Ambiguous Georgia
1 Preeminente
O ÓPIO DO SER HUMANO sempre fora a vida em si. O que aconteceria com o seu próprio futuro. Que pessoas conheceriam e com qual iriam casar, Georgia pensara. Discordando firme e ceticamente de Karl Marx.
Ele disse em uma passagem famosa que a religião era o ópio do povo. “Que merda." Georgia indagou. Religião? Religião era um passatempo que as pessoas haviam descoberto. Era um depósito de fé. Uma indagação incerta, que para eles era firme. Isso era religião.
Georgia sentia vontade de gritar ao mundo sua opinião a respeito do pensamento de Karl Marx. Mas não iria. E por isso levantou de sua cama, ficando em pé sobre o colchão. Em seguida, tirou o enorme pôster de Animals — com uma bela moldura em formato grego que mandara fazer — e escreveu, ali mesmo, na parede:
O ÓPIO DO POVO: O ópio do ser-humano é seu próprio e mesquinho egoísmo. É o pensamento limitado e concentrado em ninguém mais do que si próprio. É o vício do pensamento em si. É a preocupação com o próprio futuro. O mundo gira em torno disso. O ópio do povo é o próprio umbigo. Perdão, Karl Marx. Essa é minha humilde opinião.
Suspirou ao finalizar sua obra prima e colocou seu Animals de volta ali.
SEXTA-FEIRA, 17:00h
— Que letra você identifica? — Dr Sulivan estendeu uma esfera colorida na direção de Georgia durante mais uma de suas consultas.
— Filha, se você não quis…
— T — Georgia interrompeu sua mãe. — Vejo a letra T.
— Doutora, acho melhor nós voltarmos outro dia. — Agnes levantou do assento estofado puxando Georgia pelo braço. Dr Sulivan lhes olhou torto.
— Tudo bem por você, Georgia? — Ela estendeu uma caixa de Paroxetina para a garota.
— Tudo bem por mim. — Georgia sorriu pra ela.
— Você não tem daltonismo. – Georgia suspirou. Estava cansada com a quantidade de testes já feitos. O que mudaria se ela fosse uma daltônica? Seria apenas mais uma doença para a sua coleção, pensou. – Mas continuará vindo ao meu consultório. Está liberada por hoje.
Georgia chamava a atenção de todos a sua volta — ainda que não acreditasse nos elogios que recebia -, pelo seus olhos incrivelmente azuis, em destaque com seus rebeldes cabelos pretos. Ela era magra e alta, com um quadril perfeitamente harmonioso com o resto do corpo. Mas era o psicológico da garota que chamava a atenção de todos na grande Toronto. Enigmática e sempre carregando um bloqueio consigo, Georgia nunca deixava alguém conhecê-la por completo, e isso pendia para o lado pessoal das pessoas que desconheciam a garota — ela sabia, apenas não se importava.
Sábado, 10:32h
Era o décimo oitavo aniversário de Georgia e uma tabela de restrições e uma amostra grátis de Paroxetina foram lhe dadas como presente.
— Acorda, Gê! — Agnes e Roberto remexeram Georgia que até então dormia em sua cama.
— Fiz para você! — Agnes estendeu o presente. Georgia abriu, ainda que sonolenta a pulseira com sua inicial.
Georgia colocou a pulseira em seu pulso com dificuldade.
Roberto era dono de uma livraria pequena e fajuta, que ficava alojada nos fundos da casa da família, fedia a mofo e possuía livros velhos, mas aquilo era, definitivamente, o passatempo favorito de Georgia: passar suas tardes vazias lendo Platão e Maquiavel. Sua mãe, Agnes, ajudava Roberto com a livraria, mas aquilo custava caro à Georgia: ela não tinha momentos sozinha. Não fisicamente, pois a solidão preenchia seu corpo como o tédio, sempre presente em um domingo.
Durante a semana, Georgia frequentava a faculdade de cinema na University Of Toronto. Georgia amava sua universidade. Por mais que não possuísse muitas amizades, as matérias lhe agradavam. Especialmente História do Cinema Mundial, lecionada por Marthus Ultah, um professor em início de carreira vindo do Alabama.
13:38
— Você está pronta? — Maggie lhe estendeu um cigarro já aceso. Seu quarto era tão lilás que causava enjoos em Georgia.
Em uma das paredes, posters da Men’s Health estavam estampados de cima à baixo. Esta era só mais uma das várias peculiaridades de Maggie, que possuía uma enorme e esquisita apreciação pelo sexo masculino.
— Acho que não. — A mão de Georgia suava frio e sua respiração ofegava. É claro que era vergonhoso, mas cigarro não era lá uma arte apreciada por Georgia.
