Amaranto Negro
12 Um epitáfio para o desaparecimento
Terceiro dia após o desaparecimento de Eren: “tudo bem ele não aparecer todos os dias, mas ao menos poderia ligar”.
Primeira semana após o desaparecimento de Eren: ele não atendia ligações nem respondia mensagens. Muito menos apareceu em minha casa. Comecei a pensar que algo pudesse estar errado, mas ainda não havia me convencido.
Uma semana e dois dias após o desaparecimento de Eren: decidi sair para beber. Ele sempre aparecia quando eu me metia em problemas, então talvez decidisse dar as caras quando eu terminasse bêbado, em cima de meu próprio vômito em um bar qualquer. Eren não apareceu. Eu estava começando a me desesperar.
Uma semana e três dias após o desaparecimento de Eren:
Finalmente, decidi por realizar a última das apelações. Entrei em meu carro decidido a dirigir até o parque de emo góticos que só sentem dor na alma para procura-lo ou buscar satisfações com o pessoal de lá.
Entrar sozinho no lugar me deu um arrepio desconfortável. Era impossível me acostumar com o clima tenso que tudo lá tinha. Parei em frente à aparentemente simples construção — se comparada ao seu interior — em que Eren havia me levado da última vez. Lembrando-me do detector de calor na maçaneta, dei duas batidas na porta. Imaginei que seria mais simples do que arranjar toda uma engenhosidade para abri-la.
A batida pareceu baixa demais, mas para ouvidos sobre-humanos, não seria problema.
— Oh, Levi Ackerman — exclamou morbidamente o garoto que abriu a porta. — A que devemos a honra?
— Eren. Quero saber se Eren está.
— Então o dono não voltou para o seu animal de estimação, e este veio a sua procura? — comentou com deboche.
— Me deixe entrar.
— Não posso — negou divertidamente, como se estivesse zombando de mim. — Você sabe, sem alguém para te trazer guiado por uma coleira...
— Quem é você? — acabei entrando no jogo. Ninguém jamais me ganharia em jogo de sarcasmo e ironia. — A puta deles?
— Olhe quem fala — sorriu. — Com quantos você dormiu ontem à noite?
— Apenas a minha pessoa e minha melancolia eterna. Estava com medo de que fossem mais pessoas do que você pode suportar na cama de uma vez só?
— Seu...
— Armin — a voz, firme, veio de dentro do lugar. A porta abriu um pouco mais e o garoto se encolheu para encaixar-se nas sombras novamente. Engraçado. — Deixe Levi entrar.
— Mas, Mikasa...
— Erwin já falou o que pensa sobre isso.
— O jogo estava ficando legal, como vou matar o tempo agora?
— Isso não me interessa — disse Mikasa. — Levi, entre.
Eu já não me importava mais. Tentar ser irônico com Mikasa, quando tudo que podia sentir era preocupação com Eren não era uma das melhores coisas do mundo. A segui, naquele dia as luzes estavam acesas. Era estranho que o lugar fosse iluminado por energia quando na verdade parecia tão antigo e sem vida. Era como um paradoxo.
Entrando por um corredor e dobrando uma ou duas vezes, nós chegamos a uma porta dupla grande, se compara as demais.
— Aqui é o quarto de Eren — explicou ela, abrindo as portas e entrando. — A última vez que veio foi há quase duas semanas, desde então, não temos notícias.
Entrei de guarda levantada, absolutamente alerta num lugar como aquele. O quarto era claro, em tom neutro. Não tinha muitos móveis, apenas pilhas incontáveis de livros, papéis soltos, DVDs, CDs e cadernos. Nas paredes, telas sem moldura penduradas, todas em preto e branco. Na maioria, não havia cor. Se houvesse, era uma bem sutil e apenas e um ou dois detalhes.
De alguma forma, aquilo trazia conforto. O quarto tinha sabor de Eren, e tudo ali parecia querer me acolher. Meu coração contraiu de leve quando pensei na possibilidade de Eren estar em perigo, e talvez não voltar mais. Quanto demoraria? Dias? Semanas? Meses?
Isso se ele voltasse.
— Ele não atende, não liga, nem aparece — murmurei. — Estou tão cego quanto vocês dessa vez.
— Tem certeza? — o tom dela era acusatório.
— O que quer dizer com isso?
— Sabe, Levi, Eren anda muito mais avoado e sumido ultimamente. Quase sempre ele está com você e acaba não tendo tempo para a organização. Ele é a nossa maior força e nós estamos em crise. Não me surpreenderia se ele te contatasse e nos ignorasse completamente — prosseguiu com nojo, como se cuspisse as palavras. — Afinal, você é a coisa mais importante do mundo para ele.
