Ambiente Hostil

5 Seleção Natural


Notas iniciais
Pois é, chegamos ao final dessa história. Deixarei as despedidas para o final, porque o capítulo é longo. Kkkkkkk Espero que gostem. ^^

O Central Park é uma das principais atrações da cidade de Nova York. Localizado no distrito de Manhattan, recebe cerca de 45 milhões de turistas anualmente. Número que aumentou cerca de 50% desde o início da década de 2020. O parque ambiental tem uma extensão de mais de 3,4 km² destinados ao lazer daqueles que o visitam. Em meio a todo o cinza urbano da cidade, a imensa área repleta de árvores e gramados se destaca como um belo ambiente para quem busca um pouco de paz e tranquilidade.

Ou pelo menos, assim deveria ser...

Naquela noite, um jovem casal de turistas estava passeando e admirando algumas das atrações do parque. Não era muito tarde, a hora local era por volta das 21h00min. Estavam tirando algumas fotos no Castelo Belvedere, uma das atrações turísticas mais famosas do Central Park, quando avistaram um misterioso feixe de luz caindo em meio às árvores ali perto. Estavam pensando em passar pelo Strawberry Fields, um memorial decido a John Lennon, onde artistas amadores fazem covers de músicas dos Beatles após saírem do Castelo Belvedere, mas mudaram de ideia após ver aquele misterioso raio. Curiosos, foram olhar o que estava acontecendo por ali.

Enquanto se corriam em direção ao local onde a luz havia caído, passaram pelo "The Lake", um enorme lago que também é ponto turístico do parque. O lago, na verdade, era inicialmente um pântano, que após ser restaurado se tornou uma das atrações da área ambiental. Antigamente, no inverno, era possível patinar em suas águas congeladas. Porém, após alguns acidentes graves, que inclusive resultaram em morte, com pessoas que patinavam por ali, a modalidade foi proibida no inverno. Porém, era permitido navegar de barco a remo quando não estivesse em período de nevascas.

Mas não foi o lago que chamou a atenção da jovem moça, mas sim a coisa que estava ali, na borda dele. De início, pensou ser um homem que estava passando mal, mas logo mudou de ideia ao ver que aquela criatura não tinha fisionomia muito semelhante à dos humanos.

— Amor, vem aqui. — chamou a atenção do namorado, para que ele também visse.

Os dois ficaram um tempo observando aquela criatura, que não era nada parecida com qualquer animal que já tinham visto.

Mesmo com a namorada insistindo para que não fosse, o homem se aproximou da misteriosa criatura, que olhou para ele e logo se colocou em posição de ataque. O homem pôde olhar diretamente nos olhos daquela coisa, mantendo uma distância consideravelmente grande. Aos poucos, foi dando pequenos passos para trás, tentando não deixar claro ao monstro que estava fugindo dele, pois achou que dessa forma poderia provocá-lo. Olhou para a namorada, que estava cobrindo a boca e com os olhos chorando de medo.

Foi dando passos para trás cada vez maiores.

De repente, a criatura deu um salto. Nunca havia nada saltar daquele jeito. Aquele monstro poderia alcançar o quarto andar de um prédio facilmente apenas pulando.

O homem correu, mas a criatura pousou na sua frente. Sua mulher gritava de agonia enquanto assistia a cena. O homem começou a correr na direção contrária, mas seja lá o que fosse aquilo, era rápido demais.

A criatura agarra suas pernas, fazendo-o tropeçar e cair no chão. Em seguida, começa a morder suas panturrilhas. Os dentes eram tão fortes que arrancaram facilmente o que existia dali para baixo.

