Amaranto Negro

9 Um epitáfio para a abstinência


Tire suas mãos solitárias de mim.

Não finja que você sabe respirar.

Você nunca teve um pulso.

Sem fazer nenhum movimento desengonçado ou sequer barulho em seus passos, Eren, num salto, levantou. No seu andar quase humano, ele parou de frente para o renegado que os outros seguravam.

Ah, que visão detestável.

Agora que eu finalmente visualizara a imagem de um renegado, parecia-me muito mais entediante. Levantei daquele chão sujo e esperei minha visão voltar ao normal — toda santa vez que eu me levantava, perdia a visão por alguns instantes, como se tivesse acabado de coçar os olhos. O que era irritante no momento, porque eu escutava algo a minha frente, mas não podia vê-lo.

A escuridão agitada que antes impossibilitava minha visão foi se dispersando e se extinguindo, dando lugar ao inferno em que eu realmente estava.

— Matar... Vocês... Todos... — uma voz estridente e grotesca grunhia entre uma respiração ofegante e outra.

Era a voz daquele renegado. Ele só teve a oportunidade de grunhir essas três palavras antes de Eren, num movimento simples e repentino, decepar sua cabeça com as próprias mãos. Na mesma hora o corpo começou o mesmo processo de desintegração dos outros. E Eren limpava as mãos na calça.

Tudo bem, eu já estava me acostumando com cenas perturbadoras. Ver a massa de carne podre e órgãos dilacerados espalhada pelo chão não me incomodava. Tampouco o cheiro de enxofre e de açúcar queimado no ar. Mas havia algo de mais perturbador ali. Não era por ser um hospício. Não era por ser, teoricamente, assustador.

Duas garotas conversando, como se falassem da última fofoca da semana, enquanto tratavam de juntar todos os restos mortais do pátio.

Uma mulher rindo e envergonhando outro rapaz que recolhia uma cabeça em decomposição.

Uma figura nem humana nem sobrenatural com olhos distantes, encarando aquilo que acabara de fazer. Seus punhos cerrados, o peito subindo e descendo. Como se ele precisasse respirar.

E um arrepio subiu pela minha coluna. Não o tipo de arrepio de medo, mas o do tipo que faz os seus olhos se arregalarem e um sorriso satisfeito surgir no seu rosto.

Eren fechou os olhos e relaxou as mãos. Acho que ele nem percebia que eu me aproximava. Escutei Jean e Mikasa comentando que olhariam por aí, e Hanji falando que investigaria os restos mortais, Petra ficaria para ajuda-la. Eren continuava parado. Bem de pertinho, escutei as últimas palavras de uma frase que ele já estava falando, mas eu não havia percebido:

— ... Seria o teu descanso?

Ele abriu os olhos e havia retornado ao seu estado normal, se é que assim posso trata-lo. Olhou-me gentilmente, mas sem sorrir. E, estranhamente, a única coisa que pude fazer foi ficar ali, parado, como se estivesse cansado de analisar uma equação e ela sempre dar x = x.

Eu não podia ver os algoritmos que compunham Eren Jaeger. E isso me levava à loucura, ao passo que me deixava cansado.

— Você se machucou — anunciou.

— Não.

— Isso não foi uma pergunta.

— Eu sei.

— E ainda assim respondeu.

— Tudo é relativo.

Ele deu um meio sorriso.

— Quando voltarmos para o carro eu cuido de você.

Petra apareceu para recolher o renegado que estava morto perto de nós. Ela sorriu para mim e disse para Eren que, aparentemente, não tinha mais nada para ser feito naquele lugar, que aqueles mortos eram o grupo inteiro. Fiz uma varredura rápida da situação, só por causa de uma sensação de desconforto.

De onde os renegados tinham vindo? Do andar de cima. Dava para ver isso pelas marcas pretas e lugares quebrados no batente de madeira que protegeria o segundo piso. Fui até o centro do pátio, onde dava para ter uma visão melhor de tudo.

— Levi? — chamou Eren.

— Cale a boca.

O ambiente ficou num silêncio absoluto. Mikasa e Jean já estavam no andar debaixo, e não mais conversavam. Os olhos estavam sobre mim e sobre o que eu observava.

Nesse meio tempo, eu já havia constatado que eram cinco cadáveres. Contando com quatro na pilha e um que Petra ainda carregava. Cinco cadáveres, seis pontos quebrados no batente. No ar, apenas o som das nossas respirações.

