Amaranto Negro
5 Um epitáfio para os testes
Oh Morte
Você me pouparia até outro ano?
O que é isso que eu não consigo ver,
Com mãos frias como gelo me segurando?
Quando Deus desaparecer e o Diabo tomar conta,
Quem terá piedade de sua alma?
(Jen Titus – Oh Death)
Asas da felicidade.
Que piada.
— Isso é algum tipo de brincadeira? — digo incrédulo.
— Tecnicamente, estamos num parque de diversões, então...
De alguma forma, eu acordei no banco de trás de um carro em movimento. Quando levantei de repente o idiota do Eren Jaeger apenas disse sorridente:
— Tem algumas frutas, suco e um sanduíche na bolsa térmica debaixo do meu banco — e voltou-se para a estrada a sua frente.
— Para onde estamos indo?
— Um encontro.
E então fomos parar na droga de um parque de diversões com uma temática muito suspeita. De certa forma, o logo deles lembrava algo. Ele estava meio infantilizado, mas ainda parecia reconhecível.
— Eren, eu tenho trinta e tantos anos. Eu não tenho encontros em parques de diversões. E por que caralhos você não me acordou para vir pra cá?!
— Ah, você estava tão bonitinho dormindo...
Joguei a casca de uma banana nele. Ele a pôs numa sacola pendurada na marcha do carro.
— De qualquer forma, você me trocou? Como eu não acordei?!
— Parece que você tem um sono bem pesado. Fora que saímos de casa às seis horas da manhã, então você estava bem apagado.
— O quê?! O quão distante fica essa porra?
— Ei! Mais respeito com a minha casa!
— SUA O QUÊ?!
Ele bufou e revirou os olhos.
— Vamos entrar.
— Tá... — fui andando a sua frente até o portão enorme branco e azul a alguns metros de distância.
Até que o movimento estava grande para uma... Terça feira?!
— Eita porra, eu tenho trabalho hoje — tentei dar meia volta, mas ele segurou minha mão e continuou andando. — Eren, é sério, eu tenho que trabalhar...
— Claro que tem — ele abriu um sorriso. — Se não fosse feriado. Você é muito irresponsável, não? Só se lembrou de trabalho quando chegamos aqui.
Ah é. As aulas só voltariam quinta feira. Muito desleixo de minha parte.
— Eu não sou irresponsável, é você que me tira do sério.
Ele me olhou de soslaio, dessa vez sem o sorriso. Sua mão de repente enrijeceu na minha, e ele travou no lugar onde estava. Assim, ficamos parados meio que super perto do portão, mas com um Eren estático olhando diretamente pra frente e eu com medo de acordá-lo daquele transe.
— Vamos por outra entrada — vi seus lábios se mexerem rapidamente e só então interpretei o que tinha dito. — Não solte a minha mão. Em. Hipótese. Nenhuma.
Assenti devagar, mesmo sabendo que ele não estava olhando para mim. Nós contornamos o muro de tijolos do parque e chegamos aos seus limites depois de muita caminhada. Eren pegou um ramo de chaves em seu bolço e pôs na fechadura de uma porta onde tinha um aviso dizendo “entrada restrita para funcionários”. Fiquei esperando ele girar a maçaneta e abri-la, mas esse momento não veio. Quando olhei para o seu rosto, ele parecia muito concentrado pensando em algo.
— O que foi? — me arrisquei a perguntar.
— Eu preciso fazer algo — colocou a mão que antes estava na chave em minha bochecha — Tudo bem?
— Claro — respondi sem pensar.
É. Eu devia ter pensado.
Ele passou a mão de minha bochecha para o meu ombro (esse era o lado que ele não tinha dilacerado uma semana antes) e fixou seus lábios ali. Eu podia jurar que estava esperando uma dor profunda, mas o que senti foi um arrepio quando ele chupou e arrastou os dentes na minha pele ali.
Ele me chupava com força. Em momento nenhum me mordia.
Teve uma hora, quando soltei um murmúrio rouco, em que passou suas mãos para a minha cintura. Apertou o local sem nenhum pudor, me fazendo questionar pelo desconforto. Mas sem me deixar formular uma frase descente, ele tomou minha boca para si num beijo muito egoísta.
— Por que isso tão de repente? — indaguei ofegante.
— Apenas para deixar claro para eles que você pertence a mim.
Eu teria analisado a parte do “eles”, mas a parte do “pertence” me atingiu primeiro.
— Eu não sou uma puta pra ser de ninguém, ouviu? — me distanciei dele batendo de punho cerrado em seu peito. — Acho bom que v...
