Amaranto Negro

1 Um epitáfio para o seu vício


Epitáfio: inscrição sobre lápides tumulares ou monumentos funerários. Enaltecimento, elogio breve a um morto. Tipo de poesia, nem sempre de inscrição lapidar, que encerra um lamento pela morte de outrem, ou com notada intenção satírica, que trata de um vivo como se estivesse morto. Do latim epitaphĭus “Inscrição tumular”.

[Num lugar distante e próximo, durante um passado nebuloso ou um futuro a acontecer neste exato momento. 10h20min PM]

Sou fã do sexo casual. "Não preciso de amor, não quero amar e não quero que ninguém me ame" são pensamentos que eu sempre tive. Sexo é tão melhor que amor. Consiste em sentir um prazer momentâneo que pode se repetir quantas vezes você quiser, isso se não ficar broxa, mas não considerarei isso, afinal, existe sexologista para quê? É fácil, a partir disso, deduzir o quão superior transar é sobre amar. Acho, sinceramente, que vivemos numa sociedade de bonecos idênticos. Como as pessoas conseguem sentir alguma forma de apreço umas pelas outras?

Sabe, eu odeio a minha cidade. Andava numa caminhada noturna até a estrada em frente a minha casa. Ela fica no alto, de forma que as luzes das casas ficam abaixo de mim. Dei um suspiro pesado, vendo a neblina da minha respiração. Eu precisava de uma bebida. Assim, decidi pegar meu carro e tocar o foda-se para o meu trabalho no dia seguinte. Dirigi a algum lugar desconhecido, talvez eu estivesse na expectativa de confiar no destino, ou talvez eu apenas não tivesse para onde ir.

Acabei por estacionar numa rua aleatória, escura. Eu nunca gostei de pensar muito, isso traz problemas. Por isso tentei decidir algum lugar onde pudesse arranjar uma transa e bebida, simultaneamente. A resposta é óbvia: balada. Mas tem um problema. Eu não gosto de música, nem de dançar, nem de acúmulo de gente, nem de sujeira. Droga, eu pareço um velho solteirão desesperado por sexo. E se tem algo que eu não sou é desesperado.

Estalei a língua no céu da boca e dirigi o mais rápido que pude até uma rua conhecida por ter várias "casas de festas". Acabaria com aquilo o quanto antes. Escolhi a de aparência mais convidativa e adentrei o lugar. A primeira coisa que me atingiu em cheio foi o cheiro de suor com álcool. Depois, aquela multidão me sufocando. Procurei igual a um alucinado algum lugar que fosse mais arejado, finalmente parando no bar. Isso é um saco. Tratei de arrumar algumas doses, o suficiente pra um iniciante entrar em coma alcóolico. Bebi tudo o mais rápido que pude... Ah, aquela ardência agradável na garganta, o gosto amargo e viciante... A tontura me atingia logo, após vários minutos me concentrando em ficar bêbado.

Do outro lado da pista de dança, um casal discutindo. A mulher chora, o homem a agride, ela vem na direção do bar. Não que eu ligasse, mas só estava observando tudo tentando achar uma brecha para aquilo que queria. A briga não chamara muita atenção, então eis que a mulher tentava secar as lágrimas enquanto tomava alguns drinks. Que clichê para corações partidos. Como se embebedar-se solucionasse problemas.

— Você está bem? — perguntei sem tirar os olhos do meu copo.

— Eu pareço bem? — fungou. Tive a impressão de que era para ter soado áspera, mas estava frágil demais para isso. Decidi não responder até que quisesse falar, e deu certo. — Ele é sempre assim, me humilhando, me batendo... Eu não o aguento mais.

— Se você não aguentasse, acredite, estaria muito diferente.

— Mas ele... Ele é cruel. Mesmo eu fazendo tanto por ele, ele continua a abusar de mim... Hoje foi a gota d’água, entende? — sua voz era cansada. — Mas não posso terminar com nosso namoro.

— E qual é o motivo que te prende a um relacionamento abusivo?

Qual é o motivo que qualquer pessoa tem para permanecer em qualquer relacionamento? Até por que.

— Eu o amo.

