Amaranto Negro
15 Um epitáfio para os renegados
Ainda entre as pernas de Levi, Eren atendeu o telefone.
— Precisamos de reforços — Mikasa gritou do outro lado da linha, Eren colocou no viva voz. Não estava com paciência se segurar o telefone, então o deixou em cima da bancada enquanto abraçava Levi e se acomodava na curvatura do pescoço dele. — Esses renegados... Não, não são renegados. Eles são diferentes! Não bebem sangue há muito tempo e, no entanto, têm a força de alguém com sangue humano nas veias, são tão vívidos quanto.
— Como isso é possível? — Eren murmurou sem muita credibilidade.
— Como eu vou saber, maldição?! — a ligação chiou e ficou muda por um instante. E daí a voz surgiu de novo, porém mais baixa e rápida. — Apareça no armazém nos limites da cidade, aquele que estamos estudando faz um tempo. Espero que não demore mais que cinco minutos.
A ligação foi cortada e Eren soltou uma lamentação arrastada.
Ele normalmente não se importaria de ir ajuda-los. Então por que estava assim? Nem ele mesmo entendia o motivo de estar cansado. Quer dizer, não era possível que seu corpo se cansasse. Ele estava morto.
— Acho que eles estão com problemas — disse endireitando a postura.
— Ah, você acha? — Levi foi irônico — Não sei se a parte em que ela gritou “precisamos de reforços” foi desesperada o suficiente. Não me pareceu convincente.
O vampiro se afastou um passo e olhou em volta, procurando força de vontade.
Sua alma estava cansada.
— Eu te levaria comigo...
— O que seria perfeito, já que as chances de eu morrer em algo assim são altíssimas.
— É, mas eu viajo mais rápido sozinho.
— Sei disso, prometo arranjar outra situação pra correr o risco de morrer, então vai na paz.
Eren quis rir, quis encarar como uma piada. Mas ele sabia que era verdade, e que isso começava a incomodá-lo.
Aproximou-se novamente de Levi, passou as mãos por suas coxas o puxando para que ficassem ainda mais juntos. Queria encostar em todas as partes daquele corpo, queria senti-lo vivo, sentir sua pele latejando como todo humano fazia.
Encostou sua testa na dele. Beijou suas pálpebras, a marca de expressão entre suas sobrancelhas, sua maçã do rosto, a ponta de seu nariz gelado, os cantos de sua boca. Sentiu sua respiração parar por alguns segundos quando beijou sua boca, e sentiu-a voltar quando encarou no fundo daqueles olhos azuis.
— Eu queria que você vivesse como se fosse feito de vidro — sussurrou Eren. — Nós só sabemos o que temos quanto tudo que temos se vai. — Citou — Só sabemos onde estávamos quando nos perdemos. Só sabemos o que sentir quando os momentos passam. Só sabemos o que é certo quando fazemos o errado.
— Hm, deixe-me adivinhar... Uma das músicas mega hipsters que você adora.
Levi não aguentava ouvir Eren falar. Não aguentava perceber o quanto ele e Amélia não se pareciam em nada, apesar de serem igualmente loucos. Então puxou sua nuca e o beijou com firmeza, quebrando a camada de delicadeza refinada com que Eren havia beijado todo o seu rosto antes.
— Eu queria ser feito de vidro — respondeu Levi ainda com o seu rosto próximo ao de Eren, os olhos fechados.
Eren deixou um beijo de despedida em sua testa úmida e saiu pela porta de vidro, começando a correr por entre as árvores.
Durante os primeiros minutos ele apenas se concentrou em não tropeçar nem trombar com nada. Depois de pegar o ritmo, começou a raciocinar.
Desde sempre, lembrava-se de seu pai buscando uma forma de transformar vampiros em humanos. Eren, mesmo que passasse muito tempo sem se alimentar, continuava absurdamente forte. Quando se alimentava, então, poderia ser considerado um dos mais fortes, senão o mais forte vampiro de todo o país. Recentemente, Grisha aparentemente o havia sequestrado e, desde então, sentia como se estivesse em Lâmia todos os dias... E agora, estava cansado. Cansado como se fosse humano e tivesse vivido umas três ou quatro vidas inteiras.
Ele sabia o que Grisha queria, sabia que tinha capacidade para tal. Mas ele não tinha ideia de qual seria o seu próximo passo, nem de como o faria. Isso o assustava.
Chegou ao armazém. Poeira, sangue de animal com água, cerveja melada e seca, pão velho, farelo de biscoito, embalagens de plástico e papel, água suja, casca de cebola, talco, panos velhos, encanamento enferrujado... E algo doce queimando. Esse era o cheiro dali, cheiro normal de armazém com uma pitada de sobrenatural. Nada incomum demais.
