No dia seguinte, Qiao Chen estranhou quando chegou à escola e Baiyang o esperava na entrada com o resto do time.

Achou que talvez eles quisessem mais respostas que ele não estava disposto a dar, mas relaxou quando conversaram amenidades.

Na sala de aula, notou que Baiyang expulsou um colega de sala e se sentou ao seu lado, perto da janela do fundo.

— O quê? — perguntou quando o viu olhando em sua direção pela enésima vez.

— “O quê” o quê? — Baiyang respondeu, e continuou prestando atenção na aula.

Balançou a cabeça e continuou fazendo a lição. Devia ser impressão sua.

No intervalo entre uma aula e outra, pediu licença e foi ao banheiro.

A treinadora estava tão boazinha que até tinha feito café da manhã antes de saírem. E agora sua bexiga pagava o preço.

Estava cantarolando uma música que não lhe saía da cabeça, totalmente distraído e relaxado, quando viu uma cabeça espiando por debaixo da porta do reservado.

Os pêlos do seu braço se eriçaram, e ele não conseguiu evitar o berro agudo que deu.

— Pervertido! — Gritou, tentando chutar a cabeça que estava segundos atrás no vão abaixo da porta.

— Aonde?! — Baiyang perguntou ao escancarar a porta.

— Ali, enfiando a cabeça por debaixo da porta. — Ele respondeu, apontando para a porta ao mesmo tempo que tentava se cobrir com a outra.

Seu rival suspirou e se acalmou.

— Era eu. Estava checando o perímetro. Você estava demorando demais.

Qiao Chen ficou horrorizado com a invasão de privacidade.

— Está com prisão de ventre? — perguntou preocupado. — Seu olho está tremendo. — Afirmou, ao se aproximar do outro, que ainda estava sentado no vaso sanitário com a roupa abaixada.

Ele estava tão entretido analisando o tique nervoso no olho do rival que sequer viu o punho que vinha em sua direção.

No intervalo do lanche, Jiale estava no pátio, junto aos outros membros do time, claramente ansioso.

— Olha os dois ali. — Dachi comentou, apontando os rivais que vinham discutindo. Baiyang ostentava um olho roxo.

— O que aconteceu com você? — Jiale perguntou, preocupado.

Baiyang olhou para Qiao Chen, que empinou o nariz como que se o desafiasse a contar o motivo.

— Foi minha culpa. — Admitiu a contragosto.

— Por? — Qiao Chen o cutucou.

— Invadir a privacidade dos outros. — Completou, fazendo seu rival sorrir. — Mesmo que o outro seja um total babaca ingrato. — Resmungou.

— Ow. — Os dois já iam começar a discutir quando Zhuo Zhi os separou.

— Eu assumo daqui. É o meu horário mesmo. — Falou, puxando Qiao Chen para a cafeteria.

— Do que está falando? — Ele estranhou ao ver que Baiyang ficou para trás e parecia descansar.

— Da sua escala de escolta, é claro. — Yan comentou, fazendo-o dar um pulo. Ele não o tinha visto ali antes.

— Que escala?

— Precisamos de mais alguns detalhes da sua rotina. — Ele o informou, ao abrir o caderno de anotações e pegar uma caneta. — Então, em quais horários costuma ir ao banheiro e em qual deles vai?

Zhuo Zhi podia jurar que viu um dos olhos de Qiao Chen tremer e seu punho apertar.

O time de Yu Qing seguiu acompanhando Qiao Chen em todos os lugares todo o tempo. E por mais que ele detestasse em alguns poucos momentos, como cada vez que ia ao banheiro ou entrava num vestiário, em outros foi extremamente proveitoso.

Yuan Chi realmente não esperava reencontrá-lo acompanhado quando o abordou um dia quando ele voltava para casa, e muito menos ser hostilizado por outros no time.

O problema é que quase ninguém conseguia acesso a Qiao Chen. Sua rotina era somente escola, treino de tênis para a final e casa. Dificilmente ia para outro lugar ou fazia outra coisa.

E isso tornou quase impossível procurar Ya Jiuxin, apesar de querer aceitar sua proposta e aprender um pouco sobre defesa pessoal.

Até comentou com Xinglong um dia, mas ele logo o cortou, dizendo que achava uma má ideia. E que ele não deveria tocar no assunto com a treinadora porque Jiuxin era muito complicado e instável.

Uma pena, realmente tinha ficado com uma ótima impressão dele quando ele o salvou do maníaco de Hai Guang.

— Suspirando de novo pelo delinquente? — Baiyang o provocou, fazendo-o corar.

— Cala a boca. Você só está com ciúmes. — Retrucou, e não percebeu que o amigo corou também.

— Se você focasse sua atenção no treino como foca nesse seu crush, quem sabe conseguiria ser um jogador não tão pereba. — Reclamou.

— Não fico focado nele. Você que comentou.

— Você fica suspirando desde aquele dia. Vou começar a achar que talvez quisesse que o seu herói tivesse te beijado, ao invés do maluco.

Qiao Chen fez um careta ao ser lembrado daquela situação.

— Qualquer um seria melhor do que aquele perturbado! — Rebateu, alterado.

