Amizade Colorida
1 Aquele da (ex)líder de torcida
Notas iniciais
— Olha só quem tá passando!
Obviamente Carter, o babaca que por alguma razão era idolatrado por todo o maldito colégio, não estava falando sobre mim enquanto eu passava pelo corredor. Um pouco mais à frente de onde eu estava, Georgia Wilson andava mexendo os quadris de forma perfeitamente planejada para que sua saia do grupo de torcida mostrasse apenas o necessário para babacas como Carter notassem quando ela passa. Eu, particularmente, não a julgava, cada um com seus problemas, mas eu não toleraria os comentários do Carter nem por um milhão de dólares.
Eu conseguia enxergar a sala de Sociologia Avançada. A porta estava aberta e não havia tanta gente em volta dela, o que me deixava aliviada porque odeio multidões. Passei sendo ignorada com sucesso por Carter e os amiguinhos, evitando qualquer contato visual. Entrei na minha sala e vi Chuck sentado em uma das mesas do canto da sala, com sua cabeça apoiada em seus braços e seu cabelo escondendo seu rosto. Sorri de leve por um segundo por ver meu amigo dormindo mais uma vez antes da aula começar. As aulas mal tinham iniciado e ele já estava no décimo sono.
Coloquei meus livros na mesa ao lado, acomodando meu copo térmico antes de mexer no cabelo de Chuck para acordá-lo. Ele grunhiu e se remexeu sem erguer a cabeça e eu ri com a pequena birra que ele estava fazendo.
— Bom dia, dorminhoco. — Eu falei e ele tirou o cabelo loiro da frente dos olhos cinzentos para me ver. Seus olhos sorriam.
— Bom dia, Kat. — Meu amigo respondeu levantando a cabeça devagar, com a cara amassada cheia de marcas que indicavam que ele já dormia há algum tempo. Chuck encostou suas costas na cadeira e virou o rosto para me encarar. Seu uniforme estava amarrotado, sua gravata frouxa e o primeiro botão da camisa social estava aberto. Típico de Chuck.
Os olhos dele estavam fixos em Georgia. Ela estava sentada sobre a mesa de uma das amigas, com as pernas impecáveis apoiadas na cadeira a sua frente, e ria sobre qualquer coisa. Seus cabelos cor-de-mel faziam delicados cachos nas pontas, seus olhos verdes eram tão claros que não pareciam reais e seu corpo se assemelhava ao que a gente vê nas revistas. Junte isso e a camiseta do Blink-182 que ela usou uma vez e você obterá todos os motivos pelos quais Chuck a enaltecia.
— Você deveria tomar uma atitude, Charles O'Neil. — Eu disse achando a situação cômica demais para não ser comentada. O maior diálogo que eles já tiveram foi de no máximo de três palavras e Chuck a tinha em um pedestal. Já estava na hora de ele falar com ela.
— Eu tô procurando a oportunidade certa, Kat. Um cara como eu não pode simplesmente puxar assunto com uma garota como ela. — O loiro respondeu enquanto balançava uma de suas pernas em sinal de nervosismo.
— Ela é só uma garota. — Eu disse revirando meus olhos. O professor entrou na sala, sério como sempre, sem olhar para ninguém. Todos tomaram seus lugares, menos Georgia, que saiu da sala já que não frequentava aquela aula. O silêncio tomou conta da sala enquanto o professor Bourne fazia a chamada.
Endireitei-me na cadeira e abri meu fichário nas últimas anotações da matéria. Eu estava procurando uma caneta no meu estojo quando senti a respiração de Chuck perto da minha orelha.
— Você pode ir no ensaio hoje depois da aula? Os garotos vão lá pra casa. — O loiro sussurrou no meu ouvido de forma que ninguém além de mim pudesse escutar. Assenti com a cabeça e ele sorriu, jogando seu corpo contra a cadeira e batucando as mãos sobre o imenso livro de Sociologia. O professor olhou para ele com os olhos semicerrados, a cara da fúria, então Chuck ergueu as mãos em sinal de inocente e riu ao se divertir com a situação quando senhor Bourne voltou a baixar o olhar.
As aulas passaram rápido. Eu não tinha aula com ninguém conhecido no resto do dia, então foi bem parado até o almoço. Como sempre, a comida da escola era meio bosta e com carne, eu e Chuck éramos vegetarianos, então levávamos comida sempre enquanto os meninos comiam no restaurante. Nós estávamos na parte arborizada do campus, sentados sob uma árvore, mas o sol ainda conseguia nos aquecer. Chuck ficava bonito com os raios de sol iluminando uma parte do seu rosto, era um pouco hipnotizante, talvez.