— Não solte a minha mão! — entrelaçou seus dedos nos meus. — Eu te entendo, está bem, me desculpe. Mas não se afaste de mim. Aqui fora tudo bem, mas lá dentro... Nem por um segundo...
— Tá bem, tá bem. Você não precisa agir como minha mãe, eu entendi.
Apesar das palavras frias, eu realmente queria segurar a mão dele. É um tanto quando infantil quando isso é dito por um adulto, mas aquele lugar parecia conter algo a respeito de Eren que ele queria me mostrar e pensar nisso me fez ficar muito inseguro. Segurando a mão dele era quase como se eu tivesse alguma segurança de novo. Mesmo com tudo que ele havia feito poucos dias antes, eu não conseguia perder minha confiança em sua lealdade.
Ele sempre me protegeu. Desde que nos conhecemos até ali, ele honrou o que tínhamos. Foi num momento de fraqueza em que descobri o que ele era. E nós não escolhemos as nossas fraquezas.
Eu poderia amá-lo, se quisesse. Mas eu preferia trancar aquilo dentro de mim e interpretar como dependência. Eu dependia dele por opção. Simples assim.
— Levi, você está bem?
— Sim, por quê?
— Seu coração está batendo tão forte que consigo ouvir daqui — ele soltou uma risadinha.
— Ah, isso — minha mão foi automaticamente parar em cima de meu peito. — Ansiedade.
— Claro.
Nós fomos na montanha russa umas quatro vezes, depois numa xícara que ficava girando e na roda gigante. Nada aconteceu. Apenas a minha cara de “eu não tenho tempo para essas besteiras” e ele não deixar que eu largasse a sua mão nem por um segundo. Estrategicamente pensado, ele me comprou um crepe de queijo para comer, já que só utilizaria uma mão nisso, e ficamos rondando por aí. Eu olhava os casais e as famílias andando em suas atmosferas felizes. Só eu que notava aquilo? Um ambiente doentiamente perfeito, como uma boneca angelical possuída ou uma criança demoníaca. Uma loucura e um êxtase estranhos naquele ar que me distraíam e me faziam olhar várias vezes para Eren, apenas para conferir se ele continuava o mesmo.
Como posso explicar? Eu sentia uma ardência nas costas. A sensação de ser observado e de uma tragédia eminente. Tinha aquele clima de calamidade, como se a qualquer momento eu pudesse ouvir uma criança sendo esquartejada e as pessoas rindo disso cegamente, como se fosse uma brincadeira.
Era algo cruel e impiedoso. Tinha algo horrivelmente sombrio naquele parque.
— O que há com esse lugar? — murmurei.
Eren olhou para mim como se me alertasse a respeito de alguma coisa.
— Acho que você está ficando cansado, não é?
— O quê...
— Nós podemos ir embora depois de irmos ao trem fantasma e à casa de espelhos — pronunciou lentamente, como que para fazer uma criança entende-lo. Ou para deixar bem claro que tinha algo para acontecer.
— Certo... — respondi da mesma forma.
Percebi o olhar intenso de uma senhora atrás de nós na fila do trem fantasma. Ela provavelmente tomava conta dos dois netos barulhentos.
— Vovó! Eles são um casal? — cochichou o menino pensando que nós não estávamos ouvindo.
— Sim, querido — senti um sorriso na voz da senhora.
— Assim como o papai e a mamãe? — a menininha falou um pouco alto demais.
— Sim, não há nenhuma diferença.
— Mas eles são dois homens!
— Duas pessoas que se amam — corrigiu ela.
Olhei para as crianças e dei um sorriso de canto. Queria eu que meus pais tivessem sido como aquela senhora quando eu era adolescente.
Desviei o olhar para Eren, que deu um grande sorriso e beijou minha bochecha.
Nós não éramos um casal de verdade. Era uma mentira mantida para que ele continuasse ao meu lado.
Mas não era como se eu realmente quisesse ter aquele tipo de contato com ele, certo? Certo.
O trem fantasma estava indo bem. Os bonecos não eram assustadores, os gritos eram forçados (menos os do público) e a velocidade com que passava nem deixava que eu visse tanto o que eles queriam mostrar de aterrorizante. A única coisa que me assustou foi quando o trem parou. Todas as luzes se apagaram.
— Eren? — sussurrei perante o silêncio mortal. Apertei sua mão repousada junto a minha no banco. Ele não respondeu. — Ei, pirralho...
— Fique em silêncio. Não se mexa.
