Amaranto Negro
14 Era uma vez, um garoto
Era uma vez, um garoto.
O pai de Levi era aquele tipo de homem que sai para trabalhar segunda-feira às cinco horas da manhã e só volta meia noite de sexta. Kuchel já havia desistido dele, mas Levi mantinha sua curiosidade. Isso até os seus 15 anos, quando pediu ao pai para visitar o lugar onde trabalhava.
— Não é um lugar para crianças — respondera ele, o olhar cansado.
— Nem esse mundo, mas a gente tem que viver nele do mesmo jeito — Levi retrucou.
Um garoto muito estranho e encantado.
E o senhor Ackerman também era uma pessoa bem fácil de ser convencida. Impressione-o, mesmo que um pouquinho, e ele faria a sua vontade.
Foi numa madrugada de segunda que Levi entrou naquele carro — novo, na época — e foi para o inferno.
O hospício era bem bonito e limpo, na realidade. Por fora parecia apenas um hospital de luxo com as janelas brilhantes, refletindo o sol, e a natureza em volta dando vida ao ambiente. Levi, que se achava O Adulto, ia caminhando com sua postura arrogante de filho do médico principal do hospício. A estrada que passava em frente não era movimentada, mas também não era velha, e os sapatos italianos de Levi soavam alto no asfalto.
Dizem que ele vagou até muito longe...
— Não seja assim — seu pai riu — Eles vão te massacrar lá dentro.
— Não estamos indo para um presídio, pai — Levi revirou os olhos, também rindo. — Por favor.
— Não estamos? — o senhor Ackerman levantou uma sobrancelha, em cinismo.
O hall de entrada era branco e límpido, como tinha de ser. O chão era quadriculado em preto e branco, os sofás eram de um azul tão clarinho que quase chegava ao branco. Tudo estava vazio, os visitantes jamais apareceriam tão cedo na manhã.
À medida que os Ackerman passavam, todos davam “bom dia” de forma pesarosa, alguns ainda fingiam ânimo. Levi respirou fundo o cheiro daquele lugar; anticéptico e doença. Quase como um hospital. Mas, bem no final, havia um leve aroma de... Queimado. Queimado e doce.
... Por terras e oceanos.
— O que pretende fazer agora? — Sr. Ackerman perguntou, parando em frente ao seu escritório. — Quer dar uma volta?
— Seria divertido. Eu vou sozinho ou...?
— Adoraria te acompanhar, mas, infelizmente, não tenho tempo. Quem sabe perto da hora do almoço?
— Eu posso andar enquanto o almoço não chega?
— Claro. Se quiser visitar qualquer paciente, me avise. Os mais passionais ficam em salas destrancadas com enfermeiros e enfermeiras junto. Os mais perigosos... Bem, você pode conversar com eles por uma janela, mas nunca se aproxime demais.
Levi riu, debochado, porque nunca havia visto ninguém insano de verdade. Só aqueles adolescentes em crises existenciais exageradas e insignificantes — para ele. Mas ser estranho não é ser louco nem insano. A insanidade vem do excesso de algo. Uma felicidade imbatível, que acha graça de tudo, da morte, do desespero, do vazio. Uma tristeza profunda e sem tamanho, sem fundo nem limite. Um vazio sem nome, sem sabor, tal qual o inferno, sem cor assim como o demônio. O desespero, a criatividade... Tudo em excesso extremo é insano.
— Você fala como se eles fossem animais de zoológico.
— É algo próximo, se você analisar bem.
Levi riu mais uma vez e acenou para o seu pai, dando as costas para ele. Deixou-se vagar por aí, sem muito interesse e nem muito objetivo, assim como sua vida toda. Parou em uma sala ou outra, dando bom dia e logo se retirando. Andou por tantos corredores tão iguais que sentiu-se perdido. No fim do corredor infinitamente branco e preto em que estava, viu uma porta de metal. Ela estava entreaberta, alguém parecia ter acabado de entrar.
Um pouco tímido e cabisbaixo...
— Com licença? — murmurou, mas não foi ouvido.
O homem estava sentado de frente para um amontoado de cobertas, e ele falava compassadamente, com toda a paciência de quem repete algo todo dia:
— Os remédios não os fazem desaparecer, Amélia. Eles te ajudam a lidar com essas pessoas.
Nada foi respondido e Levi começava a achar que o enfermeiro era o louco, até que dos tecidos emergiu uma cabeça.
— Nem no luto uma mulher tem sua paz?
Durante um bocejo, o enfermeiro disse:
— Você tem quatorze anos. Não é uma mulher.
