Ambiente Hostil
4 Passageiro Inesperado
Notas iniciais
Thierry e Kayla chegam ao local onde os outros estavam. A cena que viram era perturbadora. Tom estava morto com o abdômen perfurado e metade do rosto destroçado. Ninguém sabia explicar o que havia ocorrido ali, mas os astronautas perceberam que estavam correndo um grande perigo.
— Não deviam ter deixado o Tom sozinho. — disse Thierry para Susan e Antony.
— Nós não queríamos deixar. — Susan respondeu. — Ele que insistiu para explorar esta área sozinho.
— O que faremos agora, Thierry? — perguntou Kayla.
— Eu não sei, Neve, mas acredito que o ideal seja nos afastarmos daqui o quanto antes.
— Eu e o Pequeno Antony podemos ficar por aqui e tentar descobrir o que aconteceu com Tom. — Susan disse.
— Nem pensar! É perigoso demais.
— Vocês estão esquecendo de um detalhe importante. — Antony entrou na conversa. — Olhem bem para o Tom, vejam o estado dele. Com certeza isso não foi um acidente.
— O Pequeno Antony tem razão. — Kayla comentou. — Olhem a barriga e a face dele, elas foram perfuradas.
— Ou seja, não estamos sozinhos. — Thierry complementou. — Vamos voltar para os destroços, é mais seguro por lá.
— Espera! — Susan gritou. — Deixa eu ver se entendi, existe um alienígena assassino solto por aí?
— Provavelmente sim.
— Ah, ótimo! Acabei de perder o interesse nesta viagem. Por favor, me digam que já sabem como consertar a nave.
— A nave em si não tem mais conserto, Susan. Mas a Neve e eu já sabemos mais ou menos como retornar.
A atmosfera do planeta começa a ganhar uns tons de laranja em seu céu verde. A luz da estrela estava desaparecendo no horizonte.
— Está quase anoitecendo. — Kayla comentou.
— Ótimo. Estamos presos em um planeta com um alienígena assassino, e logo ficará escuro. — Susan disse, ansiosa.
— Acredito que não ficará tão escuro. A lua deste planeta é bem grande, a luz da estrela refletida nela deve ser forte. — Thierry disse, tentando acalmar Susan. — Ainda assim, é melhor voltarmos ao escombros. Enterrem o corpo de Tom.
*
Anoiteceu. Os quatro exploradores retornam para o local onde a nave havia caído. Kayla explica o plano de Thierry de usar o SIDRA para levá-los à Terra usando o que sobrou da sala de emergência.
— Thierry, isso é muito arriscado. — disse Antony.
— Foi o que eu disse a ele! — Kayla falou.
— Você tem alguma outra ideia, Antony? — perguntou Thierry.
— Na verdade, não.
— Então está decidido. Neve, vamos me passa o dispositivo SIDRA.
— Nós vamos reconstruir ele agora? — Kayla perguntou.
— Sim.
— Mas está muito escuro, Thierry! E eu estou exausta.
— Kayla tem razão, Thierry. — Antony disse. — É melhor dormirmos um pouco agora, depois nos preocupamos com a nave. Quando amanhecer, estaremos mais dispostos e não estará tão escuro.
— Você ainda não entendeu a gravidade da situação, Pequeno Antony? E se a coisa que matou Tom aparecer enquanto dormimos?
— Thierry tem razão. Estamos correndo perigo.
— Neve, está mesmo cansada? — perguntou Thierry.
— Muito.
— Tudo bem, pode ir dormir.
— Sério?
— Sim. Antony, também está dispensado. Vá descansar.
— Sim, senhor. Obrigado, Sr. Thierry.
— Susan, pode ficar acordada e me ajudar?
— Por mim, tudo bem. Mas já vou logo avisando que não sei nada de Engenharia Espacial.
— Tudo bem, você pode me ajudar me passando as ferramentas.
