— Isso é verdade? – O olhar da diretora estava um misto de preocupação e seriedade. Seu tom de voz, porém, era firme. Miyagi poderia muito bem mentir para sair daquela enrascada, todavia, as consequências daquela escolha seriam indefinidas.

Sentia como se um pedaço de sua vida se passasse por sua mente, e em um momento, pensou em como Yuuki pensaria. Ele a apoiaria em mentir e esconder aquilo? Ou ele a sugeriria a se abrir? Eram tantas perguntas… O peso daquela questão junto da atmosfera naquela sala era sufocante para a moça, que ficou em silêncio, antes de a diretora chamar sua atenção novamente.

— Me desculpe… eu… — Era demais. Não encontrava as palavras para poder se expressar ali. Seu coração batia rápido, a ansiedade crescia dentro de seu peito. A diretora parecia compreender o nervosismo da menina, também começando a se sentir estranha por dentro.

— É algo difícil de responder? — Questionou, com um olhar de preocupação para a moça.

Do lado de fora, no corredor, Yuuki estava recostado na parede rente ao corredor. Por mais que Shizue e Emiko tenham recomendado que ele não fosse, ele sabia que aquela situação poderia ser algo sério, dado o incidente recente com o pai da moça. Por um momento, silêncio. Então, soluços: Miyagi estava chorando. Não conseguiu conter as lágrimas por muito tempo. Podia-se ouvir também a voz da diretora, tentando-a confortar, sem muito sucesso.

O som da porta a deslizar revelou o garoto ali diante das duas: a garota, que estava com as mãos tentando limpar as lágrimas, e a mulher, de pé em frente a ela.

— Diretora, Akane, me desculpem por escutar a conversa por detrás da parede. Mas não acho que--

Akane surpreendeu e interrompeu o menino se lançando em seu peito, braços o envolvendo em um terno abraço. Não ligava para regras naquele momento; para ela, o mundo inteiro parou quando estava junto dele, permitindo-se chorar em seu peito.

— Esses tipos de questões são muito pessoais, diretora. Nem sempre alguém vai gostar ou querer responder algo desse porte. — Em um tom sereno, respondeu enquanto acariciava as madeixas da morena, que se acalmava.

— Eu entendo… mas é que--

— Diretora… — A garota, com as forças renovadas se virou para a mulher. — Eu sou quem sou: Akane Miyagi, uma mulher. Alguém que eu jamais deixarei de ser para concordar com os caprichos de qualquer que seja. Isso inclui o meu pai.

Seu olhar determinado, aquela ousadia, aquela garra era algo que o pai jamais poderia lhe tirar, independente do que este dissesse a quaisquer. Com respeito, arqueou-se pedindo licença, e virando-se para Yuuki, deu um sorriso que foi retribuído pelo mesmo.

— Espera! Mas você na verdade é--

— O que o meu corpo é ou deixa de ser não deveria definir o que eu sou, não acha, diretora? — E com isso, ela saiu, junto de Yuuki de volta para a sala de aula. A mulher ficou levemente atônita pela atitude da moça.

Acabou por lembrar de Megumi Tsukishima, que também se vestia fora dos padrões comuns da escola. Porém, o caso dele terminou de forma completamente diferente da dela. Ver aqueles dois juntos, aquele vínculo tão natural aos olhos a fez suspirar, frustrada.

— Obrigada. — Akane olhava para frente, visando somente avançar, ainda mais sabendo que não estava sozinha. — Se você não aparecesse ali, eu não sei se aguentaria. Talvez nem mesmo conseguiria responder ela de forma adequada. — Sorriu, seus passos tranquilos, porém, firmados. Sentiu algo sobre sua cabeça: era a mão do garoto a afagar novamente seus cabelos.

Após os períodos de aula, voltavam para o dormitório um ao lado do outro. Yuuki ainda aparentava preocupação por conta da relação dela com o pai. Todavia, ela estava tranquila, ainda mais depois do que aconteceu na diretoria.

— Sabe, Yuuki-kun… acho que ter passado por isso foi até bom… — A menina pronunciava, seus olhos direcionados ao céu azul, um sorriso estava em seu rosto.

— Como assim foi bom? Você quase teve seu segredo exposto para a escola toda… — Yuuki a contestou, não havendo entendido bem seus motivos.

— Sim, eu quase arruinei minha vida escolar inteira… mas eu não fui honesta mantendo esse segredo, ou fui? — E antes que sequer Yuuki pudesse dizer uma coisa, algo clicou na mente de Akane. — Eu já volto! — Uma estranha determinação se apossou da garota, que correu na direção oposta que estava indo com ele, rumo à escola.