— Eu tenho uma ideia nova para uma música. Quero ver se consigo terminar pelo menos a letra hoje com vocês. — Chuck falou entre uma mordida e outra em seu sanduiche.
— Sobre o que? — Perguntei bebendo um gole de suco em seguida. Vi os garotos caminhando em nossa direção. Ainda não sei como que eu tenho tantos amigos bonitos e porque eles não fazem tanto sucesso nessa escolinha do inferno.
— Você vai ver, lindinha. — Ele respondeu amassando o guardanapo que segurava seu sanduiche e jogando em Harry, que se aproximava. O moreno riu e mandou o dedo do meio, sentando-se ao meu lado.
— Oi, Kat. — Ele cumprimentou dando um beijo na minha bochecha.
— Vai no ensaio, Kat? Acho que consegui o guitarrista que faltava. — Zac perguntou sentando de frente para mim. Ele não esperou eu responder antes de continuar. — Ele é fantástico. Você vai adorar ele.
— Vou sim. Quem é ele? — Perguntei apoiando minhas costas no tronco da árvore e sentindo a brisa leve que passava pelos meus cabelos. Chuck olhava fixamente por trás do ombro de Zac: Georgia estava lá.
— Ele é meu primo, veio da Inglaterra para morar aqui também. Ele finalmente conseguiu transferência pra cá, começa semana que vem. — Zac falou empolgado. Sorri, mas meu foco estava em Georgia também. A luz do sol iluminava cada centímetro da pele clara dela, fazendo com que ela tivesse um brilho dourado quase místico. Seus olhos verdes estavam fechados e o rosto voltado para os céus. Suas amigas falaram algo provavelmente engraçado e ela gargalhou, jogando a cabeça para trás e abrindo os olhos. Impecável.
— A Georgia é muito gostosa mesmo. — Harry falou ao perceber para onde nós olhávamos. — Você tem que fazer algo de uma vez, Chuck. Já me encheu o saco você ficar olhando pra ela com essa cara de maníaco e não fazer nada.
— Vai tomar no cu. — O loiro disse tirando, finalmente, seu olhar da garota. — Qual o nome do seu primo, Zac?
— Jesse. — Zac respondeu com um sorriso, completamente alheio a situação Georgia-Chuck. — Que horas é pra tá na tua casa? — Zac falou olhando para Chuck, que finalmente estava engajado na conversa e não na saia da crush.
— Qualquer hora, a Kat vai junto comigo pra casa depois da aula, aí a gente fica esperando vocês lá. — Ele respondeu pegando meu suco de melancia e tomando um gole. — Tá muito bom, baixinha.
— Brigada. Só não entendi a parte que você decidiu por mim que horas eu ia pra tua casa. — Eu falei incrédula. Ele riu e mordeu minha bochecha de leve.
— Você sabe que me ama. — Ele disse em um tom convencido. Revirei os olhos e ri, mas meu corpo gelou ao ver Georgia se aproximar de nós. — Ela tá vindo pra cá, puta que pariu.
— Pelo amor de Deus, Chuck, se controla. — Eu falei um pouco irritada. Georgia era só uma garota.
— Ei, Kat. — Ela falou com um largo sorriso no rosto, devolvi o sorriso. — Na sexta-feira vai ter a festa na fogueira que a torcida faz todos os anos, você sabe. Eu sei que você não é mais uma de nós, mas acho que você deveria ir. — Eu conseguia sentir o olhar dos garotos sobre mim, como se implorassem para que eu aceitasse o convite e os chamasse para ir comigo. Levantei e fui para mais perto de onde Georgia estava.
— Posso saber o porquê do convite? — Respondi cruzando meus braços.
— Eu e as garotas estávamos falando sobre quem a gente ia colocar na lista esse ano e chegamos à conclusão que ainda era muito estranho o seu nome não estar lá. — Georgia falava enrolando as ondas de seu cabelo em seu dedo. — Você pode levar seus amigos, se quiser...
— Só me diz uma coisa, G, qual deles pra qual delas? — Perguntei baixinho identificando o motivo de ela estar me chamando. Georgia ficou vermelha e me puxou para longe dos garotos.
— Ok, Lea não para de falar desse garoto do cabelo esquisito, Harold, sei lá. Eu não posso perder mais uma por uma paixãozinha. Por favor, Kat. — Ela pediu olhando no fundo dos meus olhos. Respirei fundo e assenti com a cabeça. G deu um gritinho e me abraçou de forma histérica, o que me fez rir. — Eu sinto falta de você, de verdade.
— Você sabe que não é verdade. — Eu disse sentindo um gosto amargo no fundo da minha língua. — Posso levar mais um além deles? — Perguntei pensando que Zac iria gostar de chamar o primo dele e Georgia assentiu animada.