— Obrigado, sei disso — sentei em sua cama. — Vocês devem ao menos ter uma ideia de para onde ele foi. Não conheço nem metade do seu mundo. Se eu fosse chutar, diria que ele foi tomar um chá com a rainha da Inglaterra e acabou perdendo o celular no caminho.
É incrível como, mesmo que não mais humanos, vampiros podem demonstrar reações deveras semelhantes às humanas. Como o fato de ela ter piscado duas vezes antes de desviar o olhar e demorar meio segundo a mais para pensar na resposta que daria. A firmeza de suas mãos e seu pescoço alongado, meio que forçadamente, assim como a sua tentativa falha de relaxar, mostravam-me que ela sabia.
Ela sabia para onde Eren tinha ido, mais jamais ousaria me contar.
— Eu, pelo menos, não tenho ideia.
Revirei os olhos e levantei. Mikasa era um caso perdido.
— Se é tudo que tem a me oferecer, eu vou voltar para casa. Não preciso que me mostre a saída.
— Como gostais, humano — o disse com um meio sorriso, prendendo a risada. Saiu do quarto e em um passo já havia desaparecido no corredor.
Levantei e senti o peso de estar sozinho naquele lugar onde só habitavam trevas. “Não confie em nenhum deles” uma vez dissera Eren. Eu sabia. Ali dentro, nem na minha própria sombra eu poderia confiar.
Fui até o fim daquele corredor e dobrei a direita, de onde lembrei que tínhamos vindo, e então, a esquerda, estava certo de que daria no hall de entrada. Mas o que vi foi uma rampa. Como não havíamos subido rampa nenhuma, decidi voltar pelo mesmo caminho até o corredor do quarto de Eren. Sendo que assim que virei exatamente no mesmo corredor de antes, me deparei com uma escada de veludo vermelho.
— Isso não é real — sussurrei para mim mesmo, me obrigando a manter a calma. — É só o seu medo se manifestando em presença física.
Se eu não podia me prender a um caminho, eu me prenderia ao que estava bem diante de mim. As paredes. Passei os dedos pelo papel de parede um tanto áspero. Fui até o fim daquele corredor mal iluminado e então me virei de costas. Ele continuava o mesmo. Vampiros eram inteligentes demais para se utilizarem do sobrenatural nas mais triviais coisas. Eles tinham seu orgulho e sua diversão, provavelmente haviam construído aquilo com base em circunstancias psicológicas e talvez de tendências mentais.
Pensei: se eu fosse um ser eterno, vivendo no mais pleno tédio, como eu construiria meu parque de diversões?
Fechei os olhos, sentindo a corrente de ar. Supondo que aquele labirinto tinha um fim e um começo, e que o começo fosse o hall de entrada, a corrente de ar iria em determinado sentido. Do local que tem abertura para o local fechado. De olhos fechados, me guiei pelas paredes. Se aquele lugar ela um jogo de ilusionismo, então minha visão não era mais confiável.
Apenas parei quando houve uma abrupta mudança do papel de parede meio áspero para um tão liso que parecia plástico. Abri os olhos.
No final daquele corredor mais largo que os demais, estava o hall de entrada. A apenas uns dez metros de mim, a saída para aquele lugar tenebroso. Dei um passo e teria dado outro, se não tivesse escutado algo a minha esquerda. Um barulho de rosnado e então de suspiro. Uma voz meio humana e meio animalesca conversando consigo mesma.
— Eu nunca mais vou sair daqui... Cale a boca, seu imbecil, ninguém liga! E se eu for eternamente sozinha? Você também, jovenzinha, todos estamos sozinhos, vivos ou mortos. Eu sinto como se fosse desaparecer... Definhar e desaparecer... Todos nós vamos, idiota.
A voz continuou murmurando, cochichando e grunhindo. Aquilo não era sinistro. Não mais depois que decidi olhar para a esquerda, me deparando com algo de arrepiar todos os pelos de meu corpo.
Um olho dourado e brilhante me encarava, completamente arregalado, por entre a fresta de uma porta de madeira. O olhar era infantil, ao passo de diabólico e terrivelmente assustador. Fiquei sem reação.
— Agora você me vê — sussurrou a voz de forma inexpressiva. — Algumas coisas gostam de ver, não de serem vistas.
A coisa voltou para as sombras compactas de dentro daquela sala, assim como o garoto loiro fizera mais cedo.
Pela minha completa falta de senso, acabei escancarando a porta, curioso em demasia para saber o que era aquela criatura.
— Olá?
— Oh, vejo que decidiu entrar.
