Ele estava desconfortável e se sentindo um verdadeiro peixe fora d’água naquela casa.

Nunca tinha conversado muito com Ying, a não ser para dar apoio a Lu Xia, e agora lá estava ele, numa cozinha enorme digna daqueles programas de competição de culinária, decorando bolinhos com Ying e sua amiga, que ele nunca gravava o nome.

Ainda bem que Baiyang tinha ido embora assim que os deixou em frente à casa, ou ele nunca iria deixar passar aquela situação.

E ao pensar no rival, logo sua mente voltou para o quase momento em que os dois se beijaram. E não pôde deixar de sorrir. Lembrou de como ele segurou sua mão depois, e também até lá. Sentiu o rosto corar, e o flash em seu rosto o acordou de seus devaneios.

— Estava pensando em quem? — Ying perguntou, com um sorrisinho, ao ver a foto que tirou dele.

— No namorado, é claro. — Peng Xian pegou o celular da amiga para verificar a foto. Deu um sorriso aprovando a foto. — Acho que ele vai gostar. Ficou muito fofo.

— Não somos namorados. — Qiao Chen negou, mas o rubor em seu rosto só aumentou, e isso só fez as duas rirem mais ainda.

Abaixou o rosto encabulado.

Não eram namorados, mas talvez gostaria que fossem.

Balançou a cabeça tentando espantar tal pensamento.

— Ele é bonito, mas um pouco estranho. — Xian comentou, um pouco sem graça.

— Ele não é estranho. Só parece um pouco.

— Ele é um pouco sim. Fica te seguindo o tempo todo. — Ying comentou.

Qiao Chen ruborizou mais ainda quando lembrou da invasão no reservado do banheiro e de como ele se auto intitulou seu guarda-costas. Sentia que seu rosto iria explodir.

— Baiyang é um pouco protetor.

As duas o olharam divertidas.

— Baiyang, hein? — Xian riu, e ele ficou sem entender. — Estava falando daquele bonitão do Hai Guang.

— Que bonitão do Hai Guang? — ele pensou em voz alta, ainda não entendendo. Ele, certamente, teria notado se algum cara bonito tivesse seguindo-o o tempo todo.

O único que fazia isso era o maluco do Yuan Chi.

A cor sumiu de seu rosto quando ele se deu conta a quem elas se referiam.

— Ewwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwww, fala sério. Ele parece que está do avesso!

Elas riram da sua reação, mas ele realmente não entendia como alguém poderia achá-lo bonito. Era uma pessoa horrível, por dentro e por fora.

— E o Baiyang é bonito? — Xian, perguntou com um sorrisinho maroto.

— Muito mais! — Respondeu sem pensar, e tampou a boca assim que se deu conta do que tinha falado.

As duas riram.

— Está tudo bem. Não vamos contar para ninguém. — Ying sorriu, tentando acalmá-lo.

— Isso mesmo, só queremos fofocar e falar de garotos. — Xian falou e ganhou um tapinha no ombro da amiga.

Ele as olhou ainda em dúvida.

— Nem para a sua tia? — quis se certificar.

Ying levantou a mão direita e jurou.

— Muito menos para ela. — Ela respondeu, sorrindo.

Qiao Chen sorriu de volta. Talvez fosse bom conversar.

Então, ele passou boa parte da tarde tentando decorar os bolinhos e conversando, mas percebeu que não tinha a menor vocação para isso.

Olhou o bolinho que deveria ser um gato e suspirou desanimado.

— Parece um monstrinho.

— Poderia ser um gato de outro planeta. — Xian tentou animá-lo.

— Isso é inútil. Ele nunca vai comer sabendo que fui que fiz. Vai achar que coloquei laxante ou algo assim.

— Imagina. Quem faria algo assim? — Ying riu, e ele deu uma risada sem graça.

— Não acredito. — Xian riu tanto, que quase caiu da banqueta da cozinha.

— Ele era muito pentelho no primeiro ano. — Ele resmungou tentando se justificar.

