Amaranto Negro
17 Mentindo para você
Mal tinham-se passado das 23 horas quando ele voltou para casa, e, ainda assim, a sensação foi de ter acabado de retornar após uma longa viagem.
— Basicamente, através desse experimento simples é fácil ver que, na verdade, o tempo é maleável — Levi continuava, enquanto trancava a porta e checava três vezes a maçaneta. — E, também, que quanto maior a sua velocidade, mais devagar o tempo passa pra você. Até aí, está acompanhando?
— Isso é jogo sujo, Levi. Comecei a estudar física nesse século... Apesar de que essa teoria é simples, e já sei a base dela.
— E por isso essa é a única matéria em que tenho vantagem sobre você. Posso continuar?
Eren assentiu, enquanto Levi andava na direção das escadas. Foi atrás.
— Mas se na velocidade da luz o tempo pra você para, como é possível você estar se movendo?
— A velocidade depende de um referencial. Pra você, não há movimento, mas pra quem te observa, você está na velocidade da luz.
— Isso na teoria. Se você levar para a prática — tendo chegado ao seu quarto, Levi começou a andar de costas — quer dizer que nada no universo está se movendo comparado a ele mesmo. Mas qual é o ponto referencial ideal? Seria o lugar fora da quarta dimensão?
Eren franziu o cenho. Levi deu às costas, como se tivesse lançado a indagação do século, e começou a tirar a roupa.
— Há “lugar” fora do universo?
— É uma boa questão. Sendo a quarta dimensão o tempo, como poderia haver existência fora do tempo? Como poderia haver espaço? Se o universo está crescendo também em relação a espaço-tempo quer dizer que “lá fora” o espaço-tempo está sendo comprimido? Ou ele apenas não existe? — Levi deu um intervalo para tirar a regata que usava por baixo da camisa social pela cabeça. Seus fios ficaram sedutoramente desgrenhados, sua barriga perfeita se curvando, os músculos dos braços acentuados com o movimento. — A física que conhecemos não poderia ser aplicada nessa matéria, supondo que há matéria. Nem química. Nem nada, absolutamente nada, do que conhecemos. Estamos rondados por algo que jamais poderíamos imaginar. Uma coisa tão ridiculamente difusa pra gente que poderia ser comparada a Deus. Não é como o escuro, nem como o vazio. Pode ser matéria, pode não ser. Pode ser outra dimensão, pode não ser. Pode ser que sejamos apenas um elétron no meio de um átomo de outro lugar. E pode não ser.
Eren deu um sorriso cansado e charmoso.
— Isso não te dá vontade de se converter?
— Ah, bebê — Levi simulou desapontamento. — Se eu me convertesse agora, de nada adiantaria.
— Porque você é um caso perdido...? — afirmou em tom de dúvida.
Levi estreitou os olhos em divertimento. De dorso nu, foi até Eren e jogou os braços em volta de seu pescoço.
— Porque eu imploraria a Deus os segredos da física quântica que usou pra construir tudo isso aqui, mas isso ele não pode me dar. Ele me ofereceria a vida eterna, e a paz, e a glória, mas eu não preciso de nada disso. E então eu não o perdoaria por me oferecer algo que não quero, e ele não me perdoaria por recusar. Vê? Nós não conseguiríamos nos darmos muito bem.
Eren negou levemente, como que descartando quaisquer comentários que pudesse pensar em fazer sobre o assunto. Seus olhos se fecharam, quase que satisfatoriamente. Encostou sua testa na do outro; exibia um sorriso delicado.
— Preciso dormir — disse com a voz grave e rouca. — Estou estranhamente cansado.
Levi mordeu o lábio inferior e deixou um beijo na linha de seu maxilar, perto da orelha.
— Vou tomar banho antes de deitar — afastou-se alguns passos. — Não me espere para dormir.
Levi andou em direção ao banheiro, mas sentiu a mão morna de Eren segurando-lhe o pulso.
Morna?
— Boa noite, professor Ackerman.
— Não venha cheio de grudentice comigo agora, senhor Jaeger.
Eren tossiu uma risada sonolenta.
— Amo você.
Posso ver em seus olhos que você fala sério
— Pobrezinho; realmente precisa de sono — Levi puxou o pulso e deu-lhe um olhar quase que afável. — Boa noite.
Eren abraçou-o e beijou o topo de sua cabeça antes de se virar para a cama. Levi entrou em seu banheiro.
Posso sentir nos seus braços que é verdade
— Acho que também te amo, de certa forma — murmurou dentro do banheiro, a porta fechada.
E embora tenha acabado de me ouvir falar isso
Querido, estou mentindo pra você
Ali dentro, despiu-se de suas calças e sua roupa íntima. Deu meia olhada no espelho antes de ligar o chuveiro, não estava lá com muita vontade de se encarar naquele momento. Ajustou a temperatura para a mais fria.
