Amaranto Negro
7 Um epitáfio para as apresentações
“Permanecer no mesmo lugar só vai te fazer se arrepender quando fechar seus olhos”
— B.A.P. (One Shot)
— Você sabe o que teremos de fazer com ele se, por algum acaso, decidir não levar isso até o final, certo? — indagou com seu sorriso sombrio. — Ah, Eren, por que você ainda insiste nisso, querido?
— É claro, e ele também está ciente de tudo — respondeu ríspido. — Não sei por que vocês insistem nessa guerra inútil. Por acaso esqueceram que um dia já foram humanos?
— Não se trata do que fomos, mas do que somos — o tom dela se alterou minimamente. — Nós já te avisamos tanto... Nós não podemos amá-los. Ainda que tenhamos aprendido a viver com nosso próprio tipo de amor, nutrir sentimentos por um humano é como puxar a corda da própria forca.
— Eu não ligo se tiver de me matar por ele — deu seu decreto final e virou-se para sair da sala. Antes que pudesse o fazer, sentiu a garra pontuda dela pressionando sua bochecha.
Era normal. Sua capacidade permitia que se locomovessem em milésimos de segundos. Eren não estranhou.
Ela estava atrás dele, e seu hálito cheirava a morte.
— Espero que o seu humano esteja disposto a perder a humanidade — Eren podia sentir sua pele chiando pelo contato com aquela garra. Era como veneno. — Eu te avisei para não se apaixonar. Amar é destruir.
A mulher deu uma risada angelical antes de dizer suas últimas palavras:
— Vá com cuidado, minha doce criança.
***
Levi e mais alguns professores estavam, junto aos alunos, na entrada do colégio. Alguns estavam do lado de fora, outros, do lado de dentro. Eles estavam exatamente na frente da porta, esperando que os pais chegassem para levar os menores. Como era sábado, a maioria dos professores fora dispensada, apenas aqueles estritamente necessários para a prova aplicada no dia estavam presentes.
Mas Levi não estava ali para cuidar dos mais novos. Na verdade, ele recebera uma mensagem alguns minutos mais cedo, onde Eren avisou que passaria lá para leva-lo a algum lugar, e que era melhor ele já esperar do lado de fora. Ele esperava que Eren estivesse de carro, pois havia ido de metrô para o trabalho naquele dia.
— E então, diretor, — uma das únicas professoras com que ele trocava poucas palavras fora do trabalho, a do quarto ano, falou ao se aproximar — o senhor está esperando alguém em especial?
— Um amigo, ninguém tão especial.
— Um amigo? — ela comentou com uma ironia educada. — É mais um dos seus casos de uma semana?
Olhou-a com uma raiva incrédula. Ela era apenas uma colega insignificante que bem de vez em quando comentava algo sobre sua vida pessoal, com que intimidade ela lhe perguntava isso?
— Desculpe, diretor — abaixou a cabeça, enrubescida. — Falei sem pensar.
— Deduzi que sim — ele limpou a garganta. — E ele é mais que um caso de uma semana.
Um sorriso iluminou a professora, que se conteve para não fazer mais perguntas.
Levi estava quase partindo para casa sem esperar Eren, mas, quando percebeu, havia um enorme carro preto a sua frente. Ele nunca entendera muito bem de carros, mas aquele parecia ser uma Hilux SW4, ou algo parecido. Um professor se aproximou do vidro escuro para provavelmente perguntar se era o pai ou mãe de algum aluno, mas, quando abaixou o vidro, Levi pôde ver o rosto risonho de Eren Jaeger.
— Na verdade, venho buscar o diretor — ele explicou.
— Ah, ele está bem ali — o professor apontou para Levi e se afastou, como que com medo de Ackerman se aproximar dele.
Murmurou algo para a colega ao seu lado e andou em direção ao carro, entrando no banco do passageiro.
— Pensei que nunca chegaria.
— Eu tive um... Contratempo — Eren olhou para o vidro aberto e, de propósito, beijou o diretor enquanto fechava-o, de forma que todos os professores e alunos mais velhos viram o beijo dos dois. Acelerou. — Digamos que eu dei uma pequena fugida.
— Para onde vai me levar?
— Lembra o que Mikasa disse? Sobre a conversa com Erwin e tudo mais.
— Sim.