A jovem, vendo seu namorado agonizando de medo e dor, pegou uma pedra e partiu para cima do monstro, que agora usava suas garras afiadas para cortar as costas do pobre rapaz. Ela pega uma pedra e joga na coisa que estava atacando o seu namorado. Isso irrita a criatura, que dá outro salto gigante, pousando em cima da moça. O monstro mais uma vez tira suas garras para fora e as enfia no meio dos olhos da garota, que gritou tão alto que seus ecos fizeram-se ouvir até do outro lado do lago. Em questão de segundos, a face da jovem já estava toda arrancada e a parte da frente da sua cabeça estava agora em carne viva, tal qual as costas de seu namorado.

O rapaz olhou para trás, tentando ainda acreditar que aquilo de fato estava acontecendo. A última coisa que viu foi o monstro destroçando o rosto da sua namorada. Em seguida, começou a brincar com as pernas que ele havia arrancado, tal qual um cachorro brinca com um osso. Ainda sentindo uma dor terrível em suas costas e pernas, o jovem abaixou a cabeça. Sua visão estava ficando escura. Tossiu um pouco e acabou cuspindo sangue. Seus sentidos aos poucos foram se apagando. Olhou uma última vez para a criatura, que agora estava entrando no lago. Seus olhos fecharam-se.

Agora ali, perto do lago, haviam dois cadáveres.

Do outro lado das águas, havia um luxuoso restaurante: o Loeb Boathouse. Um funcionário do local assistiu toda a cena, sem coragem nem sequer para se mexer. Pegou seu celular e logo telefonou para a polícia, mantendo uma pequena esperança de que eles saberiam como agir naquela situação.

*

Thierry, Kayla, Antony e Susan estavam já saindo do espaço do Central Park.

— Estamos perto. — disse Thierry. — Já estou vendo a 5ª Avenida.

— Thierry, tem certeza que não é melhor investigarmos o local para sabermos se o alienígena veio com a gente? — Kayla perguntou.

— Antes de tudo, temos que pedir ajuda. Nossa prioridade é contatar o Dr. Bernard Griffin.

Quando os exploradores estavam andando pela calçada, à procura de algum telefone, um enorme carro preto aparece e os intercepta.

— E agora? — questionou Susan, preocupada.

Um homem de terno preto, óculos escuro e um pano cobrindo o rosto sai do carro e se dirige diretamente à equipe.

— Vocês virão conosco.

— Nós? — perguntou Antony.

— Lógico. Estão vendo outros por aqui?

— Olha, não temos para sequestro agora. — disse Thierry, sarcasticamente. — Temos que falar com o Dr. Bernard Griffin imediatamente!

— Então venham comigo.

— Como é que é?

— Eu trabalho para o Dr. Griffin.

— Ah, tá. — Thierry duvidou. — Pensa que nascemos ontem?

— Não. Sei que vocês não nasceram ontem. — disse o homem, retirando o pano do rosto e os óculos escuros.

Ao mostrar sua face, Thierry logo reconheceu quem aquele homem era.

— Você é... — Thierry estava incrédulo. — Oliver Hayes!

— Oliver Hayes? — perguntou Susan. — O ex-soldado da Tropa Heavely?

— Eu mesmo. — disse Oliver, sorrindo amigavelmente. — Agora entrem no carro, e me contem a história no caminho.

— E para onde vamos? — Kayla perguntou.

— Para o apartamento do Dr. Griffin, onde ele espera por vocês.

— Então ele já sabe que estamos aqui?

— Sim.

Os quatro entram no carro.

— O Dr. Griffin que eu deveria buscar cinco de vocês. O que aconteceu com o outro?

— O Tom, bem... Ele está morto. — disse Antony.

— Morto? — questionou Oliver, surpreso. — Como isso aconteceu?

— Bom, você pediu para lhe contar a história. — disse Thierry. — É isso que vamos fazer.

— Muito bem, pode começar.

— Eu acredito que você já saiba do projeto de exploração espacial do Dr. Griffin.

— Ah, sim, a famosa missão do SIDRA. Nas minhas últimas semanas na Heavely Miracle ele só falava disso.