Agora a voz dela era completamente diferente. Talvez uma compostura demoníaca, aquele momento da possessão onde o demônio finge ter deixado o corpo do possesso para não ser mais sujeito ao exorcismo. Era exatamente assim que ela estava. O pescoço alongado e nariz empinado, mostrando um controle que não parecia natural. O vestido longo, verde escuro, não arrastava no chão, mas flutuava levemente. Seus cabelos, de um castanho esbranquiçado, tinham as pontas também flutuantes, mas de forma muito sutil.
Medonha. Ela era completamente linda e medonha.
— Você não tem nenhum medo da morte, tem?
— Não poderia ter menos, madame — sorri e fiz uma reverência.
— E nenhuma noção do perigo, provavelmente.
— É natural.
— Eren deveria ter te avisado melhor a respeito dos perigos de um humano sozinho nesse lugar.
O sorriso dela se alongou e alongou, como se não pudesse mais parar. O que permaneceu foi aquela boca sobrenatural de dentes pontiagudos.
— Desculpe, esse truque não me assusta mais — dei um sorriso educado, como se realmente me desculpasse. — Hm, você é o quê, exatamente?
— Um espírito? Uma alma perdida? Algo além do natural sobrenatural? Um demônio? — saboreou suas últimas palavras numa expressão prazerosa. — Lilith?
— A esposa de Lúcifer. É assim que você se classifica?
— Nah, eu não chego a tanto — abanou a mão. — Sinto não poder me apresentar. Para derrotar um demônio, basta saber o seu nome. Ou algo assim.
— Claro, Carla — a voz era masculina, e vinha de trás de mim. — Continue a contar contos de terror para Levi.
— Oh, por favor, Erwin. Ele tem um ótimo senso de humor.
— Sim, mas não é brinquedo seu, é de Eren.
E eu tive que ter um ataque de risos. Eles estavam me tratando como um brinquedo dentro de uma creche de crianças de três anos ou menos. Primeiro, Armin me testando como qualquer joguinho. E então Mikasa, que adorava se divertir às minhas custas. Agora essa tal de Carla, falando como se minha única serventia fosse matar o tempo infinito que tinha a sua disponibilidade. Por fim, o Tio Erwin me tirando das mãos de crianças descuidadas apenas para, tenho certeza, me utilizar como brinquedo também.
Era um humor deprimente, na realidade.
— Ele ri! — a mulher exclamou, e me acompanhou com sua risada anômala. — Ele ri, Erwin! — repetiu.
Em sua seriedade obstinada, Erwin indicou para que eu saísse dali.
— Até mais, Carla — acenei para a mulher. — Vamos marcar de tomar um chá da tarde qualquer dia.
— Você toma chá, mon amour. — ela sorriu. — Eu tomo vida.
Caminhava até a saída, agora que finalmente a havia achado. Eu estava preparado quando a mão fria tocou o meu ombro. Era óbvio que ele não me deixaria sair assim.
— O que faz aqui? — perguntou formalmente.
— Vim procurar Eren.
— Foi bem sucedido?
— De certa forma.
— Você sabe, estou correto? Sua situação não ficará assim por muito tempo.
Levantei uma sobrancelha.
— Como é?
— Vampiros não se adequam ao mundo humano. Ele não vai...
— Eu sou um humano incrível, né? — o interrompi, colocando minhas mãos em minha nuca, numa pose relaxada. — Eu enfrento os sanguessugas sem medo, acho pontos de pressão em um Caçador, demonstro uma personalidade peculiar e uma inteligência excêntrica.
Erwin não demonstrou reação.
— Eu sei o que você quer — continuei. — Mas, sinto em lhe informar, eu prefiro muito mais viver uma vida curta me arrastando miseravelmente como humano do que sobreviver a essa dor pela eternidade.
Coloquei a língua pra fora e pisquei um olho antes de dar as costas e sair daquele mundo de sombras. Do lado de fora, assim como na história da mulher de Ló, acabei cedendo à tentação e olhando para trás, para aquela construção macabra. Arrependi-me severamente assim que vi, na janela mais alta e mais no canto, um homem em roupas antigas, de olhar muito triste e solitário, me encarando por trás de óculos redondos.
Era aquela mesma aparição do banheiro da minha casa. E isso me deu pavor.
Duas semanas após o desaparecimento de Eren:
Não havia mais apelação, sacrifício ou oração que eu não tivesse feito. Nenhum resultado. Era cedo e Eren ainda não havia voltado, mas uma ansiedade e paranoia me consumiam. Desde o episódio no parque de diversões, a imagem daquele homem me perseguia em meus sonhos, pelas sombras de minha casa. Assim que eu fechava os olhos, seu rosto pálido estava lá. Eu não aguentava mais ficar sozinho.