— Tudo bem. Apenas pense: expérience. — Maggie falou com o sotaque francês perfeitamente aguçado. — Você agora tem dezoito anos, Gê.
— Tudo bem. Expérience. — Georgia repetiu, ainda que com o sotaque não tão original como o da amiga. Pegou o cigarro, desajeitada e colocou entre os lábios. O que faria agora? O cigarro permaneceu intacto na boca de Georgia.
— Ok! Agora trague. — Maggie ensinou, ao que Georgia chupou o cigarro, aquilo parecia impossível. — Não é um picolé, Gê. — Ela resmungou. — Tente respirá-lo.
— Você é uma péssima professora. — Maggie pareceu magoada com a quase ofensa — E eu sou uma adolescente de dezoito anos que não sabe como tragar um cigarro. — As duas riram com a autoflagelação. Georgia entregou o cigarro para Maggie, que o fumou de uma maneira extravagantemente sexy.
Maggie já havia levado Georgia a vários seminários de auto-ajuda. Mas ela estava atolada em sua doença. Georgia sempre fora diferente, mas ao longo do tempo foi perdendo toda e qualquer esperança que tratasse de sí mesma. Ela nunca esteve tão vazia.
— Às vezes me sinto culpada. — Maggie suspirou. — Sabe… por estar fazendo você fumar.
— Não é como se eu fosse durar muito mais, Maggie. — Georgia deu um sorriso amarelo para a amiga.
Georgia nunca entendera porque Maggie gostava tanto de passar seu tempo ouvindo as resmungas fracassadas da amiga. Por sua beleza, sempre chamava a atenção de todos a sua volta. Talvez pelo corpo escultural, ou pelo rosto exageradamente afilado.
As duas se conheceram na faculdade de Cinema. E desde então, viviam juntas, ainda que com tantas diferenças.
“— Você é tão linda quanto ela!” — Agnes falava à Georgia.
Mas o fato é que ela não se sentia. Desde que foi diagnosticada, não se sentia. Talvez antes fosse. Ela costumava ter uma auto-estima razoável. Mas a depressão acabou com tudo isso. E lhe encaminhou para uma série de doenças que não estão catalogadas nos grandes livros de medicina, como a que ela e Maggie apelidaram de “síndrome do espelho”, o nome já é bem autoexplicativo. Georgia não conseguia se olhar no espelho sem se sentir feia. E isso era consequência da sua depressão.
E, sim, era grave.
Georgia recebera cinco ligações lhe desejando os parabéns pelo seu décimo oitavo aniversário.
– Dr Sulivan — Sua psiquiatra
– Dr Chip — Seu psicólogo
– Mariah Lynes — Sua professora de Cinema Estrangeiro da Universidade
– Marthus Ultah — Seu professor de História do Cinema
– Maggie — Que lhe ligara dezoito vezes conforme a idade de Georgia
18:12
Ao voltar para casa, Agnes convenceu Georgia a levá-la para um lugar até então desconhecido.
— Chegamos! — Agnes estacionou na frente de um casebre marrom, com tijolinhos aconchegantes em sua estrutura. Na porta, estava pendurada uma placa com uma caligrafia informal “ABRIMOS AOS SÁBADOS”. — Quer que eu desça com você? — Ela perguntou, em súplica para que Georgia dissesse “sim”.
— Não. — Deu um beijo em sua mãe e disparou até a porta do local. Pôde ouvir muitas vozes de fora. Não tinha campainha, então presumiu que deveria abrir. Correto! O casebre era ainda mais aconchegante na parte de dentro. Todo em tons de marrom, com móveis envelhecidos e alguns quadros com molduras elegantes. Algumas pessoas estavam sentadas em cadeiras velhas, formando uma esfera. Georgia se dirigiu, sem jeito, à roda.
— Qual seu nome? — Um homem com uma barba simpática, que parecia ser o único adulto dali, perguntou.
— Georgia. — Ele sorriu e continuou o que estava fazendo.
— Agora, quero que compartilhem seus medos comigo. — Ele falou. — Você começa, Georgia. — sorriu.
Sua mão suou frio e ela ficou nervosa com toda aquela atenção redigida à si.
— Tenho… — Sua voz falhou e ela coçou a garganta — Medo de gatos. De atenção, de perfumes enjoativos, de uvas com furinhos… — Parou de falar quando percebeu que as pessoas estavam segurando o riso. Exceto um garoto. Ele lhe olhava fixamente. Com uma expressão alheia. Georgia o encarou de volta. Ele tinha olhos claros e os cabelos num tom de preto, com os cachos desajustados. — E de falar em público. — Georgia completou, os lábios formando uma linha tênue em sua boca vermelha.