— Ah é? — seu rival parou e deu um passo em sua direção.

— É. — Disse, encarando-o e se aproximando também, como muitas vezes fizeram no passado.

— Até eu? — Baiyang perguntou, sério.

E só então Qiao Chen reparou no quão perto os dois estavam, e no formato da boca do amigo. Parecia tão macia.

Corando, ele abaixou a cabeça, não conseguindo olhá-lo nos olhos.

Nunca tinha pensado no rival assim, e em nenhum garoto. Porém, agora não lhe parecia estranho.

De fato, pensar em beijá-lo parecia uma ótima ideia.

Baiyang era forte, íntegro, leal, um excelente amigo e rival, que sempre o impulsionava a dar o seu melhor, nem que fosse competindo com ele.

E era bonito, Muito bonito.

Seu coração começou a bater mais mais rápido quando se deu conta de que achava o amigo bonito.

Baiyang segurou o seu queixo e o olhou, preocupado.

— Tudo bem?

Parou, esperando ele começar a rir e dizer que tinha sido uma piada, mas lá estava ele olhando-o preocupado.

Engoliu em seco e olhou sua boca. Ele deve ter notado porque sua expressão se abrandou.

Tomou coragem e decidiu beijá-lo. Afinal, ele tinha perguntado. E não estava fugindo.

Foi devagar, com medo de ter entendido errado, mas lá estava ele se movendo também.

Iria acontecer. Eles iriam se beijar.

— Qiao Chen! Qiao Chen! Espere, preciso falar com você! — Alguém lhe gritou ao longe, mas ele estava focado demais para entender o que era.

Só parou e realmente entendeu o que estavam falando ao longe, quando seus lábios encontraram o vento. Baiyang tinha se afastado e agora se colocava entre ele e o rapaz que vinha correndo na direção dos dois.

— Quem é você e o quer? — Baiyang perguntou, mais irritado do que o normal.

Qiao Chen o observava. Talvez também estivesse possesso por terem sido interrompidos.

— E quem é você? — o rapaz retrucou, não gostando do tom. — Podemos falar a sós, Qiao Chen?

— Sou o guarda-costas dele. Pode falar na minha frente. — Respondeu, torcendo o nariz para o rapaz.

O rapaz só o olhou com as sobrancelhas levantadas.

— Desculpa. Pode falar. — Qiao Chen falou e o rapaz explicou a situação.

Ele tinha vindo, a pedido do capitão do time de esgrima, convidar Qiao Chen a entrar no time oficialmente, já que ele participou de alguns treinos com eles no passado e já tinha treinado quando era mais novo.

Um dos jogadores deles tinha sofrido um acidente de carro, e o time estava desfalcado para o campeonato da província, e como o clube de esgrima da escola era muito pequeno e os membros que eles tinham mal conseguiam manejar um florete sem se matar, Qiao Chen era a única saída deles.

— Eu nem tenho mais meus equipamentos. — Tentou negar.

— A gente arranja. Não é como se o Li fosse usá-los no hospital.

— Mas estamos treinando para a final. Não posso abandonar os treinos de tênis.

— Nós adequamos nossos horários aos seus se precisar. Por favor. — Ele tinha as mãos juntas na frente do corpo em súplica. — Nossos treinos vão ajudar no seu condicionamento também. Pense nele como um reforço.

— Ele tem razão. Você é meio molenga. Mais treino não te faria mal. — Baiyang comentou, ganhando um sorriso agradecido do rapaz.

— Ow. — Ralhou com o rival, batendo em seu braço. Baiyang só balançou a cabeça e riu. — Vou falar com a treinadora, tá bom?

— Então já leve o formulário. Seu responsável precisa assinar, já que fará parte de outro clube após o horário da escola, certo? — O rapaz lhe entregou o formulário e saiu correndo antes que ele pudesse recusar.

— Que cara folgado! — Resmungou, ao ter que guardar o papel na mochila.

— Se todo o time for assim, você vai se sentir em casa. — Seu rival comentou para irritá-lo.

Depois de guardar devidamente o formulário, Qiao Chen pigarreou, sem graça. Não sabia o que devia fazer.

O clima tinha sido quebrado.

Como voltaria ao assunto. Ainda queria beijá-lo.

Ele ficou tanto tempo pensando sozinho que não se deu conta de que o rival começou a andar sem ele.

Quando percebeu, sentiu-se bobo. Abaixou a cabeça, desanimado.

Até que sentiu uma mão na sua lhe puxando.

— Não fique parado aí, idiota. Vamos nos atrasar. — Baiyang falou, puxando pela mão.

Ele sorriu para o amigo quando reparou que ele não o soltou depois que ele começou a andar. E mais ainda quando ele apertou sua mão.

Não conseguiu evitar o pequeno sorriso em seu rosto ao ir o restante do caminho de mãos dadas com o amigo.

Quando chegaram no treino, Baiyang só soltou sua mão quando Zhuo Zhi os olhou com um sorriso travesso.

— Aconteceu alguma coisa? — Zhuo Zhi perguntou aos dois, inocentemente, ao analisar os amigos de time.