Uma resposta simples, vaga e tão complexa. Eu não suporto pessoas assim. Mas eu não precisava gostar de sua personalidade — “vantagens de não querer relacionamentos sérios” parte dois — só precisava manipulá-la.

— “Amor”... — debochei — Existem coisas muito mais benéficas, muito melhores... — dei uma breve pausa, apoiando-me a mesa e me inclinando para o seu lado. — A bebida destrói o seu corpo, amar destrói a sua mente.

De forma sorrateira, olhe no olho esquerdo do alvo, é o ponto sensível de toda pessoa. Arraste sua voz, estreite os olhos. Tente a carne, toques não fazem mal. Incorporar a própria serpente do Jardim do Éden, tentadora, promíscua, profana... Prometer com palavras bonitas, seduzir pela fraqueza.

Segundo objetivo da noite: transar. Feito.

Saí da sala onde havíamos o feito deixando-a afogar-se em seus problemas ridículos. Aquela não fora a melhor foda da minha vida, era como qualquer outra. Fui ao banheiro lavar minhas mãos, esfregando-as até que pequenas feridas se abrissem. Eu estava imundo, precisava de desinfetante e rápido. Mas minha noite não podia acabar ali. Decidi que seria bom ingerir um pouco mais de álcool, aproveitando que estava naquele lugar asqueroso, e voltei ao bar. Quando o enjoo me atingiu, eu soube que era hora de parar. Levantei-me e cambaleei em direção à saída, mas acabei por ser impedido. Alguma pessoa, propositalmente, estava parada a minha frente, o peito estufado. A criatura era vários centímetros mais alta que eu, e com bem mais massa muscular também. Era tudo o que eu queria quando estava bêbado e enjoado.

— Você é o nanico que comeu a minha vadia? — indagou o grandalhão, a voz soava como um estrondo.

— Ah, então as vadias tem proprietários por essas bandas. Que irônico.

— Além de se achar o gostosão banca o espertinho também? — seus braços estenderam-se num segundo e atingiram meus ombros. Tropecei para trás, minha noção de gravidade não ajudou. — Meu passa tempo é quebrar pessoas como você.

Eu estava ferrado. Brutal e triplamente ferrado. Levantei num impulso para não cair, e desferi um soco em qualquer lugar. Deve tê-lo atingido bem, mas eu não notei onde estava de guarda baixa. Algumas pessoas agrupavam-se e formavam uma roda a nossa volta, umas incentivando e outras... Bem, todas incentivavam. Nem sinal de seguranças, nem sinal de qualquer boa alma disposta a nos separar, mas tinha que aparecer a corja inteira daquele maltrapilho. Outros caras-monstro como ele formaram uma pequena fileira desorganizada a minha frente. Nesse momento eu notei que, não apenas ferrado, mas eu estava frito, fodido, morto, dizimado, acabado, derrotado. Suor escorria pela minha testa, um monte de gente a minha volta; eu me sentia imundo.

Um vulto.

Negro como qualquer escuridão, mas de frieza palpável. Rápido, alto, esguio. Cabelos castanhos, pele sobrenaturalmente pálida. Olhos dourados de um inabalável brilho carmesim. Sim, havia um brilho estranho em seu olhar.

A minha frente, o vulto materializado em um rapaz elegante em seu usual sobretudo azul-marinho de veludo.

— Desculpem pela interrupção, mas eu gostaria de pegar o baixinho emprestado por alguns segundos. Vocês me dariam a licença? — perguntou com um sorriso que fechava seus olhos.

O líder do “grupo desafiante”, antes extasiado pela presença singular, agora fechava a expressão, pronto para comprar outra briga. Ao contrário dele, a plateia ainda parecia em choque.

— Ah, entendo. Que pena, eu pretendia leva-lo de forma pacífica, mas já que vocês insistem...

— O que caralho você está faland...

E o homem já estava no chão. Golpes rápidos, a fluidez e elegância de quem dança balé clássico, ele derrubava todos os enormes caras que me ameaçavam antes. Ao final do espetáculo, algumas pessoas pareceram se lembrar da minha existência. Suspirei e me arrastei para fora, deixando o dito cujo para trás.

— Mesmo que eu consiga te alcançar com facilidade, não é muito legal quando eu venho te salvar e você me ignora desse jeito, Levi.

