Amaranto Negro

6 Um epitáfio para as escolhas


— Me perdoa. Caralho, me perdoa, por favor! Foi um erro tentar a aprovação deles, foi um erro...

— Aprovação? De quem?

— Eu te explico no caminho — separou-se um pouco de mim. Seu rosto estava molhado.

— Vampiros choram?

— Sim — soltou uma leve e quase risada. A mim, pareceu nervosa e forçada demais para ser considerada uma verdadeira risada. — Mas normalmente por motivos diferentes.

Segurei seu rosto entre minhas palmas e sequei suas lágrimas com meus dedos. Ele sorriu e colocou suas mãos sobre as minhas.

— Obrigado por confiar tanto em mim, se algo tivesse dado errado...

— Tudo ficou bem, ok? Não precisa ficar assim.

Ele era só um jovem de vinte anos com muita experiência de vida, afinal. Nada além de um garoto.

— Mas eu fracassei, não foi? Eu estava tão inseguro e nervoso, e mesmo assim eu te levei lá...

— Eren, escuta — puxei-o para mim mais uma vez. — Está tudo bem você sentir medo. Está tudo bem tudo não estar bem. Você não precisa ser uma estátua. Sinta medo, se sinta inofensivo. São sentimentos humanos. — Suspirei. — agora vamos dar o fora daqui.

— Você tem razão — beijou meu pescoço (o lado que ele já tinha marcado). — Eu não te mereço.

— É claro que não — revirei os olhos. Ele riu.

— Não perde a ironia nem nessas circunstancias, Sr. Ackerman?

— Foi você que disse que eu não era convencional.

— Eu definitivamente te amo.

— Você não cansa de dizer isso, não?

— Você cansa de ouvir?

Dei de ombros. Comecei a sentir tontura. Trocamos olhares desesperados.

Ele definitivamente sentia a mesma sensação de calamidade.

— Vamos embora — sussurrei apressado. — Agora.

***

Eren tirou seu sobretudo e colocou-o no sofá. Eu apenas me joguei neste e senti o suor frio começar a aflorar em minha pele.

— Você está com febre.

— Eu sei — murmurei e engoli em seco.

— Eu vou pegar algum remédio.

— Calma, senta aqui — dei espaço para que sentasse e assim o fez.

— O que foi?

Olhei a minha volta. Eu estava um pouco atordoado e muito horrorizado. Desde que saímos daquele lugar eu estava me fazendo milhares de perguntas. Aquelas coisas eram da espécie de Eren? Que aprovação era essa? Quem aprovaria o quê?

— Eu fui aprovado? — perguntei me forçando a manter meu semblante firme e meus pensamentos coerentes.

Ele abriu a boca pra responder, mas, no segundo em que faria isso, o som da campainha soou repetidas vezes, como se a pessoa estivesse furiosa. Ele arregalou os olhos e se levantou. Parecia que inicialmente tinha a intenção de ir até a porta, mas ele deu uns dois passos para trás.

— Ela vai me matar — murmurou.

Levantei também e fui à porta para abrir. Como ele não tentou me impedir, deduzi — também pelo seu medo com ar de infantil — que “ela” não era exatamente uma ameaça, mas algo como alguém que poderia queimá-lo vivo se Eren se colocasse em risco.

Olhei para a garota na minha porta de forma entediada, ela encarava de volta como se eu já devesse ter a chamado para entrar.

Irritante.

— Você é...? — perguntou ela.

Aparentava ser da idade de Eren ou até um pouco mais nova, mas ali entre os 17 e 25 anos. Mais alta que eu, porém. Já estava acostumado com isso. Se eu fosse mulher, com certeza estaria invejando aquela pele que parecia porcelanato. Sem poros, sem pelo, sem marcas. Ela era, ao todo, impecável. Usava um vestido vermelho-vivo, embora o dia não estivesse num clima tão agradável para isso, e não reparei tanto nos detalhes de como estava, apenas que ela era outra daquelas pessoas com uma presença tão notória que chega a parecer alguém de um filme.

— Você que está batendo a minha porta sem eu estar esperando ninguém. Quem deve se identificar?

