Amaranto Negro
13 Um epitáfio para a esquizofrênica
— Eu nasci em Pádua, uma cidade-estado numa região onde a capital era Veneza — contou ele num sussurro relaxante. — No século XVI, as cidades-estados daquela região viviam em guerra entre si e contra a Alemanha, França e essas coisas que você deve ter estudado em história. Meu pai e minha mãe, na realidade, são da Alemanha. Eles se mudaram para lá por algum motivo que nunca me contaram.
Eren acariciava o braço de Levi meio que inconscientemente enquanto falava. O outro prestava atenção em cada palavra pronunciada por Jaeger, como se delas viesse vida.
— Eu nasci antes de Shakespeare, aliás — deu um meio sorriso de orgulho vazio. — Pude acompanhar suas obras de perto. No meu século de nascença, a vida era muito diferente da de hoje. Isso principalmente na Europa. Escravidão, guerra, machismo ao extremo... Não vou mentir e dizer que sempre fui inconformado com isso. Afinal, é algo que se torna costumeiro. — Seus dedos estavam mornos, Levi sentia isso em sua pele. Mas por quê? — Parte da história você já sabe, sobre meus pais terem dado o bote. Eu me rebelei logo no início. Saí vivendo de forma irresponsável, deixando um rastro de morte por onde passava. Não me importava com nada. Passei duas ou três décadas por minha conta. Sem ter laços com ninguém, vivendo com aquela angústia constante. Foi quando comecei a realmente prestar atenção no comportamento humano. A personalidade, estado psicológico, situação de vida... Tudo depende dos laços humanos, dessas relações de afeto. E tudo começou a me intrigar, porque eu não sabia mais como ser assim. Foi quando descobri que poderia me apaixonar. Que havia algo que eu amava verdadeiramente: a humanidade.
Levi o encarou assim que disse isso. Seus olhos despertos e cheios de interesse. Eren teve que desviar sua atenção por um segundo para não interromper a história e se perder em seu rosto.
— Quando Catarina, a minha primeira esposa, morreu, eu fui tomado por um mar de dor. Eu finalmente havia notado como seriam repletos de dor os meus dias por ousar amar os humanos. Afinal, eles são frágeis. Uma queda de mau jeito, um impacto forte demais. Uma pequena perfuração, ou até mesmo um mísero corte; são seres que podem morrer por simplesmente isso. E eu perderia meu amor uma e outra vez, sem nunca sessar. Preparei-me para isso todos os dias até amar novamente. Eu sabia que todos morreriam. E eu estava pronto para encarar a morte assim que ela viesse me roubar. Naturalmente, as coisas não seguiram exatamente como planejei. No fim do século XVI, encontrei-me com Carla e Grisha novamente.
Um arrepio subiu pela coluna de Levi, finalmente percebendo que ele havia conhecido a mãe de Eren.
— Eles me contaram sobre um projeto, algo com criar uma organização. Não lembro muito desse período, só sei que meu pai... Fez algo. Não sei ao certo. Eu era como o seu brinquedo. Por natureza, sempre tive um talento para lutar. Mas ele queria mais, não era o suficiente. Deve ter sido ele que fez Carla ser o que é hoje, e talvez tenha sido nessa época que eles brigaram. Tudo que sei é que, aos poucos, ele foi aparecendo com menos frequência e, de repente, desapareceu. Foi assim pelos séculos, talvez deixando uma evidência proposital de tempos em tempos. Isso até agora.
Sua visão foi ganhando pontos escuros e, à medida que a escuridão se revelava, um rosto. Uma impressão pálida e inexpressiva. Talvez um leve toque de tédio, porque a eternidade era assim. Levi respirou fundo, como se o ar lhe faltasse, e o rosto se dissolveu. Teve um arrepio quando percebeu, após desperto, que o homem estava curvado sobre ele, como se o observasse dormir.
Era mesmo necessário que antes do pesadelo tivesse sonhado com a conversa com Eren? Agora ele o desejava. Mas um desejo diferente do de sempre. Não tinha em mente só sexo ou boquete ou coisas assim. Ele tinha saudade de seu toque por vezes gélido e por vezes morno, do timbre de sua voz, da sua inteligência e assuntos interessantes que tratava. Ele simplesmente queria que Eren estivesse ali, por que isso parecia tão errado?