— Eles acham que vai ser melhor te conhecer pessoalmente, determinar se você é do tipo humano tolo ou do tipo diferente. Não entendi, já que teve aquele troço assustador no parque, mas sei lá, Erwin não é entendível.
— E o que você acha? — havia uma ponta frágil na ironia de sua voz.
— Estou confiante de que eles vão te achar... Como posso dizer? Intrigante, e de uma forma louca e incerta, confiável.
— Isso é muito reconfortante, obrigado.
— Agora, eu preciso te explicar algumas coisas sobre... O lugar que nós vamos.
— Me deixa adivinhar: eu não posso soltar a sua mão sobre hipótese nenhuma.
— Basta que você fique perto de mim — deu de ombros. — Mas, se quiser segurar minha mão, eu não ligo.
— Há! Vai sonhando.
— Mas não confie em nenhum deles. Eu me arriscaria dizer que a Hanji é confiável, a sua maneira, mas os outros... A maioria vê os humanos apenas como comida, então cuidado.
— Pensei que eles não pudessem me machucar. Porque eu sou “seu” e coisa e tal — Levi fez aspas com os dedos na palavra “seu”.
— Eles não podem se você não deixar. Somos grandes e perfeitos mentirosos. Sedutores diabólicos que corrompem presas indefesas. Eles não teriam dificuldades em te fazer querer se entregar a eles.
— Ah, desculpe, querido, mas eu trabalho com nomes.
— Jean Kirschtein. Armin Arlert. Carla Jaeger. Grisha Jaeger. Erwin Smith. Petra Ral. Annie Leonhart. Auruo Bossard. Mike Zacharius. Dot Pixis. Marco Bott. Provavelmente esses serão os únicos com quem entrará em contato.
— E Mikasa?
— Ela não vai querer te devorar, mas tome cuidado mesmo assim. Ela não é sua maior fã.
— Percebi — Levi cruzou os braços, concentrou-se na estrada a sua frente. Era incrível como em poucos minutos já se pegava estrada naquela cidade pequena. Mas então, ele se tocou de algo. — Quem são Carla e Grisha Jaeger?
— Meus pais — Eren pronunciou com visível nojo.
— Wow, então tipo, a família toda de vocês foi transformada?
— Isso é uma história complicada — franziu o cenho.
— Nós temos tempo.
— Acho que fazendo um resumo descomplicado, meu pai foi transformado enquanto eu era uma criança e minha mãe sabia, mas disse que assim que eu completasse certa idade ele poderia transformar a todos nós e seríamos uma família eterna e feliz. Na teoria, claro. Em nenhum momento eles consideraram a possibilidade de que eu talvez quisesse uma vida normal ou que eu não quisesse viver com eles para sempre.
— Algum motivo pela repulsa aos seus pais?
— Ah, sabe... Você vai entender se conhecê-los. Para mim é difícil explicar.
Levi se contentou com a resposta, pois estava começando a ficar naquele estado onde você não quer conversar, fazer algo ou até mesmo pensar. Ele tinha essa recaída de humor frequentemente. Se qualquer pessoa tentasse manter uma conversa consigo nesse meio tempo, falharia miseravelmente. Assim, ele pegou seu celular e pôs os fones de ouvido sem realmente colocar algo para tocar. Ficou pensando na agonia que sentira quando tocara a mão de Mikasa. Seria aquele o sentimento de ser eterno?
***
Levi’s mind
O céu era uma massa cinza e negativa. Provavelmente choveria mais tarde. De forma estranha, aquilo deixava o parque de diversão com um ar menos assustador. Num dia de sol era uma imagem bela e demoníaca, num dia nublado era apenas uma imagem demoníaca sendo demoníaca. Não havia enganação nem surpresa. Acho que é por isso que coisas assustadoras e perigosas não dão tanto terror quanto coisas lindas e mortais.
Mas também há algo nessas coisas lindas e aterrorizantes que nos faz hipnotizados e presos. É quase como uma adoração trágica.
O lugar acabou me revirando o estômago, de qualquer forma, e desisti de comer, deixando o lanche que Eren havia me comprado na parte de trás do carro. Pulei para fora do veículo sem nenhuma vontade. Eren já estava ao meu lado. Olhei um pouco para ele e pretendia apenas continuar um trajeto normal até o interior do parque, sem nenhuma babaquice de minha parte. Mas, obviamente, eu tinha que estar tão nervoso ao ponto de não raciocinar o que eu falava.