— Nossa, que ajuda.
— Ah, é uma ajuda importante. Se estivéssemos num hospital, você seria a enfermeira que passa o bisturi para a pessoa que está fazendo a cirurgia.
— Faz sentido.
— Muito bem. Kayla e Antony podem dormir, eu e Susan cuidaremos de reconstruir o dispositivo SIDRA danificado. Se algum alien aparecer, provavelmente faremos barulho e vocês acordarão.
*
Kayla e Antony encontram alguns colchões no meio dos escombros da espaçonave e dormem neles. Enquanto isso, Thierry analisava a situação do aparelho inventado por Bernard.
— E então, Thierry? Há esperanças ainda? — perguntou Susan.
— Na verdade, sim. Pelo visto, o dispositivo não foi tão afetado pela queda da Eagle. Ao que tudo indica, apenas algumas peças foram deslocadas de seus respectivos lugares.
— Então, não vai demorar para consertar?
— Acredito que não.
Thierry pega uma chave de fenda e começa a trabalhar no aparelho.
*
Enquanto isso, Antony enfrentava uma torrente de pensamento que lhes provocava uma grande insônia.
— Neve? Já dormiu?
— Não. — Kayla respondeu.
— Ah, eu achei que você estava com sono.
— E você, não estava?
— Eu estou.
— Então por que não dorme?
— Estava pensando.
— Pensando em quê?
— No Tom.
— Foi uma tragédia horrível mesmo.
— Ele foi morto pela arrogância dele. Ele quis ir sozinho, se mais alguém tivesse ido com ele, talvez ele estivesse vivo.
— É, verdade.
— Você acredita no destino, Kayla?
— Sinceramente, Pequeno Antony, eu nem sequer tenho um conceito formado para destino.
— Ele tinha que ir sozinho. Não importa quem fosse, se alguém pedisse para acompanhá-lo ele recusaria.
— Você acha que era o destino dele?
— Talvez.
— Ainda não caiu a ficha. Eu falei com ele poucos minutos antes de sua morte. Se eu soubesse que seria a última vez, teria abraçado-o. Tom era uma pessoa legal.
— É verdade. Era muito arrogante às vezes, de fato, mas era um grande amigo.
— Ele tinha família?
— Uma esposa e dois filhos.
— Sério? Tom era casado? E pai?
— Era.
— Sabe o que é pior nisso tudo?
— O quê?
— A família dele ainda espera sua volta.
*
Passam-se algumas horas. Thierry focava toda a sua atenção no serviço que estava fazendo no dispositivo SIDRA. Percebe que o aparelho começa a dar sinais de funcionalidade. "Acho que finalmente consegui", pensou. Tudo que precisava agora era esperar o sol nascer e usar a energia solar para ativar a máquina.
Susan se afastou um pouco de Thierry. Foi até a beira do rio, olhou seu reflexo na água, ressaltado pelo brilho da lua do planeta Kepler-22b.
Sua atenção aos poucos foi se afastando da realidade, quando algo lhe fez focar de novo na água. Susan jurava ter visto algo se movendo lá por baixo.
— Thierry! — gritou, assustada.
Thierry veio correndo.
— O que houve, Susan?
— Eu vi algo se mexendo. Tinha alguma coisa nadando.
Thierry analisou bem a água, e viu que as algas se moviam juntamente com o movimento do rio.
— Ilusão de ótica dos seus olhos, Susan. São apenas as algas seguindo os movimentos das águas.
— Não! Eu vi algo se movendo. Era... Sei lá... Um peixe enorme nadando.
— Susan! Você está nervosa. Está pensando demais no incidente com Tom.
— Não, Thierry! Eu vi uma criatura! Eu tenho certeza!
— Susan, calma!
Outro rastro de água passa perto da borda.
— Você viu agora?
Thierry se aproxima do rio.
— Thierry! Não se aproxime! É muito perigoso.