Aí estava o problema. Era mais de uma respiração, mas vampiros não respiram. Renegados sim.

— Tem mais — murmurei. — E isso não é um ataque aleatório.

A confirmação do que eu disse foi uma corrente de ar que passou por mim. Não era podre e nem tinha cheiro de açúcar queimado. Não era o cheiro do ambiente por ele mesmo, mas era algo como desespero.

Um ar agoniante.

A sensação que tomou minha pele quando aquela corrente de ar a lambeu de leve foi de formigamento. Era a mesma sensação de quando Mikasa apertara minha mão. Uma fisgada no peito, a urgência de algo que eu não sabia o que era.

— Atrás de mim, à direita — sussurrei rápido, assim que o confirmei.

Foi o suficiente para Eren reagir e pular na minha direção como se fosse me atacar, mas ele passou direto, indo parar em algum lugar atrás de mim. Fiz menção de me movimentar, mas um sibilo atrás de mim, nem um pouco humano, me paralisou:

— Não se mexa.

— Desculpe, eu sou teimoso.

Depois da hesitação inicial, meus reflexos precários foram o suficiente para correr até a pilha de cadáveres perto da janela, me afastando daquela batalha que acontecia às minhas costas. Quando me virei, eu quis não tê-lo feito.

Ah. A falta de informações me fizera errar nos cálculos. Não era mais um renegado que estava ali, era um caçador. Como eu poderia dizer que logo sabia? Olhos insanos, força insana. E todos os outros estavam com a guarda alta, enquanto Eren estava no chão, o caçador segurando seu pescoço.

Por que eles não atacavam? Eren... Eren estava em perigo.

— Vamos fazer um trato — disse aquela figura insana em sua voz grave. — Vou deixar vocês irem se me derem uma pechincha. Só quero o humano.

— Nem morto — Eren retrucou imediatamente, apesar de sua situação, a voz impassível.

— Você já está morto, querido — falei.

Decidi cometer uma loucura. Eu meio que podia ler os números dos outros vampiros e deduzir que os caçadores tinham alguma espécie de vantagem sobre eles. E a minha experiência, junto das informações que Eren me dera havia certo tempo, me acrescentava outra vantagem. Se ele era um predador desenfreado, sempre estava instável, pois sangue humano sempre corria em suas veias. Em outras palavras, ele era uma pessoa com sérios problemas emocionais e um organismo quase humano. Assim como uma força terrível, mas não levemos em conta isso.

Já lidei com muita gente assim na vida. Aliás, todos os valentões de escola são assim — e eu posso dizer porque eu era um.

Avancei. Não em alta velocidade, nem num andar comum. Cada passo firme, um mais decidido que o outro.

— O humano vai se entregar por ele mesmo? — caçoou. — É uma situação rara.

— Acho que você nunca lidou com uma vadia, então. Elas sempre se entregam sem você ter que fazer nada demais.

A minha falta de hesitação fê-lo hesitar.

— Levi... — Eren começou.

— Você fica bem mais bonito quando está de boca fechada.

A partir daí, foi simples. O caçador jogou Eren para o lado como se fosse um nada. Ele com certeza havia feito aquilo para me desestabilizar, mas não aconteceu assim. Ele não contava que eu estivesse completamente estabilizado mentalmente, e por isso estava ali sem nenhuma dúvida. Quando não se reflete, não há dúvida, e na minha cabeça só existiam pensamentos lógicos e coerentes, sem nenhum fundo de reflexão. Pensamentos involuntários e certos, apenas isso. Eu deixaria para me preocupar com ele depois.

Hanji estendeu sua mão, mas eu a afastei e, no mesmo movimento, alcancei o primeiro ponto de vulnerabilidade.

A lógica era o seguinte: se ele sempre tinha sangue humano nas veias, teria um organismo ao menos similar. Todo um conjunto de reações do sistema proporcionava essa vantagem. Ele era mais humano que todos os outros ali. Todo corpo possui pontos que causam extrema dor e pode fazer-se paralisar por isso. Era basicamente o que eu faria.

Não foi algo que eu vi em filmes ou li na internet. Era estudo, conclusões pessoais e prática que davam a confiança de fazer aquilo.

Bem. Isso não contava para quando eu estava bêbado, que, venhamos e convenhamos, era o meu estado a maior parte do tempo. Mas ao menos ali esse conhecimento tinha alguma serventia.