Pegou o celular; eram quatro horas da manhã. Ligou para ele.
— Preciso de você aqui.
— Existem prostitutas 24h por dia, sabia?
— Wow, não era você que me fez assinar um acordo de fidelidade e prometer que meu pau só entraria na sua boca?
— Se chama namoro.
— Tanto faz.
— Você sabe que eu não vou conseguir me controlar se eu te tocar. Hoje começa Lâmia, já estava saindo para me alimentar. Amanhã estará tudo bem.
Levi analisou um pouco a hipótese de Eren encostando sua boca macia no pescoço de uma pessoa aleatória — logo veio a sua mente uma dama indefesa caminhando pelas ruelas mal iluminadas da cidade —, usando seus braços longos para confortar a vítima como num abraço da morte.
— Venha para cá.
— É sé...
— Venha. Para. Cá. É a última vez que falo.
Levi desligou e torceu para que Eren fizesse como pedira. Esperou em sua cama, o ar estava frio demais para que levantasse. Fora que ele queria ter onde se segurar quando... Quando Eren bebesse o seu sangue.
A campainha foi tocada, e Levi disse como se falasse com uma pessoa no mesmo cômodo “entre pela janela, não vou descer não”.
Jaeger ficou parado o mais próximo da janela possível, aparentando prender a respiração. Seus olhos estavam verdes. E, agora que Levi parava para reparar, era um verde bem irritante.
— Venha aqui.
Eren, meio relutante e meio cego, caminhou lentamente e se ajoelhou até ficar ao lado de Levi. Este segurou firmemente na sua nuca e aproximou o próprio pescoço do rosto do outro.
— Beba.
— Nã...
— Eu mandei beber, idiota.
Levi apoiou a testa no ombro de Eren, afrouxando o aperto. Eren estava imerso na sua batalha pessoal, numa rixa entre todas as suas partes existentes. Se ele permitisse, tinha uma parte extremamente perversa sua que tomaria conta e diria que ele já havia feito demais por Levi, que estava na hora de pegar um pouco do seu pagamento.
Mas o seu eu forjado nos últimos séculos ainda era forte o suficiente para fazê-lo levantar de supetão, deixando Levi olhando para o nada.
— Não — disse com firmeza.
Levi levantou uma sobrancelha. Ele sabia que se aquela fosse uma vontade verídica, Ele já teria saído. Mas algo ainda o prendia ali.
Desejo?
Naturalmente.
— Você é tão cruel — murmurou Levi num tom infantil e sensual ao mesmo tempo. Como se ele fosse o monstro impiedoso seduzindo a presa.
Pegou a faca que também guardava no fundo falso da gaveta, apenas por precaução, e fez um pequeno corte na ponta de seu polegar. Guardou a faca novamente e passou o dedo pelos seus lábios, como se passasse batom.
Aquela seria uma visão que apenas Eren guardaria, mais ninguém, e o moreno sentiu um estranho prazer nisso. Levi vestia uma blusa de lã vinho, que cobria até o começo de suas coxas, e, fora isso, apenas uma meia soquete cinza. Estava um frio da porra e ele nem calças vestia. O ar formava neblina de sua respiração, os seus passos eram mudos no chão. Ele caminhava como uma pantera, os lábios vermelhos por conta do sangue não ajudavam. E não era como se seus movimentos arrastados fossem propositais, ele agia como um bêbado em sua forma trivial.
Uma. Duas gotas de sangue no chão. O ouvido de Eren zunindo, zunindo. O ar pesado, o cheiro metálico. O cheiro horrível, que o atraía num magnetismo inevitável.
Outra gota, mais uma gota. Essa pingou mais perto, e o fez se arrepiar. Seus olhos brilhavam como os de um animal. Suas íris se voltaram avidamente para a boca de Levi, onde estava uma maior concentração de sangue. Aqueles lábios que guardavam todo tipo de desejo que Eren poderia sentir.