Sentou no chão.
Desabou no chão.
Encolheu no chão.
Sentiu a pele se arrepiar, os músculos se contraindo. Sentiu a culpa escorrendo por sua coluna, sentiu a pressão assolando sua cabeça. Sentiu o som do silêncio perfurando seus ouvidos.
O que estava fazendo?
Querido, estou mentindo pra você
Eles tinham a postura límpida, Isabel e Farlan. Suas peles ainda tinham marcas de mutilação, alguns dos ossos de suas mãos estavam em ângulos estranhos, o olho esquerdo de Farlan era uma cratera escura e sinistra. Mas eles não demonstravam dor.
O que eles estavam fazendo?
Duas pessoas preciosas, os únicos amigos que tivera ao longo dos anos, agindo como dois peões. Sendo descartados assim. Sendo usados assim.
Isso revirava o seu estômago. A imagem estava gravada no fundo de sua mente. Será que haviam sido as mãos de Eren a fazer aquilo? Aquelas mesmas mãos que o tocaram havia poucos instantes, as mãos que o acariciariam naquela noite?
Ele era mesmo uma figura, esse tal de Eren.
Todos esses anos você esteve solitário
Sem saber o que fazer
O que Eren estava fazendo?
Secou-se desatento. Olhou seu rosto pálido no espelho. Suas pálpebras estavam baixas, sua boca estava rachada, precisava fazer a barba. Estava horrível.
Deu um sorrisinho horripilante e, nu, saiu do banheiro, apagando a luz na sequência.
Eren estava deitado no meio daquele emaranhado de edredons, travesseiros e lençóis brancos. Estava de bruços, sua silhueta contrastava com a luz lunar. Ele parecia tão sexy e coerente ali que Levi quis derruba-lo daquela maldita cama.
Não estava certo. Se estava certo, não estava certo.
Porque dizem que buracos negros são lugares onde os instantes nunca acontecem.
E embora você esteja certo, também estive procurando
Colocou uma cueca qualquer e foi para a cama, deitando-se ao lado de Eren; a cama se movimentou um pouco. Ficou de lado, encarando o seu rosto sereno, o seu jeito de quem não está realmente dormindo.
— O universo vai expandir para sempre? — Levi sussurrou.
— Parece que sim — Eren murmurou, ainda de olhos fechados. — Mas, se for assim, então a geometria que aprendemos não faz sentido.
— Existe a energia negra.
— É algo que ainda não estudei.
— Dizem que ela acelera o processo de expansão. Que quando a matéria do universo não puder mais ser expandida, é a energia do vácuo que vai expandir.
— Isso já não estava acontecendo?
— Como podemos ter certeza?
Eren abriu os olhos.
— Podemos ter certeza? — devolveu a pergunta.
Levi sorriu conformado.
Querido, eu não estou procurando por você
O humano acariciou seu rosto liso como porcelana. Passou o polegar por sua sobrancelha, o côncavo de sua bochecha, seus lábios. E Eren o encarava com aqueles grandes e curiosos e antigos olhos verdes. Olhos onde os instantes nunca acontecem. Olhos de dois buracos negros horripilantes e assustadores.
Ele parecia frustrado.
Levi podia entender.
Também dizem que o tempo precisa ser dividido para ser visto.
Estou tão desapontado quanto você
Eu apenas escondo melhor
— Você prometeu — sussurrou mais uma vez. — Você disse que hoje à noite...
Eren sorriu e segurou sua mão contra o próprio rosto.
— Achei que estivesse cansado. Não queria te sobrecarregar.
Mentira.
— De onde que sexo sobrecarrega?
O vampiro sorriu e curvou o pescoço, e daquele ângulo parecia que seus cílios eram muito grandes, que seus olhos estavam fechados, que seu sorriso era de desistência. Levi recolheu a própria mão.
— Eu tenho uma tatuagem — disse, enquanto Eren levantava e ficava sobre ele na cama. O garoto franziu o cenho quando ouviu disso.
— Aonde?
— No meu calcanhar. Nunca viu?
Eren beijou seu pescoço.
— Nunca.
— Mas se ela fosse na minha bunda você teria visto.
— Com certeza — chupou sua pele. — E o que é essa tatuagem?
— A equação de equilíbrio cósmico.
Porque se o tempo apenas continuar e continuar, sem divisões, sem marcos, como podemos ter certeza de que ele existe?
— É? — ele arrastou os dentes em seu ombro, causando arrepios em Levi. — Por que você tatuaria isso?
— Pra me lembrar do quão insignificante eu sou.
Mentira.
— Sei. Mas e se a equação for alterada de novo? E se incluírem outra constante no meio?
— Está falando de terem acrescentado a energia negra?