Primeiro ponto de pressão: área plana da testa. Se o golpe, com a palma da mão, for forte o suficiente, o efeito é instabilidade por movimento cerebral. Enfiar dois dedos na parte de trás da clavícula, empurrando para o chão. Mas é óbvio que o sobre humano reagiu. Ele agarrou minha camisa e partiria para outro golpe, isso se eu não soubesse exatamente o que fazer e seus movimentos não estivessem retardados pela dor. Uma pessoa normal já teria tido uma contusão. Com os nós dos dedos, acertei os ossos dorsais da sua mão que me agarrava, e foi o suficiente para fazê-lo soltar. Antes de meus queridos e inúteis amigos trevosos interferirem, ainda consegui deslocar sua mandíbula e lhe causar uma quase contusão por um impacto na têmpora.

O meu pequeno show abriu uma brecha para os outros atacarem — ou, no caso, o imobilizarem. Vi Hanji tirar uma espécie de agulha grande de um pequeno estojo, o qual estava no seu bolso, e enfiá-la diretamente na lateral do pescoço do nosso oponente, onde ficava a artéria cardíaca.

— Isso vai mantê-lo apagado por alguns dias — disse ela.

— O que é isso? — indaguei.

— Essa agulha tem rádio — Hanji respondeu.

— Puta merda, essa porra não é 900 vezes mais radioativa que o urânio?

— Sim, mas desenvolvi essa agulha para neutralizar, pois é uma espécie de chumbo altamente concentrado, e o próprio corpo de um vampiro vai barrar as radiações.

— Tá. E como funciona isso de deixar apagado?

— As mutações — disse Eren, a voz rouca logo ao meu lado. — As células do organismo são bombardeadas por radioatividade e sofrem mutações em uma velocidade estupidamente grande. O seu corpo imortal vai precisar de um bom tempo até corrigir todos os estragos que o rádio vai fazer.

Eu ia dizer algo, mas acabei esquecendo quando virei de lado para olhá-lo. Ele me prendia de uma forma que eu nem acreditava ser possível. Eu só queria ficar ali por um momento, o devorando com os olhos, deixando o desejo ardente consumir meu interior.

— Agora, mais importante, — Mikasa se levantou enquanto deixava Jean encarregado do caçador — não sabia que um humano podia ser tão forte. Como... Não, é impossível. Como foi que...

— Isso não tem a ver com força — expliquei, enquanto tombava de lado para descansar a cabeça no ombro de Eren. — É pura ciência. Pontos de pressão num organismo quase humano... — bocejei. — Eu apenas deduzi rápido.

— Você está cansado, não é? — disse Eren.

Meu coração estava acelerado e suor frio escorria pela minha testa, mas sim, eu estava cansado pra porra.

— Não, bocejei de sacanagem.

— Claro — negou, incrédulo. — Pode estar morrendo, mas você sempre vai ter energia para sarcasmo. Eu deveria levar a minha princesa no colo?

— Pergunte para ela enquanto eu vou andando.

— Ei, casal — chamou Jean — eu não sei vocês, mas eu realmente quero sair desse lugar imundo antes que o carinha aqui acorde. Vocês podem parar com toda essa merda apaixonada e nos acompanhar logo?

Eren colocou as duas mãos em volta d aminha orelha para sussurrar:

— O último namorado dele o chutou ontem, não ligue.

— Eu ouvi isso!

Os outros já estavam organizados e prontos para ir. Eu até sugeriria analisar melhor o lugar, mas estava exausto demais para isso. Aguentar os alunos, renegados, um caçador e um bando de vampiros no mesmo dia estava me causado um fenômeno de entropia. Eles acabaram comigo quando disseram que todos tinham que ficar em alerta e, por isso, era melhor que eu dirigisse. Eu estava morto, o dia já estava escurecendo e os vidros daquele carro eram um porre. Eles só podiam estar brincando.

Não. Eles não estavam brincando.

— Eu não acredito que vocês estão fazendo isso comigo — eu ajustava os espelhos e o banco para a minha altura.

— Pelo menos eu estou do seu lado — Eren colocou uma mão na minha coxa.

— Como se isso fosse uma vanta...

Acho que ele estava cansado das minhas gracinhas, porque se inclinou para o lado e me beijou, calando-me. E, desculpe Deus, mas eu não resisti. Meus dedos voaram para o seu queixo e se agarraram ali, o puxando para mais perto. Eu queria mais dele. Eu queria que ele me beijasse com voracidade, que me dominasse, que me alucinasse.