Um sibilo baixo para conter a sua parte que insistia em tomar uma forma de renegado. Era cedo, dava para oprimi-la. O que não queria voltar ao tamanho original era — o volume em suas calças, opa, não — os seus caninos, que ficavam mais e mais pontiagudos, parando até se curvarem sobre seu lábio inferior.
Levi depositou um beijo suave em seus lábios, e ele automaticamente os lambeu. E então, deixou-se perder um pouquinho o controle, lambendo o sangue em Levi e o beijando mais demoradamente.
— Vamos, eu preciso cuidar desse corte, — murmurou o menor — ele pode infeccionar. Beba logo.
Agora todos os seus dentes ficavam afiados, seu semblante ia se transformando... Pelo desejo.
— Por que você tem que ser tão ardiloso? — resmungou para Levi, acariciando sua bochecha.
Aproximou-se como se fosse beija-lo, mas acabou por arrastar seu nariz gentilmente pela pele de seu pescoço, onde logo morderia. Em seguida, pegou sua mão. Seu dedão ainda sangrava; deixou que pingasse em sua boca e lambeu para que o processo de cicatrização fosse agilizado.
— Você vai me deixar duro se continuar assim — Levi interceptou o ato e colou o seu corpo ao do outro. — Está tudo bem, eu não ligo se doer.
Uma mão de Eren segurava o seu pulso com força e a outra agarrava sua cintura. De repente, seus dentes penetravam a carne de seu pescoço. A dor inicial atravessou como uma agulha o seu peito, e depois não doía mais.
Era como se o próprio aperto em seu pulso doesse mais do que a mordida em si. Sua mão livre, como na outra vez, foi para o cabelo de Eren. Puxou-o para mais perto, como se ele fosse quem estivesse se alimentando ali.
Eren forçou-se a não mata-lo. Se Levi ao menos lutasse, tentasse empurrá-lo... Seria simplesmente tão mais fácil.
— Meu sangue é bom? — perguntou o completamente sem noção Levi Ackerman.
— Tem gosto de álcool — Eren franziu o nariz.
— Então é bom.
Levi o puxou para o banheiro, antes de qualquer coisa lavando suas próprias mãos. Tirou o sobretudo de Eren e o jogou para dentro do quarto, na direção da cama. Pegou uma toalha e molhou-a, passando pelo queixo e pela boca do caso perdido a sua frente.
— Eu deveria estar cuidando de você — resmungou Jaeger.
— Daqui a pouco eu tomo um banho ou algo assim.
— Você não está se sentindo tonto?
— Não mais do que alguns copos de cerveja me deixam.
Eren tomou a toalha de Levi e lavou-a na pia. Apenas repousou-a sobre o machucado no pescoço do humano, que deixou uma pontada de dor transparecer em seu rosto, para depois relaxá-lo.
— Já vai passar — disse Levi. — Eu cuido de mim.
Eren ignorou e continuou limpando a ferida. Logo, apenas restava um pedaço de carne com a marca de uma mordida bem profunda em seu processo de coagulação.
— Talvez devamos ligar para aquele médico da última vez, você vai precisar de cuidado profissional.
— Pelo menos você não abriu minha ferida antiga.
— De fato.
— E pelo menos não fez tanto estrago quanto da última vez. Aliás, foi bem diferente hoje. Por quê?
— Quando eu perdi o controle aquele dia eu já tinha passado uma semana do dia que deveria ter me alimentado. Aquele era o dia limite, para mim. Ou eu só ficaria satisfeito bebendo um humano inteiro. Hoje foi a data certa, por isso não tomei a aparência de um renegado.
Enquanto falava, Levi ia colocando um curativo improvisado em seu pescoço.
Ele repousou sua mão no braço de Eren antes de sair do banheiro. Colocou calças e um casaco. Calçou tênis e foi escovar os dentes, para então pegar sua carteira, seu celular e suas chaves.
— Vai tomar uma atitude de adulto uma vez na vida? — Eren perguntou divertido, recolhendo seu sobretudo que acabara caindo no chão.