Com toda a confiança que suas habilidades permitiam que tivesse entrou no lugar em passos sonoros. Um de cada vez, um atrás do outro, um estalo assustador no chão, produzia um eco fantasmagórico. Mas o barulho era a parte menos assustadora nele. Os olhos eram deveras aterrorizantes, com aquele brilho intenso ainda que no escuro. Bem como a sua pele se rachando aos poucos, dando início à Transformação. Porém, o que fazia o inimigo tremer de medo, fugir antes mesmo de lutar, era o sorriso. Não pelos caninos ameaçadores, não.
Era apenas um sorriso. E, ao mesmo tempo, não o era.
— Sabe, eu não vim brincar de esconde-esconde — bocejou. Espere, bocejou? — Se vocês puderem facilitar o meu trabalho e só... — esquivou-se para direita enquanto uma mão passou zunindo pelo seu ouvido. Agarrou o braço e jogou a pessoa no chão. — Obrigado.
A menina ruiva dos olhos verdes rolou sobre um ombro e se recompôs, parando meio agachada, meio de pé.
— Oooh — Eren fingiu surpresa quando ela partiu para atacar de novo. — Até que você tem força de vontade. Mas seria uma pena se eu te quebrasse.
Sem hesitar, sem pensar e sem ter pena, ele pisou em seu joelho direito, emitindo um barulho horrível de ossos se partindo. Ela gritou, e então ele pisou no joelho direito.
O sorriso continuava lá.
— Seu pirralho de merda! — a voz era masculina.
Antes de se virar para quem quer que vinha atrás dele, deu uma joelhada nos cotovelos dela, emitindo o mesmo barulho de ossos quebrados e os deixando num ângulo completamente contrário do natural. Ela desmaiou.
— Agora... — cantarolou enquanto o garoto encoberto pelo capuz de um moletom pulava nele. — Vamos cuidar do outro delinquente.
Não foi preciso mais do que dois golpes para deixa-lo no chão ao lado da menina. Atou as mãos dos dois com ligas de kevlar, uma fibra sintética cinco vezes mais resistente que o aço.
— Antes de me chamar de pirralho — debochou Eren, levantando e colocando a sola do sapato no rosto do garoto no chão. Colocou todo o seu peso naquele pé. — saiba que eu devo ter idade pra ser trisavô do trisavô do seu trisavô. — O garoto grunhiu e ele deu uma risadinha cínica. — Prontinho Mikasa, Jean e Petra. É para mata-los ou Erwin quer eles?
— Vamos leva-los pra van — disse Jean, saindo de trás de um container.
— Não é mais fácil só chamar Erwin pra decidir? — Mikasa reclamou baixinho vindo logo atrás, Petra concordou. — vai ser problemático colocar esses caras no carro.
— Complicado? — Eren deu um meio sorriso confuso. — Aliás, por que vocês me chamaram aqui? Foi bem fácil cuidar deles.
— Fácil?! — Jean vociferou.
Talvez, no fim das contas, pessoas especiais, ainda que não sejam humanos, não possam entender os demais. O olhar de Eren de pura ignorância a respeito da fraqueza poderia dar arrepios, se aqueles três ainda se arrepiassem. Ele não sabia o que era ser fraco, não sabia o que era lutar e perder.
— Eles são fortes — Mikasa suspirou com certa presunção. — Mas Eren é três... Não, pelo menos, cinco vezes mais. Não se surpreenda tanto assim, horseface.
— Ele entrou pra equipe só há uns cinco anos — Petra riu com gentileza, apesar de ser difícil distinguir sua expressão com aqueles olhos brilhantes no escuro. — Ele ainda se surpreende com o nosso trunfo, dê um desconto.
Por um momento, eles quase se esqueceram do perigo aos seus pés.
— Eren... Jaeger — a menina no chão, com os membros dobrados em ângulos esquisitos, rosnou. — Temos um recado para esse cara.
— Hm, sou eu — Eren apontou para o próprio rosto.
— Como vamos saber? — o garoto perguntou um pouco mais calmo que a menina. Quando levantou a cabeça, seu capuz saiu. Ele era loiro e tinha olhos azuis muito inteligentes.
— E que diferença faz pra vocês? — Eren riu e o chutou no estômago. — Com que vantagem vocês tem o direito de nos fazer exigências agora?
— Bem, — o rosto da garota estava numa careta de dor, e ainda assim ela sorria — vocês talvez queiram saber sobre o Dr. Jaeger, pai de Eren Jaeger. E sobre os renegados que andam mais humanos do que os próprios caçadores. Concordamos em dar essas informações pacificamente para Eren.
Eren quase deixou o choque ir para a sua expressão, mas ele manteve a postura.
— Onde Grisha está?
— Calma aí — Num salto, o garoto deu uma cambalhota sobre os ombros e sentou de pernas cruzadas. — Acho que esse assunto só interessaria Eren Jaeger, filho do Dr. Jaeger. Não falaremos com mais ninguém.
