Eles são uma organização de extermínio. Eles caçam. Eles matam. Apesar de não ser alvo, de sequer ser um membro daquele mundo, eu me sinto ameaçado. Eren não entenderia se eu contasse. Porque ele, apesar de às vezes parecer muito bom e gentil, é um deles também. Ele é um caçador. Sei que eu não deveria temer. Afinal, não tenho amor à vida o suficiente para me assustar com a morte. Mesmo assim... Sinto como se eles pudessem me atormentar até depois da morte.

Na verdade, esse é exatamente o poder que eles têm.

Nunca foi descrito com tamanha perfeição:

Eles podem matar. E podem manter o que está morto, vivo. Podem fazer da existência dele o inferno.

Eles podem me mostrar algo pior que a morte. Sei disso porque vi com meus próprios olhos.

Levi larga a caneta ao ouvir o barulho da cama sendo deixada. Calmamente, fecha a agenda e prende o elástico na capa. Levanta-se com a elegância de um gato. Pega sua xícara de chá e deixa na pia.

“Você dormiu muito, Eren” não se dá o trabalho de levantar o tom de voz quando fala. Por mais que Eren ainda esteja descendo as escadas, e por mais que Levi esteja de costas.

“E poderia dormir mais se o som da sua caneta não fosse tão persistente e alto” bocejou.

Os passos arrastados de Eren eram altos e pesados. Levi podia sentir. Era estranho. Estranhamente humano.

Sentiu-se ser abraçado por trás, uma mão comprida e suave entrando por debaixo da sua camisa. Os lábios dele encostaram em seu pescoço.

“O que escrevia tanto, hm?”

Levi continuou lavando a louça que estava na pia. Tentou não afasta-lo.

“Observações sobre as coisas que preciso resolver na escola. Ando muito ausente, muito disperso. Quero fazer meu trabalho direito.”

Eren ri baixinho, mal dá pra ouvir.

“Infelizmente, também preciso fazer o meu.”

Essa frase soa estranha, parece que corta o ar. Levi sente cheiro de perigo. Ele agarra a faca que lava com força.

A voz de Eren é tenebrosa quando sussurra:

“Por que não me fala sobre a conversa que teve com seus amigos ontem?”

Levi controla um arrepio. Controla a respiração. Mas seu coração está acelerado, ele sabe que Eren sente.

E de repente a consciência de que Eren o está intimidando o deixa furioso. Mas ele fica cheio dum ódio que não sabe explicar, não sabe de onde veio, não sabe controlar.

Ele precisa.

Precisa respirar.

Precisa manter a calma.

Precisa salvar Farlan e Isabel, não importa como. Eles são seus únicos amigos e agora sabe disso, agora entende a importância. Levi acabou de perceber.

Ele sabe o que precisa fazer.

“Bem...” fala sorrindo enquanto fecha a torneira e se vira para Eren. “Eles sabem muito sobre o seu pai.”

Os olhos verdes brilham. Tem uma espécie de chama dentro desse homem.

“Muito quanto?”

“O suficiente pra te fazer localiza-lo, suponho.”

“Não quero suposições.”

Levi sorri com malícia. Ele precisa usar a única vantagem que tem sobre Eren. A única coisa que o deixa mais forte que esse caçador nato.

“Você é muito ambicioso, querido.”

Levanta os braços e enlaça seu pescoço. As mãos de Eren estão debaixo de sua roupa. Levi morde os lábios dele sensualmente e depois passa a língua entre eles. Agarra o cabelo de Eren de uma forma que ele sabe secretamente o enlouquecer.

“Acho que você é muito exigente com o que você quer...” Levi enterra as unhas da outra mão nas costas dele. “Então vou te propor uma coisa.”

A vantagem que Levi tem é simples, mas fatal.

Ele não está apaixonado. Eren sim. Isso o torna fraco. Isso o torna manipulável. Isso o torna seu.

“Tudo bem” Eren responde.

“Mas você nem ouviu.”

“E eu já digo que tudo bem. Vou seguir os seus desejos.”

Levi sorri.

“Bom garoto.”

***

É tarde. Levi está trabalhando. Eren leva uma proposta perigosa ao seu superior. Uma proposta que não é bem proposta, já que Eren não gosta de pedir permissão. E um superior que não é bem superior, já que Eren não se sente inferior a ninguém.