— Ei, Jaeger.
— Diga.
— Você não tinha tipo que me marcar? Que nem da outra vez, sabe.
— Não — ele riu, mexendo os ombros. — Sem vampiros em dia de Lâmia hoje. Se estivermos falando de proteção para contra os veteranos, você já tem uma cicatriz e isso é o suficiente para... — ele parou e raciocinou por um momento. — Oooh, a menos que queira.
— Ah, não, eu... — desconcertei-me por um instante.
Mas depois lembrei que era o Eren, o idiota que age como um cachorro mas que não deixa de ser extremamente inteligente. Por isso, lancei um olhar de “você sabe o que fazer” e esperei que ele entendesse.
Ele deu um meio sorriso, se abaixando para alcançar minha boca. Como um perfeito trouxa, fechei os olhos antes mesmo de ele tocar em mim e fiquei com aquela cara evidente de que o desejava, de lábios entreabertos e tudo, a sua espera. Quando não o senti, abri-os, indignado. Ele me olhou.
Não foi um olhar comum.
Era como um animal, o brilho vermelho intenso em suas íris. O sorriso mais largo do que deveria, os dentes mais pontudos que o natural.
— Eren?
Sem ter tempo para analisar a situação e concluir se realmente queria que ele me beijasse ou não, senti o impacto às minhas costas. Porque Eren havia me jogado contra o carro. E jogado com força. Fazendo jus à sua aparência, ele avançou em mim e praticamente me devorou — no sentindo conotativo.
Seus dentes arrastando em meu lábio inferior, abrindo as feridas que eu mesmo me proporcionava em momentos de ansiedade. Sua língua, comprida demais para ser humana, me sufocando. E suas mãos.
Queimavam.
Puxando meu cabelo, apertando minha cintura. Ele enterrava suas unhas nas minhas costas, arranhando tanto que parecia que o tecido cederia. Sempre voltando com os toques para a minha cintura, que já estava ficando dolorida. E ele me levantou o chão. Não num duplo sentido, como se eu estivesse amando isso — muito embora os sons que saiam de mim estivessem anulando os meus pensamentos — mas literalmente apertou minhas coxas e as levantou, se encaixando entre minhas pernas.
O fato de que estávamos no meio da rua parecia não importar para ele. Arranhar a tintura do carro, muito menos. Isso até ele me dar um mínimo espaço para respirar. Engasguei.
— Acho que... Foi o suficiente — disse ele, seus traços voltando lentamente ao normal. Com minha falta de resposta, chamou preocupado — Levi?
Peguei suas mãos que me agarravam, me libertando para ficar de pé. Empurrei-o contra o carro com toda a minha força, que, provavelmente, nem era o suficiente para me defender dele, que dirá machucar. Prendi suas mãos uma de cada lado de sua cabeça — tendo que me esticar ao máximo para conseguir tal proeza. Levantei meu joelho e o coloquei entre suas pernas. Esperava que ainda fosse sensível ali, a retração de seus músculos me mostrando que era.
E dei a porra da joelhada mais forte que já dei na minha vida.
— Se você fizer isso sem minha permissão novamente — grunhi — vou cortar isso fora e fazer você o engolir in-tei-ro.
Afastei-me e lhe lancei um olhar numa mistura de fúria e vitória. Ele fazia a melhor expressão de dor que eu já havia visto. E acabei notando, de repente, que ele era realmente lindo. E que eu havia gostado... Deste a dor... Até o prazer.
Entramos pela mesma entrada de funcionários que da outra vez. O parque parecia tão movimentado quanto no outro dia. Eu imaginei se todas aquelas pessoas se importariam caso soubesse o matadouro em que estavam. Bastava estar no lugar errado no momento errado que você estaria morto. Entrar ali era como voluntariamente brincar de roleta russa como se, de fato, fosse algo divertido.
— Ei, para onde está indo? — Eren me deu um puxão e mudou minha direção, fazendo com que caminhássemos até uma enorme construção nos limites do parque. — A entrada é por aqui.
