Amar o Caos

4 A Rachadura


Desde o momento em que Felix atravessou a porta da mercearia, alguma coisa mudou dentro de Yuna.

O mundo continuava o mesmo.

As ruas estreitas de Haedam.

O sino da igreja ecoando pelas manhãs.

O cheiro de pão fresco vindo da padaria da esquina.

Mas o ritmo dela já não era igual.

Agora existia expectativa.

Uma inquietação silenciosa crescendo sob a rotina perfeita que sempre conheceu.

Ela nem sabia explicar direito.

Não sabia o nome completo dele.

Não sabia sua história.

Não sabia sequer se Felix realmente a tinha notado naquele dia.

Mas sentia.

Sentia como quem escuta um trovão distante atravessando um céu aparentemente limpo.

Nos dias seguintes, Yuna começou a aparecer mais vezes na mercearia.

Mesmo quando Junho insistia que não precisava de ajuda, ela surgia atrás do balcão com desculpas pequenas demais para convencer alguém.

Organizar o estoque.

Limpar prateleiras.

Atualizar o caderno de contas.

Mas nenhuma daquelas coisas era o verdadeiro motivo.

Ela esperava por ele.

Perguntar diretamente seria impossível.

Quase vergonhoso.

Então Yuna preferiu o acaso.

Ou pelo menos a ilusão dele.

Mudou o caminho até a costureira para passar pela praça onde os cinco costumavam ficar.

Atravessou a rua só para comprar refrigerante na pequena conveniência ao lado da antiga barbearia.

Andou mais devagar pelas ruas onde o som das motos costumava ecoar.

Nada.

Nenhum sinal de Felix.

Até o quarto dia.

Yuna estava saindo da loja de conveniência com um pacote de biscoitos que nem queria quando o viu.

Felix.

Encostado na moto como se fizesse parte dela.

Sozinho.

Girava distraidamente um velho isqueiro prateado entre os dedos enquanto o cigarro queimava esquecido nos lábios.

A camisa escura estava parcialmente aberta no peito.

O colar prateado brilhava sob a luz abafada da tarde.

E os cabelos negros continuavam desalinhados daquele jeito irritantemente perfeito.

Yuna fingiu não vê-lo.

Mas o coração dela bateu tão forte que quase doeu.

Ela caminhou devagar pela calçada.

Tentando parecer calma.

Tentando parecer normal.

Então olhou discretamente para o outro lado da rua.

E encontrou os olhos dele.

Dessa vez…

Felix a observava de verdade.

Não havia provocação.

Nem frieza.

Só interesse.

Curiosidade cautelosa.

Como um homem tentando entender algo que ainda não deveria importar.

Yuna não sorriu.

Felix também não desviou o olhar.

E durante aqueles poucos segundos…

O mundo inteiro pareceu distante demais.

Depois ela continuou andando como se nada tivesse acontecido.

Passos tranquilos.

Expressão serena.

A imagem perfeita da garota educada que Haedam conhecia.

Mas por dentro…

Alguma coisa queimava.

Porque pela primeira vez na vida, Yuna não queria ser apenas a filha exemplar de Junho.

Ela queria ser vista.

E pela primeira vez…

Achava que alguém finalmente tinha começado a enxergá-la.


A Fresta na Muralha

Desde que viu a garota da mercearia pela segunda vez, Felix se pegava inquieto. E isso o irritava mais do que qualquer dívida não paga. Ele, que sempre soube separar o que era útil do que era perigoso, agora carregava no peito uma dúvida silenciosa — **e o nome dela era Yuna.**

Não sabia por que prestou atenção.

Talvez fosse a calma no olhar dela, num mundo onde tudo era barulho.

Talvez os lábios, levemente entreabertos, como se guardassem segredos demais pra uma menina tão quieta.

Ou o jeito com que ela passava fingindo não ver, mas claramente querendo ser vista.

Felix nunca foi bom com sentimentos. Aprendeu a engolir a dor, a cuspir as palavras, a usar o corpo como armadura. Mas aquilo... aquilo era diferente.

**Aquilo era vontade. Desejo. Tentação. Perigo.**

E o mais estranho de tudo é que **ela não parecia ter medo.**

Era como se o reconhecesse — não como o homem que comanda, mas como o menino perdido que ainda existe em algum canto esquecido do peito.