Ele se afastou cedo demais e minha cabeça ainda foi um pouco pra frente, buscando-o um pouco mais. Franzi as sobrancelhas em frustração, enquanto ele pegava minha mão agarrada à sua pele e a beijava.

— Quando chegarmos em casa... — murmurou ele e apontou com a cabeça na direção da parte de trás do carro.

Recolhi minha mão e me voltei para o volante. O céu estava mais escuro.

— HOJE TEM, HEIN — Hanji soltou um pouco alto demais. — Bem que vocês podiam fazer lá no quarto do Eren, né? Aí eu poderia escutar e...

— Hanji, — Eren interrompeu — eu realmente não quero escutar as suas práticas de mulher com falta de homem.

Ri, negando com a cabeça, e dei a partida.

Eren’s mind

O céu já estava completamente escuro e a cidade ainda estava longe demais. As pessoas dentro do carro mantinham conversas em tons relativamente baixos e tudo ali dentro era aconchegante. Eu segurava a mão quentinha de Levi — ele ficava com a outra no volante — e eu não conseguia parar de pensar no momento em que chegaríamos a sua casa. Tínhamos tanto a conversar e tanto a... Fazer. Mas eu sabia que ele estava cansado, então tentava me acalmar.

Só que, do meio do nada, um vulto negro. Fiquei em estado de alerta. Os olhos fixos no ambiente em volta, todos os músculos a um fio de me impulsionarem para fora do carro. Minha audição aguçada como nunca.

— Você viu? — Levi sussurrou.

Fiquei boquiaberto por ele ter percebido. Nenhum dos outros comentou nada e continuaram em suas conversas, e ele, um humano, havia reparado quase que ao mesmo tempo que eu.

Você viu?!

De repente, o carro fez um movimento brusco para a direita e retornou à pista inicial. Levi estava acelerando igual a um desesperado. Eu podia ouvir seus batimentos, o movimento de seu pulmão buscando por ar e os nós dos seus dedos ficando brancos de tanto apertar o volante. Pelo espelho, era visível que algo estava no meio da estrada, e agora ia para a mata.

— Eles estão na floresta — disse a voz sinistra e calma de Mikasa, após isso, tudo ficou silencioso demais.

Desejei que fosse um carro velho para que ao menos o barulho do motor quebrasse o transe dentro daquele carro, mas nada aconteceu. Levi acelerava o máximo que podia sem perder o controle, vez ou outra desviando de qualquer sombra mais densa que visse a frente. Eu tive que passar a mão em seus cabelos para acalmá-lo quando chegamos à área urbana, pois ele parecia muito atormentado. Disse para que estacionasse nas vagas na frente do parque de diversões.

— Nós vamos para a casa dele — anunciei. — Vocês descem aqui e levam o caçador junto.

— Nossa, que grosso — Hanji reclamou enquanto Mikasa, Jean e Petra tiravam o caçador da parte de trás do carro e saiam. — Da próxima vez vamos só eu e o Levizinho.

Quando ela deixou o carro, Levi acelerou. Eu estava preocupado com o seu coração ainda acelerado. Estava assim desde o hospício e não dava trégua nem por um segundo. Agora, com mais calma, tinha um leve cheiro no ar... Na verdade, o cheiro que eu melhor conhecia.

— Estou sentindo cheiro de sangue... Oh, droga, esqueci de cuidar do seu machucado.

— Machucado? — perguntou com a voz meio grogue.

— A sua bochecha.

— Agora que você disse, está ardendo.

— Estacione naquele posto de gasolina.

— Vamos abastecer?

— Aham. E cuidar da sua bochecha.

— Você não aprendeu nada com a minha ironia. Era pra ser “não, vamos lanchar etanol”.

Abastecemos e ele estacionou nas vagas em frente à loja de conveniência. Pedi para ele se virar para mim, e era difícil não beijá-lo naquela posição.

— Como você não sente uma dor horrível aí?

— Já sofri coisas piores.

Uma fisgada no meu peito me lembrou do quanto eu já o machuquei.

— Desculpe — ele se corrigiu. — Eu não quis falar sobre aquilo.

— O seu corte... Tem vidro dentro dele. E deveria estar ardendo, já que foi um dos renegados que te arranhou.

— Deus.

— Eu sei.

