Amaranto Negro
2 Um epitáfio para a sua solidão
“Solidão
Que vem e que reprime
Que vai e abandona
Ó bela solidão,
A lápide de minha felicidade
E felicidade de minha depressão”
— O princípio de simetria axial é bem simples se vocês já conhecem simetria central. Isso se vocês não tiverem estudado com professores de merda que aprovam apenas para não terem de lidar com filhas da puta como vocês durante mais um ano — analisou nossas caras de estudantes filhas da puta. — Eu seria esse professor de merda. Continuando, o princípio é simples. A proporção toma base no ponto de simetria, a partir daí é só ver se a fração for relativa ao interior ou ao exterior. E se eu fosse vocês, anotaria cada palavra minha. Já comentei sobre o sistema de provas surpresa?
Um sorriso sádico fez seus lábios se repuxarem imperceptivelmente a olhos humanos. Se ele sorrisse mais um pouquinho, seria realmente de se suspirar.
— Mas, professor, — uma menina falou depois de levantar a mão e ter seu consentimento para comentar algo — o senhor ainda nem apresentou os princípios básicos e já está partindo para os exemplos?
— Você falou só uma palavra que presta nisso: professor. Exatamente, eu sou o professor, o cara formado numa faculdade difícil para caralho e que ganha muito para ensinar essas merdas pra vocês, alunos que só tem formação para ganhar a porra de salário mínimo — pegou a caneta digital e, antes de escrever no quadro, virou-se para nós e indagou com aquela mesma expressão sádica: — Alguém tem mais perguntas?
Menos de um minuto que a aula havia começado e ele já havia dito incontáveis palavrões. Menos de um minuto de aula e já havia nos xingado, xingado a ele mesmo e ainda ao nosso professor. Menos de um minuto de aula e havia feito ameaças implícitas para a nossa turma.
Ele era incrível.
Posso dizer que me hipnotizei logo de inicio. Eu estava vidrado nele. Não na sua beleza e porte notáveis — como todas as garotas já haviam notado —, mas tinha aquele pressentimento que a gente tem da primeira vez que vemos alguém. Em todos os meus séculos de vida eu nunca tinha encontrado alguém como ele e tinha a impressão de que nunca encontraria novamente. E com “alguém como ele” não me refiro a uma pessoa idêntica — obviamente, isso é impossível. Mas alguém com aquela essência. Não sei se é muito difícil de entender, mas imagine que nós vivamos numa sociedade onde todas as essências das pessoas têm uma coloração esverdeada. Algumas são mais puxadas para o azul e outras para o amarelo. Outras mais para o verde escuro e algumas mais próximas do branco. Todas em tons diferentes de verde, porém. Naturalmente, é impossível que a de alguém seja completamente preta, branca, azul ou amarela. Todas — todas — continuam sendo de um verde legítimo.
Mas... De tempos em tempos, encontramos alguém... Diferente. Vermelho. Laranja. Marrom. Rosa. Bege. Beethoven, Shakespeare, Newton, Einstein. Eles tinham cores fora dos padrões. Não digo que Levi era como um gênio, de mente equiparável aos grandes desenvolvedores das ciências atuais. Mas ele era tão perturbador e tão distinto que tinha como sair da categoria “verde”. Ele era um... Roxo. Um tom agressivo, ainda que morbidamente calmo. Agitado e frio... Definitivamente Levi.
As primeiras semanas passaram. Quando eu menos esperava, o nosso professor original teve seu curso na Alemanha atrasado e Ackerman teve de passar mais tempo conosco. Quando eu menos esperava, estava me destacando pelas notas impecáveis e chamando a sua atenção pelas minhas visões diferentes do conteúdo — era muito fácil quando eu estudava aquilo havia uns cinquenta anos.
Quando eu menos esperava, o amava. O sentimento simplesmente surgiu, não desejoso nem desesperado. Era a admiração, o interesse e a paixão juntos. Eu apenas o amava.