— Pois é. Nós fomos mandados para o exoplaneta Kepler-22b. Mas quando entramos na atmosfera do planeta, perdemos o controle da nave, que acabou se chocando. Felizmente, nos abrigamos na sala de emergência, que logo depois usamos com o SIDRA para voltarmos aqui pra Terra.

— E quanto ao astronauta morto?

— Durante as horas que passamos no planeta, dividimos a equipe em duas. Uma para consertar a nave e outra para coletar os dados solicitados pelo Dr. Griffin. O Tom estava na equipe de coleta de dados.

— Sim...

— O que acontece é que no planeta havia uma criatura, um alienígena assassino e cruel. Ele matou o nosso colega.

— Uau. É impressionante como o Bernard gosta de botar as pessoas em perigo. Eu que o diga.

— Mas esse não é o único problema. —Susan entrou na conversa.

— O quê mais, então?

— Quando ativamos o SIDRA para retornamos, o alienígena estava em cima da nossa cabine. Ou seja, ele provavelmente foi teletransportado para aqui com a gente.

— Quer dizer que existem grandes chances de existir um alienígena de sangue frio à solta por Nova York?

— Exatamente.

— Tenho que levá-los ao Dr. Griffin o quanto antes.

Oliver levou os cinco exploradores até a porta de um prédio ali perto. Do lado do portão, havia uma câmera, onde operava um sistema de reconhecimento facial. Oliver parou frente ao aparelho, um scanner analisou seu rosto. "Identidade confirmada: Oliver Hayes", disse uma voz eletrônica logo em seguida.

Esses sistemas modernos de segurança já eram usados desde os últimos da década de 2010. O primeiro "protótipo" dessas tecnologias surgiu nas redes sociais, onde ao postar uma foto, o usuário que estivesse presente nela era automaticamente reconhecido pelo sistema e já marcado na imagem. Logo, diversas empresas começaram a patentear aparelhos com reconhecimento facial; uma que se destacou bastante nesse ramo foi a NeoFace®. Não demorou muito para que as fabricantes de smartphones também investissem nessa tecnologia para aprimorar a segurança de seus aparelhos. A tecnologia também era usada em investigações criminais, facilitando ainda mais a análise de câmeras de segurança que haviam registrado cenas de crimes. Em 2018, uma escola chinesa ganhou os holofotes da imprensa ao utilizar uma câmera de vigilância com um sistema de reconhecimento facial para monitorar o comportamento de seus alunos em sala de aula.

É claro, não demorou muito para que as companhias de segurança do lar também apostassem nisso. Era comum, principalmente em áreas nobres, ver casas equipadas com aparelhos de reconhecimento da face para evitar invasões. Bernard, porém, nunca havia confiado em empresas de segurança do lar. O cientista, além de discordar dos preços exorbitantes que exigiam pela instalação e manutenção de tais equipamentos, também acreditava que, se alguém mal intencionado dentro das empresas usurpasse dos controles sobre essa tecnologia, informações valiosas e confidenciais de sua residência podiam ser vazadas. Por isso, o sistema de segurança da casa de Bernard foi inventado por ele mesmo.

Quando Oliver conseguiu passar pelo reconhecimento, o sistema automaticamente enviou uma mensagem para o seu smartwatch.

Os smartwatchs não eram tecnologia criada por Bernard, nem coisa recente no mercado. São smartphones com o formato de relógios de pulso, tendo acesso aos mesmos benefícios que um aparelho celular possui: bluetooth, wi-fi, Android e reprodutor de mídias. Surgiram no mercado nos primeiros anos da década de 2010, ganhando ainda mais popularidade quando a Samsung lançou o Galaxy Gear, seu primeiro smartwatch, em 2013.

O portão se abriu. Oliver acompanhado da equipe de astronautas foram até a sala de Bernard, onde o cientista já os esperava.

— Olá, meus amigos. — disse Bernard, recebendo suas visitas. — Fico feliz em vê-los novamente, apesar de eu achar que nosso reencontro seria um pouco diferente.

