? – eu tive a impressão que estava vendo duas crianças conversando.
–A segunda do mês. – o tom de voz dela saiu de brincalhão para “acho que fiz besteira”.
–Que é...?
–A sua sexta. – de “acho que fiz besteira” para “a culpa é minha”.
–Boa menina. – ele se apoiou na vassoura. – O que Karin faz aqui?
Ela deu de ombros e se virou para sair. Naruto estreitou seu olhar e moveu rapidamente a vassoura ao ponto de acertar as canelas dela e fazê-la retroceder, um verdadeiro espadachim ou um samurai. Naruko se virou irritada e pensou em revidar, mas ao ver o olhar severo do irmão simplesmente engoliu em seco.
–É que estávamos combinando de sair hoje à noite... Menma até concordou e disse que poderia ficar aqui com as crianças e você... – Naruto interrompeu a fala dela.
–Sabe que não posso. Vou passar o fim de semana inteiro fora e você ter assumir as coisas aqui em casa. – ele fez um movimento rápido com olhos apontando para mim e em resposta aquele gesto, a mulher fechou a cara de modo irritado. Mais uma mulher que não gosta de mim na minha conta pessoal. – E não me venha com desculpas! Já era!
Naruko e Karin foram para a sala. Ouvi-as debater algo sobre mim. Aproximei discretamente da porta para ouvir o que elas conversavam. Diziam que eu era um encosto para Naruto desde a adolescência e o loiro era burro por não entender o que todos entendiam: eu só causava problemas, problemas sérios – mencionaram até a morte do meu suposto esposo como sendo culpa minha – que era sempre Naruto que resolvia.
Ouvi-as me chamar de prepotente, orgulhoso demais para admitir meus erros, disseram que eu era uma espécie de vírus sem cura que estava matando Naruto a cada dia que passava. Elas ainda comentaram que quando me casei com Suigetsu, Naruto sofrera em silêncio, tornara-se mais passivo, algo impróprio para sua posição no Batalhão. Odiavam-me por estragar a vida dele de uma forma que ninguém sabia explicar o motivo.
Baixei meu olhar e suspirei longamente. Eu realmente era esse monstro que diziam? O que será que eu fizera de tal horrível para ouvir esse tipo de coisa? Eu sou tão merda assim?
–Não dê ouvidos a elas. – era a voz de Naruto que me puxava gentilmente dos meus pensamentos nefastos. Fitei-o. Ele varria concentradamente o chão, mesmo estando descalço – Elas têm inveja de você, de certa forma.
–Inveja? – estreitei meu olhar – Elas me odeiam Naruto.
Ele riu fracamente e empurrou o lixo para um canto, para então apanhá-lo e jogar na cesta de lixo. Depois foi para a pia lavar os panos que Mito sujara ao tentar limpar o chão. Naruto tinha uma áurea que me fazia respirar em paz mesmo que eu me sentisse um merda.
–Não, não te odeiam. Confie no que digo. – ele me fitou sorrindo – Já menti alguma vez para você? – neguei. Omitir não é o mesmo que mentir. Naruto sorriu ainda mais – Karin sempre quis ficar com você, ser pelo menos uma de suas parceiras de cio, mas nunca conseguiu. Talvez tenha se envolvido com Menma com esse objetivo. Coitado dele... – ele deu de ombros – Enfim. Naruko tem inveja de você porque ela é apaixonada por mim.
Sobressaltei-me com aquela revelação inesperada.
–Mas ela é sua irmã, não é?
–É. Minha gêmea. Para ser mais preciso. – ele foi até o lado de fora e pendurou dois panos. Ele retornou e viu as louças. Tive a sensação que deveria ser obrigação de Naruko lavar aquilo, mas Naruto assumiu aquela tarefa.
–Como ela pode ser sua gêmea? Vocês não tem a mesma idade.
Naruto suspirou, tomou minha mão e me levou para o quintal.
–Parece que aquelas drogas te fizeram perder um pouco da sua memória. – ele se recostou na pia da lavanderia e cruzou os braços – Eu sou a última raposa pura do mundo. – assenti. A história era a mesma, nada mudara nesse ponto – Meu pai me vendeu para seu avô, ele dizia que era minha obrigação ser seu servo pessoal por n-motivos. – essa é nova – Foi por essas e outras que eu matei Hashirama Senju.