Tudo que faço sobre ordem da Organização tem um propósito plausível, inclusive aquela faculdade. Era a minha área, claro, geometria e exatas. Mas o motivo de estar lá era outro completamente diferente. Eu precisava observar um novato que estava causando tumulto na faculdade por alguns assassinatos. Nós compartilhávamos grande parte das aulas da faculdade, mas, para não ser muito óbvio, não fazíamos o mesmo curso. Enfim, o fato é que dali a algum tempo a solução foi mata-lo (uma perda de tempo) e eu teria de sair da faculdade. Afinal, não fazia bem tentar se incluir no mundo humano. Isso — me explicaram quando ainda era um novato — faz com que queiramos ser um deles. E querer isso... Só traz a destruição.
Então eu tive de deixar a faculdade. Não sem antes fazer os procedimentos comuns, o que incluía falar uma última vez com o melhor professor do curso, uma vez que qualquer aluno normal que estivesse na minha posição faria o mesmo.
Claro, apenas por isso. Nenhum motivo além — sinta a ironia.
— Professor Ackerman, posso falar com o senhor? — com um sorriso divertido, parei na porta da sala de aula.
Eu costumava ser assim perto dele. Eu não conseguia conter o sorriso e por várias vezes a risada, ele nunca deixava de me surpreender e me fazer querer rir. Antes que qualquer dúvida quanto a isso surja, na nossa Societatis é comum que pessoas do mesmo gênero estejam juntas. Na maior parte dos casos, as nossas relações são restritas entre os compatíveis, ou seja, quando alguém como eu se relaciona com algum humano é por sangue.
— Qualquer um pode falar comigo, o que não significa que eu vá responder e nem que eu vá escutar a qualquer pessoa — respondeu sem desviar-se do trabalho à sua mesa.
— Então, podemos conversar? Creio que esse verbo inclua tudo isso junto.
— Diga, Jaeger — ele finalmente parou de mexer nos papéis. — Espero que não seja a respeito da prova de sexta, porque você parece dominar esse assunto melhor que eu.
— Não, não — dei uma risada meio tossida por ele estar me elogiando. — Eu achei que deveria avisar que vou deixar a faculdade. Trancaram minha matricula, mas eu não pretendo voltar.
— Me diz que isso é brincadeira.
— Não é, não.
— Então você está certo sobre foder a sua vida?
— Eu ainda vou trabalhar, fazer outra faculdade... Só que essa não é pra mim.
Ele se levantou e foi em direção à porta, onde eu ainda estava parado.
— Você é o melhor aluno dessa classe de incompetentes e vai abandonar o curso porque “não é para você”? — me lançou um olhar furioso, como se realmente estivesse zangado pela minha decisão. — Você vai deixar esse professor morrer com esses porra louca?
— Olha, se você vai sentir tanta falta de mim... — escrevi rapidamente meu celular numa propaganda velha que tinha no bolso e lhe estendi. — Sempre que quiser analisar as vistas de uma peça, fazer cálculos doidos ou só estiver no tédio, pode me ligar. Isso se chama amizade, caso não saiba. Mas eu realmente preciso ir, eu tenho... Trabalho a fazer.
Ackerman arqueou uma sobrancelha enquanto observava eu me afastar e sair da entrada. Caminhei pelo corredor, sentindo seu olhar me pressionando. Eu podia até imaginar: a sua pose mais relaxada, olhando para mim e depois para o meu telefone, imaginando o que faria com aquilo. Mas não demorou tanto. Dois dias depois, ele me ligou. E no dia depois desse, e no próximo também. Às vezes ele não ligava por estar ocupado ou pelo seu orgulho. E outras, eu que ligava. Sobre o que falávamos? No começo, foi geometria e pura matemática. Depois o gelo foi sendo quebrado, e nós simplesmente conversávamos. Era divertido. Isso porque Levi não era de conversar, mas ele acabava conversando. Ele não era de se abrir, mas eu fiz com que o fizesse comigo. Isso até ele parar de ligar e me atender.
Quando isso aconteceu, eu fiquei preocupado. Era difícil construir uma relação com ele sem desmoronar tudo, então imaginei que eu tivesse dito algo de errado. Ainda assim... Eu o amava. E se tivesse acontecido algo? Se tratando de Levi... Ele era perigoso para ele mesmo.
Eu andei pelas áreas próximas à sua casa e não consegui encontra-lo. Então eu estava voltando para casa e tive de passar por uma rua de bares quando senti aquele cheiro de lilás. Muito disfarçado pelo álcool, mas ainda era um cheiro bem específico e que eu conhecia melhor do que qualquer coisa.