— É aí que você se engana, Van Helsing — sorriu, os dentes amarelados e ameaçadores. — Existe algo chamado “poder da vagina” e se você sabe usar, já é uma mulher.
Levi limpou a garganta, colocando as mãos nos bolsos depois de fechar a porta de metal.
— Você é um paciente, garoto? — o enfermeiro estreitou os olhos.
— Não, eu... Eu sou filho do Dr. Ackerman.
Amélia gargalhou.
Mas ele era muito sábio.
— Own, que bonitinho, Acky tem um filho. Diga, filho, você acredita em Deus?
Foi quando Levi notou. Repousada sobre a camisa cinza de algodão da garota estava uma cruz. Simples, sem nenhum detalhe minimalista. Apenas uma cruz límpida de prata pendendo numa corrente fina.
— Em primeiro lugar, sou mais velho que você. E em segundo lugar... Sim. Sim, acredito.
O enfermeiro se levantou.
— Tenho mais pacientes para cuidar — disse ele grave e baixo. — Se quiser ficar por aqui, Ackerman, tudo bem, ela não é uma paciente especialmente agressiva. O máximo que ela pode fazer é entrar na sua mente. Se você começar a sentir vontade de se matar, me chame, ou o seu pai.
Levi assentiu e deu um meio sorriso para ele, porque enquanto falava a única coisa que Levi conseguia notar era o movimento de seu peitoral musculoso subindo e descendo, e a sua boca sexy formando as palavras. Enrubesceu.
— Certo.
Ele tinha de parar.
E então um dia
— Então, eu me chamo...
— Shhhhh — disse ela, fechando os olhos e levantando o indicador. — Estou tendo uma revelação.
Levi a encarou.
— Que revelação?
— Você parece poder me impressionar. É o que eles estão dizendo, eles falam que posso me apaixonar — a garota deu uma risadinha, covinhas apareceram em suas bochechas branquíssimas. — Sim, ele é beeem bonito. Justamente como o pai.
E então Levi notou os olhos dourados.
— Eles? — inclinou um pouco a cabeça.
— As vozes.
De repente, a expressão dela estava limpa, os olhos quase arregalados, como se estivesse num estado vegetativo. A cor deles era... Loucura. Ninguém tem olhos amarelos assim.
— Por que você acredita em Deus? — ela sorriu, os olhos continuavam arregalados.
— Tenho argumentos pela física, bioquímica, filosofia...
— Filosofia — ela mordeu o lábio, quase parecendo uma adolescente normal. — Sempre adorei, isso é, quando ia à escola.
Num dia de sorte ele passou pelo meu caminho
— Todas as pessoas sonham com a felicidade. Digo, nem que por um momento, você já desejou ser simplesmente feliz, inabalavelmente feliz. Mas uma felicidade perfeita seria infinita, e felicidade infinita não existe, o próprio fato de nós não sermos infinitos já anula a possibilidade. Porém, a natureza é perfeita, e ela não cria nada sem propósitos úteis. Não consigo entender como a natureza proporcionaria um desejo universal que causasse infelicidade e nunca pudesse ser realizado. Então acredito em vida após a morte, numa felicidade eterna, num reino celestial. E, junto disso, acredito em Deus.
Amélia jogou-se para trás no chão estofado. Ela gargalhou.
— Tão doce — suspirou ela, e virou de lado, se encolhendo.
— Espere — Levi fechou os olhos e colocou o indicador na têmpora esquerda. — Estou tendo uma revelação.
Levi pôde ouvir o movimento de Amélia nos lençóis.
— Que revelação?
— Você gosta de brincar — ele sorriu levado. — Brincar de louca.
— Aaah — ela deu um suspiro longo e pesado — vocês realmente não respeitam meu luto.
— Está de luto por quem?
Ela ficou séria, um pouco distante.
— Por Deus. — De repente, sorriu. — Sim, sim, estou de luto por Deus. Ele está morto. Porra, Ele está morto! — riu. — Deus se foi há muito tempo.
Levi ficou sério, quase angustiado.
— Está dizendo que Ele te abandonou?
— Estou dizendo que ele abandonou a todos nós. Sim, o homem veio do pó e voltará ao pó. Nesse meio tempo, ele deve viver uma desgraça. Não é estranho? Que participemos de um teatro para no fim ele mal ser lembrado? Como diziam mesmo, hein? “O mundo é um palco, a vida é uma peça e todos os homens e mulheres do mundo são atores”. Era isso mesmo? A arte deveria ser lembrada, se for assim, acho que uma pintura feita com sangue seria o mais apropriado. Ah, imagine, o quadro perturbador, o cheiro de ferro, as pessoas horrorizadas... Escute o que estou de dizendo, mini Acky! Venderia milhares de exemplares (porque você com certeza pintaria mais de um). Eu não posso sair desse sanatório, mas você... Você tem a liberdade! Quero que vá agora virar um artista, seja o novo Picasso. Está me ouvindo? Mexa-se!
