A voz da garota, ainda levemente vacilante, balançou o coração de Takashi. Hesitando brevemente, também estendeu sua mão e apertou a da garota; diferente do que esperava, o toque de suas mãos era suave, gentil, caridoso e delicado.

— C-Claro. Não acho que você tenha feito isso por mal. — Um sorriso nervoso brotou em seu rosto, desviou seu olhar por pura timidez.

— Realmente, me desculpe por demorar. Mas agora estamos quites, né? Eu vou indo então.

Enquanto ia embora, parou um pouco mais a frente, virou-se e acenou para o moço, que envergonhadamente acenou de volta enquanto ela retornava. O jovem então retornou ao campo de futebol, um pouco mudado após aquilo e seus colegas perceberam.

— Ei Takashi, quem era aquela gatinha? — Com um sorriso jocoso, um deles o abordou.

— Sua namorada? — Outro também o questionou, curioso. Takashi sabia que havia algo ali que ele jamais poderia contar, algo que ficaria de segredo entre ele e a menina.

— Não… era só uma colega mesmo. — Comentou, todavia, sabia que não sanaria sua curiosidade. Sua voz expressava um pouco de desapontamento junto de conformidade. — Eu me confessei a ela uma vez, mas não deu certo. Ela já estava interessada em alguém.

Seus amigos o confortaram e ajudaram a retornar ao ritmo do treino a fim de esquecer aquilo momentaneamente. Na estrada, um sentimento de alívio satisfatório preenchia Akane enquanto esta caminhava a observar o céu alaranjado no horizonte. Não poderia ser mais belo: um tom dourado banhava os arredores, um calor confortável, um sorriso no rosto.

Porém, toda aquela alegria estava prestes a se findar, pois no meio do caminho, havia uma pedra. Ou melhor dizendo, um homem de terno e gravata. Homem este cujo Akane não suportava a presença; todavia, com a experiência que teve à pouco com Takashi, apesar de seu semblante sério ao encarar ele, estava com uma outra perspectiva. Apesar de toda dor, seu coração estava sereno diante do olhar afiado do pai. Por um momento, tudo que se conseguia ouvir era o som das folhas a se mover com o vento, até que tomando a coragem, a menina decidiu quebrar o gelo.

— O que quer comigo? — Foi direta ao ponto, a fim de dar cabo daquele conflito o mais rápido que podia.

— Você parece diferente… — Sua voz para ela parecia cortá-la ao pescoço como uma navalha, como sempre.

— Já não acha que disse isso vezes o suficiente? — Aquela frase, emulsificada por Souichiro, trouxe à tona as memórias de quando ele havia dito a mesma coisa a ela, várias e várias vezes seguidas. E em todas as vezes, sempre terminava com aquela desavença a se escalar.

— Você nunca quis me ouvir direito pra--

— Pra que? Pra te entender? Que curioso. Não é exatamente isso que você faz comigo? — Akane retortou, com uma acidez que havia guardado junto do ressentimento pelo homem. Aquelas palavras acabaram por fazê-lo recuar ligeiramente.

— Você não me ouve, não me deixa falar, e por conta disso, jamais vai me entender. — O ressentimento deu lugar a dor carregada na voz da menina, que por anos aturou aquele sofrimento. — Tudo é você, você, você. Sempre é sobre como você vê o mundo. Os outros não importam pra você. — Sem perder demais a compostura, pôs para fora toda a dor que fazia questão de sufocar seu coração.

Ela passou por ele e então parou por detrás, sem sequer se virar para ele, como se o pai fosse completamente desprezível para si. O vento mais uma vez bagunçou seus cabelos morenos.

— Diferente de você, eu te escutei mais do que o necessário, o que foi mais do que suficiente para entender como você é.

Souichiro começou a sentir um leve aperto em seu peito. Para ele, ela já não estava mais falando, mas sim atirando flechas através de seus lábios.

— Talvez quando você deixar de lado essa sua postura egoísta e começar a me escutar direito, talvez, somente talvez você comece a perceber o quanto errou. Até lá, tudo o que você tem feito foi me afastar. E se continuar com isso, vai me perder de vez. Caso isso aconteça, que fique de aviso que não será fácil recuperar minha confiança.

Cada vez que ela falava, era como se mais flechas eram lançadas, uma após a outra, cada uma pior do que a outra. Mas nada, absolutamente nada o preparava para o que estava por vir.

— E mais uma coisa: caso me perca, independente das circunstâncias, esteja ciente de que você carregará a dor do meu sofrimento nas costas. Porque eu vou sofrer, e você sabe que eu vou sofrer. Então eu te pergunto: se gosta mesmo de mim, se se preocupa mesmo comigo, o que vai fazer?

Um silêncio devastador preencheu o ambiente. O peito de Souichiro estava apertado de angústia devido a aquela cartada final de Miyagi.

— Pense bem sobre isso. E tome suas decisões com cuidado. — E sem dizer mais uma palavra sequer, Akane continuou a caminhar em direção ao dormitório, enquanto ele ficava ali, parado.

A escuridão envolvia o homem enquanto este caminhava para seu lar, parando por um momento em uma loja de conveniência. Com uma sacola em mãos, chegando em casa, viu o corredor vazio e sentiu mais uma vez o peso daquilo em seu peito. Sem ninguém para lhe receber, trocou os sapatos pelas sandálias e tendo passado primeiro na cozinha, foi para o quarto, com um copo em mãos. Sentou-se ao chão, e depositando o líquido no recipiente, o tomou.

Um. Dois. Três copos e algumas poucas latas após, ele começou a perceber que o peso daquelas palavras não pareciam ficar mais leves. Estava se enganando em falsas promessas, esperando que a bebida fosse lhe ajudar a esquecer aquele problema. Enfurecido, levantou-se em um golpe, e chutou com todas as forças a sacola que continha as outras poucas latas, fazendo-as derramar no chão.

— Essa droga não está me ajudando! — Exclamou, sua voz levemente arrastada mas alterada principalmente pela decepção causada por expectativas que claramente não iriam se cumprir.

Caso me perca, independente das circunstâncias, você carregará a dor do meu sofrimento nas costas; Se você se preocupa mesmo comigo, o que vai fazer?; Pense bem sobre isso, e tome suas decisões com cuidado.

As palavras de Miyagi voltaram a reverberar em cada canto de sua consciência. Era aquilo uma rebeldia de seu próprio filho? Se era, por que? Se não era, o que era? Muitas eram as questões que o rondeavam naquele momento. A imagem do pequeno Akira veio a sua mente, o fazendo clamar seu nome. Logo, outras imagens, desta vez de Akane, tomaram seu lugar; não se via muito de seu rosto, somente de seu busto, roupas femininas, seus queixos e lábios.

Quantas vezes eu já disse, meu nome não é Akira! É Akane! Até quando vai me chamar assim? Está me cansando, sabia?

Era o que no flashback dizia a jovem, com um tom irritado. Sua reclamação se repetia na mente de Souichiro, com a voz da menina cada vez amadurecendo mais até chegar em sua voz atual. Junto dessas reclamações, se misturava com elas as palavras da mesma jovem que havia proferido horas antes.

— Quem é você? E o que fez com meu filho? — Sua pergunta fora lançada ao vento.

Eu sou sua filha! Meu nome é Akane! Eu não deixei de ser eu.” — Diziam os flashbacks em sua mente, como se respondessem a um déjà-vu. Era uma luta contra si mesmo cujo não compreendia bem. Cansado de tudo aquilo, decidiu ir dormir, esperando que uma boa noite de sono fosse lhe revigorar as energias gastas com aquele assunto.