Eren xingou mentalmente. Fez mais perguntas, mas eles não falaram nada, nem mesmo debaixo de pontapés, ossos quebrados ou peles arrancadas.
— O que você quer? — finalmente Eren havia ficado sério. — O que eu tenho que fazer para provar que sou Eren Jaeger?
— Hm... Acho que só há um jeito. Deixe-nos falar com Levi Ackerman.
— Levi...?! — Eren finalmente perdeu a compostura. — Como vocês conhecem Levi?!
A menina piscou um olho e respondeu com malícia:
— Por que não pergunta pra Levi quando ligar para ele?
***
Levi acendeu um cigarro, o segurando entre os lábios, enquanto olhava por sua janela. Não estava com paciência para resolver todos os problemas que surgiam na última semana de aula, no entanto, não estava fugindo, aquele era apenas o seu intervalo. Fazia tempo que não fumava, e não estava gostando muito, então apagou o cigarro no cinzeiro e o deixou ali. Qual era mesmo a graça de encher os pulmões de fumaça? Ah, teria graça se fosse soltar a fumaça de uma forma sexy entre um beijo com Eren, aí sim. Se ele tivesse de listar os motivos para não morrer ali, naquele lugar, o primeiro seria:
— Ainda não tentei Eren o suficiente.
Riu consigo mesmo. Como se ele pudesse dispensar uma forma interessante de morrer por algo assim.
Seu telefone tocou e na tela apareceu um número desconhecido.
— Alô?
— Levi, é o Eren.
— Diga, benzinho.
— Você me dá calafrios.
— Eu tento.
— Que horas o seu expediente acaba hoje?
— Go san jyuu.
— Na verdade, quando se fala as horas em japonês, você acrescenta o “ji” e o “fun”, que às vezes se lê “pun”. Então será que o que você está tentando falar é Go ji san juppun?
— Desculpa aí, bichão, não quis ofender.
— De toda forma, vou passar aí nesse horário. Tudo bem se você me fizer um favor?
— Desde que ele envolva eu e você nus numa cama, claro.
— Por favor.
— Ok, ok, de boa. Mas eu estou de carro, então apareça a pé.
— Tá.
— Qual é o favor?
— Preciso que você fale com umas pessoas perigosas, sei que você vai adorar.
— Claro, esse é o meu hobby.
— É claro que é.
— Então tchau — despediu-se Levi, e então acrescentou com ironia — Fica com Deus.
— Tchau — Eren respondeu com seriedade. — Eu te amo.
Levi riu.
— Também.
Às cinco e meia em ponto, sentiu um vento forte entrar por sua janela. Não deveria, porque tinha certeza de que ela estava fechada.
— Você deveria trancar a janela, e não deixar encostada — disse Eren, apoiando-se em seus ombros por trás. Levi estava sentado em sua cadeira, que ficava de costas para a janela.
— Se estivesse trancada, você teria que passar por toda a escola só pra chegar aqui, e eu não sei se estou muito afim de aguentar os gritinhos das meninas quando te virem.
— Gritinhos? — o sorriso estava na voz dele.
— Você parece um modelo de capa de revista, um pouco pálido, mas parece.
— Aw, tão cortês de sua parte.
— Aw, como se você não soubesse da cara que tem.
Eren riu e girou a cadeira de Levi em sua direção.
— Então imagino que queira fugir comigo pela janela. Seria doloroso demais desfilar até a entrada com alguém como eu, não é?
— Na verdade, acho que me perguntariam como diabos você entrou aqui.
— Oh, então vamos assusta-los.
Levi olhou com olhos estreitos para ele por um momento. Depois de dois segundos, deu de ombros e se levantou.
Eren não se cansava de vê-lo, de grudar seus olhos no movimento de suas costas largas, ou no seu cabelo macio caindo em seus olhos azuis.
— Dá pra sentir você me encarando — Levi comentou de costas.
Eren sorriu um pouco, em meio segundo estava com as mãos no abdômen de Levi e com o quadril colado à sua bunda.
— Infelizmente, a situação que temos pra resolver é séria — ele sussurrou com a voz levemente rouca. — No entanto, hoje à noite...
Levi teve de engolir em seco. Ele deu um meio sorriso e assentiu, saindo em direção à porta.
Ele gostava dessa parte de Eren, sinceramente. Mas faltava algo, ele sentia. Estava começando a se incomodar com isso. Não sabia se era porque ainda mantinha a figura as menina no sanatório consigo, mesmo depois de tantos anos de sua morte, e também não sabia se era por causa dessa aflição, como se toda hora algo estivesse pra acontecer.
E não sabia se era por, simplesmente, estar apaixonado por Eren e não admitir isso nem para si mesmo. Ele era bem grandinho para essas coisas, afinal.
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