— Na verdade, eu ia pra o hospital de um amigo do meu pai conseguir umas anestesias sem precisar de uma grande história.
— Muito maduro.
— Obrigado.
Eren o seguiu para o carro.
— Tem casa não?
— Sim, mas também tenho um ser humano irresponsável para cuidar. Então apenas continue.
— Dirige por mim então, meu pescoço dói. — Eren fez que sim com a cabeça, mas parou na frente de Levi, que dava a volta no carro para entrar no banco do passageiro. — O que você queeer?
— Um boquete.
— Sério?
— Não, eu só queria um beijo descente.
— Sua boca ainda está com gosto de sangue?
— Não, eu escovei os dentes também.
— Aaaah, que chato!
Eren revirou os olhos e apenas abaixou a cabeça, beijando Levi de forma um pouco mais violenta que o normal — violenta não, impaciente, eu diria.
— Hmm... Gosto assim — Levi murmurou, fazendo Eren rir e continuar com aquele ato descompassado.
Não era sincronizado e, com a menta, ainda havia um leve sabor metálico, mas nenhum dos dois ligava. Nem mesmo para aquela ardência incômoda que fazia a pele mordida latejar.
— Precisamos arranjar um jeito de eu não parar num hospital ou com um médico particular toda vez que você beber o meu sangue.
— Como...
— Não, você não vai beber o sanguinho de mais ninguém. Eu podia me cortar e deixar escorrer num copo, né?
— Sério?
— Eu sempre falo sério, Eren Jaeger — Levi engrossou a voz.
— Haha, claro. Agora, de verdade, eu não quero te machucar toda vez que sentir fome.
— Nah, nem doeu dessa vez.
— Mentiroso.
Mas Levi não escutou essa parte, porque a dor o desconcentrou e o fez perder a audição por um ou dois segundos, fora que Eren falou baixo demais, também.
***
Ele estava exausto, mas não queria dormir. Outra coisa que falam dos sonhos é que eles são a manifestação do nosso subconsciente em relação a pensamentos e desejos reprimidos, ou talvez a reprodução de algo extremamente marcante para nós. Era um conceito óbvio. Era por isso que detestava dormir. Levi tinha tantas coisas reprimidas e tantas situações que poderiam retornar para o atormentar... Ele queria dormir e passar uma noite de negrume total.
Era sempre aquela mesma sensação. O cansaço vence e a sua cabeça gira, os pensamentos virando objetos como uma pessoa surgindo do pó. Ele arfava, desejando poder acordar. Mas uma vez que estivesse dormindo, ele sabia, só retomaria sua consciência quando o seu subconsciente quisesse, não as suas vontades por si só.
Respirou fundo o ar daquela simulação da realidade, uma atuação de baixa qualidade. Era frio. Era frio e tinha sabor de loucura. No escuro total, deu dois ou três passos. Sua mente começava a confundi-lo, fazendo-o pensar que mesmo sendo mentira, aquilo era uma parte importante da realidade.
Reconheceu, dentre as formas mais escuras que a própria escuridão, o monumento com o qual sonhava tanto que até mesmo já perdera o medo. Deu de ombros, seguindo o protocolo normal dos sonhos. Avance e descubra. Andou passos despreocupados, e parou. Por que tinha parado?
— Ele está mais velho, não vê? Não vê? Claro, ele continua lindo, lindo como sempre. Você pode parar de contestar tudo que digo? E você pode calar a boca? Não, é claro que se lembra. Há! Como se suicídio e desistir da vida fossem a mesma coisa. Por Deus, aquele médico tinha um sorriso satisfatório. Um, dois, três indiozinhos... Branca de neve vivia bem longe, num lugar...
Virou-se, reconhecendo a voz. Ela não falava com ele havia muito tempo, bem que começava a achar estranho.
— Pare de brincar de louca — falou como se tolerasse aquilo todo dia.
— Por que está aqui, Levi? — os olhos dela brilharam com interesse. Aqueles olhos dourados, infelizes.
— Ao que parece, até meu subconsciente é bem irônico.
— E o garoto? Aquele dos olhos parecidos com os meus.