— Baiyang é que nem vinho, então? Melhora com o tempo? — Xian perguntou inocentemente, fazendo corar de novo.

— Você que está dizendo. — Desconversou, fazendo-a rir.

— E você não está negando.

— Não estou.

— Venham, vamos tirar uma foto. — Ying posicionou a câmera e se aproximou dos dois. Bateu a foto quando conseguiu enquadrar os três.

— Ficou linda. — Xian elogiou. Os três faziam V com os dedos. — Como você é fotogênico! Pareço uma mendiga ao seu lado. — Ela reclamou, ao ver como ele tinha saído bem na foto.

— Tudo é ângulo e luz.

— Parece saber muito sobre fotos. Tira muitas fotos? — Ying comentou enquanto acabava de decorar um bolinho como uma bola de tênis.

— Aposto que posta douyin.

— Eu fiz umas fotos para algumas lojas quando era pequeno. — Contou, meio sem graça. Não era algo que gostava de sair contando. Era um tanto embaraçoso. — Não sei o que é douyin.

— Ah, então é por isso que sempre está arrumado e bonito. — Xian afirmou. — Se me der alguns toques sobre como tirar fotos mais bonitas, te explico como funciona o Douyin. — Ela propôs.

Eles apertaram as mãos selando o acordo.

Depois de algum tempo, o nome de Yuan Chi acabou voltando à conversa, para o seu desgosto.

— Sério. Não o acho bonito. De fato, se pudesse eleger a pessoa mais horrível da Terra, o nome dele estaria em primeiro lugar reinando absoluto.

— Nossa, você realmente não gosta dele. O que ele te fez que o fez odiá-lo tanto? — Xian perguntou.

E ele suspirou. Nunca iria contar toda a verdade, mas tinha que avisá-las.

— Ele não bate bem. Cismou comigo e não aceita “não” como resposta. — Começou a contar, prendendo atenção das duas. — A minha mãe ficou sabendo, e achou que eu tinha alguma coisa com ele.

— E vocês nunca tiveram nada, não é?

— Não, mas ela não acreditou.

— Então, os boatos são verdadeiros? — Xian tinha uma expressão triste.

— Ela me colocou para fora. — Respondeu, confirmando.

— Mas agora você está com a titia, e sei que ela nunca iria fazer isso. — Ying afirmou, ao lembrar que ele tinha pedido para que não contasse nada à tia sobre o que conversaram ali. Achou que tivesse medo de que acontecesse de novo.

— Melhor não descobrir. — Ele comentou, e ela concordou. — O importante é que saibam que ele não presta e evitem contato.

— Ele sempre está por perto. Já o vi várias vezes quando ia para a quadra. — Xian contou a eles.

— Quando o virem, corram. — Recomendou e voltou a decorar o bolinho.

A noite chegou rápido, e com ela os outros membros da família.

Qiao Chen estava nervoso de conhecer todos durante o jantar. Sentiu que invadia algum momento íntimo que não fazia parte.

— Como o meu sobrinho novo é bonito! — A mãe de Ying se aproximou e apertou suas bochechas, como se ele tivesse três anos de idade, assim que o viu.

— Mamãe! Ele é muito grande para isso. — Ying reclamou, sem graça.

— Levanta, levanta. Deixa eu te ver. — Ela pediu, e ele levantou, todo sem graça. — Olha, é um gigante! — Ela riu. — Vamos comer, venham.

Porém, no jantar ele conheceu o pai de Ying, irmão da treinadora Qi. E ele era tão ou mais bravo que a irmã.

— Tem certeza de que não é maior de idade? — Ele perguntou.

— Tenho.

— Deixa o menino em paz. — Sua esposa reclamou.

— Ele tem barba já. Poderia estar trabalhando.

Qiao Chen passou a mão no rosto. Não tinha barba.

— Ele não irá trabalhar até se formar. Pare de pentelhar. — A treinadora Qi Na o defendeu.