— Doutor Griffin, estamos com sérios problemas. — disse Thierry.

— Sim, eu imagino. — Bernard olhou para Oliver. — Obrigado por trazê-los aqui, soldado Hayes. Está dispensado.

— Sim, senhor. — disse Oliver. — Até mais.

Oliver deixou Bernard sozinho com sua equipe.

— Muito bem, o que aconteceu em Kepler-22b?

— É uma longa história. — disse Kayla. — Acho que Thierry sabe contá-la melhor.

Thierry explicou resumidamente sobre os eventos que passaram no exoplaneta. A queda da nave, a morte de Tom, o combate contra o alienígena, a volta para casa...

— O grande problema é que não temos certeza se o alienígena veio com a gente ou não. — complementou Susan.

— Acho que sei a resposta. — disse Bernard.

O cientista ligou a TV, em uma gravação do jornal local feita minutos atrás. "Dois jovens assassinados por criatura misteriosa no Lago do Central Park", dizia a manchete.

— Essa não. — Thierry desesperou-se. — Com uma coisa daquelas solta por Nova York estamos fritos!

— Não se preocupe, Thierry. O FBI já foi acionado. — disse Bernard, tentando traquilizá-lo.

— Não! As armas de nada servirão.

— Como assim?

— A criatura se regenera, Dr. Griffin! Tal qual o fígado humano.

— É verdade. — disse Kayla. — Thierry me salvou quando o alienígena me imobilizou no chão. O buraco feito pelo disparo que ele deu se fechou como num piscar de olhos.

— Fascinante. — disse Bernard, maravilhado.

— Fascinante? — questionou Antony. — Isso não tem nada de fascinante! Pelo contrário! Isso tudo é aterrorizante!

— Por favor! — Susan interveio. — Agora não é hora para discussões. O momento é crítico.

A gravação da televisão acaba. Volta a correr a programação normal, ainda estava no mesmo jornal. A reportagem agora mostrava uma enorme quantidade de mortos dilacerados, todos assassinados pela mesma criatura da notícia anterior.

— Precisamos arrumar um jeito de derrotar aquilo. — Kayla comentou.

— Como? — perguntou Susan. — O Thierry atirou na cabeça dele, o disparo atingiu o cérebro! E não aconteceu nada.

— A criatura não pode se regenerar em qualquer circunstância. — comentou Bernard. — Talvez se causarmos algum dano realmente forte nela, a regeneração não funcionará. Se você cortar mais de 75% do fígado humano, por exemplo, ele não se regenera mais. Em alguns casos até que sim, mas ele retorna bem debilitado. Talvez essa seja a pista.

— Então o que teríamos que fazer? — perguntou Kayla. — Disparar na criatura com um tanque de guerra?

— Não seria má ideia. — disse Bernard.

— Está louco, Bernard? — Antony perguntou. — O ideal é evitar atitudes tão drásticas para momentos como esse.

— Antony tem razão. — disse Susan. — Bernard, acho que o melhor seria o senhor ligar para o FBI e pedir que eles evitem que o alienígena saia da área do Central Park. Um monstro daqueles livre em uma cidade gigantesca como Nova York seria o fim.

— Tem razão, Susan. — Bernard concordou. — Mas e depois?

— Se pelo menos houvesse uma forma de evitar que ele se regenerasse... — Kayla pensou em voz alta.

O pensamento de Kayla aguçou os neurônios de Thierry, que logo em seguida deu um grito.

— Isso!

— O que foi, Thierry? — perguntou Kayla.

— Eu sei como podemos derrotar o alienígena.

— Como?

— Dr. Griffin, o que aconteceria se, hipoteticamente, eu usasse o SIDRA para teletransportar alguém sem programar um local para que essa pessoa seja levada?

— Bom, a pessoa simplesmente seria desintegrada. Como não foi estipulado um destino, o SIDRA simplesmente iria destruir todos os átomos dessa pessoa, sem reconstruí-los.

