Amaranto Negro
3 Um epitáfio para você
Por que você sorri
Como se tivesse contado um segredo?
Agora está contando mentiras.
Por que quando cometemos nossos piores feitos
Nós falamos?
Eles queimam em nossos cérebros
Transformando-nos em um inferno.
(Secret — The Pierces)
Primeiro, seu olhar foi de horror. Um horror insano, terrivelmente assustado e desgostoso.
Depois, ele foi para a dor. Uma dor inconsolável. Ele se curvou um pouco, as pálpebras vermelhas ressaltando aquele verde fascinante. Verde. A sua cor parecia ser de vacina, agulha ou qualquer coisa que transpassasse uma dor aguda. Sua boca abriu, como se quisesse falar algo mas o meu sangue estivesse o sufocando.
Por fim, ele omitiu tudo isso. Apenas me encarou. Aqueles olhos brilhantes e quietos, meio que se forçando a serem inexpressivos. Eu, meio lerdo, conseguia sentir sua agitação. Novamente, eu estava fascinado. Seus olhos eram como de alguém que já está acostumado com a inexpressividade da dor, mas a sua presença me dizia algo diferente.
E então, eu senti. Finalmente a ardência me atingiu, quase como se estivesse desesperada para me manter consciente do meu pescoço dilacerado.
Peguei meu celular e, um pouco tonto e embriagado de sono e dor, disquei o número daquele velho médico particular de quem eu não precisava desde os 16 anos. Esperava que ele atendesse às cinco da manhã de plena sexta feira.
— Ackerman?! — exclamou com surpresa.
— Doutor Watson, desculpe ligar esse horário — minha voz saiu mais fraca do que eu esperava. — O senhor teria como me atender?
Era isso o que as pessoas chamavam de dor?
— É uma emergência?
— Se ter a carne desde meu ombro até meu pescoço num estado duvidosamente dilacerado for considerado uma emergência, sim.
— Estou a caminho.
Procurei no ambiente ao meu redor, Eren havia sentado na escada. Eu não conseguia virar a cabeça, à medida que a adrenalina ia passando, eu começava sentir aquilo queimar. Eu ia dar alguns passos em sua direção, quando senti uma corrente de ar e ele estava ao meu lado, segurando meu braço como se eu pudesse desmontar. Ele me levou ao sofá sem manter nenhum tipo de contato visual. Eu o encarava.
— Então você pode ser a) um demônio invocado por algum aluno que reprovou por minha culpa. b) Um canibal com uma boca muito, muito grande e um sério problema de ressecamento repentino da pele. c) Uma alucinação ou d) A nova versão evoluída e turbinada de um vampiro. O que me diz?
Ele ficou quieto.
— Só pra saber, isso é contagioso? Tipo, eu vou virar um comedor de gente ou algo assim?
Novamente, nenhuma resposta. Seria horrível admitir, mas aquilo estava me excitando (não no sentido sexual, caso esteja se perguntando).
— Entã...
— Pare. Isso não é uma brincadeira, ok? Eu poderia ter te matado.
— Que eu saiba, eu ainda estou vivo.
— Ah, sério? Não tinha percebido.
— Você me respeite, moleque.
— Tudo bem, eu... — respirou lentamente e levou as mãos à cabeça como se, pela primeira vez, se desse conta da situação. — Você não fingiria que nunca me conheceu, certo? Só pra conferir.
— Deem ao garoto uma boneca kewpie!¹
— Eu tinha quase certeza de que responderia algo assim — revirou os olhos.
Eu senti vontade de beijá-lo.
A campainha tocou.
Graças aos céus, todas as persianas estavam fechadas e o doutor não poderia ver o estado da minha sala.
— Você pode lavar o sangue dessa boca e atender a porta para mim? A sua mordida está começando a doer.
Eu devo, de fato, ser um tremendo de um idiota por ter dito algo assim.
O olhar de dor voltou.
Mas, sem contestar, ele se limpou e foi verificar a porta. Em poucos segundos, Watson estava parado a minha frente observando aquela ferida aberta e todo o cenário de minha casa. Eren ficou ali, no canto, observando com olhos dolorosamente vidrados em cada movimento meu.
