Amar o Caos

6 No Beco Escuro


Era só uma festa de bairro.

Dessas antigas, teimosas, que sobrevivem como raiz em asfalto rachado.

Na praça do centro, as luzes penduradas tremiam no vento quente.

Cheiro de pipoca, churrasco e refrigerante barato no ar.

Gente demais, risada demais, vida demais.

Yuna apareceu no meio disso como quem não queria nada… mas queria tudo.

O vestido floral era quase uma piada inocente. Leve, claro, com aquele ar de “menina bem comportada”.

Só que havia algo errado — ou certo demais — no jeito que ele caía nela.

Como se a inocência tivesse aprendido a provocar sem pedir licença.

Ela desceu a rua devagar.

E foi aí que o mundo dela mudou de eixo.


Felix estava encostado na moto, postura relaxada demais pra alguém que nunca relaxa de verdade.

Cigarro apagado no canto da boca, olhar perdido no movimento da praça… até parar.

Porque parou nela.

E não foi escolha.

Foi instinto.

Aquela roupa simples, aquele jeito “não fiz nada”, aquele passo calculado sem parecer cálculo nenhum…

Isso irrita mais do que provocação direta.

Jim percebeu primeiro.

Sempre percebe.

Jim foi o primeiro a quebrar o silêncio, com aquele risinho debochado:

“Acho que alguém aí levou um tiro... mas foi no peito, né chefe?”

Kako assobiou, balançando a cabeça:

“Bonitinha ela, hein… mas parece meio sonsa. Cê curte esse tipo agora?”

Kim entrou na onda:

“Se for pra tirar ela da linha, eu dou um susto, chefe. É só falar.”

Felix girou o pescoço devagar, encarando um por um.

O tipo de olhar que não precisa levantar a voz pra calar a praça inteira.

“Se alguém encostar um dedo nela, eu quebro os dois braços. Entendido?”

Silêncio.

Denso. Feio. Real.

Até o vento pareceu respeitar.

Kadu soltou um riso baixo, perigoso de tão tranquilo:

“Anotado. Intocável. Mas a princesa já bagunçou o rei.”

Felix puxou o cigarro de novo. Acendeu. Tragou fundo.

Olhou pro céu como se ele tivesse alguma resposta lá em cima.

Soltou a fumaça devagar.

“Ela vai esquecer. É só uma fase.”

Mas a mão dele apertou o isqueiro com força demais.

E isso entregava tudo.

Porque ele sabia.

Não era fase.

Era problema crescendo com perfume doce.


E Yuna…

Ela chegou mais perto da praça como quem passeia sem destino.

Mas o olhar dela não passeava.

Procurava.

Até encontrar.

Felix.

O impacto foi silencioso, mas violento.

Ele estava lá — parado, firme, inacessível… errado de um jeito que puxava.

Os olhos se cruzaram.

Só isso.

Nada mais.

E mesmo assim… tudo.

Felix não desviou.

Yuna também não.

Ela sorriu de leve. Quase nada. Quase educado.

Mas por dentro, o peito dela virou barulho.

E ela virou de costas primeiro.

Não por medo.

Por estratégia.

Porque algumas guerras não começam no ataque.

Começam no primeiro olhar sustentado tempo demais.

E enquanto ela se afastava entre as luzes da festa…

Felix ficou parado.

Mais tempo do que devia.

Mais fundo do que queria.

E pela primeira vez naquela noite…

a praça inteira parecia menor do que aquele vestido floral andando pra longe

Yuna caminhava pelas ruas do bairro, fingindo que não o procurava.

Mas cada curva que fazia, cada passo calculado, era uma isca.

Sabia que ele estava ali.

Sentia.

E não estava errada.

Felix a observava de longe, silencioso como uma sombra.

Tinha jurado pra si mesmo que não iria atrás — que ela era um problema que ele não precisava.

Mas ali estava ele, seguindo feito um maldito cão farejador, olhos fixos naquela nuca delicada, naquele vestido que balançava com um toque de provocação involuntária.

Ou não tão involuntária assim.

Yuna entrou numa rua mais vazia. Uma curva… depois outra…

E por fim, um beco.

Perfeito.

Felix não hesitou.

Quando ela passou pela metade, ele acelerou o passo, puxou-a com firmeza e a prensou contra a parede fria e áspera do beco.

— "Tá brincando com fogo, princesa." — rosnou entre os dentes, perto demais.

O braço firme bloqueava qualquer chance de fuga. O rosto dele a centímetros do dela.

Mas ela não gritou. Não recuou. Não choramingou.

Os olhos de Yuna, grandes e vivos, brilhavam como estrelas de desafio.

— "E você acha que eu tenho medo de me queimar, Félix?" — ela sussurrou, sem recuar um milímetro.

Ele engoliu em seco.

Era pra ser um susto. Uma lição.

Mas o perfume dela o atingiu como uma maldição doce.

A boca dele vacilou.

O coração deu dois pulos e meio.

E naquele segundo de silêncio quente, onde o mundo parou, ele percebeu:

**Ela não era frágil como ele pensava.**

E ele… ele não era forte o bastante pra resistir.

As mãos dele afrouxaram, mas o olhar ficou preso.

Os olhos dela se moveram devagar até a boca dele.

Ela mordeu o lábio inferior, só um pouquinho. Só pra ver se ele reagia.

Reagiu.

Mas ao invés de beijá-la, ele se afastou com brutalidade. Quase tropeçando em si mesmo.

— "Volta pra casa, garota." — disse com raiva — raiva dela, dele mesmo, do mundo.

E desapareceu na escuridão.

Deixando Yuna no beco, tremendo.

Mas não de medo.

De desejo.

E da certeza:

Ela o pegou.

Agora era só esperar a próxima queda.


O beco ficou em silêncio depois que ele sumiu.

Mas não era um silêncio vazio.

Era cheio demais.

Yuna ficou parada, o peito subindo e descendo como se tivesse corrido uma maratona sem sair do lugar. A parede fria nas costas ainda parecia guardar o calor do momento.

E isso a irritou.

Porque não devia ter sido assim.

Não devia ter mexido tanto.

Ela passou a mão de leve pelo próprio vestido, como se pudesse reorganizar o que tinha acabado de acontecer dentro dela.

“Covarde…” — murmurou, quase rindo.

Mas não soou como ofensa.

Soou como descoberta.

Do outro lado da rua, já longe, Felix parou por um segundo encostado numa parede qualquer. Não olhou pra trás. Não podia.

Porque se olhasse…

ia voltar.

E ele sabia disso agora com uma clareza incômoda.

A mandíbula travada, o cigarro esquecido entre os dedos, ele soltou o ar devagar.

“Isso vai dar problema…”

Mas não era aviso.

Era admissão.

E naquela noite, os dois seguiram caminhos opostos pela mesma cidade…

mas nenhum deles realmente saiu daquele beco.