Bernard entendeu o raciocínio de Thierry.

— Então... — Thierry estimulou Bernard para que ele continuasse.

— Se usarmos o SIDRA para desintegrar a criatura sem teletransportá-la para algum lugar, poderemos, de fato, "matá-la". — Bernard completou.

Todos na sala se entusiasmaram.

Com o seu smartwatch, Bernard faz uma ligação para Oliver, que já estava ligando seu carro e se preparando para ir embora.

— O que foi agora, Dr. Griffin?

— Oliver, pode nos levar ao Central Park?

— Bernard, eu acabei de trazê-los de lá!

— É o último favor que te peço, prometo.

— Disse o mesmo quando recuperei o projeto Another Way para o senhor.

— Ah, qual é, Oliver! Deixa de ser um pé no saco!

— Tudo bem, Bernard, eu os levo para o Central Park, mas o senhor sabe o perigo que existe por lá, não sabe?

— É exatamente por isso que eu quero que você nos leve lá.

Bernard, acompanhado dos quatro exploradores, sai de sua casa e entra no carro de Oliver, que se encarrega de levá-los até o local onde o alienígena estava.

*

Enquanto isso, no Central Park, começavam a se reunir agentes do FBI e soldados do exército para tentar capturar a criatura de outro planeta.

O alienígena estava em "The Pond", uma pequena lagoa próxima à 5ª Avenida. O pequeno lago costumava ser um local calmo, onde as pessoas observavam, pela pequena ponte de tijolos de pedra que o atravessava por cima, os pássaros e as tartarugas. Os arranha-céus que eram possíveis ver ao fundo davam um belo contraste à visão.

Realmente, era um local perfeito para quem buscava calmaria... Mas não naquela noite.

Um dos soldados decide sair de cima da ponte e se aproxima da borda da lagoa. Levanta sua AR-15, uma das armas mais potentes do exército americano. Com um calibre .223 Remington e um alcance efetivo de mais de 500 metros, o soldado ajusta a mira para acertar alguma área vital do monstro. Atira. O disparo atinge o alienígena, manchando o lago com o seu sangue. Porém, como se o tiro tivesse provocado apenas algumas cócegas incômodas na criatura, ela avança para cima do soldado, mordendo suas pernas e puxando-o para o lago. Não demorou muito, agora o sangue que manchava o lago era do soldado.

*

Pela 5ª Avenida, aproximava-se o carro de Oliver trazendo Bernard e sua equipe de exploradores. Eles saem do veículo.

— Oliver, não vai querer ver como isso acabará? — perguntou Bernard.

— Com certeza não. — respondeu o ex-soldado.

— Tudo bem. Até mais, amigo. Se cuida. — Bernard se despediu.

— Até mais, Dr. Griffin. Tome cuidado.

Oliver vai embora.

Bernard e sua equipe se aproximam dos domínios do Central Park. Percebem que a passagem está interditada.

— Sinto muito, mas civis não podem passar. — disse um soldado perto da faixa de interdição.

— Por favor, nós precisamos entrar aí. — Bernard falou.

— Ei, eu estou reconhecendo você! É Bernard Griffin, o homem mais rico do mundo.

— Segundo mais rico. Mas isso não vem ao caso agora. Por favor, deixe-nos passar.

— Sinto muito, Sr. Griffin, mas só podem entrar aqui se tiverem uma autorização do exército americano.

— Você não entende! Nós sabemos como matar essa criatura!

— Nós atiramos nela com uma AR-15, Dr. Griffin! Uma AR-15! E a criatura ainda está viva.

— Confie em mim, por favor.

— Sinto muito, Sr. Griffin. Mas se o senhor morrer, a culpa será minha. Eu terei matado o segundo homem mais rico do mundo.

— Eu garanto que se me deixar passar, não vou morrer.

— Me desculpe, Dr. Griffin. Nada de passar sem autorização.