— O que você vai fazer?! Não me diga que--

— Eu fui injusta, especialmente com alguém! Não se preocupe comigo, só vá! — Sua voz se desvanecia conforme se distanciava do garoto. Ela corria contra o vento, que não lhe oferecia resistência alguma.

Ele precisa saber…” pensava ela, correndo com tudo que tinha , seus cabelos a esvoaçarem, passando por entre estudantes e estudantes, retornando enfim ao prédio escolar. Dada a última vez que interagiu com ele, sabia muito bem aonde encontrá-lo. Correu pela esquerda, contornando o prédio e indo em direção ao campo de futebol.

Quando falaram com ela, citou o nome do garoto, e este então fora chamado, seu olhar pairando imediatamente sobre ela e seus cabelos contra o vento. Ela o puxou, não muito longe dali, para um canto mais reservado do colégio, aonde ficassem os dois a sós.

— Takashi-kun… eu havia dito a você antes que havia um segredo que não poderia te contar, não havia? — Um pouco ofegante ela relembrou o menino, que concordou com a cabeça.

— Você também havia dito que por mais que tivesse aceitado minha confissão, eu não gostaria de você…

— Exato… e esse segredo é o motivo pelo qual você provavelmente não gostaria de mim. — Seu coração corria. Suas mãos começavam a tremer. Sabia que poderia muito bem arruinar sua vida escolar por conta daquilo, que rumores poderiam se espalhar. Mal sabia se poderia confiar mesmo no garoto naquele momento, mas havia de fazê-lo.

— Olha, você não precisa dizer, é um segredo seu. Além do mais--

— Não. — Miyagi o interrompeu, juntando o máximo da coragem que pode. — Eu fui injusta com você escondendo isso… pensei que estava fazendo bem, mas na verdade, não estava. Então serei sincera com você…

Ela então respirou fundo, e o garoto tornou a prestar atenção na menina, fixado em seu olhar, este sendo um dos motivos pelo qual ele se apaixonara. Pôs um sorriso terno em seu rosto, mesmo o nervosismo estando por completo em seu corpo, sendo seu coração o maior cúmplice daquilo.

— Desculpe, Takashi-kun… mas o motivo além de eu ter alguém especial para mim é que… eu sou um garoto… — Da forma mais terna e serena possível, pôs as cartas na mesa. Aquelas palavras ecoaram na cabeça do garoto, que sentiu um breve aperto no peito ao mesmo tempo que um forte vento bateu e fez o cabelo da moça esvoaçar.

Se sentia confuso, pois dela ouviu algo, mas seus olhos não conseguiam enxergar outra coisa senão uma moça. Era completamente diferente do que ela havia dito, a delicadeza, os detalhes de seu rosto, seu sorriso, olhar, o cabelo, até mesmo a voz. Tão feminina quanto todas as moças de sua classe, e ainda assim, um menino.

— Não… — Murmurou, incapaz de compreender aquilo.

— Sim…

Akane permanecia firme em sua resposta; por mais que sua voz fosse terna, trazia consigo um peso difícil de ofuscar.

— Não é verdade… — Takashi insistia em desacreditar. Lutava internamente com aquelas novas informações. Havia muito a se pensar naquele momento.

— É complicado, mas… é sim. – Era um pouco doloroso vê-lo ali, a conflitar com a verdade que saíra de sua boca. Aguentou firmemente, ainda permanecendo com um sorriso em seu rosto.

— Isso é impossível… você… você é uma menina… — Murasame passou a olhar cada canto da menina, a buscar quaisquer prova que pudesse atestar a veracidade do que ela falava. Não encontrou nela, porém, nenhuma mácula, o que contribuiu mais e mais para a incerteza e confusão que dominavam tanto seu coração quanto sua mente. Tudo parecia girar dentro de si.

Miyagi podia sentir o nó que se apertava em sua garganta. Sabia o quão difícil era para o menino aceitar, por mais honesta que estivesse sendo.

— Por fora, você pode sim dizer que sou uma garota… — Firme se manteve, meticulosamente articulando as palavras com todo o cuidado. — ...e eu, por dentro, posso dizer que também sou uma menina… mas eu nasci biologicamente um garoto, igual a você.

Um silêncio tomou conta de ambos, deixando ressoar o som ambiente dos outros alunos no campo de futebol. O menino continuava a fitá-la, ainda processando o que havia escutado. No meio do seu transe, porém, um pequeno mas singelo gesto o fez sair da hipnose.

— Me desculpe, Takashi-kun… Eu não queria te enganar assim…

Ainda com um sorriso em seu semblante, todavia, com um tom de voz melancólico, ela assim estendeu sua mão em direção ao garoto, que fitou não somente sua mão mas o rosto de Miyagi.

— Você… aceita minhas desculpas?