Qiao Chen sentiu o rosto corar na mesma hora, mas Baiyang respondeu sem a menor cerimônia e explicou sobre o seu convite para o time de esgrima.

Obviamente, todos ficaram muito felizes ali, principalmente Yan que já abriu seu caderninho para atualizar suas informações.

— Eu nem entrei ainda. Vou falar com a treinadora. Ela precisa autorizar antes. — falou sem graça, mostrando o papel aos outros.

— Ela com certeza vai deixar. — Jiale quis animá-lo. — Não é, Dachi?

— Com certeza.

— Por que não aproveita que nem começamos o aquecimento e vai lá falar com ela? — Xinglong sugeriu.

E Qiao Chen sorriu, e correu para a sala dela com o papel.

Ele subiu as escadas com pressa, realmente animado com a possibilidade de voltar a treinar esgrima. Amava tênis, mas esgrima tinha sido sua primeira paixão. O esporte que sua mãe mais gostava e o único que ela fazia questão de ir torcer. Talvez se ele se destacasse novamente, eles poderiam voltar a ter algum tipo de contato. Valeria a pena tentar.

Já ia abrir a porta da sala da treinadora Qi quando ouviu que ela estava ao telefone.

Decidiu esperar e já estava indo embora quando ouviu seu nome. Achou que ela o tinha chamado, mas depois se deu conta de que ela estava ao telefone falando dele.

E mesmo sabendo que não era bacana ouvir a conversa dos outros, sua curiosidade não o deixou ir.

“Não é nada disso. Não é assim. Não é como se eu o tivesse adotado.”

Uma pausa curta.

“É uma dor de cabeça que eu não precisava nesse momento, com certeza”, ela riu.

Ele olhou o formulário em sua mão e suspirou. Estava se esforçando para não dar trabalho, mas mesmo assim ainda era um estorvo.

Decidido a não dar mais trabalho do que o necessário, amassou o formulário e o jogou no primeiro cesto que achou ali.

Qi Na estava com pressa para ir para a quadra quando seu celular tocou. Suspirou quando viu que era a cunhada.

“Não acredito que não me falou que adotou uma criança!”

— Não é uma criança. É um adolescente.

“Ah, então você adotou mesmo? Nem acreditei quando Ying contou. Ela me disse que você é super protetora com ele, e até trocou a mobília da casa e fez um quarto para ele. Fico feliz que esteja cuidando bem dele. Crianças precisam de amor.”

— Estou tomando conta dele até que se acerte com a mãe. Ele é um bom garoto.

“Admita. Você está gostando de cuidar dele.”

— Não é nada disso. Não é assim. Não é como se eu o tivesse adotado.

“Ainda.”

— É uma dor de cabeça que eu não precisava nesse momento, com certeza.

“Pode ficar em negação o quanto quiser, mas quero conhecer o meu novo sobrinho logo.”

Qi Na riu, e ouviu um barulho vindo do corredor. Provavelmente algum de seus jogadores estava fugindo do treino.

— Preciso ir. Nos falamos depois. — Ela se despediu.

Quando ela saiu da sala, não havia ninguém no corredor, mas um papel no cesto que ela tinha esvaziado há poucos minutos lhe chamou atenção.

Era um formulário no nome de Qiao Chen para o clube de esgrima.

Qiao Chen passou o resto do treino meio desanimado.

— Então, quando vai começar os novos treinos? Preciso fazer os ajustes. — Yan perguntou, ansioso.

Ele só negou com a cabeça e suspirou, atraindo atenção de alguns.

— O que houve? — Baiyang perguntou ao se aproximar, preocupado.

— Deixa pra lá. — Respondeu e o rival acariciou seu braço.

Quando seus olhos se encontraram e Baiyang sorriu, Qiao Chen sentiu seu coração bater mais rápido. Porém, qualquer momento entre os dois foi interrompido por Ying, que vinha em sua direção.

— Quero fazer parte da sua escolta também. Hoje você vem comigo. — Ela falou alegre, fazendo Lu Xia prestar atenção no diálogo. — Vamos encontrar a titia mais tarde lá em casa. — Ela explicou.

— De jeito nenhum. É perigoso. — Baiyang cruzou os braços.

— Eu estarei com ela. — Qiao Chen revirou os olhos.

— Você não cuida nem de você. — Seu rival retrucou, e torceu o nariz.

— Ow.

Ying só observava os dois com um pequeno sorriso.

— Não sou um inútil. — Qiao Chen estava indignado.

— Isso é discutível. — Baiyang resmungou e saiu andando. — Então, vão ficar parados aí? Não tenho o dia todo para ficar acompanhando vocês. Tenho mais o que fazer da vida.

Ying abaixou a cabeça, e deu uma risadinha. Chamou a amiga e começou a seguir para casa.

Qiao Chen ainda ficou um tempo parado ali, e só se moveu quando Baiyang voltou e o puxou pela mão.

— Não fique parado feito um idiota, idiota.

Baiyang então entrelaçou seus dedos nos do amigo, e seguiu.

Enquanto andavam, Qiao Chen podia ver o pequeno sorriso e a expressão serena do outro.

Tinha certeza de que não era muito diferente da dele.