— Só me passa a listinha com os nomes de todos eles, ok? Você ainda tem meu número? — Ela perguntou a última parte com um pouco de mágoa em seu tom. Assenti em silêncio. — Certo. Até mais, K. — Georgia mandou beijinhos no ar e saiu, rebolando como sempre.
Dirigi-me de volta para o meu lugar silenciosamente. G e eu éramos melhores amigas até dois anos atrás. Eu era da torcida, que nem ela, e nós nos dávamos muito bem. Mas dentro da torcida tem um tipo de código moral que deve ser seguido. Por exemplo, você não pode andar com ninguém que não seja do seu grupo designado, que era basicamente o das garotas ricas, bonitas e jogadores de futebol ou lacrosse. E tudo tava indo bem até que o babaca do Carter começou a encher meu saco. Ele não deixava ninguém falar comigo, como se eu fosse propriedade dele. E as pessoas obedeciam, porque, como eu disse, Carter era idolatrado.
Foi aí que Zac chegou na cidade, direto de Londres para a casa ao lado da minha. Nós nos demos bem de cara e ele não estava nem aí para o que Carter dizia. No início as garotas da torcida não se importavam com Zac, já que ele era bonito, rico, estrangeiro e com porte de jogador, ele tinha tudo para ser o próximo capitão do time de lacrosse, exceto que ele não queria fazer isso. Daí as meninas disseram que ele estava atrapalhando meu código moral e que ou eu me enquadrava e saía com Carter pra reconstruir minha reputação, ou eu estava fora do time. Na época Georgia não era líder e não podia fazer nada além de votar ao meu favor. Então eu saí do time, mas continuei sendo amiga dela por uns tempos, até que chegou o momento em que ela teve que escolher entre eu e o time, e ela escolheu o time. Hoje ela é capitã e nós não nos falamos.
Eu estava tão imersa nos meus pensamentos que nem escutei os garotos insistindo para que eu falasse se havia aceitado ou não, só voltei para a realidade quando Chuck estalou os dedos na minha frente. Pisquei algumas vezes, confusa, e sorri fraco pra ele.
— Tudo bem, Kat? — Ele perguntou com um ar preocupado.
— Tudo certinho. Eu aceitei o convite e vocês vão ter que ir comigo. Parece que uma das minions da Georgia tem interesse em você, Harry. — Falei dando uma piscadela para o moreno ao meu lado.
— Em mim? Ah tá. — Ele falou sem acreditar enquanto acendia um cigarro. — Elas não podem ficar com caras de fora, você não me ilude, pequena Kat.
— Na verdade, parece que Georgia não quer perder mais uma do time por causa dessa regra. — Respondi tirando o cigarro da mão dele e apagando. — Tenho que te lembrar do que aconteceu da última vez?
— Não. — Harry respondeu guardando o isqueiro no bolso mais uma vez. — Mas você tá falando sério? — Seus olhos brilhavam quando ele perguntou e eu ri por causa disso.
— Sim, Hazz. — Respondi me divertindo com a situação. — Você querem mesmo ir, guys?
— Você ainda pergunta, Kat? — Chuck perguntou com a felicidade saindo por seus poros. — Claro que sim! Você é a melhor amiga do mundo.
— Eu sei. — Disse voltando a me encostar no tronco da árvore. Eles fizeram uma cara estranha que me fez rir mais uma vez.
—Posso levar o meu primo? — Zac tinha olhos castanhos de cachorrinho pidão que me derretiam todas as vezes.
— Sim, loirinho. Só tem que me dar o nome completo dele pra eu mandar pra G.
O sinal tocou logo depois que eu terminei de falar. Levantamos e rumamos para dentro do prédio mais uma vez, falando sobre a festa como se fosse o evento do ano – o que, naquela escola, realmente era. Os olhos de Chuck se iluminavam a cada vez que tocávamos no nome de Georgia, como se ela fosse a única garota no mundo pra ele. Eu achava patético, justamente porque eles nunca se falaram realmente, mas o encorajava mesmo assim. Amigos são feitos pra isso.
Ok, você deve estar pensando que eu sou apaixonada por Chuck e por isso não ajudo ele com Georgia, já que eu conheço ela muito bem, mas não chega nem perto disso. Eu já ofereci minha ajuda a ele milhares de vezes. Já disse que falaria com ela por ele, tentaria enquadrar ele nos eventos sociais dela, qualquer coisa que fosse viável, mas ele nunca aceitou. Ao mesmo tempo que ele a idealizava, ele tinha medo dela, ou do fato de ela possivelmente não ser como ele imagina que ela seja. Deus me livre me apaixonar por Charles O'Neil. Mas ele era definitivamente meu melhor amigo e eu não posso dizer que não o amo. Como amigo, é claro.
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