Levi franziu o cenho e riu.
— Está brincando de ser louca?
E nós conversamos sobre muitas coisas
— Ah! — ela reclamou e emburrou-se. — Você teria talento. O talento está no sangue — ela gargalhou. — Entendeu? Entendeu?! É um trocadilho. Talvez, quando você crescer, entenda essas piadas de nós, adultos.
— Claro, é uma pena que eu ainda seja muito novo.
Amélia ficou séria. Quando relaxava o rosto, seus olhos eram naturalmente grandes, exibindo aquelas íris enormes e amareladas. Havia um demônio naqueles olhos angelicais.
— Levi — uma voz grave fez-se ouvir da entrada. — Seu pai está te chamando.
Levi assentiu e levantou-se, acenando para a menina e dando um meio sorriso.
— Você vai voltar? — ela perguntou, a voz quase normal.
— Talvez — Levi forçou-se a ficar sério. — Você vai me mostrar sua verdadeira loucura?
Amélia prestou continência e levantou.
— Por que não?
Apesar de seu pai ter brigado, Levi se esforçava para passar a maior parte do tempo todos os dias naquela semana com Amélia. Em um dia, eles conversavam sobre peças de Shakespeare encenadas por cachorros, no outro, sobre a humanidade e seus bundões, e então, Levi se apaixonou. Ele a amou, e ela o amou. Eles tinham consciência plena de tudo, e não havia drama.
Conversamos sobre tolos e Reis
Eles costumavam passar um tempo no jardim do hospício.
— Que horas são? — perguntou Levi.
— Dez horas — respondeu Amélia, apesar de que era meio dia. — Já podemos ver a quantas caminhadas esse mundo: faz recém uma hora e eram nove e, daqui mais uma hora, serão onze; e, assim por diante, de hora em hora nós amadurecemos e amadurecemos — Levi demorou um pouco para notar que aquela era uma citação. — e daí que, de hora em hora, nós endurecemos e endurecemos, e assim pode-se contar uma história, e pode-se conta-la de trás para frente e de cima até embaixo.
— Isso não foi dito por um bobo? — Levi escorregou no banco e suspirou, cansado. Amélia segurava a sua mão. Era o sexto mês seguido que ele vinha visitar o hospício por uma semana.
— É uma pena que aos bobos não seja permitido falar de modo sábio aquilo que os sábios fazem de modo bobo.
Levi riu e acariciou a pele fina dela com o polegar.
— Desde que a pouca inteligência dos bobos foi silenciada, as poucas bobagens dos homens inteligentes proporcionam um grande espetáculo — respondeu ele.
Amélia deu uma risadinha que soou como um sino. Ou uma sequência deles numa brisa de verão. Ela parecia tão viva nos últimos tempos que isso começava a assustar Levi. Ela pegou uma flor do chão e cantarolou:
— Ele não é um garoto raro, milorde? — falou com a flor. — Ele é bom em tudo e, no entanto, é um bobo.
Levi revirou os olhos e tirou sua mão da dela, apenas para que envolvesse com os dois braços sua cintura. Apoiou a cabeça na curva de seu pescoço e ficou assim por um tempo, sentindo a brisa, o cheiro de remédio e detergente dela.
— Levi, eu queria fazer algo.
Em 14 anos, ela havia absorvido todo o conhecimento possível. Amélia havia percebido o mundo a sua volta e arquivado todas as informações possíveis. Mas agora, ela queria dar algo. Dar e receber algo de alguém.
E ele disse para mim:
Levi, depois de escutar o pedido, a pegou pela mão e a guiou até o terceiro andar do complexo, onde ficava o quarto dele. Os médicos olhavam torto quando passavam, e os pacientes pareciam ter inveja, eles sussurravam suas suposições e ameaças perturbadoras. Levi trancou a porta, ela deitou na cama.
A melhor coisa que você jamais aprenderá é amar
Ele não sabia como fazer aquilo, mas ela era espontânea e arriscada, então apenas se jogou nos braços do garoto e fez o que desejava. Entregou-se. Deu a ele o seu corpo, seus sentimentos. E ele aceitou cada parte dela. A sua força, sua fragilidade, seus traumas, suas imperfeições. E sua loucura. Claro, sua loucura era praticamente ela por inteiro.
E ser amado de volta.
Fale com o autor