Amaranto Negro
8 Um epitáfio para a sensatez
Levi’s mind
Do castanho para o pálido. Do pálido para o azul-marinho. Do azul-marinho para o nada. Esse era o borrão chamado Eren Jaeger na visão de meus olhos agitados, que não paravam nem por um segundo.
Era o mesmo sobretudo de sempre. O aveludado, velho e de coloração azul-marinho. Era elegante e, ao mesmo tempo, inadequado. Ele sempre o vestia. De costas, dava para ver o quão fino e alongado ele era perto dos outros. Arriscava dizer que passava dos 1,80 metros de altura. Ele parecia tão concreto bem a minha frente e, ao mesmo tempo, não existia.
— Quem mais vai nessa “missão”? — indaguei, me ponto ao seu lado.
— Hanji, Mikasa, Petra e Jean — respondeu de forma direta. Ele parecia ponderar se me deixava apenas com aquela resposta para demonstrar sua frustração para comigo ou se continuava a falar. Optou pela segunda opção. — Nós somos praticamente um grupo fixo. Se você não estivesse indo, quem estaria no seu lugar seria provavelmente Auruo ou algum outro. Alguns, como o Armin, têm funções estritamente estratégicas e não servem para combate corporal. Como Erwin não encarregou Armin de nada, provavelmente estamos lidando com renegados, então o principal é a força bruta.
— Então a missão é...?
— Extermínio. Nós executamos o lixo de nossa sociedade, aqueles que ameaçam a harmonia com que tudo flui.
— Como se pudesse existir algo como harmonia no seu mundo — suspirei. — Vocês, monstros, veneram a ironia e o sarcasmo ou é só impressão minha?
— Não. Você tem bons olhos mesmo.
A sala em que estávamos era no subsolo. Aquela porta no grande salão aonde eu tinha encontrado o cara alto e o resto, na verdade, dava para uma passagem que era para ser secreta, mas não era. Nada como um corredor antigo, frio, feito de pedras cinza. Era uma elegante rampa de carpete vermelho. As paredes tinham um papel de parede com ar refinado daquele azul esverdeado que nunca sei distinguir direito. Não era iluminada por tochas ou ausente de iluminação. Apenas lâmpadas comuns, meio amareladas, no teto, dando uma classe àquilo. Mas tinha um ar tenso ali. Enquanto andávamos, dobrávamos várias vezes em curvas e mais curvas, aquilo estava me deixando meio desesperado. Era um dos meus pesadelos de infância. Descer algo que não se dá para ver o fim, apenas descer, sem saber o que esperar. Era engraçado, na verdade. A rampa representava a minha vida e eu os meus sonhos. A vida enterrava meus sonhos e os sufocava, colocando-os numa rampa cômica que parecia ter um fim. Mas não, ela não teria.
Francamente. Eu estaria mais sóbrio com álcool no sangue.
Eren, enquanto descíamos, deu uma trégua em sua “raiva” e abraçou minha cintura, andando comigo colado a ele. Ouvi cochichos atrás de nós, mas eram tão rápidos que não tinha como acompanhar. Era um saco andar abraçado, eu estava quase tropeçando toda hora.
Agora, naquela sala, eu observava o movimento constante dos vampiros. Eles recolhiam as armas e vestiam seus trajes. Era estranho. Eles eram criaturas fortes, rápidas e extremamente inteligentes, mesmo assim, se armavam como vítimas indefesas.
Como se lesse meus pensamentos, Eren respondeu:
— Ao contrário do que os filmes e livros pregam, não somos tão fortes nem tão rápidos. Temos sim essas habilidades mais desenvolvidas que as dos humanos, mas não é o suficiente contra os renegados. Eles são ainda piores.
— Então eles podem te matar, tipo, matar mesmo?
— Que pergunta foi essa? — falou contendo a risada. — Sim, claro. Você só é imortal se for inteligente. Por isso nós, organizações que se utilizam da violência, desenvolvemos armas aptas para nossa força e técnicas.
— Você não vai se preparar como os outros? — virei-me para ele — Não vejo nenhum equipamento tão extravagante com você.
— Eu não preciso disso.
