Amethyst no Hana - A Flor de Ametista Original
46 Capítulo 45 - Travessia
— Nos encontramos de novo… Akira… — O homem disse, passando por ela, que estava em choque. — Uma pena eu não poder ficar… Ah, e moleque… não sei bem dizer se é bom te ver de novo depois de todos esses anos… — Complementou, se referindo a Yuuki, o olhando de soslaio, antes de abrir seu guarda-chuva e sair.
Akane tremia. Tremia não só de ódio, mas também de medo. Aquela voz. Aquele tom. Aquele nome. Naquele momento, tudo passou a não existir: todo momento bom que Akane havia passado com Yuuki, até mesmo recentemente na escola, não existia mais. Em seu lugar, havia o terror. Ela conseguia ouvir não somente a voz de seu pai em sua mente, mas também a voz distorcida cujo sabia em sonho que era ele. Os olhos vermelhos sob a sombra fez suas pernas vacilarem, a fazendo cair sentada sobre os joelhos no chão.
Começou a murmurar “não” bem baixo, aumentando a voz a cada “não” que dizia até que em um ponto, ela finalmente explodiu. O que se ouviu a seguir foi um estridente e alto grito vindo de sua boca, exprimindo todo o pavor que se havia concentrado dentro de si e assustando ambos Yuuki e a gerente. Sua mente estava deveras conturbada pelo medo, era como se o pesadelo e a realidade fossem uma só. Yuuki tentou ajudá-la, porém ao tentar tocar nela, com a intenção de a acalmar, se surpreendeu com sua reação.
— NÃÃÃÃO!!! FIQUE LONGE!!! FIQUE LONGE!!! — Ela exclamou, se levantando e correndo para seu quarto, sem perceber que esbarrou na gerente. Sua voz já havia chamado a atenção de todos, especialmente das meninas lá de cima, todavia, ao vê-la correr para a porta de seu quarto, não deu nem tempo para que elas pudessem ajudar. Ela se trancou lá, e se encolheu deitada na cama, debaixo do cobertor. Somente então, sua voz ali cessou, dando lugar a um choro quase silencioso. Entre lágrimas, balbuciava para que sua mãe a salvasse, como se pedisse por uma proteção espiritual.
Algum tempo depois, Hibiki-sensei enfim chegava, sem saber de nada quando avistou Yuuki no corredor, olhando para a escada.
— No que está pensando, Yuuki? Não me diga que está mesmo cogitando ir ver a Akane? Sabe que isso pode te dar suspensão, não sabe? — A mulher o questionou.
— Sensei… — O garoto então retrucou, virando seu rosto na direção de Hibiki. Em sua face, um semblante de preocupação tomou a atenção dela.
— O que houve? Por que está com essa cara?
Yuuki então fez questão de, na sala, explicar toda a situação até o presente momento para Takeuchi, que lhe ouviu pacientemente.
— Entendo… então, o pai dela veio visitar… e ela teve um surto… — Comentou Hibiki, cruzando seus braços.
— Eu até tentei ajudá-la, mas ela simplesmente não parecia me escutar. Ela somente correu com tudo escadas acima, e até o momento, não ouvi falar mais nada dela… — Concluiu o menino, fazendo com que a mulher acenasse positivamente com a cabeça.
— Ela sofreu um choque emocional muito forte, por isso buscou um espaço isolado para se resguardar. O único local que poderia pensar a respeito era seu quarto.
Yuuki perguntou a Sensei se o melhor a se fazer seria esperar Akane melhorar. A mulher concordou, acrescentando que devido ao momento doloroso que a menina estava passando, que ela necessitaria de um apoio emocional. Apoio este que seria algo essencial para sua recuperação, pois ela não podia passar por tudo aquilo sozinha. E como ele era o mais próximo dela, ele era o mais apropriado a estar ao lado dela, ainda que não dizendo nada, mas mostrando que independente do que fosse, que ele estaria lá por ela. Movido pelas palavras da Sensei, ele acenou positivamente, ambos então se levantando.
— Ah, mais uma coisa, Yuuki. — Ela parou na frente da porta da sala, e virou seu rosto para o lado, o olhando de soslaio. — Gostaria que hoje você fosse até a porta de Akane e a chamasse para jantar.
