Minha vida simplesmente mudou de uma hora para outra. Meu pai, senhor Walter, um conceituado executivo de uma empresa em ascensão resolveu se engraçar com sua estagiária, apenas 3 anos mais velha do que eu, poderia ser minha irmã, se eu tivesse uma, né.

Não demorou muito para minha mãe, dona Rose, descobrir sobre a pulada de cerca do meu pai, no início eu não me importei, eu era daqueles adolescente que simplesmente não me importava com meus pais, mas em menos de um mês eu estava em frente à um juiz tendo que escolher com quem eu queria morar, meu pai ou minha mãe.

Aos dezesseis anos com uma vida estabelecida em Los Angeles, eu não queria que nada disso mudasse, porém eu tive que fazer uma escolha. Meu pai trabalhava seis dias por semana, as vezes quatorze horas em um dia, já minha mãe era uma professora de ensino fundamental, falando nisso, por dois anos seguidos ela foi minha professora, e isso foi realmente estranho. Além de passar oito horas com ela em uma sala de aula, ainda a encontrava em casa. Eu não ia e nem voltava de carro com ela, eu queria ser o mais "normal" possível, ir e vir de ônibus escolar, mas mesmo assim era estranho.

Então, de frente para a Juíza eu escolhi minha mãe, mesmo achando errado o que meu pai fez, eu não conseguia ter raiva dele ou ódio, aliás, naquela idade eu queria era distância dos dois. Porém, no dia seguinte recebo a notícia que mudaria minha vida para sempre. Iríamos nos mudar, minha mãe e eu. Eu não queria abandonar os poucos amigos que eu tinha, minha vida, tudo, para ir para bem longe, um outro estado, uma outra cidade.

Sair de uma cidade com três milhões de habitantes para morar em um lugar que tinha seis mil pessoas. Eu, claro, que briguei com minha mãe, discuti com ela, mas foi em vão, já estava feito. Minha vó, Mary, arrumou para ela um emprego na escola local, e tudo que minha mãe queria era voltar para onde nasceu e cresceu, e assim nos mudamos três dias depois.

Doze horas de viagem de carro, chegamos em Minnesota, Forest Lake, a cidade que quase sempre fazia frio, sua temperatura local era na casa dos quinze graus, apesar de não chover com frequência, o tempo era bem agradável depois que você se acostuma. Porém no verão a temperatura passava dos trinta graus e fazia sol quase todos os dias por quase três meses.

Enfim entramos na rua onde eu moraria, uma rua extensa com as casas todas de dois andares, com jardim e bastante arvores, era uma rua bem bonita por sinal. Nossa casa ficava bem no meio, com as paredes azuis e o teto pintado de branco, a casa onde minha mãe nasceu e cresceu, foi a mesma onde minha vó nasceu, uma casa antiga, porém foi reformada há dez anos atrás.

Assim que eu saí do carro carregando minha mochila e uma mala, não trouxe muita coisa, a casa da vovó era mobiliada, eu tinha até um quarto. Mas meus pensamentos foram todos interrompidos quando eu a vi, estava na casa ao lado, levava o lixo fora e botava na lata. Ela me olhou e pude reparar que ela abriu um sorriso, tímido mas sorriu. Vestia roupas escuras, um moletom, seus cabelos batiam na altura de seus ombros, suas madeixas eram castanhas, quase loira, eu a conhecia, era Chloe.

Lembra das minhas férias de verão em Forest Lake até meus onze anos? então, Chloe era minha única amiga, era vizinha da vovó e tinha a minha idade, todos os verões nós ficávamos grudados como se fôssemos um só. Ela tinha dois irmãos quase dez anos mais velhos do que ela, fãs de Beatles e de um bom Rock'n'Roll, ela cresceu com a influência de seus irmãos. A brincadeira preferida de Chloe era de lutinha, ela sempre batia nos outros garotos, todos tinham medo dela, menos eu.

No último verão que passei lá, eu tinha onze anos, em um fim de tarde perto do lago, enquanto tomávamos sorvete, Chloe me beijou sem motivo, apenas encostou seus lábios nos meus por quase cinco segundos. Óbvio que fiquei paralisado e achei nojento, antes que eu pudesse falar algo, ela correu, e nunca mais a vi, pois no dia seguinte eu voltei para Los Angeles.

Com o passar dos anos eu tinha até esquecido daquilo, até porque já havia se passado cinco anos, Chloe estava bem diferente, mais alta, apesar que ela agora era mais baixa do que eu. Eu a encarei e antes de poder sorrir de volta ou dizer algo, ou até mesmo acenar para ela, minha mãe chamou para ajuda-la com sua mala. Quando olhei de novo, Chloe não estava mais ali, mas eu sorri, pois fiquei feliz em vê-la.