Asas da Liberdade está movimentada. Os crânios da equipe usam tudo que há em suas mentes para formularem planos que rapidamente são descartados. Aqueles dotados da força estão encarregados de cuidar separadamente dos prisioneiros para que eles não possam arquitetar nada juntos. Os líderes estão reunidos. Erwin. Hanji. Mikasa. Eles são os únicos em silêncio.

Estão esperando Eren.

O ruído da porta de entrada é esganiçado.

Ele entra. Está estranhamente abatido. Estranhamente curvado. Estranhamente cansado.

“Alguém pode acender essas luzes, pelo amor do santo Cristo? Deus, vocês parecem um bando de minhocas atrofiadas debaixo da terra.”

Mikasa torce o nariz. Ele cheia a humano.

“Que bom que vossa majestade fez o favor de aparecer” Jean comenta com escárnio.

Quando olha em sua direção, Eren nota.

Tem uma espécie de olhar universal ali. Todos o encaram com um tipo de fúria, de nojo, de desprezo.

Quando as coisas ficaram assim?

Eren força sua expressão a endurecer. Endireita a coluna, contrai os músculos, toma uma postura rija.

“Trago uma exigência” fala firme.

“De que tipo?” pergunta Erwin, ignorando as exclamações indignadas pelo salão.

“Levi quer que os prisioneiros fiquem por nossa conta, minha e dele.”

Hanji solta uma gargalhada divertida. Armin solta uma gargalhada de escárnio. Diz ele:

“Porque com certeza vamos deixar os vampiros mais forte com quem já nos deparamos em séculos na guarda de um único vampiro e um humano que se acha alguma coisa. Isso é loucura!”

Mikasa dá um passo a frente.

“Você é forte Eren, mas não pra lidar com esses dois ao mesmo tempo.”

“Você pode me lembrar do que eu fiz no galpão ontem? Acho que não estou muito certo...” Eren dá um sorriso cheio de fúria de vitória. “Sim, eu sou forte o suficiente pra isso. Sim, eu sou o mais forte de todos vocês. Essa é uma exigência indiscutível.”

Armin toma ar para falar de novo, mas Erwin levanta a mão.

Ele está sério. Mortalmente sério. Calculadamente sério. Seu tom é severo e sem nenhuma rachadura ao indagar:

“À troco de quê?”

“Levi disse que entrega tudo que eles disseram. Tudo sobre Grisha, sobre o que ele quer, sobre quem eles são, sobre... Sobre tudo. Talvez ele consiga até mais se puder conversar de forma oportuna com os prisio... Com Farlan e Isabel.”

O silêncio é sepulcral, mas dura pouco. Ele é assassinado por Armin, que explode em raiva e desdém:

“Me dê um único bom motivo pra gente não pegar esse merda e retirar as informações dele à força! Me fale uma única coisa que me impede de torturá-lo até que ele ou um dos seus amiguinhos decida falar!”

Eren sorri largo. Sua postura elegante se desfaz e ele fica um pouquinho desleixado e inconsequente. Seus braços pendem relaxados e sua coluna tomba pra trás. Ele tem a expressão de um animal selvagem.

Arrasta-se na direção de Armin. O corpo parece pesado demais pra si. Mas ele não parece, de forma nenhuma, fraco.

Ele está ameaçador. Tão ameaçador que Armin recua quando Eren para a sua frente, ainda com aquele sorriso insano, e sussurra:

“Quer um bom motivo? Adivinhe: está olhando para ele.”

Eren levanta uma mão vagarosamente e toca o nariz de Armin.

“Encoste em um fio de cabelo dele, e isso vale pra qualquer um de vocês, que eu te mato tão rápido que você nem vai me ver chegando.”

Parece uma brincadeira, mas todo mundo sabe que não existe sentido oculto nas suas palavras.

Ele novamente endireita a postura, e o animal selvagem desaparece. Agora resta o discreto, elegante e sério Eren. Polidamente, abaixa a cabeça na direção de Erwin e diz suas últimas palavras antes de deixar o salão:

“Aparentemente, essa decisão requererá algum debate. Erwin, você me dá a palavra final.”

E sai o rei Macbeth, cujo corpo inteiro, desde a alma até a roupa, mostra-se manipulado pela sua rainha.

Ele parece muito com uma marionete quando anda assim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.