Ele também virou para me encarar e deu um sorriso convencido. Muito lentamente, me puxou para mais perto e segurou minha cintura (novamente a maldita da cintura. Talvez parado eu pudesse mesmo cair, já que todas as minhas leis físicas eram o inverso das comuns), encostando nossas testas. Seu olhar era meio que irreconhecível. Eu adoraria ter me afastado e não ter pagado a humilhação de estar completamente imóvel perante os encantos de Eren, mas não deu. Porque ele me olhou quase como se me amasse e como se todas as suas declarações passassem de apenas um jogo para me desestabilizar. Eu quase acreditei.
Eu precisava de uma bebida para lidar com aquilo.
— Vocês, por algum acaso, não têm álcool de limpeza, suco e açúcar, têm?
— Não — ele se afastou, por um momento confuso, e depois relaxou a expressão, rindo e beijando a minha bochecha. — Não vou deixar você se colocar em coma alcóolico.
— Sabe nem brincar.
Nós rimos levemente e eu decidi dar um passo para trás, mas a sua mão terrivelmente forte agarrou meu braço como se eu fosse uma criança pequena
— Eu não quero que se machuque — sussurrou.
— Eu vivi quase três décadas me defendendo e sendo defendido por humanos. O que te faz pensar que agora alguma coisa vai ser diferente?
— Agora, meu amor, há um perigo real. Não uma série de ameaças fictícias.
Soltou-me, deixando marcas vermelhas demais na minha pele irritantemente branca, e passou a mão na minha cabeça, seguindo para algum espaço atrás de mim.
— Venha — ordenou. — Está na hora.
Revirei os olhos diante da frase clichê. Senti alguém ao meu lado, mas não quis olhar. Na verdade, não me importava. Apertei o passo até ficar do lado de Eren, que me ignorou assim como eu havia feito com a pessoa de antes. Sem que me desse conta, nós andamos, em grupo, até algo próximo de uma garagem. Era e não era, assim como tudo ali. Um pouco moderno demais para uma simples garagem e um pouco simples demais para passar disso.
— Certo, vocês vão de carro? — comentei reprimindo o riso.
— O que é tão engraçado? — perguntou a figura impotente do loiro alto de antes (que eu já estava supondo ser o Erwin, por causa da descrição de Eren).
— Sei lá, é meio doido que gente tão sinistra como vocês vá por um meio comum.
— Não é porque somos vampiros que vamos viver como se fosse a idade média — o possível Erwin sorriu.
Olhei para Eren e ele fazia uma careta.
— O que foi? — perguntei de forma divertida.
— Odeio esse termo.
— Que termo?
— Vampiro — respondeu Mikasa, parando ao meu lado. — Eren odeia esse nome.
— Oh, mas não é exatamente o que vocês são? Vocês sugam a vida de algo. Utilizam-se da força vital de um ser vivo para se alimentarem. Até humanos podem ser vampiros, se eles extorquirem algo de alguém como uma necessidade. É um termo perfeito para vocês. Não há lógica em odiá-lo. Assim como Levi Ackerman é um alcóolatra, políticos são corruptos e vocês são vampiros.
Não me arrependi de nenhuma palavra, mesmo quando ficaram em silêncio por longos segundos (que pareceram horas). A primeira a falar foi a que Eren havia me apontado como Hanji. Era estranho, ela mais parecia um homem do que uma garota.
— É definitivo: esse é o melhor humano que você já teve, Eren.
Eren deu de ombros e me guiou até o carro. Percebi várias ondas hostis me perseguindo e prendendo, como se fossem elásticos. Eu quis rir, mas me contive.
— Você vai ficar ali no banco do passageiro, ao lado de Hanji, que vai dirigir. Nós ficaremos atrás para falar sobre a missão e tudo mais.
— Tudo bem.
— Pensei que fosse pedir para ir comigo — fingiu uma cara de decepção.
— Até parece que não me conhece, Jaeger.
Ele sorriu e beijou minha testa, abrindo a porta para que eu entrasse. Não era de agora, mas esse seu jeito de agir como se estivéssemos numa relação estritamente romântica estava me incomodando. Nós não éramos um casal, nem nunca seríamos. Joguei-me no banco, fazendo parecer que eu era um ogro perto das figuras leves e cuidadosas que entravam no carro sem balança-lo. Assim que Hanji acelerou, o burburinho na parte de traz se deu inicio.
