Amo te odiar
19 Memórias do tempo do aparelho
Notas iniciais
Após a entrevista, Fernanda tentou procurar por Malu. Até que conseguiu a encontrar, mas ela estava tão ocupada, que Fernanda preferiu deixar para outro dia.
Depois de algum tempo, Fernanda retornou ao escritório de advocacia e se encontrou com Diego. Ele está bem diferente da época em que era adolescente, seus cabelos marrons eram bem curtos, agora são longas madeixas, que ele adora ficar passando a mão e balançando, enquanto anda. Diego não tem namorada, mas não faltam candidatas, dizem que a cada dia que passa, ele fica mais charmoso.
— E aí, Fernanda? Bora almoçar? — Perguntou Diego.
— Obrigada, mas já almocei. — Respondeu Fernanda. — Aliás, eu almocei com uma velha conhecida nossa, a Maria Luíza.
— Maria Luíza?
— É, ela estudou com a gente lá no Colégio Santa Mônica, quando éramos adolescentes.
— Não me lembro de nenhuma Maria Luíza não.
— Talvez se lembre do apelido dela. Ela pedia para ser chamada de Malu.
Diego colocou a mão no queixo e dizia, repetidamente:
— Malu...Malu...Malu... — De repente, ele teve um estalo. — Ah, Malu. Nossa quanto tempo não ouço falar dela. E como ela está?
— Está bem. Depois de passar um bom tempo em Porto Alegre, ela voltou para Belo Horizonte. Está trabalhando como jornalista em um canal de tv.
— Nossa, que bacana. Bom, já que já almoçou, vou chamar o meu sócio. Ah, e acabei de ver a sua entrevista. Você foi muito bem, doutora Fernanda.
— Obrigada, doutor Diego.
...
O escritório de advocacia se chama Advogados e Associados, é uma sociedade entre dois grandes amigos, que se conhecem desde a adolescência, Diego e Marcelo.
Na sala de Marcelo, há uma grande estante com alguns livros sobre advocacia, direito e outros sobre suspense, ele adora este gênero literário. Nas paredes de cor branca, estão os diplomas do curso de direito e dos simpósios que participou. Em um porta-retratos em cima da mesa, tinha uma foto que ele tirou com os pais, sorridentes e orgulhos, no dia da formatura. E em outro, uma foto de uma viagem que fez à cidade de Chicago, nos Estados Unidos.
Marcelo é considerado um dos melhores advogados do escritório, ele mesmo até se espanta quando é chamado de “Doutor Marcelo”. E depois de tantos anos, Marcelo continua arrasando corações, igual acontecia na adolescência. Várias advogadas e promotoras do escritório viviam suspirando por ele e imaginando ser a sua namorada. Também não era para menos, Marcelo se tornou um belo rapaz, alto, um topete, que estava sempre bem alinhado, dava um charme a mais ao cabelo loiro escuro. A barba tem o mesmo tom do cabelo e está sempre bem aparada. Os olhos cor de mel se destacavam por de trás dos óculos, se o aparelho era o seu acessório na adolescência, os óculos são o da vida adulta, porém, Marcelo os utiliza apenas para ler. E para completar o pacote charme em Marcelo, ele sempre está muito bem vestido com seu terno, camisa e calça sociais. Mas isso é apenas no escritório, pois, fora dele, adota um estilo mais esportivo, o que não diminui seu charme.
Marcelo, sentado em uma poltrona de couro, analisava diversos documentos, ajeitava os óculos retidas vezes enquanto lia. Sua atenção foi desviada, quando escutou alguém bater na porta, ele deixou o papel sobre a mesa e disse para a pessoa entrar.
— Bora almoçar, Marcelo? — Perguntou Diego, entrando na sala.
— Já? — Se espantou Marcelo, que olhou para o seu relógio de pulso, de correia preta e fundo branco com números dourados. — Nossa, o tempo passou voando. Fiquei tão concentrado lendo os documentos, que perdi a noção. — Marcelo se levantou da poltrona, guardou os óculos, enganchou o dedo indicador no terno, o colocando em suas costas. — Vamos.
— Vou te levar em um restaurante novo, dizem que a comida lá é simplesmente divina.
— Dizem? Você não conhece o restaurante?
— Claro que não, acabou de abrir. Só ouvi dizerem que a comida é muito boa e hoje quero experimentar. E te levo comigo para conhecer e experimentar também.
...
Enquanto Diego dirigia, ele e Marcelo conversavam no carro, o assunto normalmente era sobre trabalho. Em determinado momento, decidiram relaxar, Diego pediu para Marcelo ligar o rádio, mas que tocasse música, não queria encher seus ouvidos com notícias sobre política, esporte ou qualquer outro assunto. Marcelo assim o fez, ligou o rádio e sintonizou em uma estação de música, de repente ele parou quando ouviu uma música que lhe despertou memórias.
— O que foi, Marcelo? — Perguntou Diego.
— É que essa música me fez lembrar da época em que eu era adolescente. — Respondeu Marcelo.
— Ah sim, memórias do tempo do aparelho.
— É isso mesmo. Essa música tocava direto nas rádios na época e me fez relembrar da minha adolescência, da escola, do aparelho, dos amigos...
— Da Malu...
— De quem?