— Sensei… — Ele estava pronto para retrucar, lembrando da regra mais importante daquele lugar.
— Lembra do que eu acabei de te dizer? Você precisa dar apoio a ela, lembra? Então, nesse momento, eu quero que você quebre a regra principal do dormitório. Hoje, é uma exceção. Chame ela. Se ela não quiser vir, deixe a comida dela em frente a porta. Isso por si só vai ser mais do que suficiente.
Yuuki então percebeu que, para ela fazer uma exceção assim era um sinal de que, apesar de todos os pesares, ela ainda confiava nele.
As horas passaram, a noite enfim chegou, e estava no horário do jantar. Hisashi olhou para cima das escadas, e confiante, subiu. Já fazia um tempo que ele não passava por ali. Parando em frente a porta de Miyagi, bateu três vezes e chamou seu nome. Não houve resposta. Insistiu mais um pouco, porém, somente recebeu uma resposta desinteressada, ainda sem abrir. Vendo que ela não iria, fez conforme a professora lhe disse e deixou a comida em frente a porta dela, retornando para a sala de jantar.
O clima na mesa não parecia tão bom pela falta da menina; todos estavam preocupados com ela. Sensei entretanto os assegurou de que ela ficaria bem e que não demoraria para voltar.
Mais horas se passaram, meia noite, todos estavam a dormir. Todos, exceto por Yuuki. Virava-se de um lado a outro, se encolhia, até tentou ficar quieto debaixo da coberta, se cobrindo por completo. Nada parecia o deixar em paz. A cena de antes, quando a menina se encontrou com seu pai, surtou e correu escadas acima, e rejeitou ir para a sala de jantar repetiam em sua mente.
Preocupado e não conseguindo dormir por conta disso, sentiu que havia de fazer algo a respeito. Levantou-se de sua cama e saiu de seu quarto. Mais uma vez olhou as escadas, receoso de se realmente podia fazer aquilo. Até que passos puderam ser ouvidos a seu lado: era Hibiki-sensei.
— Está preocupado, não está? — Perguntou a mulher, ele concordando com um aceno. — Imaginei que estaria. Vá. — Ordenou ela, ternamente com um sorriso no rosto. Ele então a fitou como se não acreditasse, ela afirmou com um aceno. Yuuki subiu as escadas e mais uma vez se pôs em frente a porta de Akane, batendo de leve e lhe chamando.
— Yuuki-kun… — Sonolenta, ela se levantou e abriu a porta, vislumbrando o menino com seu semblante preocupado, porém, com um sorriso se formando agora em seu rosto.
— Me desculpa te incomodar essa hora… eu fiquei preocupado. Como você está? — O moço perguntou, com voz suave enquanto a fitava nos olhos. Percebendo o quanto ele se importava com ela, isso fez seu coração saltar uma batida. Sua hesitação havia ido embora naquele instante entre eles. Suspirou, como se tivesse tirado um peso de seus ombros.
— Agora que você está aqui… estou melhor. — Com um sorriso terno, ela o responde. Ver seu sorriso, mesmo sob a iluminação sutil da noite, era reconfortante, gratificante para Yuuki. Era tudo que ele precisava ver naquele momento.
— Que bom… Eu não estava conseguindo dormir por conta dessa preocupação… se não for incômodo, será que eu posso dormir com você?
Uma sensação calorosa começou a preencher o peito da menina, que deu um passo ao lado para que ele pudesse entrar, ainda com um terno sorriso em seu rosto.
— Claro. Venha.
Iluminados somente pela luz do luar, se deitaram; ele à esquerda e ela, à direita, um de frente para o outro. Como uma criança que havia achado a proteção perfeita, o abraçou e se aninhou em seu peito, ouvindo as batidas de seu coração. Enfim achou ali seu conforto, o agradecendo por vir e o desejando boa noite. Ele também o fez, a envolvendo em seus braços e colocando uma de suas mãos sob sua cabeça, enquanto recostava sua própria cabeça na da menina. Aquela noite, não demorou muito para o sono lhes vir ao encontro, ao qual dormiram serenamente na companhia um do outro, pois era o que ambos precisavam.
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