Parei na frente de um bar não tão agitado, de onde vinha o cheiro. Dava para ver, dentro dele, Levi se segurando na bancada de forma curvada. À frente dele, um copo em cacos e ao seu lado, um homem engravatado com ar de irritado. Mas o cheiro da raiva dominante provinha de Levi. Ele se segurava para não revidar da forma devida e causar grande estrago naquele homem indignado. Dava para ver isso por causa de seus músculos levemente trêmulos e aquele olhar... Aquele magnífico olhar de ódio.
Algumas pessoas achariam sua situação patética, e talvez fosse um pouco. Mas eu achei especial. O conjunto daquelas suas duas faces, a elegante e impecável, e a de um bêbado irresponsável, faziam dele alguém que eu adoraria ter por perto. Que eu sabia desde o inicio que ele bebia, isso eu sabia. O cheiro de álcool era impregnado nele, ainda que pessoas comuns não conseguissem sentir. De toda forma, eu queria que ele parasse de beber. Esse foi meu desejo por muito tempo, que eu ainda pretendia concretizar. No momento, porém, eu precisava ao menos livra-lo de se descontrolar e levar as consequências do ato.
Em um passo eu estava dentro, vendo toda a situação em câmera lenta. No outro, eu puxava Levi para trás de mim, sorrindo de forma sutil. O homem se assustou e o tempo descongelou.
— O que está fazendo, Jaeger? — escutei Ackerman grunhir entredentes.
— Salvando a pele do meu professor favorito, Ackerman — murmurei para ele, logo após me voltando para o homem. — Desculpe pelo incômodo, mas você poderia deixa-lo comigo? Ele não incomodará mais, prometo. E peço desculpas pelo que quer que ele tenha feito, eu tomo a responsabilidade.
— Pf, tudo bem — opa, já achei o erro. — Mas diga para ele que homofobia é crime! Não se pode nem mais flertar hoje em dia...
O homem foi para o outro lado do bar enquanto eu, tentando não rir, olhava para Levi. Pagamos sua conta — o verbo no plural, porque ele não conseguia nem abrir a própria carteira e contar o dinheiro — e eu o levei para fora. A noite estava abafada, como se as nuvens formassem um enorme cobertor de algodão gigante. Eu o apoiei na vidraça do bar e aguardei que dissesse alguma coisa sobre o ocorrido. Quando a sua iniciativa não veio, decidi começar:
— Então... Ele tentou te seduzir?
— Algo assim. Ele começou com uma conversa furada, mas hoje eu não estou pra transar, só queria ficar quieto — seu tom era arrastado e eu sabia que estava quase bêbado, mas não o suficiente para perder completamente o senso. — Aí, quando eu o ignorei, ele tentou passar a mão na minha coxa. Eu devia ter enfiado aquele copo na goela daquele filho da puta...
— Hey, calma. Como o copo quebrou no meio da história?
— A bicha ficou nervosa quando eu o empurrei e jogou o seu copo na bancada perto de mim. Eu estava me preparando para espanca-lo quando você chegou.
— Ah — suspirei — que bom que você não estava tão bêbado a ponto de topar alguma coisa com um homem, não é?
— Não é por ser homem, eu não ligo tanto para isso. Mas é por ele não respeitar minha vontade, isso me deixa puto.
— Entendi, entendi. Você está de carro? Quer que eu te leve para casa?
— Não, eu vim a pé até aqui. E não se incomode, eu sei voltar para a minha própria cas... Aliás, o que um pirralho como você está fazendo num bar, Eren Jaeger?
— Eu passei aqui por coincidência, estava indo... Comprar pão — menti.
— Obrigado, de qualquer forma — olhou-me desconfiado. — Vá fazer algo de útil da sua vida, garoto.
— Sim, senhor.
Sorri e esperei que ele virasse e seus passos fizessem um ruído no chão imperceptível para qualquer um além de mim. Quando eu estava virando para retomar meu caminho, recordei de outra coisa.
— Levi! — chamei.
— O que é, porra?
— Por que você não liga nem atende minhas ligações?