Escutei muitas pessoas gritando mais a frente, meu coração estava a mil. De repente, senti algo perto do meu cabelo. Algo como uma respiração parecida com a de um animal. Controlei todos os meus impulsos de me mexer. Continuei imóvel. Eu poderia bater em Eren por não ter me avisado aquilo, mas algo me dizia que se eu me mexesse só um pouquinho, aquilo não hesitaria em me matar. Um toque frio. Dedos longos de gelo contornando as minhas feridas — as quais repentinamente começaram a latejar. O toque passou para o outro lado de meu pescoço, onde Eren havia me “marcado” um pouco mais cedo. Pensei ouvir um sibilo enquanto aquilo contornava meus traços de uma forma... Paralisante.
Eu esperei o que pareceu ser uma eternidade. O ambiente estava um breu total, os gritos começavam a parar. Cada membro do meu corpo estava dormente, a única coisa que eu sentia era o toque gelado (menos do que o da coisa de antes) de Eren na minha mão. Esperei tanto que pensei ser uma ilusão quando ele de repente me puxou para fora daquele vagão e correu me arrastando aos tropeços.
— Corra mais rápido! — ele grunhiu.
— O físico de um alcóolatra não é muito bom, sabe? — resmunguei em resposta.
— Apenas corra! — sua voz soou beirando o desespero. — Corra e não olhe para trás!
Ele deveria saber que nós, humanos, somos curiosos além da nossa segurança.
Eu olhei para trás. Claro que eu olhei para trás.
Duas crianças. Uma velha. Suas cabeças decepadas, seus corpos pendurados no teto. Seu sangue escorria pela sua pele pálida. Seus olhares... Sem vida. Morbidamente calmos. Como bonecas. Bonecas angelicais e possuídas, que de repente viravam seus olhares hipnotizantes para mim. Arfei. A menina estendeu sua mãozinha de porcelana e riu. Aquela gargalhada... Demoníaca.
Senti meu estômago revirar e eu quase vomitei, mas a adrenalina no momento não deixou. Em cinco segundos nós chegamos ao que parecia ser um feixe de luz. Eren afastou as cortinas arroxeadas e eu saltei para fora. Agora nós estávamos numa parte remota do parque. O lugar de onde saímos tinha uma placa quebrada onde estava escrito “casa de espelhos: temporariamente fechada”.
Mal percebi o ambiente a minha volta, apenas me curvei apertando a barriga com uma mão e, com a outra, me apoiando numa árvore próxima a nós. Vomitei. Aquilo me deu um pânico, porque eu só queria sair daquela maldição e correr para a minha casa. Eu estava no meio do nada, num filme de terror, completamente aterrorizado.
— Eu vou te comprar uma garrafa de água...
— Não! — agarrei seu pulso. — Por favor, não me deixe sozinho.
— Tudo bem — seu olhar se tornou um pouco cansado. — Venha comigo.
Usei a garrafa de água para limpar minha boca e eu pedi — supliquei — que fôssemos embora. Eren sorriu gentilmente para me reconfortar e me levou para a entrada principal, a que ele havia se recusado a me levar antes. Fomos ao estacionamento, paramos ao lado do meu carro (só reparei que era o meu quando nos aproximamos).
De repente, ele me abraçou. Não foi o abraço protetor de sempre, parecia mais como se ele quisesse ser o protegido. Me proteger e se proteger ao mesmo tempo, nos isolar de todo o mal.
— Eu estava com tanto medo! — esganiçou com a voz abafada pela minha blusa. Ele estava meio curvado, o rosto escondido na curva de meu pescoço. Seus braços envolviam meu tronco com toda a força e eu acariciava suas costas, tentando demonstrar que estava tudo bem. Mas nós sabíamos: não estava. — Eu estava assustado, Levi. Eu pensei que te perderia, eu pensei que... Eles te levariam... De mim.
Arregalei meus olhos, verdadeiramente surpreso. E então, o apertei mais contra mim. Cerrei minhas mãos em punhos.
Eu não queria que ele sentisse medo. Ele era meu inatingível e perfeito e impecável Eren, certo? Se ele entrasse em desespero... Se ele fraquejasse... Se ele ficasse sem forças... O que seria de mim?
Dizia algumas coisas sem sentido, soluçando entre algumas frases. Ele choramingava repetidas vezes que estava com muito medo. Não pelo que aconteceu lá dentro, nem pelas mortes ou pela visão dos cadáveres. Mas por ele pensar que tinha me matado.
Ele, realmente, quase me matou. Mas não foi só naquele dia.
E essa foi a primeira vez, de todos os filmes, contos e livros assistidos ou lidos por mim, que vi um vampiro (ou o que quer que ele fosse) chorar como uma criança. Que vi um cadáver transbordar mais sentimentos do que eu mesmo.
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