Amar o Caos
3 A Primeira Cobrança
A manhã amanheceu abafada em Haedam.
Nuvens carregadas cobriam o céu desde cedo, deixando o bairro mergulhado numa luz acinzentada e preguiçosa. O mercadinho da família de Yuna já estava aberto havia horas, e o som da velha caixa registradora se misturava ao tilintar de garrafas sendo organizadas nas prateleiras.
Junho parecia inquieto naquela manhã.
Mais calado que o normal.
Conferia o relógio constantemente enquanto organizava notas dentro de um envelope pardo escondido sob o balcão.
Yuna percebeu.
Claro que percebeu.
— Appa… é hoje? — perguntou baixo, enquanto alinhava algumas caixas de ramyeon na prateleira.
Junho ergueu os olhos por um instante.
E apenas assentiu.
Ela sentiu um aperto estranho no peito.
O dia da cobrança.
Do lado de fora, Haedam seguia seu ritmo silencioso, mas existia aquela tensão invisível pairando no ar. Como se o bairro inteiro prendesse a respiração nos dias em que os homens de Felix saíam pelas ruas.
Junho passou a mão cansada pelo rosto.
— Preciso ir ao banco antes do meio-dia. Vou voltar rápido.
Yuna imediatamente franziu a testa.
— Mas e se eles vierem enquanto você estiver fora?
O silêncio que veio depois respondeu mais do que qualquer palavra.
Junho hesitou.
Porque sabia.
Sabia que não existia escolha.
— Só entregue o envelope e não arrume problemas, entendeu?
Ela assentiu devagar.
Mas o coração começou a bater diferente.
Não de medo.
E isso era o mais perigoso.
Pouco depois, Junho saiu apressado pela rua estreita, desaparecendo entre os carros estacionados e os fios elétricos cruzando o céu cinzento de Haedam.
Então Yuna ficou sozinha.
Sozinha atrás do balcão.
Sozinha com o som lento do relógio na parede.
Sozinha com a ansiedade crescendo no peito.
Os minutos passaram devagar demais.
Até que ela ouviu.
O ronco grave das motos.
Distante primeiro.
Depois mais próximo.
Mais próximo.
Mais próximo.
O corpo inteiro de Yuna ficou imóvel.
As motos pararam bem em frente ao mercadinho.
E pela primeira vez…
Felix estava entre eles.
Mas naquela manhã, Felix decidiu ir junto.
Não explicou motivo.
Nem precisava.
Apenas vestiu a jaqueta escura, acendeu um cigarro e disse:
— Hoje eu vou.
E ninguém questionou.
Na mercearia de seu Junho, o dia seguia aparentemente tranquilo.
O vento morno atravessava a porta aberta do comércio, fazendo balançar os pequenos anúncios pendurados perto do caixa. O sol da tarde entrava torto pelas janelas, iluminando partículas de poeira suspensas no ar.
Atrás do balcão, Yuna organizava alguns pacotes de arroz enquanto conferia distraidamente as anotações deixadas pelo pai.
Junho parecia nervoso desde cedo.
Um depósito atrasado.
Problemas no banco.
Contas acumulando.
Precisou sair às pressas, deixando a filha cuidando do mercadinho sozinha por algumas horas — algo raro.
Muito raro.
Ele chegou
Felix entrou primeiro.
Kadu apareceu logo atrás, segurando uma pequena caderneta de cobranças sob o braço.
O cheiro de nicotina, couro e gasolina invadiu o ambiente junto deles.
Felix caminhava devagar.
Sem pressa.
Sem culpa.
Sem hesitação.
Como alguém acostumado a entrar em qualquer lugar sabendo que ninguém teria coragem de impedir.
Seu olhar percorreu a loja distraidamente.
As prateleiras.
O caixa.
As paredes antigas.
Até parar nela.
Yuna.
E por um instante…
O mundo pareceu desacelerar.
Os olhos dos dois finalmente se encontraram de verdade.
Sem distância.
Sem janelas.
Sem ruas separando os dois.
Só silêncio.
Ela não sorriu.
Ele também não.
Mas algo aconteceu ali.
Algo pequeno.
Perigoso.
Inevitável.
Como se uma porta tivesse sido aberta sem que nenhum dos dois percebesse.
— Seu pai não tá? — Kadu perguntou, quebrando o silêncio.