A frente era composta de uma escada de seis degraus, dando para uma porta de madeira, que devia ter tipo uns três metros. Eren abriu-a fazendo parecer simples, mas, em uma fração de segundo, eu pude ver uma luz azulada por trás da maçaneta.
— Antes que você me pergunte o que era aquilo, é um simples detector de calor. Mãos humanas não podem abrir essas portas.
— Inteligente, mas simples e fácil de burlar.
— Sim, é só uma segurança superficial. Se, de alguma forma, alguém que não deveria entrar aqui, é só matar.
— Ah.
Lá dentro, era como outro mundo. Uma fenda no espaço tempo ou talvez uma ilusão real demais. Era frio e escuro, mas isso só a primeira parte, que se parecia com um salão grande e antigo. O piso quadriculado, preto e branco, as colunas de mármore e outra porta de três metros do outro lado. Eu não queria olhar para cima, porque havia aquela sensação de que, se olhasse, me arrependeria. Então continuei seguindo Eren, apesar do frio, suando por de baixo do terno.
***
Não que estivessem preparando algo parecido como uma recepção. Na realidade, Hanji Zoe nem sabia o que se passava pela cabeça de Erwin. Era como uma cova de leões receber a visita pacífica de um grande pedaço de carne crua. Ela não via como ter certeza de que o tal do Levi sabia a respeito de tudo. Ele era um suicida? Talvez não tivesse noção do perigo. Nunca chegou a vê-lo, então imaginava como ele poderia ser. Talvez um daqueles jovens inconsequentes que acham que sabem de tudo e se fazem de fortes. Se bem que esse era o tipo de personalidade do Eren... E o normal é que opostos se atraiam, não? Ela só sabia que estava ansiosa para vê-lo. Havia um prazer estranho em conhecer humanos pelos quais Eren se interessava. Mas provavelmente todos lá sentiam o mesmo.
— Aaah, cara, é um saco que a Mikasa tenha conversado com ele e não queira nos falar nada — Zoe comentou, cruzando os braços e indo para o lado de Erwin.
— Impaciente como sempre — Erwin soltou uma curta risada. — Ele já está chegando, não sente?
— Sim... — Petra também se aproximou. — Acho que todos aqui estão sentindo. É uma presença... Esmagadora. Diferente da de Eren, sutil e penetrante, é violento. Tão violento que quase me deixa animada.
Dentro de três segundos, a porta para a sala foi aberta de forma leve e elegante, como que para torturar a ansiedade de Hanji. Por ela entrou um jovem de expressão neutra. Bem, isso se for analisada por fora. Arriscaria dizer que era um leve quase relaxado demais para ser verídico.
— Boa tarde — cumprimentou enquanto fechava a porta após Levi entrar.
— Porra, tá escuro e quente aqui — escutaram uma segunda voz se queixar abruptamente.
E talvez ele só tenha sido tão violento por ter visto aqueles pares de olhos o encarando e acompanhando cada movimento seu. Olhos brilhantes e doentes, divergindo da escuridão maciça. Eram bonitos.
Quando uma presa se sente encurralada ela mostra seu veneno e suas garras, não é?
"Eu esperava tudo menos um marginal engravatado" esse foi, provavelmente, o pensamento unânime ali.
— Minhas sinceras desculpas. Hanji, vá até a caixa de energia e ative os ar condicionados e as luzes.
— Okaaay.
Mal piscou e Levi já pode enxergar tudo com clareza. Um homem irritantemente alto há cinco metros, um ser indecifrável há sete metros, três pirralhos a sua esquerda, bem mais ao fundo Mikasa junto de outro pirralho. Do outro lado do ser irritantemente alto, se posicionavam uma garota ruiva que parecia um tanto tensa, e mais dois caras. Um deles com um rosto que irritou Levi profundamente, diga-se de passagem. Tinha a expressão daqueles valentões de colégio que o faziam trabalhar nos sábados de detenção. Nos poucos segundos que teve para fazer a varredura do local, não conseguiu achar ninguém que tivesse sequer um traço remotamente parecido com Eren. Desde a postura até o rosto, todos eram diferentes demais dele.
Isso também deixou Levi irritadiço, porque o deixava mais ansioso. Basicamente, todo e qualquer sentimento sentido por Levi Ackerman, podia ser convertido em irritação ou agressividade.
— Muito bem, Levi A...