— Gatos são inofensivos, atenção é relativa, perfumes são opcionais e os furinhos das uvas… Bom, eles não vêm no cacho inteiro… — Ele falou, quase como num sussurro, mas todos na sala escutaram. Inclusive Georgia.
— Você, Travis! Do que tem medo? — O homem-de-barba-que-era-o-único-adulto-dali perguntou.
— De ter medo. — Ele olhou para baixo.
O homem-de-barba fez a mesma pergunta à todas as pessoas da roda, Georgia não prestara atenção. Travis lhe encarava à todo momento e ela passou a fazer o mesmo com ele. Logo a reunião ou o que quer que fosse aquilo acabou e todos foram se levantando da roda. Exceto por Travis e uma garotinha de cabelos ralos e loiros numa cadeira de rodas.
Travis levantou e encaminhou a cadeirante pequenina à um canto da casa onde ela ficou conversando com outras garotas. Ele se virou na direção de Georgia e se aproximou:
— Seus medos são interessantes. Nós podemos conversar sobre isso mais vezes, não acha? — Ele sorriu e Georgia estremeceu, os olhos agora fugintes de Travis.
— Isso é um grupo de apoio? — O “isso” ao qual Georgia estava se referindo era à roda. Ao casebre. Ao lugar que Agnes havia lhe levado.
— Parece que sim. — Travis olhou ao redor.
— E qual é sua doença? — “Ser bem direta. Outra consequência da depressão.”, Georgia pensou. Travis não pareceu se importar, apenas balançou a cabeça, um sorriso tímido aparecendo no canto da boca.
— Na verdade é minha irmã. — Ele apontou para a loirinha cadeirante. — Ela teve câncer. Está bem agora. — Travis colocou as mãos nos bolsos e sorriu.
— Fico feliz por ela. — Georgia deu um sorriso sincero para ele. O celular vibrou no seu bolso e ela o atendeu. Agnes estava lá fora lhe esperando. Ela se despediu de Travis e antes que pudesse passar pela porta do casebre, o ouviu dizer:
— Gostei muito de você, Georgia. — Ele sorriu, os lábios harmoniosos com os olhos. A sobrancelha suficientemente expressiva.
— Obrigada… — Georgia disfarçou o nervosismo com um sorriso e tirou os olhos de Travis. Deu as costas, indo em direção ao carro de Agnes.
— Conheceu alguém? — Agnes perguntou, dando partida no carro.
— Não. — Georgia mordeu o lábio inferior. — Ninguém em especial.
Ela não iria contar para Agnes que conhecera um garoto bonito. Afinal, aquilo não significava nada! Ela nunca costumou andar com garotos e isso não mudaria. Ela considerava Travis uma ameaça, e não se entregaria para ele. Ela não se entregava à ninguém, não seria esta uma exceção.
— Afinal, isso é mais um grupo de apoio? — A voz de Georgia pairou no silêncio do carro. Agnes demorou um pouco a responder, sabia que a filha não ficaria satisfeita com a resposta.
— Sim. É um grupo para portadores de câncer. — Georgia temia a resposta de Agnes, mas não esperava uma facada nas costas como aquela, de fato, fora.
— Ah é? — Ela suspirou. A raiva subindo pelo seu corpo. A cabeça latejando em descontrole. — E onde está o meu tumor, Agnes? Ele é realmente maligno? Quando começarei a quimioterapia? Acho que você podia parar em um cabeleireiro agora mesmo, eu já rasparia o meu cabelo. — Sua voz esbanjava ironia. A raiva carregada de mágoa e insatisfação atingira em cheio Agnes, que parou o carro em um acostamento qualquer. Àquela altura, as lágrimas já pairavam sobre seu rosto.
— Achei que fosse bom encontrar pessoas com doenças piores do que a sua! — Ela tentou esconder o desequilíbrio, mas sua voz lhe traiu. — É difícil pra mim, Georgia! Você não é a única que sofre!
— É claro que não, eu tenho consciência disso! Agora podemos parar no cabeleireiro? — Georgia conteve a ironia na voz. Seus olhos queimavam por dentro, mas ela não se entregaria tão facilmente. Não mesmo.
— Eu sou sua mãe! — O grito de Agnes assustou tanto ela, quanto Georgia. — Eu faço tudo por você!
— Eu gostaria que parasse de me tratar como uma inválida! Eu sou um ser-humano de dezoito anos, já sei me cuidar! — A ironia já havia cessado e dado lugar à raiva, que era clara na voz de Georgia, carregada de mágoa.
Agnes não falou mais nada, apenas deu partida no carro. Enxugou as lágrimas para que pudesse distingui-las da chuva, que já caía na imprevisível Toronto.
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