Eren Jaeger, rosto de 18 anos, corpinho de 25, idade real: 21. Uma boa média entre os variados pontos de sua aparência. Atualmente, a única pessoa que tem um título próximo de “amigo” para mim.

Eren era um rapaz que eu havia conhecido num período em que fui professor substituto numa universidade. Ele sempre tivera aquele tom de pele meio acinzentado, como se devesse ser moreno, mas estivesse passando mal. Bem, em algumas datas específicas sua pele ficava mais corada, mas eram raras e eu não ia ficar contando e desvendando seus padrões. Nessas mesmas datas, seus olhos deixavam de ser dourados e ficavam verdes. Ele sempre me evitava nessas épocas. Essas mudanças, não apenas na aparência como no comportamento, chamaram minha atenção quando ele era aluno. Foi pelo período de um ano que pude presenciar uma genialidade escondida, depois disso, Eren abandonou a faculdade. Como seu professor de engenharia espacial, insisti muito para que não abandonasse o curso. Na realidade, não era nem pelo prodígio, mas naquele ano eu conheci a primeira pessoa... Intrigante... De uma forma que eu jamais havia visto antes. Depois de muita insistência minha, ele tentou resolver as coisas me passando seu celular para que mantivéssemos contato. “Sempre que quiser analisar as vistas de uma peça, fazer cálculos doidos, ou só estiver no tédio, pode me ligar. Isso se chama amizade, caso não saiba” dissera ele. Três anos se passaram e ali estava eu, um adulto de 32 anos dependente de um pirralho-sem-faculdade como aquele. Mas eu não tinha como evitar. Eren sempre me livrava de confusões e me salvava de algumas furadas por causa da bebida sem que eu pedisse. Mesmo que eu o ordenasse a parar — coisa que eu já tentara fazer — ele continuava me defendendo. Protegendo-me incansavelmente.

Tentei andar mais rápido que Eren para chegar logo ao meu carro e não deixa-lo me ver mais naquele estado, mas eu precisava de água para a tontura passar. Ainda murmurando algumas reclamações, pegou um dos meus braços e passou por cima dos seus ombros. Eu contestaria, mas o peso do meu próprio corpo era demais para mim. Se ele me soltasse, eu cairia e teria que ser ajudado de um jeito ou de outro.

Chegamos ao carro e lhe entreguei as chaves. Não era a primeira vez que acontecia.

Entramos no automóvel. Ao sentar, olhei para minhas próprias mãos cortadas repousadas sobre meu colo. Eu sabia o que ele pensava sobre a bebida e sobre a minha irresponsabilidade para comigo mesmo, mas era algo que não dava para conter. Alguma coisa tinha que preencher a pessoa vazia, imatura e fugaz que eu era. Um pingo de sobriedade recaiu sobre mim, e aí eu notei o quão eu era ridículo. Ridículo de tão patético. Ganhar dinheiro com um cargo tão difícil quanto ser diretor de escola e desperdiçar tudo em bebidas. Ser um pleno adulto que não pode tomar conta nem de si mesmo. Alguém que lida melhor com uma realidade assustadora se embebedando.

O quê? O que eu estava pensando? Eu não era assim por superação, era pura diversão. Não há nada menos desinteressante que aquilo a fazer, então só me restava continuar naquele estado... Não é?

— Aaah, Levi... — suspirou, levando as mãos às laterais da cabeça. — Você é um velho problemático.

— E você é um pirralho intrometido.

— Vamos para casa — definiu.

Ele falava de forma tão natural, como se nós morássemos juntos desde sempre. Se bem que ele mais passava o tempo tentando me distrair de coisas que não fossem álcool do que realmente fazendo alguma coisa “em casa”. Chegamos à estradinha no meio de um mato meio alto que subia a pequena colina do lugar. Fiquei um pouco decepcionado, pois ele teria que me deixar e ir para sei lá onde ele mora, e eu estaria sozinho. A vontade de beber retornaria.

Parado no batente da porta de casa, seus olhos amarelos num tom quase próximo de verde me encaravam.

— Não acha que está na hora de admitir que você seja alcóolatra e procurar ajuda?