Virei a sua bochecha cortada na minha direção. Dei-lhe um selinho antes de grudar os lábios no corte e chupá-lo. Senti o vidro na minha boca, junto de terra e algo amargo. Aquilo era resíduo da unha do renegado. E, depois de todas essas coisas, me afastei para cuspir o vidro e a terra num papel. Quando encarei Levi novamente, ele estava escorado no encosto do carro e a minha saliva, misturada com seu sangue, brilhava em seu rosto.

Um pedacinho não o mataria. Encostei meus lábios ali novamente e chupei como se o beijasse, minha língua trazendo o sangue para a minha boca. Tinha gosto de lilás. Ele estava lilás.

— Fazer isso no meu pau que é bom nada — murmurou com a voz arrastada.

Como resposta, sequei o local com os meus dedos e abaixei meus lábios para o espaço entre o seu maxilar e sua clavícula. Desabotoei o primeiro e o segundo botões de sua camisa social para meus lábios poderem alcançar mais partes de sua pele. Olhei para cima e o vi de olhos entreabertos, desfrutando do prazer que eu lhe proporcionava. Comecei a acariciar a sua virilha e sua coxa, ele rapidamente reagiu me pedindo para “abrir a porra do zíper logo”.

— Você está mesmo desesperado por esse boquete.

— Quem não gosta de boquetes?

— Impotentes, talvez?

— Talvez.

— Agora use a sua boca para outra coisa.

— Hm... Vejamos. Com uma condição.

— Qual é! Você não me excitou e me beijou assim para dar para trás no último segundo.

— Quem sabe?

— Diz logo a maldita da condição.

— Quero que você me considere o seu namorado.

— Como é?

— Sem mais casos de uma noite. Eu quero que você seja meu e só faça essas coisas comigo.

Ele parou por um momento.

— É covardia pedir uma coisa assim numa situação dessas.

— Sou covarde e com orgulho.

— Acho bom você fazer o melhor boquete que eu já recebi na vida, benzinho, porque eu não namoraria alguém sem habilidade com a boca.

Sorri, mordendo meu lábio inferior, e abri a sua calça. Dela já saltava o volume úmido coberto pela cueca vinho, que eu logo tirei do caminho também.

Como um método de ironia, fiz com a glande de seu pênis a mesma coisa que com o corte. Chupei como se quisesse sugar algo e lambi como que para cicatrizar um machucado. O resultado foi ele imediatamente agarrando as laterais do banco e contendo ruídos que sua garganta estava prestes a emitir. Isso me incentivou mais.

Eu não precisava respirar. Não importava que meus pulmões se enchessem de água, eu não engasgaria. Ou seja, eu não precisava parar de enfiá-lo na minha boca, investindo-o cada vez mais fundo. Foi quase gratificante quando ele agarrou meu cabelo e me empurrou para baixo, ejaculando. Quase.

— E então? — indaguei enquanto eu limpava a minha boca e ele fechava a calça.

— Tudo bem, vamos namorar.

— Modo legal de dizer que eu faço um bom boquete.

Ele suspirou.

— Não vou conseguir dirigir até em casa.

— Tudo bem, vamos trocar.

— O que você não faria por mim, não é mesmo?

Droga. Ele estava começando a me ler também.

Na manhã seguinte, eu acordei antes dele. Na realidade, ele que me acordou. Sua mão estava na minha cara e seu joelho nas minhas costelas. Não que doesse ou incomodasse, mas me acordou. Com muito cuidado, o ajeitei e tentei não balançar a cama ao me sentar nela. Para estar numa posição assim pela manhã, seu sono deveria ter sido agitado.

Perdi-me ao fixar o olhar no seu rosto. Ele era tão lindo. Ele parecia e, ao mesmo tempo, não parecia ter mais de 30 anos. Sua beleza era madura, mas não envelhecida, e ele era de inteiro convidativo. Será que aquele humano tão atrativo poderia me deixar excitado? Eu não tinha dúvidas de que se fosse um dia de lâmia, ele não teria problemas para isso, mas fazia tanto tempo. Eu temia ter perdido essa capacidade.

Como a passagem do tempo é muito conturbada para pessoas como eu, não fazia ideia se havia passado muito tempo até ele acordar. O dia estava claro havia pouco tempo, e a sua expressão me dizia que acordaria logo. O olhar dele pela manhã, limpo de pensamentos e emoções, era o meu preferido. De manhã, ele era quase azul.

Levi entreabriu os olhos, virou em minha direção, e os fechou novamente.