— E ele já teve muitos? — tentei parecer debochado, quebrando o silêncio entre mim e ela.
— Muitos o quê?
— Namoros, paixonites, casos, humanos. Como preferir.
— Ele costumava ter mais... Agora que você disse, faz um bom tempo que ele não aparecia com alguém.
— Tipo cinco anos?
— Tipo cem anos.
— É O QUÊ?!
O carro ficou silencioso por um instante, Hanji acelerava e manobrava para sair do parque de diversões.
— O que você disse para o Levi, Hanji? — Eren riu.
— Só estamos fofocando sobre você, volte com os planos — Hanji sorriu. — Oh, falando nisso, ainda não nos apresentamos, não é?
— Pensei que era o único que tinha reparado nisso.
— Certo, aquela ruiva ali é a Petra. Ela é um amor, mas uma víbora quando quer. O loiro falso com cara de cavalo é o Jean, ele e Eren brigam pacas. Mikasa você já conhece, mas, ao contrário dos outros, ela parece não gostar de você. Bem, e eu sou Hanji. É ótimo te ter aqui, Levi.
— Valeu, você é ótima, senhorita Hanji.
— Que gracinha, posso te por num pote?
— LEVI! — escutei Eren gritando meu nome da parte de trás. — Calma, não aceita, respira, diz que não. Ela vai te fazer de cobaia bioqui...
— Cale a boca, Jaeger — foi o que eu e Hanji dissemos ao mesmo tempo.
Entreolhamo-nos e eu dei um sorriso de canto, enquanto ela gargalhava. Os outros trevosos (meu novo apelido para não ficar relacionando a palavra “vampiro” com Edward e coisas assim) puxaram Eren de volta para a conversa. Voltamo-nos para frente.
— Se tiver qualquer dúvida sobre os seres daqui, é só me dizer — continuou a mulher. — Erwin foi muito indelicado ao não te apresentar adequadamente. O pessoal na organização deve estar morrendo de inveja. Tipo, eu estou falando com você diretamente!
— E eu sou algum tipo de celebridade agora?
— Algo parecido com isso.
— Hm... Deve ter sido por isso que tana gente tava naquele salão mais cedo. Achei desnecessário. Agora me diga, como foi o último humano de Eren?
Espreguicei-me e olhei, com a visão dificultada pelo vidro escurecido demais, para a janela, constatando que estávamos no meio do nada. Parecia ser algo como uma floresta confusa e escura. Estava grato por estar dentro de um carro acompanhado de cinco máquinas de matar e não perambulando pelo ar bipolar do dia que mais parecia noite.
Hanji tossiu antes de falar.
— Era uma garota muito estranha. Ela era meio hostil, mas ficava dócil fácil. Ela morreu bem rápido num padrão de hoje em dia, mas até que durou para a época.
— Ele deve ter ficado mal.
— É, mas isso era o esperado.
— Como assim?
— Os partos não eram tão seguros antigamente e...
— Espere, partos? O Eren pode...? É o que, doida?
— Ah, acho que você não sabia — ela mordeu o lábio inferior e olhou pelo retrovisor do carro. Voltou seu olhar para a estrada um tanto quanto agitada. Eu meio que sabia que, ainda que conversando baixo, todos escutariam o que dizíamos. Eles nutriam minha ilusão de que nossa conversa era privada discutindo rapidamente e por vezes parando para se envolver numa conversa mais relaxada e em tom mais natural. — Eren costuma ficar perto dos humanos que gosta, — prosseguiu ela — até os trás para o parque às vezes. Se alguém der a loca e decidir sair falando sobre a sua natureza e sobre nós, o Eren já prometeu que mataria a pessoa sem hesitar. Mas nem todos escolhem ficar ao lado dele, mesmo pensando que é humano. Ela foi uma dessas. Ela pensou que ele não a amava, apenas tinha uma queda por ela, então logo terminou com ele e se casou, teve filhos também. Morreu de infecção generalizada no parto do segundo filho.
Eu não entendia.