— Isso não é um vício — menti, tentando passar direto por ele. Sem sucesso. Pôs seu braço na frente de meu peito, impedindo a passagem.

— Não vou nem considerar isso como uma tentativa de mentira. É a mesma coisa que falar que o céu é rosa choque.

— Mesmo que seja um vício... — meus pensamentos lentos fizeram-me ficar calado e tombar para o lado por um momento. Encostei-me também ao batente. — Eu não quero parar.

— Ah, ele não quer parar! — seu tom de voz elevou-se. — Seu ciclo de bebida-sexo-trabalho está dando certo para te deixar feliz? Tenho certeza que seu fígado agradece.

Permanecemos um tempo em silêncio. Eu olhando para baixo; ele, provavelmente, observando o céu. Eren sempre fazia isso em momentos como aquele.

— Você sabe por que eu continuo correndo atrás de você, não sabe? — soltou num quase sussurro.

— Sim — e realmente sabia.

— Você me preocupa.

— Eu sei.

— Você está se destruindo há muito tempo, não vai demorar a chegar ao seu limite.

— Eu sei.

— Posso parecer irritante, mas faço isso porque te amo.

— Eu... — meu coração contraiu de leve — sei.

Era algo que ele falava com a maior naturalidade. Eu não aguentava isso. Amar não é natural, como ele conseguia? Se eu tinha aqueles pensamentos em relação às pessoas, eu era três vezes pior que todas elas. Desinteressante, superficial, carnal; um alcóolatra estúpido que deixa um pirralho cuidar de si sabendo que isso só daria esperanças aos sentimentos não correspondidos dele.

— Quer que eu entre um pouco?

— Não posso continuar me aproveitando de você.

— Como você é teimoso.

Ainda assim, ele entrou. Tomei um litro de água, que aliviou o efeito de álcool na corrente sanguínea. Banhei-me, sem conseguir tirar aquele cheiro. Pelo menos o suor havia saído. Mas eu continuava esfregando e esfregando as minhas unhas pela minha pele, tentando me deixar limpo. Era horrível saber que nem em um milhão de anos eu poderia me considerar... Limpo.

Desci as escadas apenas com a toalha na cintura para tomar mais água. Tudo bem, talvez eu estivesse tentando provocar Eren, mas ele nunca tinha reação alguma! Dizia que me amava há mais de um ano, mas não tentava realmente alguma coisa. Ficávamos em brincadeiras sem propósito e então dávamos um tempo. Parecia que ele nunca se importava com nada, a não ser o probleminha aqui já apresentado. Eu não sabia nada sobre sua família, o que fazia para sobreviver ou onde morava. Até que eu tentava, mas sempre acontecia algo para que o assunto fosse esquecido.

Percebi que ele não estava no andar de baixo, então subi com uma garrafa de água e um remédio para dor de cabeça. Minha casa era grande, legado dos meus pais, a maior parte das paredes para fora era de vidro, por dentro tinha persianas, as quais eu quase sempre deixava fechadas. Toda a mobília era moderna, as escadas, de vidro. Eu amava aquela casa. Fui ao meu quarto, um cômodo grande com uma cama de casal e uma escrivaninha, mais nada. Eren estava de pé em frente à única parede de vidro dali, olhando para cima e observando as estrelas.

Por um instante, eu consegui ver algo além dele ali. O que era aquilo? Parecia antigo... E muito, muito brilhante. Eu me sentia bem olhando para ele. Completo, autossuficiente, quase que... Divino. Era loucura pensar isso, não? Um ar mágico, tão sobrenatural.

Mas esse instante passou rápido demais. Agora era só Eren, um pirralho estranho que me atormentava há anos.

— Agora que você já está sóbrio e não é mais um perigo para si mesmo, eu vou indo.

— Eu sempre sou um perigo para mim mesmo.

Ficamos em silêncio por alguns segundos e eu estranhei... Porque ele nunca ficava tanto em silêncio quanto naquele dia.

— Por acaso essa toalha é pra me provocar? — falou, por fim.

— Ela é o limitador da provocação.

— Não vai me tirar da minha sanidade tão cedo, professor Ackerman — deu um sorriso divertido.

