American Dream
3 Luke.
Naquela noite, após toda a mudança e arrumação, eu tinha um espaço só meu. Um quarto relativamente grande, com um banheiro. Tinha uma mesa para estudar, luminária e até uma máquina de escrever, herdada do meu avô, um grande jornalista na sua época. Também tinha um guarda-roupa e uma cama que ficava ao lado de uma janela grande.
Vovó fez um jantar especial para nós, o famoso purê de batata dela, uma receita antiga da família da minha mãe. Enquanto comíamos tentei ser o mais simpático possível, eu tentava processar tudo aquilo em minha cabeça. Uma nova casa, uma nova escola, novos amigos, nova cidade. Nossa, era muito para mim.
Depois de comer, subi para o quarto, minha mãe resmungou sobre eu não ter me oferecido em ajudar com a louça. No meu quarto, com a porta fechada, fiquei pensando sobre minha vida, como seria daquele momento em diante. Eu tinha duas semanas até o fim do verão.
Abri a janela e reparei que o telhado era plano, eu então passei pela janela e sentei na borda do telhado, dava para ver a rua inteira, estava bem escuro, ventava forte, mas era uma sensação tão boa. Então me deparei com a casa ao lado, a janela estava fechada mas não tinha cortina, a luz estava acesa e lá estava Chloe, ela estava sentada no chão com um violão na mão, tocando provavelmente.
Não demorou muito até ela olhar para janela e me ver em cima do telhado olhando para ela, bateu um frio na barriga, um leve desespero que quase me desequilibrei. Chloe me encarou por alguns segundos até se levantar e sair do seu quarto. Fiz o mesmo, levantei e fui caminhando devagar para dentro da janela. Quando entrei no quarto e ia fechar a cortina, eu a vi, ela andava em passos largos na direção da minha nova casa.
A campainha foi tocada e meu coração disparou. Será que era ela? será que ela ia falar para minha mãe que eu estava espionando ela? Eu fiquei nervoso de verdade, já fiquei bolando em minha cabeça algo plano para tentar me explicar, até que meus pensamentos foram interrompidos com a voz da minha mãe me chamando. Eu gelei mais, e então eu sai do quarto e fui até a escada, na porta estava minha mãe, vovó Mary e ela... Chloe.
— Venha até aqui, filho. — Minha mãe falou.
— Tá... — Desci devagar.
Chloe estava de calça jeans, tênis, uma camiseta preta e um casaco aberto, também da mesma cor. Ela parecia séria me olhando. Quando minha mãe ia falar algo, Vovó apareceu, com um pano nas mãos, secando-os. Ela sorriu.
— Chloe, querida! como você está? sua mãe? está bem?
— Sim, dona Mary, minha mãe está ótima. — Ela sorriu de volta.
— O que faz aqui? — Minha vó perguntava.
— Ela viu a gente chegando hoje de mudança, veio falar com o amiguinho dela de infância. — Minha mãe sorria.
— Isso seria ótima, vão passear pelo quarteirão, se ambientar, filho. — Minha vó dizia, Chloe dava dois passos para trás e ficava no lado de fora.
— Mas mãe... eu... — Eu tentava achar palavras.
— Apenas vá, conversar com alguém da sua idade lhe fará bem. — Minha mãe quase me empurrando para fora de casa.
A porta se fechou, eu a olhei, ela olhava para a rua por uns segundo e então me ignorando completamente ela começava a andar até a calçada. Eu não sabia o que fazer, mas fui atrás dela. Ela quebrou aquele silêncio que estava começando a me assustar.
— Depois de cinco anos você voltou, hein. — Ela sorriu e me olhou.
— É... não como eu gostaria.
— Não? — Ela parou e me olhou.
— Não, voltei em definitivo e não apenas mais um verão como sempre foi. — Respondi.
— Como sempre? você não vem aqui há cinco anos.
— É a segunda vez que você fala isso, contou hein.
— Sim, contei... Você era meu melhor amigo. — Ela respondia com seriedade, me olhando nos olhos
— Éramos crianças, imagino que tenha vários amigos.
— Tenho, alguns. — Ela voltou a andar.
— Eu gostava daqui, como um lugar para passar o verão quando se é criança. Mas agora... aqui não tem nada!
— Não discordo de você. Mas quem sabe seja a melhor coisa que te aconteceu.
— Sair de Los Angeles e morar em Forest Lake? Hahahaha okay Chloe.
— Aqui você vai conhecer as pessoas por completo, Luke Carter. — Ela piscava e então entrou para sua casa.
Tínhamos ido até o fim da rua e voltado, foi um pequeno passeio, um pequeno momento que fez minha mente trabalhar a noite toda. Ela tinha falado meu nome, pelo visto tinha boas lembranças dos verões. Eu nem conseguia imaginar como seria minha vida no restante daquele verão, e por algum motivo eu queria entender o que ela quis dizer sobre conhecer as pessoas por completo.
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