A criatura também vai se aproximando aos poucos da terra firme. Thierry pôde olhá-la de perto.
Susan, amedrontada, se afasta da borda.
A criatura, de repente, avança em cima dos dois.
— Susan, corra! — Thierry grita.
Kayla e Antony escutam os gritos de seus amigos e se levantavam para ver o que estava acontecendo.
Thierry corria, com dificuldades, enquanto o alienígena se movimentava bem mais rápido para perto dele. A criatura dá um salto enorme, caindo em cima das costas de Thierry. O astronauta tentava se libertar.
Kayla, ao ver aquilo, pega um dos destroços da nave e joga no alien, na tentativa de salvar o amigo. A criatura olha furiosa para ela e se aproxima dos três exploradores que assistiam à cena.
Susan e Antony saem correndo, enquanto Kayla continuava a jogar pedaços da nave para despistar o monstro. Não adianta, a criatura consegue saltar em cima da moça de braço mecânico, imobilizando-a no chão, tal qual fizera com Tom, horas antes e com Thierry, segundos atrás.
Neve, indefesa, podia ver a horrível face do alienígena agora. Tinha um rosto redondo, com um pescoço que dava continuidade ao tronco. A pele era viscosa e acinzentada. Os olhos eram enormes, redondos e com pupilas gigantes negras. A parte branca do olho ocupava uma pequena linha na borda. A boca era enorme e com dentes afiados, finos e gigantes. A face do alienígena lembrava muito o rosto de um peixe abissal da Terra.
A criatura abriu sua boca para atacar Kayla. A jovem exploradora lutava para se livrar das garras do alienígena. Nesse momento, lembrou da conversa que teve com Antony sobre destino. "É isso, eis o meu destino", pensou. Fechou os olhos, se preparando psicologicamente para a dor que sentiria quando aqueles dentes afiados fossem morder sua face. Ouviu um disparo, seguido de gritos angustiantes da criatura. Quando abriu os olhos, viu o alienígena saindo de cima dela e se contorcendo de dor ao seu lado. Se levantou e afastou-se do alien e quando olhou para trás viu Thierry com sua arma ainda fumaçando.
— Obrigada. — Susan agradeceu.
— Não agradeça ainda.
A criatura se levantava lentamente, enquanto os astronautas a observavam. O buraco feito pelo tiro dado por Thierry simplesmente se fecha instantaneamente.
— Ele se regenerou do disparo? — Antony perguntou, surpreso.
A criatura, embora furiosa com os humanos, corre de volta para o rio, nadando até as profundezas, de forma que não fosse mais possível avistá-la.
— Como ele se curou tão rápido? — Kayla questionou, curiosa.
— Os tecidos. — Thierry respondeu.
— O quê?
— Os tecidos. O alienígena possui tecidos com essa propriedade. Eles podem se regenerar.
— Mas como isso é possível?
— Provavelmente os tecidos da criatura são da mesma família orgânica que os vegetais.
— Como assim? — perguntou Antony. — Está dizendo que aquele bicho é um vegetal ambulante?
— Não. Ele não é feito de vegetal, os tecidos dele são da mesma família orgânica que os vegetais.
— E isso é possível? — Susan perguntou.
— Lógico que é! Nós, humanos, temos um órgão com essas mesmas características: o fígado. O fígado pode se reconstruir naturalmente após ser cortado em uma cirurgia ou doado. As células do fígado possuem uma grande semelhança às células vegetais. Talvez o alienígena tenha essas mesmas propriedades, só que não apenas em um órgão, mas em todo o corpo, e com um efeito bem mais acelerado.
— Ótimo! — disse Susan. — Vamos atualizar a situação? Estamos presos em um planeta distante, com um alienígena assassino solto por aí, que ainda por cima é imortal.
— Ele não é imortal, Susan, apenas se regenera facilmente. Ele só é difícil de matar, mas não é imortal.