Eu senti vergonha. Não exatamente por suas palavras, mas por tudo naquele dia. Eu desejaria que as coisas fossem diferentes se não estivesse tão concentrado em me manter. Fui ao meu closet e lá vesti uma cueca, depois voltei ao quarto e torcia para que ele ainda estivesse lá. Eu não queria ficar sozinho mais do que eu já ficara.

— Eren? — chamei ao não vê-lo lá.

Segundos depois, senti-o bem ali, como se estivesse no quarto há minutos. Ele trazia uma caneca na mão, tinha um cheiro cítrico.

— Fiz chá, quer?

— Claro — só de roupa íntima mesmo sentei na cama e esperei que me desse a xícara. — Como fez isso tão rápido?

Sem querer duvidar das habilidades de pessoas jovens, mas descer dois lances de escadas, ir à cozinha, ferver a água, fazer o chá e trazer de volta demora mais do que 30 segundos, que eu saiba.

— Aliás, como você é sempre tão rápido?

— Coisa da sua cabeça. Você ficou um tempão lá no closet, mais de dez minutos. Ainda está bêbado?

Estreitei os olhos. Não, eu não estava bêbado. Será que havia me distraído penteando o cabelo?

— Você é um pirralho estranho.

— É, com certeza sou.

Segurei a caneca com a mão por cima da abertura. Foi um hábito que adquiri após anos escutando sobre pessoas que foram drogadas em festas por não tomarem conta de suas bebidas. Se eu mantivesse a mão por cima da xícara/copo/o que quer que fosse, nada aconteceria. Tudo bem que eu fazia isso até em casa, mas era automático.

Senti a cama ao meu lado afundar. Virei em sua direção por um instante e me deparei com seu rosto muito próximo. Próximo o suficiente para notar que não tinha respiração. Passei a olhar fixamente para ele. Tinha algo muito estranho com aquela pessoa. Não estranho no sentido normal, se é que há um, mas no sentido de que talvez ele fosse um serial killer disfarçado ou algo assim.

— O que foi? — riu.

— Eu que pergunto. Você começou a me olhar primeiro.

— Mas você já sabe os meus motivos — deu um sorriso de canto.

Ignorei essa resposta genial e tentei tomar o chá que havia feito para mim.

— Não sabia que eu tinha esse sabor em casa — falei ainda com a xícara nos lábios.

— E não tem. Eu ia te trazer de presente outro dia, mas esqueci. Gostou?

— Não é nada mal. Onde conseguiu?

— Um amigo meu viajou pra Grécia e eu pedi que trouxesse.

Como resposta, arqueei uma sobrancelha e voltei a tomar o líquido quente.

Era muito confortável tê-lo como companhia. Fora meus pais, ele era a pessoa que melhor me conhecia. Sabia exatamente o que eu gostava e não gostava, e como me agradar. Eu poderia me apaixonar por ele se eu quisesse. Uma pena que eu não queria. Talvez, um dia, se eu me cansasse daquela rotina doentia...

— Fico feliz que você esteja bem. Então eu finalmente posso ir...

Ele se levantou e eu só me toquei quando estava a alguns passos de distância. Rápida e cautelosamente deixei a xícara na escrivaninha, logo então andando rapidamente até a porta. Consegui chegar antes dele — o desgraçado parecia ter deixado isso acontecer — e bloqueei a entrada com meu corpo.

— Se queria que eu ficasse, era só ter falado — riu. — Qual é o problema?

— Você pode passar a noite aqui?

Eu tinha certeza que não hesitaria em dizer sim, no entanto, Eren precisou pensar por alguns segundos.

— Eu tenho um compromisso indispensável amanhã. Por que não me convence a ficar?

Estreitei os olhos.

— O que você quer, Jaeger?

— Não sei — deu de ombros. — Suborno? Um argumento? Uma prova? Uma perspectiva? Como vou saber? Me surpreenda.

Eu estava com sono. Depois de beber tanto, era o esperado. Não raciocinei muito o seu pedido. O que ele queria? Pedindo algo assim para uma pessoa tão carnal quanto eu, o que eu deveria pensar?