Eren riu contra a sua pele e se afastou para beijá-lo na boca. De repente, seus lábios tinham um gosto estranho. Enquanto se concentrava em aproveitar aquele beijo macio, aquela língua preenchendo a sua boca, tentava descobrir o que havia de errado. Acabou perdendo-se um pouquinho, quando Eren sentou sobre seus quadris e espalmou a mão em seu peitoral, de alguma forma conseguindo fazer com que isso fosse extremamente excitante.
Separaram-se por um instante.
— Nesse caso — Levi continuou — eu ficaria completamente feliz de fazer outra tatuagem com a equação arrumada. Adoraria viver para ver essa descoberta.
Eren o encarou com ternura.
— Você sabe que poderia, se quisesse.
— Porque qual é a vantagem de ter um namorado vampiro se ele não te oferecer a vida eterna pelo menos uma vez.
Eren gargalhou. Uma gargalhada linda, infantil e melódica.
E a única coisa que impede que me apaixone por você
É que sou verdadeiramente sozinho e eu gosto disso
Dessa vez, foi Levi quem buscou os seus lábios, envolvendo seu pescoço com os braços, levantando sutilmente os quadris, fazendo com que suas intimidades se chocassem.
Era quente. A boca de Eren era quente.
Era esse o problema.
Sou verdadeiramente sozinho e eu gosto disso
E pela primeira vez na vida, Levi não quis continuar. Mesmo assim, não se afastou ou afastou Eren. Ele apenas, com aquele seu ar mudo de tragédia, sua conformação solitária, deixou que as coisas continuassem. Deixou que Eren o beijasse com o fervor de um ser vivo, deixou que ele fizesse o que tinha de ser feito e até se permitiu deleitar-se com uma excitação pagã.
Mas era tudo tão falso e tão vazio e tão frustrante.
No fim, depois de fazerem o que tinha de ser feito, quando estava sereno deitado, permitindo-se ser abraçado, uma cantiga pesada e obscura rondando seus pensamentos, ele se sentiu tão, tão solitário.
Qual era a fórmula mesmo?
Enquanto deitamos na cama, me sinto solitário
Embora jovem, me sinto com 80 anos
— Começa com o tamanho do universo expresso em “a” — disse num murmúrio febril. — Subtrai-se a capacidade do universo de se puxar para baixo expressa em “g”.
— O que está falando? — Eren beijou sua testa.
— O resultado possui a constante “k”, que descreve a curvatura espacial do universo... Onde ficava a constante cósmica mesmo?
— Na outra equação. A da curvatura e do tensor de energia momentânea.
— Você está certo... — Levi riu e virou-se para o seu tronco, colocando o rosto contra a curvatura de seu pescoço. — Eu estou errado. Estou esquecendo.
E seus braços à minha volta me mantêm aquecido
Mas querido, continuo sentindo frio
— Porque eu sou humano.
Mas querido, continuo sentindo frio
Eren afagou suas costas e levantou da cama. Depois de pegar uma toalha e dar a Levi para se limpar, desceu as escadas. Quando voltou, trouxe consigo um copo de suco e as caixas de remédios que Levi tinha que tomar.
— Se isso é uma indireta, Eren, é de muito mau gosto.
— Achei que eu fosse uma pessoa bem direta, Levi.
— Você poderia pelo menos ter trazido pra tomar com um copo de vinho.
Observou-o sentar ao seu lado na cama, aquele corpo impecável projetando êxtase sobre o seu fraco e humano eu. Era tão difícil negar qualquer coisa a ele.
Você deve saber que é adorável
Você é gentil e bonito também
E sinto que de certa forma, eu amo você
— Eu te odeio, Eren Jaeger.
— Vamos agradecer a Deus por isso.
Eren separou as pílulas e colocou-as alinhadas no criado mudo. Levi observou o movimento elegante de suas mãos e o ângulo de suas costas ajeitadas numa postura naturalmente ereta. Viu um sorrisinho surgir no rosto de Eren quando percebeu que seu olhar era fixo nele.
— Vamos, tome os remédios.
— Pede com jeitinho.
— Engole essa porra logo.
— Agora sim.
Mas querido, não estou apaixonado por você
Finalmente dopado com o que quer que os médicos queriam que tomasse, Levi jogou-se na cama e deitou de costas para Eren, que não ficou satisfeito e o abraçou por trás. Levi continuou murmurando coisas sobre espaço-tempo e energia do universo até cansar.
E, pouco antes de pegar no sono, ele desistiu de lembrar a fórmula como se isso nunca tivesse realmente importado.
E pode parecer estranho que eu continue com você
Se é verdade que você não é realmente a pessoa certa
E por que continuo procurando por ela?
Porque eu a encontrei e agora ela se foi
Porque eu a encontrei e agora ela se foi
Uma vez eu a encontrei e agora ela se foi
Nessa noite, também, ele sonhou com a menina e o sanatório.
(Keaton Henson – Lying to you)
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