— De todo jeito, estamos fritos. Thierry, por favor! Diga que poderemos voltar para casa logo.
— Acredito que o SIDRA da nave já pode operar normalmente, só precisamos da energia solar.
— Ou seja, precisamos esperar amanhecer. — Kayla disse.
*
Os quatro astronautas esperaram a luz solar de Kepler-22b ressurgir. Depois do ataque da criatura, não conseguiram dormir. Após longas 4 horas de espera, a luz laranja volta a enfeitar o horizonte verde.
— Ok. Está na hora. — disse Thierry, chamando a atenção da equipe.
Kayla posiciona o SIDRA em frente à sala de emergência onde eles ficariam, enquanto Thierry conectava o receptor de energia solar ao dispositivo e programava a localização para onde queria ser teletransportado: planeta Terra.
Um rastro de água volta a se mexer perto da terra firme. Thierry olha nervoso para o rio. Precisavam sair dali o quanto antes. Ativou o aparelho e correu para dentro da sala.
— Vai demorar muito? — Antony perguntou.
— Espero que não. — respondeu Thierry.
Os exploradores já estavam aliviados, sabendo que logo estariam de volta na Terra.
De repente, ouvem um enorme barulho no teto. Pareciam socos e arranhões. Era a criatura nativa do planeta, que atacava furiosamente a sala de emergência.
— Agora já era! — disse Antony, preocupado.
— Não se preocupem, essa criatura nunca vai arranhar o zircônio que envolve a sala. Eu só espero que ele não tente danificar o aparelho SIDRA.
O alienígena arranhava e golpeava o teto da sala de emergência, pois sabia que os astronautas estavam lá.
O SIDRA é ativado. O feixe de luz emitido por ele irrita o anfíbio. Quando ele pensava em atacar o aparelho, se assusta ao ver seu corpo sendo desintegrado, assim como a sala e os quatro exploradores.
Em poucos minutos, apenas os destroços da Eagle estavam naquele local.
*
Os quatro (ou melhor, os cinco) passageiros são teletransportados.
— Funcionou? — perguntou Susan.
— Não sei. — respondeu Thierry. — Vamos descobrir.
Thierry abre a porta da sala de emergência. Estava escuro, era noite. Percebeu que já se movia sem grandes dificuldades, olhou em volta e não viu as enormes ilhas rochosas, apenas algumas árvores muito familiares. Inicialmente, pensou estar em uma área florestal. Mudou de ideia quando olhou para longe e viu um enorme e extravagante prédio de apartamentos, com uma fachada que remetia construções antigas e portas e janelas em formato de arcos. O Edifício Dakota. Do lado, outro prédio de apartamentos, com aproximadamente 122 metros de altura, apresentando duas torres e o estilo arquitetônico Beaux-Arts. The San Remo. Logo, Thierry percebeu que haviam sido teletransportados para uma das maiores e mais conhecidas cidades do mundo.
Os outros membros da equipe saem da sala, e comemoram por verem que estavam em casa. Mas logo uma nova preocupação surge.
— E o alienígena? Será que ele foi teletransportado com a gente? — perguntou Kayla.
*
O Dr. Bernard Griffin estava em seu quarto na estação espacial Heavely Miracle, quando um de seus funcionários pediu que viesse até ele.
— O que vocês queriam? — perguntou Bernard.
— Senhor, achamos que o senhor precisava ver isso. — disse o funcionário.
— Isso o quê?
— Detectamos uma estranha assinatura de energia no planeta Terra.
— Sério?
— Sim, senhor Griffin. E mais, a assinatura é semelhante à do SIDRA.
— Tem certeza?
— Sim.
— Será que é a minha equipe de astronautas? Impossível, eles voltariam na Eagle, então provavelmente não se teletransportariam para a Terra.
— Deve ter acontecido alguma coisa, senhor.
— Onde foi localizada a assinatura?
— Central Park, Nova York.
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