— Eu estou... Muito ocupado — seus olhos diziam que era mentira. — Ocupado com o trabalho. Ser diretor e professor substituto simultaneamente não é algo tão fácil.
— Tão ocupado que teve tempo de sair para beber?
A sua casa era tão... Límpida. As cores neutras com algumas plantas em lugares estratégicos faziam com que eu me sentisse num hotel. Tanto vidro até dava a impressão de estar sendo observado, mas eu sabia que isso não era verídico, afinal, nenhuma outra essência se fazia presente.
— Eu vou tomar água, já venho. Fique à vontade.
— Ok.
Aquele era o seu cheiro. Não tinha nada de álcool nem cevada, era um cheiro roxo. É difícil de entender, mas era um aroma quase sedutor, ao passo que era arrastado e maduro. Um cheiro tão límpido quanto sua casa e tão... Deprimente... Quanto ele próprio. Por isso que roxo era a sua cor.
Levi voltou com uma garrafa de água mineral em mãos. Senti cheiro de menta, então provavelmente havia escovado seus dentes. Eu ainda estava de pé, da mesma maneira que ele havia me deixado.
— Sente-se — foi mais como uma ordem. Ele ligou a TV.
— Vamos ficar nisso de fingir que eu não perguntei nada, ou você vai me dizer o motivo de ter parado de falar comigo repentinamente?
— Se eu dissesse que não sei a resposta, você acreditaria?
— Talvez. Me convença.
— Que conversa é essa, eu não devo nada a um pirralho — queixou-se ele num murmúrio.
— Pirralho esse que acabou de te livrar de cometer um crime. E você pode me considerar um amigo, se quiser.
— Olha, eu realmente não sei, tá legal? Não sei porque eu parei de ligar pra você quando de repente tudo o que eu quero é pegar aquele maldito celular e começar uma conversa. Eu não tenho ideia se tenho medo de estragar isso que a gente tem ou se eu não suporto a ideia de deixar alguém entrar nessa barreira que eu mesmo criei. Não sei como agir com um “amigo” e nem mesmo com um conhecido. E agora, quando despejo isso tudo em você, penso se não estou fazendo besteira ao confiar. Eu deveria simplesmente dizer para você esquecer que me deu seu telefone? Ou apenas continuar a levar tudo como um teatro?
Eu sabia que meus olhos estavam brilhando.
Quem diria que ele poderia ser tão direto e tão anormal?
Era por isso que eu o amava.
Céus, eu o amava.
— Por que você tem que complicar tanto as coisas? Apenas seja o que você quiser ser — “seja meu”, eu queria dizer. Mas não podia.
— Eu sei, mas quando isso inclui outras pessoas é... Diferente.
— Bom, se você ainda quiser manter contato, você me liga. Eu não vou te incomodar mais — dei um sorriso com aparência de natural.
Me levantei para sair, realmente confiante de que ele ficaria calado sem nem olhar para mim quando fosse embora. O pior era saber que eu não poderia ser verdadeiro e estar ao seu lado. Ele não podia saber sobre quem eu era e continuar comigo... Não importava o quanto eu amasse. O Conselho já havia me alertado sobre isso um zilhão de vezes e eu sabia, por muito mais que apenas uma experiência, o que amar fazia com alguém como eu. Amar um humano, digo.
— Eu quero manter contato — disse depois que dei dois passos. — Tomei essa decisão no momento em que entrou naquele bar, Jaeger.
Foi assim que as coisas realmente começaram a rolar. Ajuda-lo quando bêbado se tornou um costume após ele começar a exagerar muito mais no álcool. Uma coisa leva a outra e quando vejo, já nos acostumamos um com o outro. Às vezes eu aparecia na sua casa apenas para trazer almoço e em outras, ele me chamava para ajudar com as provas e atividades das turmas de “incompetentes”, como gostava de chamar.
Bem no fundo, Levi era uma pessoa divertida e gentil. Eu nunca tentava “algo mais” porque, sinceramente, não queria destruir nossa amizade. Eu não sentia aquele amor humano, carnal, de desejar loucamente uma pessoa. Se eu pudesse vê-lo e enquanto ele dependesse de mim, eu estaria feliz. Não me importava (muito) em saber que ele transava com outras pessoas... Ou foi assim no inicio. Chegou uma hora que eu senti... Senti que seria muito mais completo com ele em meus braços.
