Amaranto Negro

10 Um epitáfio para a promessa


Repouso eterno dá-lhes, Senhor. Que a luz perpétua os ilumine” — Mozart, Requiem

— Você está bem?

— Estaria melhor se você me deixasse terminar a minha cerveja.

Eren fez uma careta.

— Você está me trocando por uma cerveja? E você não tinha que tomar remédio? E a cerveja meio que não corta o lance que o remédio faz?

— Você já tomou essa cerveja? Não chame uma Paulaner de “uma cerveja”. É simplesmente “A” cerveja. Nenhum remédio jamais superará uma Paulaner de trigo.

— Certo. Você está bem — Eren negou e sentou num dos bancos ao lado do banco em que Levi sentava, à frente do seu pequeno bar. — Mas lembre-se de tomar depois.

— Tá, mãe.

Levi usava apenas uma camiseta azul velha, longa demais para o seu corpo. Talvez ela fosse do tempo que ele ainda tinha esperança de crescer, ou um presente de alguma pessoa sem noção nenhuma de tamanho. Depois do banho — que sempre o deixava mais branco — as marcas que Eren havia deixado no seu corpo estavam bem mais visíveis. Ele não sentia nada com isso. Não era como se não gostasse, nem como se adorasse. Apenas não se importava. Eren, por outro lado, não gostava muito daquilo, mas também não era como se seu mundo fosse acabar por alguns machucados.

Ele só... Não sabia como Levi tinha o feito perder o controle tão fácil.

— Eu preciso falar com Erwin sobre ontem, e ele só aceita tratar desses assuntos pessoalmente, então...

— Cara das antigas né? Vai lá.

— Quer alguma coisa antes de eu ir?

— Assim...

— Sem ser um boquete.

— Traga o almoço quando voltar. Boa viagem.

— Que frio.

— Se fosse pra ser quente estaria com febre.

Eren depositou um beijo nos lábios de Levi e se afastou para ir.

— Se comporte.

— Eu sei — e Levi deu um dos sorrisos mais genuínos que Eren já vira.

Jaeger saiu da casa e entrou no carro grande demais para uma pessoa só. O sorriso de Levi não saía de sua cabeça. Ele queria tirar uma foto mental dele e imprimir, era lindo demais. Eren seguiu dirigindo pela estrada, na direção de seu suposto trabalho, após sexo matinal com o seu amor e uma pequena promessa naquele sorriso que ele dera.

Ele quase se sentiu humano.

***

Era nesses momentos que Levi se sentia muito vazio. Naquela terra que nunca se vira sol, ele andava sem um rumo certo. Incrivelmente, ele não queria beber. Ainda mais incrivelmente, ele não queria transar. Sua vontade era de parar todas as pessoas que via na rua e perguntar “você sabe o que eu quero?”, porque ele queria muito saber. Se ele tivesse algum talento, poderia estar praticando. Algo tão legal como dançar ou pintar. Talvez tocar algum instrumento. Mas a única coisa que ele tinha habilidade na vida era com números, só que também não estava com vontade de calcular.

Então talvez seu rumo fosse a livraria. Fazia tempo que não andava por aqueles lados do centro da cidade. Estava frio e a ponta de seus dedos doía, mas a sensação era boa. Logo seria outubro. Tão cedo, já haviam começado os anúncios de dia das bruxas. Tudo muito colorido em laranja e roxo, assim como preto, menos por uma pequena loja entre duas outras enormes. Se comparada a todo o resto da rua, era apenas um pontinho apagado de cor verde musgo. Uma tendinha listrada fazia sombra na sua vitrine, a qual exibia os livros lançados recentemente e uma placa onde se via os escritos “cafeteria e livraria”.

Levi entrou, fazendo um barulhinho de sino ao abrir aporta.

— Levi?!

A voz era feminina e vinha de trás de uma das estantes do lugar. Ele podia dizer que uma das coisas mais agradáveis ali eram os tons monótonos e a limpeza. A funcionária que o chamara era Isabel, a filha do proprietário. Era um dos motivos de não aparecer ali... Isabel era uma história complicada.

— Olá — respondeu, enquanto procurava um livro para se enfiar.

Não queria encará-la.

— Faz... Muito tempo! — A mulher surgiu ao seu lado.

O cabelo tingido, vermelho e desgrenhado, como sempre. Usava um avental e, por baixo, uma camisa branca. Ela vestia o sorriso. Aquele sorriso estranho, como se seus lábios estivessem repuxados automaticamente. Não era verdadeiro.

— É.

— Está procurando por algo em específico?

— Hm... Farlan está?