— Não, seja direto. Por que eu estou aqui? É só isso que precisamos conversar.
— Ah, sobre isso — Erwin sorriu mais para manter a postura do que por vontade própria. Porque, se fosse seguir sua vontade à risca, esganaria aquele humano ali mesmo. Apenas para extravasar, foi até ele numa velocidade incrível e sussurrou: — não é bom conhecer o humano que vem trazendo tantos problemas ao nosso querido Eren?
— Eu sou um problema?
— Humanos são problemas.
— Oh, sim, concordo. Já que era isso, me chamo Levi Ackerman, tenho pra lá de trinta anos e sou apenas um professor da vida. Posso ir? Tenho mais o que fazer.
Como uma presa atiçada.
Era engraçada a forma como eles tentavam parecer naturais como humanos. Isso só os fazia agirem de forma mais macabra.
Todos o encararam por um momento como o diretor que pensa no que fazer com o aluno rebelde. Exatamente o contrário do que estava acostumado.
E Hanji soltou uma gargalhada estrondosa.
— Ah, querido — deu um tapa no ombro de Levi, que não esperava que de repente ela estivesse atrás dele. — Não pense em nós como seres de outro mundo. Já fomos humanos e acredito veementemente que guardamos um pouco disso conosco. Queríamos te conhecer. Precisa de um motivo absurdo para isso?
Levi arqueou uma sobrancelha.
Era óbvio que não estava convencido.
Ele se sentiu tão pequeno — não fisicamente falando, já que era verdade e ele estava acostumado. Mas era a atmosfera dali. Todos eles tinham tanta presença. Uma aura ameaçadora, como se fosse uma competição de quem inibe a maior força mental. Se qualquer um ali... Qualquer um mesmo... Simplesmente decidisse que queria mata-lo, então ele estaria morto antes mesmo de perceber.
E, por incrível que pareça, isso não o assustou. Porque, no momento em que ele pensou que era assustador, sentiu o toque gélido passar entre seus dedos e tomar sua mão.
— Eren — murmurou.
— Deve ficar mais fácil de engolir se pensar neles como uma família — havia um sorriso sarcástico na sua voz. — Uma aberração de família fria. Mas é.
— Bem... — Erwin ia falar, mas foi abruptamente interrompido.
— Senhor, — a voz era feminina. Doce, materna e... Fria. Como um amor que mata, um brinquedo possuído, uma máscara viva ou uma risada demoníaca. Algo que era, mas não era. Algo que arrepiou até o último fio de cabelo de Levi. — nós temos visita.
Um código. Algo que alguém dizia sempre que determinada situação ocorria. Parecia uma piada, mas soava como uma ameaça. Porém todos eles sabiam... O significado oculto naquelas palavras.
— Parece que nossa conversa vai ter que ser deixada para depois, Levi — Erwin dizia enquanto todos os outros andavam apressadamente em direção à porta no fundo da sala. — Eren, você vai nessa missão.
— Não, eu tenho que ir com Levi.
— Foi uma ordem, não uma pergunta.
Eren serrou os dentes, pronto para retrucar, mas Petra segurou o ombro dos dois e sorriu.
— Há mais maneiras de resolver as coisas do que a limitada cabeça de vocês prevê. Leve o humano, é simples — disse com um sorriso perverso. — Vamos mostrar uma historinha de terror para ele.
Eren voltou-se para Levi, ponderando sua decisão. Depois de um tempo pensando, com a preocupação estampada na cara, começou:
— Você vai ficar aonde eu disser que é pra ficar, entendeu?
— Eu vou ficar aonde eu bem entender — Levi revirou os olhos.
— Levi, isso não é...
Hanji surgiu e se apoiou no ombro de Eren, sorrindo de seu jeito anormal. Isso fazia o estômago dela gritar. Um humano presenciar uma de suas missões... Não apenas um humano, mas o humano de Eren.
— Ah, Eren, deixe-o se divertir um pouco — disse ela. — Os locais seguros não têm nenhuma graça.
— Tá vendo? Essa pessoa me entende.
Como se fosse possível, a expressão de Eren se fechou ainda mais.
— Queria nunca ter tido a brilhante ideia de concordar com esses idiotas em te trazer aqui. Você é problemático demais.
— Obrigado, eu tento.
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