Dentre as dezenas de pessoas que amei ao longo de todos esses anos, ele foi o meu primeiro amor ciumento.
— O que trouxe hoje?
— Pizza à lá Ceciliana, a sua preferida.
— Nada mal — deu espaço para que eu entrasse.
Era impossível não notar o que vestia. Aquela regada solta branca que, Senhor, não escondia praticamente nada, me mostrando todo o seu peitoral terrivelmente bem esculpido. E aquela droga de boxer azul-marinho que às vezes ele usava sem pudor, em suas épocas mais distraídas.
Tirei meu sobretudo quase sentindo aquele tipo de calor e o deixei numa das poltronas da sala. Sentei ao seu lado um pouco relutante, observando aquelas coxas. Ah, que coxas. Não era atoa que o cara naquele dia havia passado a mão ali. Era a minha vontade, no momento.
Mas como um bom ser frio, permaneci imóvel, fingindo que prestava atenção na televisão enquanto ele corrigia as provas feitas pelos professores da escola que direcionava.
Eu não era humano. Não me excitava se eu não queria. Não corava se eu não queria. Nada emocionante, por assim dizer. Mais prático, porém.
Eu o olhei de relance quando suspirou e abaixou aquele monte de folhas, depositando-o na mesa de centro.
— Me diz, Eren, — falou relaxando no sofá e pegando um pedaço da pizza — você é um cara jovem, — nem tanto, querido — bonito, tem bom porte e aparenta ser muito popular. Você não tem nenhum namorado ou namorada?
“Sério que você não notou, babaca?”
Mas tudo bem, eu era realmente profissional em atuar.
— Estou solteiro — respondi sorrindo e olhando diretamente em seus olhos.
— O que não te impede de estar afim de alguém.
— Você quer mesmo falar disso?
— Ah, quero sim — ele virou de frente para mim. — Você não vai querer virar um velho solteirão como eu, vai?
Eu já sou um velho solteirão. Porém nunca vou deixar de sê-lo, porque eu amo os humanos. E os humanos são frágeis. Eles vão embora num piscar de olhos, amá-los é como amar uma flor. Se você arrancá-la para tê-la para si, ela morre mais rápido. Se você simplesmente deixa-la lá e observar de longe, ela morrerá do mesmo jeito, só que pelas mãos de outros fenômenos.
Humanos e flores são exatamente iguais.
Eles já me alertaram um milhão de vezes. Eu sei que um dia ainda vou enlouquecer por perder... Mais alguém que eu amo.
“Não se apegue aos mortais”
“Mas nós também somos mortais, só não tão frágeis”
“A dor pode enlouquecer, Eren. E isso é pior que a morte”
Era isso. Eu não podia me arrepender de nada, pois assim o meu remorso seria infinitamente pior que alguém normal. Além de lembrar perfeitamente, eu sofreria pelo resto da eternidade. Uma tortura.
— É você que eu amo, Levi.
— Como?!
— Eu te amo.
— “Amor” é uma palavra meio forte, não?
— Você não está entendendo — abaixei a cabeça e depois o encarei com mais intensidade. — Desde o momento que eu te vi até agora, eu tenho certeza do que sinto. Eu...
Ele não deixou que eu terminasse. Partiu para mim como a presa que se defende do predador. Não era um beijo como de quem corresponde ao que quer que seja, mas um beijo para que eu me calasse. Isso porque palavras como “amor” o matavam. Mas eu aproveitei, como todo bom manipulador, e o beijei para valer. Fingindo que ele correspondia, eu segurei sua cintura e o puxei para mim. Ele era bom naquilo, provavelmente por ter muita prática. Ele era tão bom que era de se hipnotizar. A sua língua manipulava a minha, deixando bem claro que ele queria dominar, e os seus lábios me retiravam a sanidade. Seu gosto não era físico, mas algo como eletricidade que eu sentia me alimentar. Era impressão minha ou a cada chupão que eu dava em sua língua eu só o desejava mais? Impressão minha ou ele tinha um gosto machucado?
Eu quis, mais do que nunca, que aquilo fosse real. Mas era uma ilusão, e ele mesmo me disse isso mais tarde.
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