Amaranto Negro

16 Que Deus tenha piedade


Assim que entraram na organização, Eren se espreguiçou como se há muito não se movimentasse. Isso fez todos os olhares voltarem-se para ele, porque, afinal, vampiros não precisam se espreguiçar.

Esticou o braço e girou o tronco, um tanto alheio, e bocejando. Os outros vampiros o encararam com ainda mais estranheza, pois seus ossos estalaram sonoramente até mesmo para Levi, seus músculos se contraíram e relaxaram, quase como se ele estivesse vivo.

Antes da porta ser fechada e ficarem em escuridão total, Levi pôde ver Erwin de pé perto da entrada para o corredor louco da Asas da Liberdade. Ao seu lado estava Armin, relatando alguma coisa com seriedade. Arlert quase não demonstrou, mas Levi pôde ver em seu olhar, em seus ombros, que ele ficou tenso assim que o humano chegou.

As luzes foram acesas e Levi conseguiu notar mais alguns vampiros. Hanji estava falando no celular do outro lado do hall de entrada. Petra trazia um líquido escuro em copos transparentes e distribuía para todo mundo. Mikasa ouvia atentamente o que Armin falava, Levi não a tinha notado antes porque sua figura se misturava com as sombras do corredor. Era uma visão bonita, de alguma forma.

Eren e Levi se aproximaram. Petra ofereceu o copo com o líquido duvidoso para Eren, que fez uma careta e negou.

— Isso é de animal?

Petra pareceu se ofender.

— Não! De onde diabos isso tem cheiro de animal?

— Me dá ânsia.

— Eu achei muito gostoso — disse Erwin.

— Obrigada. Pelo menos alguém me valoriza, né, Eren?

Levi soltou uma risada de escárnio.

— A casualidade de vocês é adorável. Mas enfim, onde estão nossos monstrinhos? —perguntou, juntando as mãos, enquanto Petra ligava o ar condicionado.

— Está num lugar muito escondido do Corredor — respondeu Erwin, cujo tom de voz era rijo e forçadamente gentil. — Armin os levará até lá.

De repente, Levi deu uma gargalhada alta que cortou o silêncio profundo daquele lugar. A maioria parou o que estava fazendo e o encarou com um olhar estupefato.

— Vejam só que ironia: a puta comunitária foi promovida pra secretária — riu. — Shhh, não contem pra dama que é tudo a mesma coisa.

Eren teve de colocar as duas mãos na frente da boca para não rir também. Mikasa virou a cabeça para o lado, tentando esconder o riso. Hanji gargalhou abertamente.

O resto estava com medo demais de Erwin, que assumia uma postura protetora a frente de Armin, para esboçar qualquer reação.

E tudo aconteceu num simplesmente, rápido demais para que Levi acompanhasse.

Viu algo saltando em sua direção, e algo o empurrando para o lado com uma delicadeza estranha. Viu um emaranhado de pernas e braços e dois homens no chão numa posição estranha. Viu algum movimento vindo de Armin, mas não pôde distinguir. Viu Eren sorrindo para ele e depois viu Eren o encarando com o rosto no chão, sendo pisado pela bota marrom de Erwin.

Levi olhou para Mikasa e levantou uma sobrancelha, depois deu um risinho sem vontade e disse:

— Eren, seja um bom garoto e não brigue com o seu coleguinha — cruzou os braços. — E eu pensando que sabedoria se ganha com a idade.

Eren riu alto e, de repente, estava totalmente ereto, numa posição elegante, com dois dedos tocando a têmpora esquerda de Erwin, o qual estava a meio movimento de levantar o tronco. Ambos travaram naquela posição. Eren com uma sombra de sorriso brincando nos lábios e Erwin de olhos arregalados.

Interessante, pensou Levi.

— Pelo menos vocês se tornam civilizados.

— É apenas mais prático — Eren deu de ombros e disse inexpressivo enquanto encarava Erwin no fundo dos olhos. — Se eu quisesse, poderia mata-lo. Se ele sabe disso, então a luta já está perdida.

***

Era escuro, quente e úmido ali. Tinha cheiro de metal e sangue de vampiro seco. Farlan chiava ao seu lado, recuperando-se aos poucos das fraturas e mutilações que sofrera. Goteiras com ferrugem escorriam do teto como se a sala sangrasse. Isabel estava amarrada com firmeza nos pulsos e pernas, de forma que ficava imobilizada, mesmo com sua força extraordinária.

No entanto, nada a assustava tanto quanto o silêncio.

Não era um silêncio do tipo que se faz guardando as palavras para si. Era difícil de perceber, sutil e antigo como a própria ordem dos vampiros. Se você passasse tempo o suficiente tentando vê-lo, talvez o percebesse se espremendo nas frestas da sala, tentando entrar. Ele estava nos parafusos das paredes de metal e no carpete do corredor do lado de fora. Estava nas entranhas daquele lugar vivo, sutil e silencioso.

Esse silêncio dava um medo de arrepiar os ossos. Ele não foi quebrado nem mesmo com o rangido espalhafatoso da porta emburrada sendo aberta.

Mas, estranhamente, foi como se ele se encolhesse com a voz de Levi Ackerman:

— Pelo amor de Deus, Eren, esse lugar tem cheiro horrível! E é quente, e é úmido e...

— Ele não para de reclamar nem por um instante? — resmungou uma voz feminina.

Eren riu.

— Nem por um minuto sequer.

É agora, Isabel pensou. Agora ele vai descobrir tudo, vai se assustar com a gente, vai descobrir sobre os vampiros, vai detestar Eren Jaeger. E vai nos ajudar.