— O que causou o ferimento? — perguntou Dr. Watson.
— Um cachorro.
— Vou preparar a vacina pra raiva.
— Não precisa.
— Mas...
— Eu te garanto que esse cachorro não poderia ter raiva.
Ele deu de ombros, pois conhecia o teimoso que eu era, e pôs-se a injetar a anestesia local. Algumas limpezas, pontos e curativos depois, eu estava pagando ao senhor por ter, mais uma vez, cuidado de mim. Ele me olhou com aquele ar de “cuidado, filho” e se despediu. Estranhei nem ter olhado direito para Eren, mas então me lembrei de como eu e ele tínhamos bastante em comum. Sem perguntas desnecessárias, sem envolvimento pessoal com o trabalho.
Pensei não ter mais sentido a segunda presença na sala de estar e girei rapidamente sobre os calcanhares para conferir, já que estava ruim de movimentar o pescoço. Eu vi a minha sala de repente caindo, como se a gravidade a puxasse de algum lugar alto, depois notei que era apenas eu tombando de forma meio desajeitada para trás.
— Acho melhor comer alguma coisa. E descansar — sua voz soou grave atrás de mim, seu peito vibrando nas minhas costas.
— Eu também. Se eu dormir assim vou acordar com uma puta dor de cabeça.
Com uma vertigem absurda, apoiei-me em seus braços para me manter de pé. Eu o vi olhando para o chão enquanto ria e negava com a cabeça.
— Você sequer parou para pensar em tudo o que está acontecendo? Levi, eu te machuquei, você não percebeu?
— Você é idiota? É claro que eu percebi, eu que levei os pontos.
— E não está nem um pouco assustado?
— Eu estaria mais se você fosse perfeito em tudo — murmurei de má vontade e me arrastei para a mesa da cozinha. — Quem deveria estar assustado é você, que está a ponto de ser espancado caso não venha aqui agora me contar o que... Bem, o que você é.
— Lev...
— E não me vem com essa idiotice de “se eu te contar vou te colocar em perigo”, “eu não posso te contar” ou “siga com a sua vida normalmente, eu não vou mais atrapalhar” — abri a caixa com a metade de um sanduíche da tarde anterior, o qual eu não conseguira terminar. — Isso nunca dá certo nos filmes, vai por mim.
Dei uma olhada naquele sanduíche e acabei optando, por fim, jogá-lo fora e fritar alguma carne que tivesse na geladeira. Eu precisava de ferro. Quando eu me levantei, ainda com a caixinha na mesa para jogar fora, eu me deparei com ele próximo. Mas ele não me tocava.
Seu rosto exibia a expressão divertida que ele sempre tinha, mas havia algo um pouco distante em seus olhos, como se estivesse num estado de raciocínio profundo.
Talvez eu devesse estar assustado. Talvez o certo fosse estar me tremendo de medo, suando frio, partindo com meu carro na velocidade máxima estrada a dentro, buscando abrigo numa pousada na cidade ao lado. Mas acho que nunca fiz o certo na minha vida, em nenhum momento. Quem sabe, se fosse outra pessoa que não o Eren eu estivesse assustado pra valer. Mas era o meu Eren, aquele que nunca me deixava e em quem eu poderia confiar a minha vida. Ele parou, não foi? Algo o fez parar e não me matar. Não bebeu de mim nem o suficiente para me fazer desmaiar, então ele ainda tinha algum controle, certo?
Uma parte de mim me dizia que ele sabia sobre esses pensamentos. Que ele podia me ler como um livro aberto, e era por isso que me encarava com toda aquela surpresa e ressentimento.
— Você não quer acreditar.
— Tem razão — mordi meu lábio inferior. — Eu não quero acreditar que você queriame machucar. Assim como eu quero acreditar que eu vou conseguir entender... E não sentir medo de você. Porque eu não quero isso. E agora você para de fazer cu doce, porque eu não sou nenhuma garotinha de dez anos com medo de monstros, nem um adulto cético que precisa do sentido para viver.
— Não está falando como um professor de exatas.