— Argh — grunhiu e tirou seus óculos escuros para revirar os olhos. E então eu soube que era alguém da espécie de Eren, ela tinha aquele brilho carmesim em olhos de cor adoecida. Aquele ar de quem perdeu algo muito importante e agora não se lembra mais do que era. — Me chamo Mikasa Ackerman e estou atrás de Eren Jaeger. Posso entrar?

— Ackerman? — franzi o cenho. — Não pensei que fosse um sobrenome comum. Só um minuto. — Olhei para trás e Eren deu um aceno positivo e hesitante com a cabeça. — Tá, entra aí.

Ela passou por mim esbarrando em meu ombro e minha vontade era de derrubá-la e esmagar seu ombro, mas me contive porque ela tinha um olhar de quem pode me matar com um só dedo.

— Você é louco?! Seu imbecil, eles estavam a um passo de te apagar! E o que você estava pensando? Sair no sol assim?! — gesticulava com um guarda-chuva preto em mãos. — Você esqueceu tudo que nos ensinaram?! E ainda me vem com essa de conviver com um humano de que você se alimentou. Isso é mais um daqueles seus joguinhos? Porque se for, não temos tempo para isso. Você sabe a nossa situaçã...

— Eu sei, pare de falar como se eu fosse uma criança!

Eu o vi inclinar-se para frente, como que pronto para começar uma discussão, mas se interrompeu assim que nossos olhares se encontraram. Parece clichê, mas foi como se ele entendesse meus pensamentos, e daí se voltou para a menina com mais cautela.

— Mikasa, o “humano” se chama Levi, ok? Não quero que o trate com insolência, porque ele é meu, entende isso? — o seu tom foi tão mortiferamente calmo que eu não pude sequer pensar em contestá-lo quanto ao pronome pessoal “meu”. — E eu não quero ninguém machucando o que é precioso para mim. Agora trate de se apresentar adequadamente, ele não é nenhum animal. É humano. Algo que todos nós invejamos.

Mikasa fez como se fosse protestar, mas senti que até ela sabia da impenetrabilidade daquela expressão. Era algo raro de se ver em Eren, arriscaria chutar que nunca havia presenciado tal heresia, mas se existia um lado oculto e forte dentro de si... Aquela era a sua face.

Assim, a menina de traços asiáticos voltou-se para mim. O seu magro corpo e rosto de traços sutis não pareciam fazer jus à fera que eu sabia que ela guardava dentro de si. Mikasa estendeu sua mão e eu a tomei no mesmo instante, sem pensar.

“Mikasa Ackerman, irmã adotiva de Eren”essas palavras apenas ecoaram na minha cabeça como se fossem ditas por memórias sonolentas.

O que roubava toda a minha atenção delimitada por meu Déficit de Atenção, era aquele toque. Uma sensação diferente invadindo e tomando conta de cada pensamento meu. Não era a temperatura de sua mão, que pouco diferia da temperatura da de Eren. Muito menos sua textura, idêntica a de uma boneca de silicone, mas sim a troca de informações que aquele simples toque transmitia. De repente, foi como se eu entendesse um pouco de uma angústia sem fim, algo que ele jamais conseguiria suportar. Senti cada pelo meu se eriçar e o sangue saltar em minhas veias. E de repente veio uma agonia. Agonia esta que não mantive contato o suficiente para entender.

Afastei minha mão em um ímpeto, sussurrando uma apresentação pagã.

Senti meu estômago revirar, a bile queimando o inicio de minha garganta.

— Eren, eu preciso...

— Vá. Eu vou continuar aqui — a expressão mortífera se desmanchou e deu lugar àquela que eu melhor conhecia. A sarcástica. — Você não liga se eu der uma festinha de vampiros aqui, né?

— Ah, claro. Só tentem não tomar o sangue dos peixes do lago no quintal.

— Então você devia ter avisado antes do meu café da manhã, sabe.

Eu teria retrucado, mas uma nova onda de enjoo me atingiu, juntamente da estranha sensação de estar em um sonho (que é o que acontece quando tenho febre). Por sorte — ou não —, era terça, o que significava que quarta ainda teria feriado. E depois quinta e sexta eu teria de voltar para o meu inferno particular somado de alguns marginais do ensino médio. E eu não queria nem pensar que aquele sábado seria letivo.