— Você ainda está aqui? — murmurou.

— Não, isso é um sonho.

— Ou um pesadelo.

Ri e beijei o canto de sua boca.

Passei os dedos de leve pela pele extremamente branca de seus ombros e senti-a se arrepiar com o meu toque. Ele estava sem camisa e sem calça, apenas com a roupa debaixo e uma das meias na ponta do pé. Não dava para resistir. Eu queria provar cada pedaço dele, se pudesse, beijar cada centímetro seu. Comecei por ali, meus lábios seguindo a trilha de toque dos meus dedos. Dado certo momento, me perdi completamente em seu aroma e a sensação das suas mãos se agarrando a mim.

— Lilac... — sussurrei.

Afastei-me um pouco para olhá-lo nos olhos, o que não deu muito certo, já que ele estava com eles fechados. Eu sorri e encostei nossas testas, tentando conter um riso bobo que insistia em fazer meu peito vibrar.

— O que foi? — sua voz saiu suave. Suas pernas se mexiam para tirar a meia fina que ainda vestia.

— Eu só... Não consigo acreditar em como você me deixa feliz — respondi.

— Pare de me bajular — o disse com um tom divertido, abrindo os olhos e me permitindo ver o céu nublado que seu olhar era. Ele ainda parecia estar com aquela preguiça matinal, que conforme ele ia falando, ia sumindo. — “Lilac” isso é latim?

— Sim... Conhece o idioma?

— Eu comecei a fazer letras, onde eles ensinavam, mas... — bocejou — não quero falar disso agora.

— Então porque tocou no assunto?

— Eu só achei meio sexy na sua voz, latim é um idioma bonito.

Fiquei em silêncio, apreciando a confusão decididamente caótica dos seus pensamentos refletidos em suas íris. Ele segurou meu queixo, selando nossas bocas repetidas vezes. Logo, os seus dedos finos alcançaram meus fios e eu pensei que me beijaria de verdade, mas se limitou a me encarar.

— Por que “lilás”?

— É a sua cor. Vezes um roxo sensual, pesado, e outras um lilás leve... Quase puro, eu arriscaria dizer.

Ele pareceu refletir por alguns segundos, e quando abriu a boca imaginei que diria algo relacionado ao assunto. Mas, como sempre, Levi tinha que ser o humano surpreendente.

As palavras foram pronunciadas como se ele estivesse bêbado.

— Ei, vamos foder?

— Desculpe, o quê?!

— Meu querido, eu estou sem álcool e SEM SEXO por várias semanas. A carne é fraca, estou passando por dificuldades — bufou. — Mas, se preferir, eu posso...

— Ah, você poderia usar o termo “fazer amor” ou até mesmo “transar”? Sabe, é mais confortável.

— Nós não vamos nos amar, ou sequer fazer isso carinhosamente. É só sexo. Por tanto, é foder.

Eu, de uma forma vergonhosa e engraçada, estava sem palavras.

— Eu não sei só “foder”. Eu te a...

— Eu-já-entendi-isso. Não precisa relacionar tudo a sentimentos. Mas tudo bem se... Não quiser — virou-se, ficando com as costas no colchão e o antebraço cobrindo os olhos. — Se eu fosse o ser mais perfeito do planeta terra não iria querer transar com alguém com eu, também.

Eu estava quase acreditando nesses pensamentos e repetindo todo um discurso clichê, mas, quando afastei seu braço de seu rosto, vi um brilho sádico e um sorriso debochado tornando sua face quase infantil.

Você me pegou dessa vez.

— Chame de amor, transa, acasalamento... O que quiser, — murmurou, colocando os braços em volta do meu pescoço, puxando-me para si — apenas faça. Isso se não quiser que eu vá para o bordel mais próximo, claro.

— Você não... Prefere comer alguma coisa antes ou, hm, tomar seus remédios?

— Eu vou tomar um banho. E você fica aqui. Se, quando eu voltar, você não estiver exatamente nesse mesmo lugar, eu juro, Eren Jaeger, vou sair para qualquer porra de lugar que tenha uma prostituta com bons peitos.

Aquela era a sua irritação matinal? Ou era só ele agindo como sempre? E quem é que acorda com uma vontade tão grande de transar?

Calculei, tirando pela média, que ele demoraria uns dez minutos no banho. Desci para preparar um chá e separar seus remédios. Enquanto a água fervia, eu pegava as caixas da pílula de ansiedade e o para a sua gastrite. Naquele dia, não precisaria tomar o antialérgico, e o para o fígado também não se fazia necessário.