–Quando diz outras, se refere ao caso da sua mãe. – ele assentiu – E Naruko entra onde nisso?
–Madara pegou um pouco do meu DNA e tentou reproduzir uma nova raposa pura fêmea para que a supremacia da espécie ficasse ao cargo dos Uchihas. – Naruto suspirou doloridamente – Uma raposa nasceu, porém estéril, para tristeza de todos. – havia seu típico sarcasmo naquela fala – Ela é minha gêmea, mas não somos filhos dos mesmos pais. Naruko é filha de uma Uzumaki, que não era Kushina, com um homem agradável, que já tinha Menma, chamado Minato Namikaze.
–Ela sabe disso? – Naruto negou – Entendo. – coloquei minhas mãos nos bolsos do terno e recostei-me na pia também – Mas isso não explica o fato de ela ter inveja de mim.
–Quando eu e você transamos pela primeira vez, um de seus cios durante uma missão e você estava sem seus parceiros comuns, era o aniversário dela... Naruko estava se tornando adulta e eu sou o único macho da espécie dela, não seria estranho que ela sentisse atração por mim... Eu não me admiraria. – ele me fitava – Naruko ficou louca porque você fora o meu primeiro, pois era um desejo dela ser a primeira, se é que entende. De alguma forma eu tentei explicar a ela que era uma questão de cio e que eu tinha que te obedecer ou comprometeria o sucesso da missão. Então, as coisas estão como estão até hoje... – Naruto ergueu o rosto e sorriu bobamente – No fundo, no fundo, ela só tem ciúmes de você porque você teve coisas de mim que ela nunca terá.
–Que tipo de coisas eu tive? – não obtive a resposta, pois nossa conversa fora interrompida pelo grito evocatório da irmã. – Droga. – murmurei.
Naruto foi para dentro de casa meio contrariado, mas antes de ir me disse que se eu quisesse tomar um banho e trocar de roupas, eu poderia usar o banheiro do quarto de hóspedes preparado para mim, para ter mais privacidade, e na porta direita de seu guarda-roupa havia algumas peças que me pertenciam e ficavam ali por segurança.
Assenti e fiz o que ele sugerira. Fui para dentro, segui para as escadas, subi até o andar superior e segui pelo corredor até a única porta aberta. Era um quarto simples, sobre a cama havia algumas peças ainda embaladas, como escova de dente, escova de cabelo, pasta de dente e sabonete. Um quarto de certa forma nostálgico. Não sei por que.
Sorri enquanto lavava meus cabelos. A virgindade de Naruto me pertencia. No meu sonho eu não tivera esse privilégio.
De repente as cenas do ato me vieram à cabeça. Era exatamente as mesmas do estupro, tudo tal e qual, porém sem a parte do motel de quinta e dos alucinógenos estimulantes, até a dança fora real. A surra que eu dera nele também.
Acontecera durante um dos meus cios e nós estávamos numa cidade perdida no meio de uma floresta, investigando o sumiço do Uchiha que vigiava aquela área.
Nas minhas alucinações eu deturpara tudo. Transformara Naruto em uma das minhas vítimas, quando ele se propusera no lugar de... Apertei meus olhos forçando a minha memória. Neji Hyuuga. Fora ele que eu escolhera e Naruto fora no lugar. Por isso que Neji me chamara de louco e sentia certo receio de ficar sozinho comigo.
Eu entendo agora o motivo de eu achar tudo tão confuso. O sonho fora de tal modo como eu queria que fosse que eu julguei estar vendo a realidade. A mente da gente prega umas peças sem graça, se me permitem dizer.
Depois do banho vesti-me e me deixei inundar pelos cheiros impregnados de Naruto naquele cômodo. Era o quarto de hóspedes, mas seu cheiro estava ali, forte. Provavelmente eu terei que conquistá-lo para tê-lo. Mas como? Talvez... Cartas.
Isso é tão antigo que talvez dê certo.
Sentei-me em sua cama e me fitei pelo espelho. Naruto sempre foi uma pessoa antiquada, se minhas memórias não estivessem me enganado agora. Cruzei minhas mãos e fitei os anéis que estavam nas mãos de Suigetsu e me foram entregues por Naruto. Algo me ocorreu e eu sorri minimamente. Por que não?
Não dizem que no amor e na guerra vale tudo?
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