Foi quando Eren Jaeger simplesmente apareceu a minha porta, tocando a campainha de forma inconveniente. Abri a porta num susto e ele me abraçou, um abraço estranho e teatral. Empurrou-me para dentro, de alguma forma fechando a porta no processo.
— Eu te amo — disse também num tom estranho. — Por favor, diga que está bem.
— Eren, voc... — tentei formular uma frase da qual nem eu me lembro.
— Diga que está bem! — exaltou-se.
Levantei uma sobrancelha, duvidando de meus ouvidos.
— Quer saber? Não, eu não estou.
O empurrei, deixando-o estático no mesmo lugar.
— O que aconteceu? — perguntei, tentando manter a calma.
Minha calma era a mais bela mentira jamais contada. Aquela que basta um sopro e simplesmente se desfaz, dando lugar a uma fúria implacável.
— Eu... Eu fui até uma organização num estado próximo, sendo que lá... Algo aconteceu. Eu não consigo me lembrar bem. Tinha um homem, eu acho que... Meu pai! Deus, eu vi meu pai!
— Boa. Além de desaparecido também tem amnésia.
Suspirei, indo até a cozinha para fazer café. Naquelas circunstâncias, chá não seria o suficiente.
— Vá tomar um banho — mandei. — Você está fedendo.
Eu só precisava de tempo para digerir aquilo. Digerir que Eren não estava morto e que minha felicidade era absurda em vê-lo.
***
— Eu já pedi desculpas, já disse tudo que sei — sussurrou fazendo carinho no meu ombro. — O que mais quer que eu faça?
Nota de descrição: eu estava com os cotovelos apoiados na mesa de vidro da cozinha, uma xícara de café a minha frente. Diferente de mim, Eren não estava sentado, mas sim de pé ao meu lado, com um braço envolvendo-me na altura dos ombros.
Antes eu estava tão furioso, tão irritado por ele ter voltado daquele modo. Mas com o passar dos minutos, fui deduzindo que não importava como, ele estava de volta. E a forma que aquilo aquecia o meu coração era estranha aos meus sentimentos. Eu não tinha ideia de que podia sentir tanta alegria.
Por isso, acabei vestindo a máscara cômica, dando respostas irresponsáveis e sem um pingo de seriedade:
— Quero que me jogue contra a parede e diga que vai me foder até cansar.
Eren deixou uma risada escapar, desviando o olhar e então franzindo o cenho.
— Já falou com Mikasa ou Erwin que agora está tudo bem? — perguntei.
— Claro.
— Foi até lá?
— Não.
— Eles ligaram?
— Sei lá, meu celular tá sem bateria.
— E como você falou?
— Telepatia.
— Não brinca! Os vampiros podem fazer isso?!
— Não, eu estava sendo irônico.
— Você não falou nada com Erwin, falou?
— Não.
— Ele vai te matar quando voltar pra lá.
— Ele não é meu pai, mal é meu chefe. Era para ele ser meu subordinado, no final das contas. Não devo explicações pra ninguém.
— Ah, é? — mordi meu lábio inferior, contendo uma risada.
— Menos pra você.
— Ás vezes age de forma tão infantil que nem parece ter mais de 100 anos.
— Mais de cem? — Eren abraçou minha cintura por trás. — Querido, esse ano eu fiz 502.
— Eita porra, quando você nasceu?
— 20 de abril de 1514 — sorriu e eu virei de lado, ficando de frente para ele. — Mas eu ainda tenho 21 anos.
— Isso é engraçado. Sua alma é tão patética.
Foi uma fala tão simples, mas deixou Eren tão sem resposta. Não sei dizer o motivo, nem mesmo uma pista deles. Ele era algo sobrenatural tanto em matéria quanto em agir. E isso era fascinante.
Respirei fundo sentindo dor no peito. Lentamente, aquele idoso de 502 anos ia se aproximando e roçando seus lábios aos meus. Preferi não o afastar, visto que eu havia sentido tanta falta dele quanto pensava ser possível. Senti os lábios secos de Eren beijando os meus da mesma forma que sempre. Era igual, mas não era. Porque eu de repente via de um ângulo diferente.
— Eren — sussurrei.
— Diga.
— Eu senti a sua falta.
Não era minha intenção ter tanto impacto. Nem de longe. Assim como eu sabia que aquela não era uma fala típica para mim.
Seus olhos ganharam um brilho incomum e ele soltou uma risada incrédula. Colocou uma mão de cada lado da minha cabeça, distribuindo selinhos pelas maçãs de meu rosto.
E lentamente os problemas foram caindo no esquecimento, como sempre acontecia naquele mundo de ilusão que nós mesmos havíamos construído.
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