Amar o Caos

7 Coragem ou Loucura


Desde aquela noite no beco, Yuna não era mais a mesma.

Não era só o susto.

Era o toque dele, o cheiro, o calor sufocante daquele momento.

Era o jeito que ele tremia ao se afastar — como se fugir fosse o único jeito de sobreviver à presença dela.

E isso…

Isso a deixou viva.

Na escola, o quadro negro virou um borrão.

A professora falava, os colegas riam, o mundo girava… mas na cabeça de Yuna só havia uma pergunta:

“Como eu coloco aquele maldito de novo contra a parede?”

Dessa vez ela ia atacar.

Sem medo. Sem vergonha.

Com a fome de quem já provou e agora quer devorar.

Enquanto isso, Félix fazia o contrário.

Evitava certas ruas, mudava de trajeto.

Proibia os capangas de se aproximarem da mercearia.

Quando passava perto da escola, ficava de cabeça baixa.

Como se ela fosse o próprio diabo vestindo sainha e mochila.

Mas não adiantava.

O cheiro dela estava grudado nele.

O olhar inocente e atrevido aparecia nas noites em que tentava dormir.

E o pior:

Ele sabia que ela vinha atrás.

E ela veio.

Foi numa tarde de céu nublado.

Yuna saiu da escola mais cedo, uniforme amassado, cabelo solto, olhar direto.

Sabia onde a gangue se reunia.

Sabia que ele estaria lá, fingindo ser chefe, tentando esquecer o que sentiu.

Ela entrou sem pedir licença.

Passou pelo capanga da porta, que ficou tão confuso que nem impediu.

Andou como quem pisa em chão sagrado.

E quando o viu tragando um cigarro sem pressa, o coração dela deu um salto e gritou:

É agora.

Félix a viu.

Jogou o cigarro no chão com raiva.

— "Você enlouqueceu de vez, garota? O que tá fazendo aqui?"

Yuna não parou.

Foi até ele, parou a centímetros.

— "Tô fazendo o que você devia ter feito da última vez."

— "Não brinca comigo." — ele avisou, mas a voz saiu rouca, fraca.

Ela sorriu.

— "Não tô brincando, Félix. Tô indo atrás do que eu quero."

Ele tentou desviar, dar um passo, qualquer coisa…

Mas ela foi mais rápida.

Segurou a camisa dele com firmeza e sussurrou:

— "Você me encostou na parede... agora é minha vez."

E o beijo aconteceu.

Rápido. Ardente. Quase um tapa.

Com gosto de desafio e promessa.

Ela se afastou antes que ele pudesse reagir, os olhos brilhando como faca afiada.

O ar ficou torto.

Não de leve — torto de verdade, como se a cidade inteira tivesse dado um passo em falso.

Felix não reagiu de imediato.

O corpo dele travou antes da mente entender.

Os olhos dela ainda estavam ali, brilhando como lâmina recém-afiada, e a frase dela ainda ecoava na pele dele mais alto do que qualquer som da praça.

Quando Yuna se afastou, foi como se ela tivesse deixado um incêndio aceso e ido embora assobiando.

O beijo aconteceu como um raio.

Curto.

Violento.

Quente como ferro em brasa.

E quando Félix tentou entender, já era tarde.

Yuna já ia longe.

Saiu andando com passos rápidos, quase tropeçando nas próprias pernas.

O coração dela batia tão forte que parecia uma sirene.

Nem olhou pra trás.

Nem disse uma palavra.

Ela tinha feito o impensável.

E fugir era a única coisa que a mente dela conseguiu processar.

Mas lá atrás, parado como um poste, ficou ele.

Félix.

O cara que todos temem.

O que manda, grita, cobra, derruba.

Estava imóvel.

O corpo ainda sentia o gosto.

A boca ainda formava o nome.

E os olhos…

Os olhos buscavam por ela, como se ainda não acreditassem.

Um capanga, o mesmo de antes, resmungou com um sorrisinho debochado:

— “Acho que alguém foi caçado hoje, hein, chefe?”

Félix não respondeu.

Só fechou os olhos por um segundo, tentando entender o que havia acabado de acontecer.

Mas não tinha lógica.

Nada fazia sentido.

A menina da mercearia…

Aquela que ele quis evitar.

Que ele mandou embora, disse que não era o lugar dela…

Tinha voltado. Tinha cravado os dentes. Tinha marcado ele.

E agora?

Agora ele estava fodido.

Porque por mais que dissesse a si mesmo que aquilo era loucura…

Que ela era só uma menina…

Que ele tinha mais o que fazer…

A boca dele ainda ardia.

O orgulho sangrava.

E no fundo — bem no fundo — algo dentro dele gostou.


Yuna correu.

Como se estivesse fugindo de um crime.

Como se o mundo fosse desabar atrás dela.

Entrou em casa esbaforida, ignorou o pai no sofá, subiu direto pro quarto, trancou a porta, encostou as costas e deslizou até o chão.

Estava tremendo.

Não de medo.

Mas de adrenalina.

De loucura.

De coragem demais pra um corpo tão pequeno.

Levou a mão aos lábios, ainda quentes, ainda pulsando.

Ela o beijou.

Ela realmente fez aquilo.

Sem ensaio. Sem plano. Sem rede de segurança.

E agora?

Agora o coração batia como se quisesse sair pela boca.

Mas, ao invés de arrependimento, veio um sorrisinho no canto.

Pequeno. Vitorioso. Satisfeito.

— "Aposto que nunca ninguém fez isso com ele…"

E ali, sentada no chão do quarto, com as bochechas vermelhas e o peito arfando, Yuna sentiu algo que nunca tinha sentido antes:

poder.


Enquanto isso, em outro canto do bairro...

Félix estava sentado na calçada, cigarro entre os dedos, o isqueiro girando na mão como um vício nervoso.

Não conseguia acender.

Não conseguia pensar.

Os moleques riam, zoavam, iam e vinham com suas garrafas e barulho. Mas ele estava distante.

Preso.

Preso naquela boca que tocou a dele sem pedir licença.

Porra.

Ele devia estar com raiva.

Devia estar puto, se sentindo desrespeitado, invadido.

Mas não.

Era outra coisa.

— "O que essa menina acha que tá fazendo?"

— "Quem ela pensa que é?"

Ele jogou o cigarro fora antes mesmo de acender.

Levantou, andou de um lado pro outro, socou uma parede.

Mas a lembrança ainda estava lá.

Quente. Viva. Impossível de ignorar.

Félix, o lobo da quebrada, o dono da rua…

tinha sido domado por um beijo.

E agora, ele não sabia mais de que lado da jaula estava.