Mas convicções criadas em hipóteses cegas na maioria das vezes são quebradas com a maior naturalidade.

— Eren, benzinho, leve-os a qualquer outro lugar, sim? Um lugar limpo, cheiroso e com energia, de preferência.

Farlan e Isabel levantaram o olhar.

Como assim? O que está acontecendo? E agora?

Murphy disse que tudo que tem de acontecer acontecerá.

Um olho de Farlan havia sido arrancado horas antes, e ainda não se recuperara por completo, por isso tudo que ele viu foi três sombras e um borrão de dor absurda. Isabel pôde distinguir o tal Eren e a mulher asiática de antes. E, claro, Levi, todo perdido naquela escuridão total, um braço agarrado na cintura de Eren.

Com um suspiro pesado, Mikasa ajudou Eren a levar os dois capturados até um local aparentemente em frente a essa sala. No caminho, nenhum dos dois fez sequer menção de olhar para Levi.

Isabel também não gostava daquele corredor.

A outra sala era clara demais, mas sua temperatura era confortável e a mobília era agradável. Isabel e Farlan foram jogados de qualquer maneira no sofá, enquanto Levi se acomodava numa poltrona a frente deles.

Quando nem Eren nem Mikasa deixaram o cômodo, ficaram apenas ali, de pé, como estátuas, a ruiva rosnou, esgotada daquilo:

— A conversa é particular.

Levantou o olhar para Eren e se arrependeu no instante em que o fez.

Ele parecia um lunático. Era tão antigo e macabro quanto o próprio silêncio. Seu sorriso era o pior.

— Você não acha mesmo que eu vou deixar vocês sozinhos com Levi, acha?

Tomou fôlego como se fosse falar mais, mas, nesse instante, um sapato o acertou. Isabel olhou assustada para Levi, que olhava entediado para Eren e Mikasa. E estava sem um sapato.

— Eu tenho outro sapato e não tenho medo de usar.

Eren levantou uma sobrancelha e prendeu um olhar mortal, mas apenas negou e jogou os braços para cima, puxando Mikasa para sair da sala consigo.

— E nem pense em ficar do lado de fora da porta — Levi acrescentou enquanto eles se afastavam. — Eu vou saber se o fizer.

— É claro que vai.

Finalmente sozinhos, Levi encarou os dois amigos. Ele tinha algo estranho às suas feições, uma pena quase que cômica. Levi sorriu de leve e murmurou:

— O que vocês aprontaram dessa vez?

Farlan riu com nervosismo.

— Acho que nós não arquitetamos um plano muito bem.

— Entendo. Nesse caso, tenho como ajudar?

— Levi... Você sabe onde estamos, certo? O que é essa organização...

— Sim, sim. Acredite, já vi coisas piores que o inferno aqui dentro.

Isabel fez uma expressão desolada.

— Então por quê?

Levi desfez o sorriso e levantou. Olhou para os móveis, tentando identificar que tipo de sala era aquela. Tentou sentir alguma corrente de ar, mas não tinha concentração para isso. Andou de um lado para o outro, fingindo analisar as coisas enquanto esperava que eles acabassem logo com aquilo.

— Por que vocês me chamaram aqui? — soltou, impaciente, depois de alguns segundos. — Não foi para confirmar a identidade de Eren, suponho.

— Supõe certo — Farlan respondeu, engolindo em seco. — Nós precisávamos de tempo.

— Não estava em seus planos serem capturados, certo?

— Sim. Nossa missão era trazer o menino Jaeger para o pai, nada mais! — o vampiro cerrou os pulsos. — Mas aquele cretino não nos disse nada sobre Eren ser um monstro.

— Todos vocês são! — Levi gargalhou.

Ficou quieto por um instante, agora estava atrás deles no sofá. Colocou a cabeça entre os dois, completamente ciente de que, se eles quisessem, poderiam rasgar sua garganta em um segundo. Olhou para o chão enquanto dizia friamente:

— Vou perguntar apenas uma vez, então prestem atenção: — sua voz seguiu reduzida a quase menos que um sussurro afiado — o que diabos Grisha planeja fazer com Eren?

Se Farlan fosse humano, suor frio escorreria por suas têmporas agora.

— Por que Eren desapareceu por duas semanas? Quem é essa aparição que não me deixa em paz há algum tempo? — ficou ereto. — Respondam.

— Somos apenas suas mãos, não seu cérebro — Isabel se pronunciou. — Escute, Levi, estou certa de que essas perguntas serão respondidas se Eren vier conosco, sim? O doutor Jaeger...

— Vocês têm algum contato com ele, não têm?

— Como?

— Um número de celular, um endereço... Qualquer coisa.

Como resposta, Farlan apenas estreitou os olhos.

— Olhem, desses caras aqui, o único que me escuta é o Eren, e, aparentemente, ele não responde por si mesmo. Se quiserem minha ajuda, vou precisar convencer a galera aos poucos, e, quando for a hora, Eren vai até Grisha. Não dá pra simplesmente chegar em alguém como ele e dizer “ei, bora ali com o seu pai que desapareceu há alguns séculos? Tenho certeza de que ele só quer uma conversa amistosa”. Eu não sei se vocês entendem a situação, mas Eren nem mesmo conhece o rosto do pai. O sujeito é uma lacuna em branco.

Farlan pensou por um momento.

— Se concordarmos com isso... Como nós saímos daqui depois?

Levi sorriu.

— Vocês querem ouvir um pouco da palavra de Deus? Talvez ele tenha piedade de vocês, já que ninguém mais aqui terá.