Bernard se afasta e começa a discutir com sua equipe, sem deixar o guarda ouvir.

— O que faremos agora, Bernard? — perguntou Thierry.

— Não sei. Talvez, se distrairmos ele, consigamos entrar.

— Não seria melhor pedir uma autorização do exército americano? O senhor é um nome de peso entre eles, com certeza te darão a autorização.

— Tenho uma ideia melhor. — disse Susan.

— E qual é?

Susan pega o dispositivo SIDRA das mãos de Bernard e corre em direção ao espaço interditado, pretendia fugir do soldado.

Não consegue. Susan é pega pelo soldado que agarra seus braços, fazendo-a largar o aparelho.

Antony rapidamente apanha o dispositivo SIDRA do chão e aproveita o descuido do soldado, que tentava imobilizar Susan, e entra no Central Park.

Enquanto Susan tentava se livrar das mãos do soldado, Thierry e Kayla também entram no Central Park para seguir Antony. Bernard assistia toda aquela cena.

Antony se dirige até a ponte sobre o The Pond, onde os soldados se aglomeravam para tentar matar o alienígena.

— Ei, quem é você? — perguntou um dos soldados. Civis não podem entrar aqui!

— Não se preocupe, não vou ficar muito tempo. — Antony responde.

Os soldados tentam impedir que o jovem explorador se aproxime da lagoa, sem sucesso.

Thierry e Kayla tentam alcançar Antony, mas são impedidos pelos soldados

O Pequeno Antony caminhava em meio a todos os corpos de combatentes mortos pelo alienígena. Ele regula o dispositivo SIDRA, certificando-se de que não havia nenhum destino programado após a desmaterialização dos átomos.

Observou a lagoa por uns instantes. Enxergou a silhueta do monstro e dispara o raio SIDRA. Entretanto, não consegue acertá-lo. O alienígena vê o raio passar de raspão. Olha para a superfície e enxerga Antony com o aparelho apontado para ele. Seus instintos de sobrevivência estão aguçados, percebe que o perigo é real.

Antony dispara mais uma vez. Erra de novo. Começa a se desesperar, pois sabe que o dispositivo só tem energia para mais um disparo. Se aproxima ainda mais do lago, podendo sentir a água bater pouco acima dos seus pés.

Alguns soldados avançam para tirar Antony dali.

— Não se aproximem! — disse Antony, apontando o aparelho SIDRA para os soldados. — Se derem mais um passo, eu desintegro cada um de vocês.

Os soldados acharam que ele estava blefando, mas preferiram não arriscar. Manteram distância.

Do outro lado da lagoa, Thierry e Kayla tentavam alertar Antony.

— Pequeno Antony, tome cuidado! — disse Kayla, gritando.

Por estar olhando para seus amigos, Antony não percebe a aproximação do alienígena, que avança em cima do jovem explorador.

Antony se desespera, começa a usar todas as suas forças para tirar a criatura de cima do seu corpo. Uma luta entre o explorador e o alien na beira da lagoa se inicia. A criatura começa a arranhar Antony, que se debruça para afastá-la.

Os soldados tentam espantar o monstro, mas o medo é tão grande que não se atrevem a provocá-lo.

Thierry e Kayla se desesperam ao ver o amigo sendo atacado daquela forma. Neve tenta se livrar da barreira humana formada pelos soldados, mas não consegue.

A criatura dá um golpe de misericórdia. Coloca suas garras para fora e perfura a barriga do rapaz, que grita de dor enquanto o monstro colocava suas vísceras para fora como uma criança abrindo um presente de Natal.

Um soldado toma coragem e atira contra o alienígena, que deixa Antony e parte para cima daquele que acabara de disparar.

Antony já estava com a visão borrada quando, por impulso, fez sua última ação. O jovem explorador pega o dispositivo SIDRA que estava jogado ao seu lado e atinge a criatura, que estava de costas para ele, com o raio desintegrador.