Naquela noite, deitado no sofá velho da casa onde morava com os quatro capangas, ele acendeu um cigarro e ficou olhando o teto.

Kadu roncava. Jim mexia no celular. Kim discutia com Kako por causa de uma garrafa de cerveja. O mundo seguia igual. Só ele... **não.**

— “Tá diferente, chefe.” — disse Jim, sem olhar.

Felix não respondeu. Tragou fundo, soltou a fumaça devagar.

**“Ela não é pra mim.”**

Era o que ele repetia na mente.

Mas a imagem dela o perseguia. Os olhos, a voz, o silêncio.

**E pela primeira vez em muito tempo… ele queria algo que não sabia se podia ter.**


Os dias foram passando ...

Depois do encontro na mercearia, Felix começa a evitar Yuna a qualquer custo, tentando sufocar a atração crescente que sente por ela. Com o retorno das aulas e a rotina tomando conta dos dias, Yuna percebe a ausência dele pelas ruas de Haedam — e a frustração silenciosa começa a crescer dentro dela. Mas quando já acredita que Felix desapareceu de vez, um encontro inesperado diante da escola faz os dois entenderem algo perigoso: por mais que tentem fugir… continuam procurando um ao outro.

Yuna sentia como se tivesse perdido alguma coisa.

Mas como alguém perde aquilo que nunca teve?

Depois daquele dia na mercearia, Felix simplesmente desapareceu.

Nenhuma visita.

Nenhuma moto parada perto da praça.

Nenhum cigarro aceso diante da loja de conveniência.

Nada.

E isso a frustrava mais do que deveria.

As aulas voltaram na semana seguinte.

O uniforme voltou.

Os livros.

As provas.

As manhãs apressadas.

A rotina retomou seu lugar como se nada tivesse mudado.

Mas Yuna sabia.

Ela já não era mais a mesma garota de antes.

Agora, ajudava o pai na mercearia olhando constantemente para a rua.

Os olhos buscavam sem permissão.

Uma silhueta conhecida.

Um som de motor.

Uma jaqueta escura atravessando a esquina.

Qualquer sinal dele.

Mas Felix não aparecia.

Na verdade…

Parecia estar evitando exatamente os lugares onde ela costumava estar.

E isso doía de um jeito irritante.

Porque Yuna finalmente precisava admitir para si mesma:

Ela queria vê-lo.

Hana continuava reclamando dos homens da rua de trás durante o jantar.

Junho comentava sobre cobranças, confusões e comerciantes assustados.

Yuna apenas fingia desinteresse.

Baixava os olhos.

Concordava em silêncio.

Tentava parecer normal.

Mas por dentro…

Esperava.

Esperava encontrar Felix parado na praça.

Ou fumando perto da antiga barbearia.

Ou encostado na moto como alguém que não pertence a lugar nenhum.

Mas os dias passaram.

E a esperança começou a murchar lentamente dentro dela.

Até aquela tarde.

Yuna saía da escola ao lado de duas colegas, ouvindo distraidamente uma conversa sobre provas e trabalhos atrasados, quando sentiu.

Um arrepio estranho.

Como se o mundo tivesse diminuído o volume de repente.

Ela virou o rosto devagar.

E então o viu.

Felix estava do outro lado da rua.

Sozinho.

Encostado num poste antigo, braços cruzados e expressão indecifrável.

Sem os outros.

Sem cigarro.

Sem motos.

Apenas observando.

Os olhos dos dois se encontraram imediatamente.

E naquele instante…

Tudo pareceu voltar ao lugar.

O coração de Yuna disparou tão forte que ela teve medo que alguém percebesse.

Mas Felix não sorriu.

Não acenou.

Não atravessou a rua.

Apenas sustentou o olhar por alguns segundos.

Como se quisesse confirmar alguma coisa para si mesmo.

Então virou as costas…

E foi embora.

Yuna ficou parada.

Observando a silhueta dele desaparecer lentamente entre as ruas de Haedam.

E pela primeira vez…

Entendeu algo que a deixou sem ar.

Felix estava fugindo dela.

E mesmo assim…

Ainda continuava voltando.