Ele era capaz de aceitar a morte tão fácil? Se era assim, por que se preocupava tanto com a minha presença na sua missão? Não fazia sentido. Eu já não conseguia interpretar o amor humano, que dirá aquela massa disforme e desprovida de sentido que era o que ele chamava de “amor”.
Sendo assim... Ele seria capaz de me matar também?
— Não se engane – a voz de Hanji interrompeu o fluxo de meus pensamentos. — Ele sofreu muito, mas não havia nada que pudesse fazer. Ele sequer pôde felicitar ou se despedir de Marlee. Eren não passava de um velho amigo da adolescência que, sobrenaturalmente, não envelhecera. Ela que escolheu se desvincular dele.
Mas por que, então, quando eu tentara fazer isso ele não havia me deixado ir?
Fiquei um pouco em silêncio, refletindo sobre aquilo. Mas Hanji logo continuou:
— Então nosso Erenzinho se apaixonou novamente, né... Adoraria saber mais sobre esse enigma ambulante que é você.
— Não, não. Sou apenas um professor bêbado. Um alcóolatra inútil. Nem sei o que Eren viu em mim.
— Você é gato, nem vem. Tipo, muito gato. Eu te pegaria se Eren não tivesse visto primeiro. — ela empurrou meu ombro sinalizando que era brincadeira. — O que você gosta de fazer?
— Beber, transar e estudar. Acho que isso resume a minha vida. E você? Não é uma pergunta por mera educação.
— Eu? — ela pareceu impressionada por um momento. — Eu gosto de estudar também. Acho os renegados e os caçadores figuras, particularmente, interessantes. Ah! Adoro arquitetar. Toda a estrutura do nosso parque foi feita por mim. Eu conheço até o mais íntimo esconderijo daquele lugar.
O pensamento de que aquela moça simpática tinha feito algo tão macabro me deu um arrepio. Isso estava certo?
Realmente, eu sempre estive numa caverna. Não que eu gostasse de filosofia, mas Platão me parecia fazer muito sentido agora. O que eu vi foi sempre a sombra de uma realidade, não é? E até mesmo naquele momento, quando uma cortina se abria para um outro grau de verdade, eu estava apenas assistindo um teatro das coisas que são, mas não são. Eu sempre estive acorrentado, vendo uma parede, uma vida de sombras. Como é o mundo lá fora?
Mais importante que isso: eu queria mesmo saber?
A sombra era Hanji e o seu modo cativante, simpático. A sombra era toda aquela encenação de palavras docemente ditas por Eren. Mas e o mundo real?
Talvez eu estivesse prestes a descobrir. E talvez eu não quisesse isso. Mas não era como se eu tivesse alguma vontade sobre a minha vida desde que Eren Jaeger a invadira.
***
Cheirava a álcool.
— Eu preciso de uma vodka.
Deus é um cara muito irônico. Dentre todos os zilhões de lugares que essa missão poderia acontecer tinha que ser no hospício. Sério isso? Sério mesmo?
Tive que abrir a boca para tentar respirar. O oxigênio me faltava, mas não era como se eu demonstrasse. Forcei o meu peito a subir e descer normalmente, de forma compassada. Obriguei minhas mãos a se manterem quietas. Eu quase — quase — consegui manter meu rosto impassível também, mas havia alguém ali que via através de mim.
— Nós vamos primeiro — murmurou Mikasa no silêncio mórbido dentro do carro. — Eu, Petra e Jean. Eren e Hanji, vocês sabem o sinal, certo?
— Sim — Hanji impediu Eren de falar. — Eren, você vai assim que eles sinalizarem. Eu fico com Levi e faço a segurança dele.
— Não. Levi fica comigo — ele foi firme e se utilizou do seu tamanho para demonstrar o quanto estava seguro de sua vontade.
— Ah, docinho — Hanji sorriu ternamente. Um terno assombroso. — Vamos, não dificulte tudo. Você sabe que eu sou o suficiente para ele. Qualquer coisa, trocamos de postos.
Mas, se não desse errado, não seria a minha a vida. É óbvio que deu errado.