O alien, que já planejava atacar o soldado, começa a se desesperar ao ver que foi atingido por algo. O ser extraterrestre se desespera mais ainda ao perceber que o seu corpo estava desaparecendo. Olha para trás e descobre que sua última vítima ainda não estava morta. Tenta se aproximar, mas antes que alcançasse o corpo de Antony, o último átomo do corpo do alienígenas foi desintegrado.

O último suspiro de Antony foi de alívio. Deitou a cabeça no chão e aos poucos foi perdendo os sentidos.

Thierry e Kayla aproveitam que os soldados estavam distraídos e vão para perto de Antony, para tentar socorrer o amigo.

A última coisa que Antony viu foram Thierry e Kayla se aproximando dele. Sorriu fracamente. Estava feliz por estarem a salvo. Em um último delírio seu, lembrou da conversa com Neve em Kepler-22b. "Então, é esse o meu destino", pensou.

Thierry chamava a ajuda dos soldados, enquanto Kayla chorava, desesperada. Uma enfermeira do exército se aproximou do corpo. Pôs os dedos na veia do pescoço de Antony e averiguou que ele estava morto.

Bernard e Susan chegaram depois.

*

Dias depois, o Dr. Bernard Griffin realizou uma cerimônia de despedida aos membros de sua equipe que morreram na missão.

Como não podia recuperar o corpo de Tom, fez um santuário com a foto do explorador. A família dele estava lá. Seus dois filhos e sua esposa.

— Aquela é a família de Tom? — perguntou Kayla.

— É sim. — Thierry respondeu.

Neve foi até eles, cumprimentou as duas crianças e abraçou a jovem mulher, que estava desconsolada.

Enquanto isso, Susan e Thierry olhavam para a cova do Pequeno Antony.

— Dois membros perdidos em uma só missão. — Susan comentou.

— É... Meu único olho bom viu coisas incríveis e aterrorizantes nesses últimos dias.

— Para onde você vai depois daqui, Thierry? Pretende continuar sendo astronauta?

— Até um tempo atrás... 15 anos, mais ou menos... Ser astronauta não era uma tarefa tão árdua. Mas o que eu vivi me fez perceber que lá fora o perigo é imenso.

— Então vai largar a vida de explorador espacial?

— Sinceramente, não sei que decisão tomar.

— Sério?

— A criatura estava em seu direito, Susan.

— Como assim?

— Invadimos o espaço dela. Ela nos atacou. Ela matou um dos nossos. Ela invadiu nosso espaço, matou outro dos nossos, então nós a matamos.

— Ainda não entendi onde você quer chegar.

— A exploração espacial é necessária, Susan. A Terra é o nosso lar, de fato, mas é nossa obrigação desvendar o que existe além dele.

— Concordo.

— Mas se quisermos mesmo fazer isso, devemos nos preparar. Essa foi a primeira raça alienígena com a qual tivemos contato. Pelo visto ela não gostou da nossa presença. Quem garante que as próximas raças que conhecermos não irão repudiar nossa presença também? Tivemos sorte desta vez. Quem garante que teremos sorte de novo?

A ideia de Thierry fez Susan parar um momento e refletir.

Bernard sobe no palco e começa a fazer um discurso.

— Quero agradecer a todos que estão aqui presentes. Foi uma tristeza enorme perder dois grandes amigos nessa missão. Há alguns dias atrás, eu acordei com um brilho no olho. Estava muito feliz em ver o meu projeto fazendo sucesso e ver a minha equipe ser mandada para um local no universo que normalmente demorariam cinco séculos em um período de poucas horas. Eu não esperava que apenas quatro deles retornariam. Sinto muito à família, por não poder trazer o corpo de Tom Johnson aqui hoje. Mandarei um outro grupo a Kepler-22b para trazê-lo à Terra nos próximos dias, prometo.

Kayla continuava a consolar a viúva.