— Não precisa fugir de mim, sabe — ela fez um bico e continuou. — Ele já vai chegar. Quer um café? É por conta da casa.

— Não, obrigado.

— Oh, você prefere chá, certo?

— Sim. — ele ficou distante por um segundo. — Sim, eu prefiro chá.

Pegou uma cesta azul escuro e passeou entre as prateleiras, vendo os títulos que chamavam sua atenção e vez ou outra colocando um livro dentro dela. Estranhamente, os livros de suspense estavam capturando toda a sua atenção naquele dia.

Isabel e Farlan eram amigos antigos. Ambos tinham a mesma idade que ele, pois tinham feito o ensino médio juntos. Os dois foram para o ramo dos livros, porém Farlan era um editor, enquanto Isabel tomava conta da livraria. Já Levi, havia se distanciado quando fora para a área da matemática e das universidades. Ele costumava ter mais contato com eles na época da faculdade, ou quando procurava paradidáticos interdisciplinares para os seus alunos, mas...

Sua relação com Isabel ficara estranha.

Ela sabia que ele jamais se apaixonaria novamente, e mesmo assim caíra na besteira de nutrir sentimentos por Levi. Quando isso aconteceu, ele não teve outra opção senão se distanciar. Vez ou outra aparecia ali. Mas era sempre estranho se apenas Isabel estivesse. Ela tinha olhos de uma criança, e sabia lê-lo. No momento, ela devia estar vendo que algo estava diferente. Que ele estava mais vazio. Que o seu mundo estava acabado.

Porque era isso que acontecia enquanto ele ia ficando mais velho.

Ouviu o sino da porta e seu coração acelerou. Os dedos, inquietos, batucavam na capa do livro que tinha em mãos. Ele não tinha ideia do que estava lendo. Quando estava quase se virando para a porta, uma mão firme segurou o seu ombro.

— Quem é vivo sempre aparece — disse Farlan, sorrindo.

— Não só quem é vivo — Levi estreitou os olhos.

E ele fez isso, porque ele tinha certeza.

Os olhos de Farlan. Eles estavam cinza. Não era um cinza natural, não era um olhar vivo. Levi tinha certeza: Farlan não era mais humano.

Seria paranoia? Seria apenas um desleixo seu? Ele sabia que Farlan tinha olhos azuis. A pele meio morena, o cabelo loiro e sedoso. Então aquele não era Farlan. Seu cabelo parecia palha, a pele pálida como a de um cadáver. Olhos doentes.

— Você é engraçado — o loiro riu e o abraçou. — Por que nos abandonou por tanto tempo mesmo?

— As coisas... Estavam difíceis.

— São quase dois anos agora.

— Muito difíceis.

Levi suspirou e se desvencilhou do abraço não tão delicadamente.

— Como vão as coisas? — Isabel puxou assunto, aparecendo com três xícaras de chá e uns biscoitos.

Os três se sentaram no chão, em almofadas que ficavam encostadas num pilar de concreto coberto por veludo preto.

— Acho que a única coisa diferente é que eu estou meio que namorando — respondeu casualmente, levando a xícara aos lábios.

Talvez pela primeira vez na vida, não soube dizer o sabor. Não porque não conhecia, mas porque não prestou atenção no único gole que tomou.

— Você? Namorando?! Há! — Isabel jogou a cabeça para trás. — Isso era pra ser uma piada?

Quando Levi não respondeu com nenhuma ironia, Farlan continuou:

— Você... Está falando sério?

— Sim, infelizmente.

— Se você me permite perguntar... — o loiro começou hesitante.

— Desde quando temos essas formalidades? — Levi deu um soco fraco em seu ombro. — Perguntem o que quiserem.

— Então, — continuou — como ela é?

— Na verdade, é um cara. — eles não demonstraram surpresa, apenas uma diversão em seus olhares. Seja por ser um homem ou por ser Levi namorando, eles estavam se divertindo com a coisa toda. — Eu não sei direito o que dizer. Ele é bem alto e é um pouco mais novo que eu. Eren é...

— O nome dele é Eren? — Isabel interrompeu-o de repente. O semblante sério atenuou quando Farlan se mexeu desconfortavelmente. — Você não tinha dito... Haha, acho que pode começar por aí. O que sente por ele?

— Eren é um ótimo brinquedo sexual.

— Não se namora por sexo! — Farlan riu. — Como vocês se conheceram?

— Ele era meu aluno numa universidade em que fui professor substituto — Levi limpou a garganta. — Podemos mudar de assunto? Me falem mais da vida de vocês.

***

— Soldado Eren Jaeger pronto para relatório — murmurou com notório humor. O meio sorriso sarcástico e aquela postura de adolescente enfrentando o professor.