Dei um suspiro pesado e fiquei na ponta dos pés. Não era a primeira vez que fazia aquilo com ele. Quando dissera que me amava pela primeira vez, permiti que me beijasse só por não querer que ele se sentisse muito rejeitado. Mais tarde, lhe expliquei tudo e, com um sorriso distante, dissera que entendia. Mas agora eu estava prestes a fazer algo insensato, que em nada deveria me afetar, apenas àquele pirralho idiota.

Dei um chupão arrastado e molhado em seu pescoço, logo após outro, e um beijo no canto de sua boca. Assim, sussurrei em seu ouvido:

— Você pode dormir na minha cama, se quiser.

Talvez eu realmente estivesse bêbado.

Suavemente segurou meu rosto entre as mãos e passou o polegar em meu lábio inferior.

— Quantas bocas essa mesma boca beijou essa noite?

Fechei os olhos deixando minha expressão transparecer dor. Por que bastava um toque dele para que eu quisesse jogar toda aquela vida vergonhosa para o alto e começar a ser um adulto de verdade? Ele tinha essa habilidade de manipular e criar sentimentos, me libertar das minhas próprias correntes.

— Eu não beijo em fodas rápidas — soprei. — Não na boca.

— Ah, sim — beijou minha testa. — Você deve estar cansado. Deite-se que eu vou fazer uma ligação e já venho.

Assenti e fui à minha cama. Minhas costas tocaram a colcha e eu me lembrei de que ainda estava apenas de roupa íntima. Tanto faz, é minha casa.

Eren estava demorando, então decidi dar uma olhada. Antes, coloquei uma camisa branca, fina, de mangas compridas, a gola quase deixava meus ombros de fora. Parei ao pé da escada ao escutar sua voz vindo da cozinha.

— Não, eu tenho certeza que será só amanhã [...] Mas é claro que posso me controlar. Não sou nenhum novato [...] Tá, Mikasa, eu vou assim que amanhecer [...] Já disse para não se preocupar, apenas o avise [...] Tá, tchau — tentei me virar e voltar na ponta dos pés para que ele não me notasse, mas não deu certo. — Não é educado ficar escutando as conversas alheias, Levi.

— Eu só...

— Veio checar se eu não tinha te enganado, né?

No quarto, deitei-me de costas para a janela de vidro no lado direito da cama. Observei enquanto ele tirava o sobretudo — aliás, como havia aguentado aquilo dentro do termostato de casa? — e sentava na beira da cama para tirar os coturnos e as meias. O que lhe restou foi uma camisa preta de manga curta e uma calça jeans preta também.

— Não vai ser desconfortável dormir assim? — perguntei. — Quer que eu te empreste um moletom?

— Seu moletom não caberia em mim.

Joguei um travesseiro na sua cabeça por trás.

— Vou te colocar pra dormir no sofá.

— Você não faria isso comigo — se levantou e jogou-o de volta. — Deixa que eu pego alguma coisa lá no closet.

Ele voltou com a calça de algum moletom cinza — que provavelmente eu comprara, por engano, dois números acima do meu — e sem camisa alguma. É nesses momentos que você percebe que nem de longe eu poderia me dizer cem por cento hétero. Aquele corpo... Pelo amor. Apagou as luzes e deitou-se ao meu lado enfiando-se embaixo do cobertor, assim como eu estava.

— Hein... Falando sobre outro assunto — começou — por que você continua bebendo tanto?

— Sinceridade? Eu não sei.

— Nem sei mais o que te falar. Queria poder te fazer prometer que vai tentar maneirar nisso, mas... Eu sei que de nada adiantaria.

— Garoto, como você consegue continuar dizendo que me ama? — murmurei bastante sonolento.

— “Sinceridade? Eu não sei.” — sorriu. Meus olhos estavam quase se fechando. — Talvez você seja o meu álcool.

Foi com aquela conversa sem sentido que acabei pegando no sono. E eu sabia que talvez ele não estivesse mais lá pela manhã, mas, ao menos, durante a noite alguém tiraria a frieza de minha casa e minha solidão.

Fui acordado por barulhos no andar de baixo. O sono não me permitiu distinguir. Olhei para o lado e constatei que o dia estava perto de amanhecer, principalmente pelo relógio marcar cinco horas da madrugada.