Estava subindo as escadas, quando passou pela minha cabeça saber a respeito do que estavam falando. Bem, eram dois seres sobrenaturais, eles saberiam se eu parasse na escada e ficasse escutando. Desisti da curiosidade súbita e fui tomar um banho. A água, até que esquentasse, doeu em minha pele. O meu estômago revirou mais uma vez, mas eu não tinha nada para vomitar além de uma gosma incolor e ardida. Levei mais tempo do que o necessário para me secar e me vestir.

Eu estava com muito frio.

Era muita informação para assimilar.

Queria que as coisas voltassem a ser como eram antes.

Na sala de estar, Eren e Mikasa discutiam em gritos baixos. Por um momento, eu pensei ter visto duas feras. Suas poses agressivas, seus olhos brilhando de raiva. As vozes em rosnados, um idioma que identifiquei como latim um pouco misturado com o meu idioma. Nem com a minha presença eles pararam de discutir. E, como sempre, eu decidi fazer algo precipitado e um tanto imprudente.

Coloquei-me entre os dois, ficando de frente pra Eren, e ameacei enfiar um dedo em seu olho.

— Você é uma criança? — ele me perguntou ainda com um fundo de raiva da discussão.

— Quem sabe. Mais adulto que vocês dois, porém. Agora parem de discutir a toa, porque você me deve várias explicações.

Senti como se estivesse pronto para retrucar, mas, em vez disso, um sorriso surgiu em seu rosto.

— Você tem razão. Certo, Mikasa?

Eles tiveram aquele tipo de diálogo pelo olhar como se ele dissesse “eu avisei que ele pediria por isso!” e ela ficasse naquele estado de “homenzinho cretino”.

Eren foi até a mesa na cozinha e nós três nos sentamos ali. A cadeira fria de plástico fez minha pele quente demais arder. Eu queria me enterrar em cobertores e dormir o resto do feriado, mas era uma oportunidade única. Pela primeira vez ele parecia disposto a me deixar entrar no seu mundinho aterrorizante e descobrir tudo o que pudesse.

Eu queria saber mais de Eren, e esse era um sentimento inexplicável. Porque eu não o amava, então as coisas passavam a não ter muita explicação.

— Quero que explique desde o inicio.

— Como quiser — ele piscou.

***

— Resumindo os fatos, — falei após uma hora com a bunda sendo achatada pela cadeira — vocês são a evolução dos Volturi, só que com um ciclo menstrual mutante e uma TPM surreal?

— Colocando nesse linguajar — Eren riu, enquanto Mikasa ficava com uma expressão indignada — é isso mesmo.

— Mas o que foi aquilo no parque de diversão?

— Aí já é um pouco mais complicado. Sabe as organizações?

— Sim.

— Aquilo é uma organização, a nossa — Eren gesticulou apontando para si e para Mikasa. — Não posso dar muitos detalhes, porque eles ainda não confiam em você, mas o que você viveu lá foi o banquete de vampiros em dia de Lâmia. Infelizmente, às vezes Erwin precisa tomar essas medias para que os novatos não percam o controle nas cidades a fora.

— E Erwin é...?

— Algo como o nosso chefe.

— Ainda não explicou sobre a tal aprovação que citou mais cedo.

— Ah! Sim, isso — sua expressão não era a de quem tinha se esquecido desse detalhe, mas de alguém que não esperava que eu lembrasse. Seu olhar fugiu para Mikasa, que prosseguiu em tom calmo:

— Entre nós, existe uma política de não levar relacionamentos com humanos a sério a menos que você vá devorá-los no final, porque a maioria dos de vocês não sabe lidar conosco e tudo isso. Mas Eren conversou com todos e nos contou que você era um caso especial, para ele. Erwin pediu que o levasse até lá para uma “conversa”...

— Mas descobrimos lá que não se tratava disso — completou Eren. — Ele queria me testar. Queria saber se eu era capaz de te manter sob controle perante os novatos sem te machucar. Mas, no final, fui eu que me desesperei.

— Eu ainda não entendi essa parte do teste — confessei.