— Da Malu. Ou melhor dizendo, da Maria Luíza. Me lembro que você relutava em chamá-la pelo apelido e a chamava pelo nome. O que não adiantou, pois, acabou ficando apaixonadinho por ela, se rendeu e a chamou de Malu até o final do ano.
— É mesmo. A primeira garota com quem eu fiquei. — Disse Marcelo, fazendo Diego olhar para ele com espanto. — Essa não, acabei de contar um dos meus segredos. Sim, eu e a Maria Luíza ficamos quando éramos adolescentes, foi naquele passeio para a praça da Liberdade. Foi lá que nós nos beijamos pela primeira vez. E foi nesse dia também que amassei o meu aparelho.
— Ah, então foi por isso que você falava de um jeito esquisito na lanchonete. Tranquilo, meu chapa. Bem que eu achei estranho, depois do passeio, vocês estavam bem juntinhos, conversando, rindo. Estavam ficando.
— É. Mas só ficou naquela época mesmo. Porque depois que a escola acabou, ela se mudou para Porto Alegre. Chegamos a conversar algumas vezes através do chat, mas depois, nunca mais nos falamos.
— E olha só que curioso. Sabe com quem a nossa colega Fernanda se encontrou hoje? Com a Malu.
— Como assim? — Marcelo deu um pulo no banco do carro.
— A Malu está de volta à Belo Horizonte. Está trabalhando como jornalista em um canal de Tv. Estou percebendo que você ficou mexido com a notícia. Bom chegamos. Se prepare para um almoço delicioso, Marcelo.
— Espero que seja mesmo.
Realmente, saber que Malu estava de volta, fez o coração de Marcelo bater um pouco mais forte, seu amor de adolescência estava na cidade e começava a imaginar como seria o reencontro eles.
...
Diego e Marcelo chegaram ao tal restaurante, se sentaram, fizeram o pedido e continuaram a conversar.
— Será que reacendi um antigo amor no seu coração? — Perguntou Diego, com um leve sorriso travesso.
— O quê? Não, não reacendeu nada. — Respondeu Marcelo, meio sem jeito. — Eu só fiquei surpreso com a notícia de que, depois de tanto tempo, a Maria Luíza estava de volta a BH.
— Marcelo, eu te conheço. Notei quando te dei esta notícia, seus olhos brilharam. O amor que sente por ela acordou.
— Amor nenhum acordou, aliás, nada acordou. O sentimento que eu tinha pela Maria Luíza ficou no passado e ela nem deve se lembrar mais de mim.
Um garçom trouxe os pedidos em uma bandeja e os deixou na frente de cada cliente, Marcelo e Diego agradeceram.
— Tudo bem. — Disse Diego, desdobrando o guardanapo e colocando os talheres em cima do prato. — Eu achei que tivesse acendido uma faísca em seu coração. Uma vontade de a procurar, vocês iriam conversar, relembrando os velhos tempos e até mesmo iniciar um romance. Mas me enganei.
— Se enganou mesmo, Diego. Principalmente sobre iniciar um romance. — Disse Marcelo, firme. — Eu venho de um namoro complicado com a Estefani. Até o nosso termino foi difícil, cê lembra, não é?
— Lembro. Estefani. Aquela garota maluca, parecia um grude, era uma chata, chorava, apelava. Nossa, era insuportável. Nem a sua mãe gostava dela. Eu achei que você até que demorou muito para terminar com ela.
— Depois de tudo o que aconteceu, eu passei a dar mais importância para as impressões da minha mãe. Era exatamente por causa da apelação, que demorei a terminar com ela. Mas consegui. — Marcelo sorriu e cortou um pedaço do bife. — Esse namoro me traumatizou e por isso quero dar um longo e bom tempo nisso de romance.
— Mas e se a Maria Luíza for uma nova chance para você amar?
— Não sei. Até porque, eu já lhe disse, ela pode nem se lembrar mais de mim.
Diego estava certo, a comida do restaurante era deliciosa e Marcelo mandou seus cumprimentos ao chef pela deliciosa refeição. Depois, os dois retornaram para o escritório e trabalharam durante toda a tarde.
Entre um processo e outro, Marcelo pensava em Malu. Será que ela se lembra dele? Será que se lembra de tudo que viveram na adolescência? Essas e outras perguntas rondavam a cabeça de Marcelo.
...
No entardecer, Marcelo encerrou seu dia de trabalho, ele iria se preparar para ir embora, mas preferiu se reclinar na poltrona e a girou, até ficar de frente para a janela. Tirou os óculos e colocou uma haste entre os dentes, estava pensando no que Diego disse e que ele poderia estar certo, saber que Malu estava na cidade, mexeu algo em seu peito, é como se um amor, que estava adormecido a anos, tivesse acordado e renascido. Mas ao mesmo tempo, Marcelo pensava que o que viveu com Malu ficou no passado, era um namoro de adolescência e que agora, não poderia dar certo um romance entre eles. Aliás, ela pode nem se lembrar dele, capaz de se encontrarem na rua, passarem um pelo outro e nem se reconhecerem.
E também, Marcelo vem de um namoro traumático e por agora, romance não está em seus planos. Mas ele sorri levemente com a possibilidade de reencontrar Malu.

Fale com o autor