— Eu também não esperava — Bernard continuou — que perderíamos outro membro da equipe em tão pouco tempo após perdermos Tom. Eu acredito que eu tenha uma parcela de culpa enorme nisso tudo. Nem a criatura tem uma culpa tão grande quanto a minha. Peço desculpas. Eu mandei homens para um local que não era adequado para a presença humana. Eu esperava também que o nosso primeiro contato com vida extraterrestre fosse algo mais pacífico. Mas ao que parece, a criatura era tão irracional quanto a maioria dos animais da Terra. A odisseia humana no espaço está apenas se iniciando. Momentos mais gloriosos que este virão, mas é uma pena que nosso ponto de partida seja marcado por tamanha tragédia. Seguiremos em frente. E que os atos heróicos de Tom Johnson e Antony Lee se tornem exemplos a serem seguidos.

Bernard desliga o microfone. Todos no local aplaudem suas palavras.

*

A mídia se aprofundou o máximo que pôde no que ficou conhecido como "O Caso da Criatura do Central Park".

Criptozoólogos e ufólogos de todas as partes do mundo viajaram para Nova York para investigar mais do caso.

Segundo o boletim oficial, divulgado pelas autoridades do exército americano, a "criatura" que teria assassinado inúmeros soldados e um casal de namorados que passeavam pelo parque ambiental naquela noite era na verdade uma onça que teria escapado do zoológico do Central Park.

Porém, muita gente acredita que, pelos relatos de pessoas que moram pela área, que alegam ter visto não só uma criatura muito diferente de uma onça, mas também um feixe de luz misterioso naquela mesma noite, o que aconteceu no Central Park foi na verdade um ataque de algum extraterrestre. O fato de haver uma grande mobilização de agentes do FBI e de combatentes do exército americano naquele lugar também faz as pessoas acreditarem que eles não estavam lidando com uma simples onça.

Os mais céticos defendem que realmente o que provocou todo aquele alvoroço no Central Park foi algum animal feroz que possa ter escapado do zoológico. Eles usam o fato de que nenhum corpo de uma criatura alienígena foi encontrado no local para defenderem essa posição. Claro, os que defendem a existência do suposto alienígena argumentam que o FBI ou o próprio exército possam ter ocultado o cadáver e qualquer outra prova da existência do alien.

O mistério continua.

*

Enquanto isso, em Kepler-22b, os ovos encontrados por Tom pouco antes de sua morte começam a eclodir. Cinco pequenas criaturas de rosto redondo, com pescoços dando continuidade aos troncos, olhos grandes e pretos e pele cinza e viscosa nascem. Procuram pela mãe, como não a encontram, vão para o oceano.

Anos mais tarde, uma dessas criaturas, já adulta, estava nadando por aquelas mesmas águas quando foi acertada por uma lança. Quem havia jogado o objeto pontiagudo tinha sido uma outra criatura.

Essa outra espécie era terrestre. Possuía uma postura ereta, na qual conseguia inclusive andar sobre duas pernas. Sua pele tinha uma cor esverdeada. Tinha cerca de 1,40m de altura e um volume craniano de cerca de 1000cm³. Seu cérebro era bem maior que o do anfíbio que acabara de caçar. Após perceber que aquele tipo de animal sempre se regenerava após ser atingido por sua lança, a criatura de postura ereta descobriu uma forma de impedir que se recuperasse dos ferimentos: cortando sua cabeça.

É isso que ela faz. Pega um outro objeto, semelhante ao machado humano e decapta sua caça. Leva o corpo decaptado em direção a uma fogueira que havia feito. Tinha conseguido comida para o seu bando.

Os mais fortes e inteligentes sobrevivem. Essa é a lei da seleção natural.

Notas finais
Então, é isso. Espero que tenham gostado da história tanto quanto eu gostei de escrever. Obrigado a todos que leram e acompanharam. ♡ Nos vemos novamente por aí. O/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!