— A situação é séria, Eren — Erwin levantou de sua cadeira.

Andar muito na luz estava fazendo com que os olhos de Eren se incomodassem com tanta escuridão. O escritório de Erwin e dos outros vampiros normalmente era mantido no escuro absoluto. “Nós não somos humanos” dizia Carla “não devemos agir como tais”. Eren achava besteira. Ele era um humano quase morto, e daí? Se ele tivesse que morrer de tanto andar no sol para ficar com Levi, ele morreria.

— Nem parece que temos celular — bufou Eren.

— A situação é séria — de forma impassível, repetiu o loiro.

— Certo, comecemos com tudo que aconteceu no hospício.

Eren relatou de forma direta e detalhada, sem deixar passar nenhum parênteses ou nota de roda pé. Quando chegou a parte em que Levi havia se utilizado de pontos de pressão e raciocínio rápido para lidar com um caçador, os olhos de Erwin simplesmente brilharam.

Ganância.

Uma agulha imaginária atravessou o peito de Eren, que já previa o que estava por vir.

Mas ele não fez nada.

Depois dali, ele tentou evitar passar pelo quarto principal, mas novamente a víbora o arrastou para dentro.

— O que quer?

Suspirou.

— Isso é jeito de falar com a sua mãe?

A mulher não o disse de forma indignada. De forma alguma. Ela pronunciou com ironia, como uma máquina de fazer humor. Bem, ela já estava perdida. Sua humanidade sumira havia muito tempo.

— Desde quando você pode sequer se parecer com uma figura materna?

— Mamãe tem orgulho de você.

— Se é só isso que quer falar, eu vou embora.

— Voltar para o humano?

— Voltar para a minha própria humanidade.

Eren deu meia volta e estava pronto para sair daquela conversa inútil, mas Carla o paralisou. E isso foi com apenas uma palavra: pare.

Ele tinha que obedecê-la, mas isso apenas quando usasse o Poder. E o Poder gastava muita energia para ser usado. O “pare” foi um grau pequeno, ele apenas se sentiu ser puxado de leve, e sabia que se não o executasse, a coisa ficaria feia.

— Aturo suas gracinhas por mais de 500 anos, Eren Jaeger, e dessa vez não estou me agradando.

— Não é uma gracinha... Levi não é só uma brincadeira — Eren suspirou, virando-se lentamente. — Eu não sou uma criança e você não é autoridade na minha vida.

— Ah, não sou?

— Não, não é.

— Você fez um pacto — ela saiu das sombras de seu quarto e deixou a claridade mínima que entrava pela porta a alcançar. — Você prometeu a mim. A sua lealdade é minha.

— Não, a minha lealdade é dessa organização. Eu te prometi outra coisa, não confunda tudo, mãe.

Arrependeu-se assim que o disse. Era um hábito que custou a se desfazer: chama-la de mãe. E agora, de volta à estaca zero.

— E que animal te fez quebrar essa promessa a mim?

Quem olhasse para a mulher, não conseguiria dizer que não era humana. Um monstro humano demais. Um monstro com uma máscara perfeita. A máscara oca de uma pessoa que se perdeu.

Tudo que restara era aquela falsa humanidade.

Carla flutuava. Literalmente, flutuava. Aquilo fazia parte do pacto, era a maldição que dizia que a mulher devia viver como uma cobra. Ela podia caminhar, mas não o queria. Parecia estranho demais. Só quando estava muito fraca se utilizava desse artifício. Enquanto o Poder a sustentasse, ela se movia. Mas nenhum passo para fora daquele lugar, como um fantasma branco, que apenas existia, mas nunca vivera.

Ela tinha o cabelo sobrenaturalmente branco e olhos dourados quase que saltando do rosto magérrimo. Unhas negras faziam ponta em seus dedos, unhas estas que por vezes se alongavam absurdamente e depois voltavam para o tamanho original.

Sua boca sorria, mas seus olhos não. As sobrancelhas unidas em desespero, e aqueles olhos secos parecendo que poderiam chorar.

Ha. Como se pudessem.

— Eu não vou matar Levi — ele cortou a mãe que tomava ar para falar. — Você não lembra nem um pouquinho? — pela primeira vez, a voz de Eren demonstrou fraqueza, como se estivesse implorando. — O sentimento que dominava quando você aceitou virar isso pelo papai? O que fez você querer viver a eternidade com ele?

O rosto brevemente humano foi se contorcendo e se transformando numa face sorridente. O sorriso mais horripilante que os céus e o inferno já haviam visto.

— A eternidade foi o motivo, não a exigência — disse Ela. O sorriso parecia que nunca pararia de se alargar.