Mikasa, Jean e Petra simplesmente desapareceram entre uma piscada de olhos e outra. O ambiente parecia morto. O tempo não passava. Não havia barulho, não havia movimento. A nossa frente, um lugar enorme e velho. Era muito parecido com um lugar que eu estivera havia muito, muito tempo. Em suas paredes, gritos calados estavam absorvidos. No seu chão, a desgraça, o sangue, os corpos, todos invisíveis. E no seu ar... A tragédia. A loucura. Uma memória que não deveria existir.
— Você parece estar passando mal — Hanji disse baixinho. — Quer algum remédio?
Eu não tinha voz para responder. Não era por estar impressionado ou por estar com medo, só não queria abrir a boca para falar. Não tinha força para isso. Abri a porta do carro e tive a sensação de ter entrado num depósito velho. Estávamos ao ar livre e tinha muitas plantas em volta, mas havia algo espeço no ar.
Saí do carro e, em seguida, escutei outro barulho de porta batendo.
Eren me levou para dentro da floresta. “Não tem perigo?” eu queria perguntar. Mas seria uma dúvida por mera curiosidade, pois eu sabia que com ele não havia perigo. Sua força era como a de um Deus comparada a de um humano como eu. E olha que eu não era um humano tão fraco assim.
Depois de quase um minuto andando, olhei para trás e não vi mais o lugar de onde tínhamos vindo. Nesse instante, Eren parou.
— Aqui parece melhor de respirar — comentou, meio distante.
Automaticamente, respirei fundo. Realmente, parecia melhor ali.
— Obrigado — soprei.
— Você não tinha que ter vindo — ele disse, num suspiro.
— É, mas eu estou aqui.
— Jura? Pensei que fosse uma imagem holográfica.
Fui até a árvore mais próxima e me apoiei ali. Era uma mania divertida. Eu sempre adorei plantas e suas texturas, cheiros. As coisas pareceram um pouquinho mais claras na textura daquele tronco. E eu percebi, claramente, que queria uma coisa.
— Ei, Eren.
— O que foi? — meio que involuntariamente, deu um passo na minha direção.
— Sabe... Eu tenho um sonho.
— Que tipo de sonho? — riu.
— O tipo que você pode realizar.
— Diga logo.
— Um boquete. Eu quero um boquete.
Só de pensar na cena de mais cedo, quando ele havia me beijado com aquela língua comprida demais para ser humana, eu sentia meu pênis latejar. Imagina aquela língua trabalhando num boquete, meu Senhor. Assim eu deduzi que vampiros não eram demônios nem seres do inferno. Só Deus poderia fazer uma coisa tão boa quanto aquela língua. Os lugares que ela poderia entrar, a extensão que ela poderia lamber...
— O que você faria se... — apoiou seu antebraço no espaço de árvore acima da minha cabeça e manteve-se muito próximo a mim — eu tivesse que ir de repente? Você sabe, não estamos aqui por lazer.
— Eu sou uma criança mimada e quero um boquete.
— Quando voltarmos eu te dou um. Agora seja um bom garoto e se comporte até podermos fazer isso.
— Tá. Eren...
Seus olhos se voltaram rapidamente para a esquerda, a direção do hospício, e ele colocou o indicador na frente dos lábios, me avisando para ficar em silêncio.
— Esse é o sinal? — murmurou depois de um momento. — Que irônico. Enfim, como prefere?
— O boquete?
— Não. Que eu te carregue. Mais tarde você me diz como prefere o boquete.
Isso estranhamente me animou.
— Você tem mesmo que me carregar?
— Você consegue correr na mesma velocidade que eu?
— Tá, hm... Faz o seguinte. Vai na frente, eu já te alcanço.
— Duvido. Mas se você se recusa...
Ele se abaixou e eu pensei que correria, mas, em vez disso, ele abraçou o meu quadril e... Me jogou por cima de seu ombro. Aquele cretino.
— O que você... Porra!
Eu estava morrendo percorrendo aquela velocidade e, ainda por cima, de cabeça para baixo. Eu teria tentado socar as costas de Eren se isso não fosse completamente inútil e ficasse parecendo aquelas princesas de desenho animado. Em vez disso, me contentei em olhar para baixo (ou seria cima, do meu referencial?) e observar a bunda de Eren. O seu tronco vibrou quando coloquei as duas mãos sobre o volume firme e redondo. Eu ia apalpar melhor, mas ele me colocou no chão.