— Não faz bem super proteger esse marmanjo. Vai virar um vagal. — O Sr. Qi retrucou, deixando Qiao Chen mais nervoso em estar ali.

Como se já não bastasse o padrão inalcançável que a treinadora exigia, agora aquele senhor ainda queria aumentar ainda mais.

Sentia aqueles olhos julgando-o a cada respirada que dava.

Deveria ter se sentado mais longe.

Queria sumir. Queria chorar.

— Ele já está bem ocupado com o clube de tênis e ficará mais ainda com o de esgrima.

— Fará esgrima também? Acho tão lindo! — A mãe de Ying lhe deu um sorriso tão orgulhoso.

— Farei? — estranhou. Não tinha entregue o formulário.

— Sim, fiz sua inscrição hoje depois do treino. — A treinadora o olhou e ele teve certeza de que ela sabia que ele tinha escutado sua conversa. — Na próxima vez, bata na porta e me entregue.

Pego no ato.

Ficou tão nervoso que acabou derrubando o copo de suco na roupa.

— Tem certeza de que ele tem destreza para isso? — O Sr. Qi debochou, mas ele não estava preocupado com isso. O irmão protetor da treinadora já tinha deixado mais que claro que não aprovava sua estadia com a sua irmã. Estava preocupado em manchar sua camiseta do seu ídolo Hua Chenyu.

Por isso, levantou rapidamente e tirou o casaco, e a camiseta de cima. Suspirou aliviado quando viu que o líquido vermelho do suco não tingiu sua amada camiseta.

— Qiao Chen. — A técnica lhe chamou atenção. Não estava nem um pouco feliz dele ter arrancado as roupas em meio ao jantar.

Ele riu sem graça. Era bom que conseguisse explicar logo ou sua orelha iria sofrer assim que saíssem dali. Já conseguia sentir a dor.

— Perdão. Não queria que manchasse. É rara. — Disse, apontando para a camiseta com um pequeno astronauta. — Só fizeram 100 dessas em azul. — Explicou, sem jeito.

Deu um passo para trás quando viu que o pai de Ying se levantou da mesa também. Não achou que o tivesse insultado tanto assim, mas era melhor prevenir. Ele parecia ter a mão pesada e provavelmente arrancaria sua orelha fora se a puxasse.

— Só tem mais 98 então. — Ele falou, solene, abrindo sua camisa social e mostrando uma camiseta igual.

Os dois se olharam por alguns instantes, e emocionados se abraçaram.

— Meu sobrinho! — Disse orgulhoso.

— Tio!

A mãe de Ying parecia feliz, mas a treinadora Na balançava a cabeça.

— Dois idiotas. — Comentou baixo e a sobrinha riu.

Após o jantar, Qiao Chen e a treinadora Qi foram para casa. E ele sorriu ao perceber que já pensava no apartamento da treinadora como casa.

Sua vida estava finalmente voltando aos eixos.

— Obrigado por ter autorizado a inscrição no clube de esgrima. — Ele agradeceu, antes de ir se arrumar.

Ela sorriu.

— Não fique até tarde acordado. Conversei com o capitão do time de esgrima e adequamos seus horários de treinos. Amanhã você já começa. — Ela o informou, e ele deu um soquinho no ar, comemorando. — E a partir de amanhã você volta ao time principal do Yu Qing. Sua folga acabou.

Ela achou que ele ficaria feliz com o comunicado, mas ele ficou parado, olhando-a. Começou a ficar preocupado quando viu os olhos dele marejados.

Porém, antes que pudesse perguntar qualquer coisa, foi surpreendida por um abraço.

Ela ficou sem reação com o abraço forte que quase a tirou do chão.

— Obrigado. — Ele estava chorando. — Darei 100% de mim. Prometo. — Disse, ao se afastar, enxugar os olhos, e aumentar a distância entre os dois.

— Não aceito nada menos que isso. — Ela sorriu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.