Tudo bem. Eu parecia a sua mãe.

Depois de preparar o chá, coloquei tudo numa bandeja, junto de duas frutas, e subi novamente. O barulho do chuveiro já havia cessado e o cheiro do seu sabonete tomava todo o quarto. Engoli em seco. Não que eu estivesse nervoso por transar com ele, mas era a maneira que ele queria que eu fizesse isso. Eu tinha quase certeza: ele não me pediria para ser cuidadoso. E, se ele não me pedisse, eu não teria limites a não ser os meus próprios, sendo que eu nunca fui muito de me controlar.

— Oh, você não foi embora — comentou, sem expressão, ao sair do banheiro completamente nu.

— E você podia vestir algo para comer, ao menos.

— Eu não pedi nada para comer.

— Isso é mentira — sorri com um pouco de malícia.

— Então o vovô sabe fazer piada maliciosa?

— Sempre soube — franzi o cenho.

Ele se aproximou — ainda sem roupa — e deitou do lado direito da cama.

— Desculpe, mas vou deixar o café da manhã para sobremesa. Eu realmente estou com vontade de foder. Ou ser fodido, não sei. O que você prefere? Acho que hoje estou com vontade de ser “o cara que fica por baixo”. Se é que o idoso me entende.

—Então você...? Eu... Eu não sei se... — tentei expressar meus pensamentos, mas de repente minha mente estava em branco.

Ele pareceu entender minha intenção.

— Faça o que quiser, da maneira que quiser.

— Você já fez... Com um homem?

— Já — ele desviou o olhar por um instante. — Eu só não quero que vá com calma.

E eu entendi o que na verdade se passava dentro dele. Não era uma questão de abstinência sexual. Ele apenas me retribuía... De sua forma humana e desesperada, ele sentia o mesmo que eu.

Só que o amor humano é impuro, violento, e muito, muito frágil.

Mas ele me desejava.

Ele mostrava não um olhar impaciente, mas do tipo de alguém que está se punindo por dentro e criando conflitos que não existem num universo fora de sua cabeça. Ele, de forma rápida e ágil, desabotoou minha bermuda — a qual eu colocara antes de dormir, na noite anterior — e subiu suas mãos pelo meu peitoral, levantando o tecido da blusa junto.

— Você é muito lerdo — grunhiu.

— Me deixe te amar... — sussurrei ao seu ouvido — não dessa forma que você conhece... Mas a minha forma. Me deixe finalmente te ter da forma como eu sempre quis.

— Eu já te disse — respondeu ofegante — faz o que quiser.

E eu tive que seguir da forma que ele exigia e de uma forma masoquista para mim mesmo. Eu não queria que aquilo passasse rápido, mas ele parecia tão... Necessitado, que tive que apressar as coisas. Não existia a palavra "preliminar" no nosso ato, eu apenas o despia, deixando sua camisa, enquanto tentava manter o nosso beijo-de-verdade.

Eu estava de dorso nu, a calça e a cueca em meus calcanhares. Olhei-o, meio que pedindo permissão. Como o esperado, ele revirou os olhos.

— Vai doer se você não for preparado direito — questionei.

Eu queria que tivesse mais tempo para pensar nos meus sentimentos durante aquilo. Que cada respiração nossa virasse um verso poético. Mas ele não parecia compartilhar da mesma linha de raciocínio. E isso me fez imaginar... Se ele estaria farto quando o sexo terminasse. Se ele era tão superficial a ponto de me seduzir e me deixar sedento e apenas se limitar àquilo quando precisasse. Se ele não seria como eu... Sempre faminto... Sempre o desejando mais que tudo.

Estiquei-me e selei nossos lábios enquanto separava seus joelhos e o expunha por completo para mim. É complicado quando nós, filhos de Nyx, somos cegados pelo desejo. As nossas formas mudam, se distorcendo, parecendo-se com o monstro incontrolável que nos doma num dia de lâmia. Ao vê-lo daquela forma, todo exposto só para mim, senti minhas feições se retraindo levemente. Provavelmente ele nem percebera, mas aquela mesma forma... Dentes pontudos, língua alongada, olhos assustadores... Agora se fazia presente em mim.

— Você não teria lubrificante, teria? — perguntei, a voz um pouco mais rouca do que deveria.