— E nem você como um pirralho de vinte e tantos anos. As coisas não são o que parecem.
Dei um passo para o lado e abri a geladeira com uma mão, enquanto a outra pegava todos os potes possíveis e bisbilhotava o que tinha para aprontar. Eu desisti quando derrubei salada de frango com rúcula no chão. Eu já tinha bagunça o suficiente na minha sala por causa de Eren Jaeger, ainda teria de limpar a cozinha... E uma gota de desespero começava a me atingir. Eu precisava organizar aquilo. Nada podia estar fora do lugar, nada... Eu não podia deixar que minha casa se contaminasse. Não aquela casa, a herança de meus pais.
— Já chega, vamos comer fora? — bufei, impaciente — Ah, você come?
— Sim, senhor Ackerman, eu como. Mas eu não preciso.
— Ok, eu vou só trocar de roupa e limpar as minhas costas...
— Você já notou que agora são cinco da matina e nenhum fast food abre esse horário?
— Ah, verdade, então eu...
A minha espinha gelou. Eu não consegui respirar, quase como se o ambiente tivesse esfriado trinta graus em um segundo. De alguma forma eu sabia... A sua paciência havia esgotado. Ou havia algo de decidido no ar, como se ele finalmente tivesse se libertado dos seus conflitos internos e tomado uma decisão.
Senti algo gelado delineando a linha da minha mandíbula e virando bruscamente meu queixo para o lado oposto da mordida. A pele ali repuxou e meus músculos, involuntariamente, se contraíram. Aquilo doía, o frio intenso fazia a dor ser cem vezes pior.
A sua mão segurava firmemente o meu queixo, chegava a sentir a pressão nos meus ossos. E ele não apenas me encarava, como parecia me ceifar. Cada parte minha que antes procurava caminhos para desviar minha atenção do real terror agora estava vidrada naquela cor terrivelmente amarga. Aqueles olhos, aquela expressão. Não era Eren. Era aquela coisa que eu vira mais cedo no meu quarto e a coisa que me mordera. A aura velha, mágica, cheia de vivência. Alguém sem expressão, uma máquina. E um monstro.
Não era o meu Eren.
— Tenho um segredo, — sussurrou melodicamente sua voz tenebrosa — você pode guarda-lo?
“É claro” eu adoraria ter dito, mas era como se meu pulmão estivesse congelado. O seu hálito gelado e sanguinário não ajudava muito, ainda mais com metade do meu corpo — aquela metade — queimando intensamente. Mas não era uma queimadura de fogo.
Gelo também pode queimar.
— Acho melhor você trancá-lo e leva-lo ao seu túmulo — sussurrou.
Ele deixou de me segurar e repentinamente se afastou, deixando aquele ar de terror ainda me imobilizar. Com muita dificuldade, abaixei a cabeça e respirei de forma acelerada e pesada.
Um segredo.
Virei-me. O passo mais demorado e confuso da minha vida. Eu sentia o suor gelado escorrendo pelo meu rosto, os pontos rangendo na minha pele ainda anestesiada, querendo ceder. E eu o sentia. Observando de algum lugar, espreitando. O ambiente girava, os meus olhos queriam se fechar.
Andei esperando sentir as folhas da salada que derrubara antes no chão, mas a sensação não veio. O piso estava limpo. Segui até a sala, sendo cauteloso com as peças da mobilha que eu já esperava ver espalhadas no chão.
Tudo estava impecável. Tudo mais arrumado do que eu jamais poderia deixar. Ele não estava lá.
— Duas pessoas não podem guardar um segredo, Levi — sua voz vinha de todos os lugares.
Sabe quando você está sonhando e está prestes a acordar? Há uma pressão esmagadora te imobilizando, uma dor de cabeça de quem está tentando absorver mais do que deveria. Eu não conseguia gritar, mas queria. Eu queria muito lutar para que ele continuasse ali, assim como eu queria nunca ter o conhecido. Como eu fui fugir à regra de nunca deixar alguém se aproximar?
Ah, mas ele não ia me deixar. Porque duas pessoas não podem guardar um segredo...
— A menos que uma delas esteja morta.
A menos que uma delas esteja morta.
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