— Uma mordida, um beijo, uma marca, uma cicatriz. — Ackerman continuou. — O vampiro que fizer alguma dessas coisas com um humano, ou qualquer ação que deixe vestígio do vampiro no humano, com a intenção de marcá-lo, faz com que este se torne meio que algo seu, assim os outros não podem fazer nada contra o humano. Se Eren estivesse falando sério sobre estar com você até o final, ele teria que te marcar o quanto pudesse, mostrar para eles o quanto ele se importava. Se não fizesse isso o suficiente, aqueles em dia de Lâmia te devorariam sem nem notar a presença do vampiro ao seu lado.

— Uh, eu odeio esse termo — Eren murmurou.

— Eu sei, mas não podemos fazer nada se os humanos poluíram nosso nome — Mikasa deu um suspiro sonoro. — Eu continuo achando que foi idiotice da parte dele te levar até lá. Se algo acontecesse com o amado brinquedinho dele, Eren se culparia e atrapalharia o caos que está na organização.

Eu sabia que as suas palavras indelicadas seriam explicadas posteriormente por Eren. E, de verdade, eu não ligava de ser “o brinquedinho”. Quando ele se cansasse de mim, eu me cansaria de mim mesmo e continuaria não me importando com nada. Porque antes de ele aparecer, eu já não via mais sentido no mundo humano. Tê-lo com amigo me fez imaginar se a humanidade ainda tinha pessoas assim, que tinham salvação. E descobrir que ele não fazia parte do meu mundo, fez aquela coisa jovial que se chama curiosidade despertar em mim. Uma vontade de aprender, de descobrir. Algo que eu não sentia desde que me formara na especialização de geometria analítica.

Mas, em algum lugar de mim, eu sabia que era muito mais que um brinquedo para Eren Jaeger. E eu me agarrava a esse pensamento como se fosse uma corda na beira do meu precipício.

— Essas organizações têm nomes? Algo como “organização da fênix” ou algo mais criativo?

— Sim — Mikasa ficou com uma cara abobalhada, como se não esperasse por essa pergunta. — A que você visitou hoje se chama “Organização Asas da Liberdade”.

— Por isso o trocadilho cômico com “Asas da Felicidade” — concluí.

— Exatamente — Eren sorriu. — Pensei que seria uma ótima piada com uma situação obscura.

— Tá, e agora minha última dúvida: o que Mikasa Ackerman faz na minha casa?

— É um pouco presunçoso de sua parte dizer “última dúvida”, não? — ela me lançou um sorriso desafiador.

— Concordo. Mas humanos são assim, e eu jamais iria contra minha natureza — devolvi seu sorriso. — Ao contrário de um ser frio como você, que não tem o costume de ser leviano e dar inicio a pequenos jogos como esse.

— Urra. Depois dessa eu sairia de fininho — Eren comentou em uma voz leve. Eu pensei ter escutado um dos adolescentes da minha escola, pois era exatamente o que ele parecia no momento. Não um ser centenário, mas um jovem humano.

— Você ainda não respondeu minha pergunta, Ackerman — comentei como se pedisse uma trégua no seu jogo com as palavras para um assunto sério. — Duvido que tenha sido para dar uma bronca no Eren.

— Isso é verdade — ela arrumou sua postura na cadeira. Foi mais como um tique do que com uma necessidade, a meu ver. — Eu vim para dar um aviso.

De repente, o brilho carmesim nos olhos dos dois se intensificou.

— De Erwin? — perguntou Eren.

— De todos nós — e, de repente, Mikasa parecia muito mais velha. — Você sabe o que acontece quando um humano descobre cada vez mais sobre nós. Ou ele se força a esquecer para ficar seguro, ou ele mergulha de cabeça. É uma via de mão dupla e ele não tem a opção de ficar onde está.

Em silêncio, eles sustentaram o olhar um do outro. Parecia até uma brincadeira do sério, para ver quem mantinha a carranca por mais tempo.

— Nesse caso — me intrometi naquela estranha discussão silenciosa entre eles dois — eu escolho o perigo.

Sem nem esperar que a última palavra estivesse completa na minha boca, Eren anunciou:

— E eu escolho te proteger enquanto sustentar essa decisão.