— Ele vai ficar sumido até o efeito do meu sangue passar.
Ela correu para ele como se fosse um animal.
— Isso é uma pena, porque efeitos de sangue são eternos. Por que acha que os demônios são o que são?
— Isso me lembra, como vai a sua estadia no inferno?
— Solitária sem você, obrigada.
— Gostaria que eu fosse te visitar?
Ela sorriu.
— É tudo que eu mais quero.
No sonho, Levi suspirou. Uma conversa tão previsível, é claro que era previsível. Ele mesmo que estava proporcionando aquilo. O sanatório atrás dele não era mais real que aquela linda e doente garota. E ele não podia afirmar, com certeza, que gostaria que eles fossem reais. Por que ele tinha que ter amado a própria loucura encarnada? Isso fazia dele um alucinado? Sádico? Só trazia dor de cabeça, porque, pelo visto, gente com problemas mentais vinha até dos mortos para infernizar.
— Você está com a mente muito atolada de pensamentos, meu amor — sussurrou, num tom que apenas ela sabia fazer. O olhar dela o penetrava, suas mãos gélidas acariciavam seu rosto. — E o conselho que eu te dei? Não pense, não sinta, não tenha problemas. O mundo real está passando por uma crise e não produz mais álcool?
— Não, aqueles filhos da puta sempre vão produzir álcool, mesmo durante o apocalipse.
— Então o que te está faltando é uma Everclear ou uma Balkan.
— Você pode me sugerir alguma bebida que não vá me matar em três goles? Algo com o teor alcóolico abaixo dos 90%.
Ela revirou os olhos, jogando a cabeça para trás.
— Ah, por favor, Levi! — bateu a mão na testa, negando como se estivesse decepcionada. — o teor alcóolico da Balkan é só 88%. Seja mais razoável, por favor!
— Qual é o sentido dessa conversa?
— Você me ama, não ama?
Levi ficou em silêncio. É. Ele a amou, um dia. Talvez a primeira e única coisa para a qual tenha atribuído esse sentimento sem nenhuma hesitação. Isso, é claro, até achar alguém mais insano que ela.
— Amo.
O rosto dela foi ficando mais fraco em sua visão, como se as cores desbotassem e os traços desaparecessem. Acordou puxando o ar com força, sentindo dificuldade em respirar. Sua garganta estava terrivelmente seca.
Levantou do sofá, constatando no relógio digital que eram dez horas da manhã. Tossiu e foi para a cozinha, pegando um copo e logo enfiando debaixo da saída de água na porta da geladeira. Porém, nenhuma gota veio.
Sem paciência, abriu a geladeira e alcançou a primeira garrafa que viu pela frente, o gosto amargo do vinho seco descendo direto pela sua garganta. Isso só serviu para aliviar sua aflição, fazendo-o procurar água com mais calma.
— Eu não posso sair por dez minutos que volto e você já está bebendo — Eren já não o assustava mais.
Foi para trás, deixando que a geladeira se fechasse sozinha, e mostrou a língua para Eren, sem ter nenhum animo pra formular uma resposta coesa e inteligente.
— Você não tinha que trabalhar hoje?
— Nessa semana a escola só vai funcionar no período da tarde. Graças a Deus é a última semana de aulas.
— Então semana que vem eu posso te roubar para algum lugar?
— Só se esse lugar for de extremo perigo e tenha uma alta probabilidade de eu morrer nele.
— Por que você ia querer ir pra minha casa?
Levi sorriu, sentando na mesa da cozinha. O olhar verde-humano de Eren o seguia. Ah, ele sempre detestara aquela cor.
Não lembrava se os olhos de Amélia — a garota do sonho — eram mesmo dourados ou se aquela era apenas uma manifestação de suas preferências. Talvez eles fossem algo como tom de amêndoa, não tão vívidos quanto gostava de imaginar.
— O que está pensando? — Eren falou baixo, encaixando-se entre as pernas de Levi.
— Em Alice no país das maravilhas.
— A história da menina esquizofrênica?
Levi pensou por um momento encarando o nada, depois assentiu devagar.
— Exatamente. A história da menina no sanatório.
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