Logo vi que Eren não se encontrava mais ao meu lado. Isso me preocupou ainda mais ao prestar atenção na forma do barulho. Parecia um animal bufando e rosnando. Algumas coisas caindo e outras quebrando... O que estava acontecendo?! Alcancei minha arma debaixo do fundo falso da gaveta da escrivaninha e desci as escadas correndo. Estranhei ver as cadeiras no chão e parte da decoração da sala quebrada, mas o mais estúpido era que não havia ninguém.

Regra número um dos filmes de terror: não chame por nome algum.

Segui apontando a arma em todas as direções, tomando cuidado por onde meus pés descalços passavam. De repente, notei que bem no centro da sala — também centro da bagunça — estava a figura esbelta de Eren. Ele continuava vestido da mesma forma que fora dormir. O cabelo mais bagunçado, porém, indicava alguma anormalidade.

— Eren, o que aconteceu aqui?

— Eu... — ele parecia confuso — Desculpe-me, Levi.

As lágrimas escorriam em abundancia enquanto andava em minha direção. Nesse caminho, vi, pouco a pouco, seu rosto adquirir um tom cinzento. Depois, começou a virar algo como... Pedra? Várias rachaduras se formavam pela sua pele, consumindo-o tanto ao ponto de apenas um de seus olhos restar intacto. Todo o resto estava naquela abominável pedra.

Recuei alguns passos sem ter coragem de lhe apontar a arma, mas parei assim que ele parou. Um olho seu era completamente negro e o outro era de um verde vívido. Sem nem um pingo de amarelo na cor. Eu estava em choque demais para falar qualquer coisa. Ainda restava a esperança de estar dormindo... Sempre resta.

Em um vulto rápido e nada elegante, ele avançou em mim mais rápido do que eu poderia acompanhar. Sua pele áspera roçou no meu pescoço e então eu senti, com tudo que eu já almejara de desespero, a dor aguda de algo me perfurando. Depois, a dor parou. Eu conseguia sentir tudo: os caninos absurdamente longos e afiados se enterrando mais e mais na minha pele; sua língua e seus lábios trabalhando em conjunto para não deixar escapar nenhuma gotícula sangue — algo não tão bem sucedido, já que eu o sentia escorrendo pelas minhas costas; o ar feroz com que me devorava. Mas não doía. Só sentia um desconforto em ser sugado, mas nada exuberante.

Ali, na pele da caça, eu conseguia entender o que o predador sentia. Nele doía mais do que em mim. Se ele tivesse sido verdadeiro desde sempre — e acredito que sim — ele me amava. E agora, estava me machucando. Me matando. Deve ser pior do que ser o machucado.

Durante o breve momento que se afastou, pude ver seu rosto. Estava muito mais vívido que o de costume. A pele rosada e quase morena, a respiração ofegante e os olhos num verde que eu jamais presenciara. Era feroz, penoso e nostálgico. Humano. Seus fios castanhos pareciam mais brilhantes, a luz do sol que começava a surgir me mostrava... O quanto aquele não era o Eren que eu conhecia. E eu até consegui me sentir bem. Com a carne dilacerada na curva de meu pescoço, um garoto sujo de sangue e terrivelmente belo, eu me senti vivo.

Na realidade, as coisas pareceram se encaixar. Ninguém é tão perfeito que consiga ser inteligente, lindo e amável, tudo ao mesmo tempo. Ali estava a minha resposta: Eren era um monstro.

Como um último suspiro da escuridão, ele abraçou meu corpo e lambeu onde estava ferido. E eu, na minha esfera de vida e desilusão, levei minha mão a sua cabeça e o puxei para mais perto, acariciando aqueles, pela primeira vez vívidos, fios castanhos.

Talvez eu o amasse um pouquinho agora. Sempre tive uma queda por monstros.

“If you were human
If you were who I assumed you were
You wouldn't have done this
I thought I did something
But you would do anything
To bring me down
And he brought me down”

Se você fosse humano
Se você fosse quem eu achei que você fosse
Você não teria feito isso
Eu pensei que eu tinha feito alguma coisa
Mas você faria qualquer coisa
Para me derrubar.
E ele me derrubou.
— The Neighborhood ($ting)