— Hanji — chamou. Um tom constante, baixo, como se fosse algo mecânico.
— Eu fico com ele a partir daqui — de repente, ela estava ao meu lado, segurando meu braço. Vá se juntar a Jean, Petra e Mikasa.
Ele deixou um beijo na minha bochecha antes de desaparecer, e eu encarei Hanji meio sem graça.
— O que fazemos agora?
— Nós prometemos te mostrar umas historinhas de terror, não? Que tal assistir?
E devia ter dito não. Meus pais sempre me disseram que eu não tomo conta muito bem da minha vida. Se eu tomasse, teria pedido pra ficarmos no carro ou do lado de fora. Mas o brilho nos meus olhos denunciaria a minha curiosidade de ver como aquilo funcionava. Era um desejo quase infantil de querer descobrir mais, de se meter em uma aventura.
— Eu vou na frente. Siga-me para o inferno — ela sorriu.
Por dentro, era exatamente como eu esperei que fosse. Vidro quebrado, sujeira, frascos, aparelhos velhos. E tinha aquele fedor sufocante. Um lugar com cheiro de mofo, álcool, umidade e algo mais. Algo meio podre e meio doce.
Hanji não fazia barulho, mas eu não podia dizer o mesmo de mim. Cada passo era absurdamente alto no eco. Cada respiração parecia errada.
Um vulto. Como sempre, eu sabia do que se tratava.
Ainda era como qualquer outra escuridão. Ainda tinha a frieza palpável. Aquele era Eren e eu não tinha dúvidas disso.
— Aqui não é seguro — um sussurro deixado para trás.
— Vamos para o andar de cima — Hanji me puxou para uma escadaria a nossa direita.
E tudo aconteceu tão rápido que minha mente só foi processar isso mais tarde.
Hanji foi atacada.
Ela estava do outro lado do pátio. No chão.
Algo arranhou meu rosto. Minha pele começou a queimar.
Um corpo caiu a minha frente.
Algo me jogou para a direita, muito longe de onde estava antes.
Uma dor do capeta tomava conta da minha cabeça. Meus pensamentos estavam meio nebulosos, eu só sabia que estava jogado de lado no chão sujo. Um barulho muito alto, seguido de um grito. Levantei meu tronco, desesperado para saber o que estava acontecendo. O movimento brusco fez o corte no meu rosto latejar mais, mas não importava.
Mikasa estava juntando alguns corpos num canto perto da janela. Hanji e Jean seguravam um que ainda se mexia... Bem, vamos fazer uma pausa.
Não pareciam com humanos ou com vampiros. Sua pele era como um solo cinza e rachado. Tinham poucos fios em suas cabeças, seus corpos eram esqueléticos. Olhos completamente pretos. Caninos que passavam de seus queixos. Os mortos ganhavam um tom escuro aos poucos, parecia que desintegrariam. E o vivo me parecia... Bem selvagem.
Enfim, esse que se mexia estava ajoelhado. Hanji segurava seu braço esquerdo e Jean o direito. Petra de repente caiu (ou pulou) do andar de cima, pousando ao lado de Mikasa. Mas onde estava Eren? Ele havia passado por mim, eu sabia disso. Eu sentia.
— Você está bem? — uma voz atrás de mim.
Sobresaltei-me.
Acima de nós, estava a escadaria. As janelas velhas e empoeiradas deixavam entrar uma luz pálida ao fundo que não nos alcançava. Agachado bem no encontro de uma parede com outra, estava Eren. Seus olhos brilhavam. Não aquele brilho de reflexo de luz, mas era como se eles fossem lanternas. O amarelo esverdeado brilhando como neon. Todo o resto de seu corpo envolto por sombras.
— Levi? — inclinou a cabeça para o lado. De uma forma muito psicopata, diga-se de passagem.
— Eu... — minha voz não saiu. Limpei a garganta. — Eu estou bem, obrigado.
Ele esticou a mão na direção do meu rosto, mas parou assim que escutou seu nome ser chamado por Jean.
De toda forma, eu teria me afastado antes de ele me tocar.
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