— Não. Você vai ter que fazer aquilo de outra forma.

— Com todo o prazer, senhor.

Vi minhas unhas negras pressionando a pele fina do interior de suas coxas, mas não o suficiente para proporcionar-lhe uma marca. Achei que enfiar meus dedos nele o machucaria, então decidi me utilizar do último artifício. Enrolei minha língua comprida na base de seu pênis e o lambi até a glande, dali indo até a sua entrada. Lubrifiquei-a com saliva e introduzi minha língua ali. Eu sentia alguma satisfação estranha... De estar tocando-o em todos os lugares que conseguia.

— Ah, eu acho melhor você... Aaahh... Enfiar... Logo.

Não foi preciso que me pedisse uma segunda vez. Eu só queria estar dentro dele, e foi o que fiz. Levantado em um movimento rápido, segurando suas pernas bem afastadas uma da outra, espalhando a minha saliva, assim como o pré-gozo, em meu membro e o invadindo sem aviso. Arranquei um gemido seu visivelmente inevitável e, nesse segundo, arqueou suas costas, contraindo-se de uma forma que me tirava qualquer resquício de sanidade.

— Se você se contrair assim — anunciei calmamente — eu vou ter que deixar o conceito de “fazer amor” de lado e te foder de verdade.

— Vai... Fundo. — sorriu, a expressão de suas sobrancelhas indicando que estava com dor. — Não se contenha.

Saí de dentro dele, pedindo que virasse de bruços e ficasse de quatro para mim. Aquela posição era tão mais excitante e tão mais errada. Uma das posições com a qual eu mais gostava de fantasiar. Ainda dava para ver o seu rosto vermelho e deleitoso, então não, não era uma posição impessoal,

— Ahh, Eren... Mete tudo... Com força — dizia enquanto eu o penetrava lentamente. Deu-me a impressão de que não pretendia soar erótico, mas de realmente fazer aquele pedido. O que nitidamente fracassou.

— Eu não quero te machucar.

— Por favor, me machuque. Me faça sangrar. Me faça delirar — Levi virou a cabeça para o lado, puxando-me por trás e fazendo com que a minha ficasse na curva de seu pescoço. — Só você pode fazer isso. Só você pode me enlouquecer. Me fode com força.

Não havia autocontrole de ser frio que me contivesse. Aquelas palavras não podiam ser simplesmente ignoradas. Eu, com minha força sobrenatural, investi com tudo para dentro de Levi, que soltou um gemido sôfrego, ao passo que também era prazeroso. O ritmo já era tão frenético logo no inicio, como que feito por uma máquina insaciável. Eu também não conseguia controlar os sons que saiam de minha boca. Chamava... Clamava cada vez mais alto por Levi.

Obrigada, Deus, por estarmos no meio do nada.

“Ele é apenas um humano” eu tinha que me lembrar. Se não mantivesse isso em mente, tinha certeza de que o apertaria tanto que o quebraria, ou que mesmo a dor proveniente da força de minhas investidas não seria mais prazerosa e sim, insuportável. Eu não queria que ele sentisse dor, de verdade. Mas era simplesmente incontrolável, irresistível. Ainda mais quando ele jogava seus quadris contra os meus de forma tão má... E pronunciava meu nome de forma tão sensual.

— Eren... Aah... Mais... — assim que escutei meu nome, cravei minhas unhas pontiagudas em seu abdômen (não com força o suficiente para abrir reais feridas, mas arrastando-as até que sua pele perfeita ficasse repleta de arranhões).

A pele de suas costas, ombros e pescoço também não eram poupadas. Mordidas e chupões deixavam marcas que eu adoraria ver mais tarde. Acabei por conduzir minhas mãos até as suas nádegas, o empurrando mais contra mim, apertando ali controladamente para não causar um hematoma absurdamente dolorido em sua pele tão branca.

Senti suas pernas e braços tremerem e soube que a força de minhas estocadas era muita para que ele sustentasse o peso, então me afastei por um segundo apenas para poder recosta-lo à cabeceira da cama, logo retornando para o nosso ritmo.

Ele se contraiu tanto quando gozou que acabei chegando ao meu ápice também, o local que meus dedos pressionaram durante isso foi a sua cintura, que com certeza ficaria roxa como grande parte de seu corpo. Enquanto saía dele, pude sentir cheiro de sangue.

Então eu havia o machucado novamente.

Que satisfatoriamente decepcionante.