Yuna engoliu devagar antes de responder.
— Foi ao banco. Estou cuidando da loja até ele voltar.
Sua voz saiu calma.
Educada.
Mas por dentro, tudo nela girava em desordem.
Kadu apenas assentiu e anotou algo na caderneta.
Felix continuava quieto.
Observando.
O jeito como ela falava.
A delicadeza dos movimentos.
A calma estranha que não combinava com alguém diante dele.
Era diferente.
Ela era diferente.
Quando terminaram, Kadu guardou a caderneta no bolso da jaqueta e caminhou até a saída.
Felix demorou um segundo a mais.
E antes de sair…
Olhou para Yuna mais uma vez.
Um olhar rápido.
Silencioso.
Mas profundo o suficiente para deixar marcas.
Como alguém que encontra algo bonito no caminho…
mas ainda não sabe o que fazer com aquilo.
Então eles foram embora.
O ronco das motos voltou a preencher a rua.
E o silêncio deixado por eles pareceu ainda maior.
Yuna apoiou lentamente as mãos sobre o balcão.
Respirou fundo.
Porque sabia.
Sabia que alguma coisa havia começado naquele dia.
Não uma história de amor.
Mas uma fissura.
Uma rachadura perigosa no vidro perfeito da vida que sempre conheceu.
Ela não passou despercebida
Depois da última cobrança do dia, o grupo parou na pequena praça no centro de Haedam.
As motos ficaram alinhadas perto do meio-fio como cães de guarda descansando depois da caça. O céu começava a escurecer devagar, tingido por tons alaranjados e cinzentos, enquanto o vento espalhava folhas secas pela calçada antiga.
Kako ria alto de alguma piada idiota.
Kim discutia com Jim sobre uma aposta qualquer.
Kadu anotava valores na velha caderneta como se aquilo fosse apenas mais um dia comum.
Mas Felix…
Felix não ria.
Sentado sobre o encosto de um banco de madeira gasto pelo tempo, ele mantinha o cigarro queimando lentamente entre os dedos enquanto observava o vazio à frente.
Silencioso.
Distante.
Aquele tipo de silêncio que não convida ninguém a perguntar nada.
Ela.
A garota da mercearia.
Os olhos dele voltaram para ela sem permissão.
Pele clara.
Movimentos delicados.
E aqueles olhos…
Não brilhavam como os dos outros moradores de Haedam.
Não havia medo.
Nem submissão.
Havia presença.
E aquilo mexeu com ele mais do que deveria.
Os lábios dela também voltavam à sua mente com irritante facilidade — rosados, suaves, desenhados de forma quase cruel demais para alguém como ele encarar por tanto tempo.
Felix desviou o olhar para o chão.
Incomodado.
Mulheres já tinham passado pela vida dele antes.
Entrado.
Saído.
Desaparecido.
Nenhuma permanecia tempo suficiente para deixar marca.
Mas aquela garota…
Nem o nome dela ele sabia.
E ainda assim, alguma coisa tinha ficado.
— Tá tudo certo, chefe? — Jim perguntou depois de alguns minutos, percebendo o silêncio estranho.
Felix tragou devagar antes de responder:
— Tá.
Mas não estava.
Não como antes.
O problema era simples.
Felix nunca permitia que ninguém se aproximasse de verdade.
Nem por beleza.
Nem por curiosidade.
Nem por carência.
Homens como ele aprendem cedo que apego é fraqueza.
Mas aquela menina…
Ela tinha algo impossível de ignorar.
Inocência real.
Daquelas que não existem no mundo dele.
E mesmo assim…
Ela não o olhou com medo.
Aquilo o atraía.
E o irritava na mesma intensidade.
Felix apagou o cigarro no chão com a sola da bota e se levantou.
— Vamos.
Kako ergueu a sobrancelha.
— Pra onde?
Felix pegou o capacete sem sequer olhar para trás.
— Qualquer lugar.
O ronco das motos voltou a cortar as ruas silenciosas de Haedam pouco depois.
O vento frio bateu contra seu rosto enquanto acelerava pela estrada estreita saindo do centro da cidade.
Mas não adiantou.
Porque mesmo com o barulho do motor…
mesmo com a velocidade…
mesmo tentando pensar em qualquer outra coisa…
Os olhos dela continuavam ali.
E Felix odiava perceber isso.
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