Amar o Caos
26 A Operação
A noite antes da operação chegou silenciosa demais.
Silenciosa como o instante antes de uma explosão.
Só Félix sabia o que aconteceria na manhã seguinte.
Os outros precisavam ser pegos de surpresa também — era a única forma de tudo parecer real. Natural. Uma queda causada por investigação… não por traição.
E aquilo estava acabando com ele.
Porque enquanto Yuna caminhava pela casa distraída, reclamando da faculdade e falando sobre coisas comuns do dia a dia…
Félix observava ela como alguém vendo algo precioso escapar lentamente entre os dedos.
Talvez fosse a última noite normal que teriam.
No quarto, foi diferente.
Não existia pressa.
Nem a urgência bruta que tantas vezes ele usava para descontar tensão e raiva no corpo dela.
Naquela noite, Félix tocava Yuna como quem tentava guardar cada detalhe na memória.
Os dedos deslizando devagar pela pele.
A respiração pesada contra o pescoço dela.
Os beijos demorados demais.
E Yuna sentiu.
Sentiu que havia alguma coisa quebrada dentro dele.
Porque Félix, pela primeira vez, parecia abaixar todas as muralhas sem precisar dizer uma palavra sequer.
Não era apenas desejo.
Era entrega.
Crua.
Silenciosa.
Quase dolorosa.
Como se ele estivesse tentando amar ela com tudo que nunca soube explicar em voz alta.
Depois, o quarto mergulhou no silêncio.
Yuna ainda estava deitada observando ele quando Félix se afastou devagar da cama.
— Félix… tá tudo bem?
Ele não respondeu imediatamente.
Vestiu apenas um short escuro e caminhou até a varanda.
Yuna conhecia aquilo.
O cigarro aparecia sempre que Félix queria esconder o que sentia.
Ela observou ele encostar no parapeito enquanto acendia o isqueiro. A fumaça subiu lentamente na madrugada úmida de Busan.
— Você parece diferente — ela disse mais baixo.
Félix tragou o cigarro demoradamente antes de responder sem olhar para trás:
— Tá tudo bem.
Mentira.
Até o silêncio dele dizia isso.
— Só tô cansado.
Mas Yuna percebeu.
Percebeu no jeito como os ombros dele estavam tensos.
Na forma como evitava encarar ela diretamente.
Como alguém lutando sozinho contra pensamentos pesados demais para dividir.
E, do lado de fora, a cidade continuava viva sob as luzes de neon…
Sem imaginar que, quando o sol nascesse, a vida de Félix Park começaria a desmoronar.
Yuna saiu cedo naquela manhã.
O céu de Busan ainda carregava tons acinzentados, e o vento frio fazia os cabelos dela dançarem levemente enquanto calçava os sapatos perto da porta.
Tudo parecia normal.
Assustadoramente normal.
Félix estava em casa quando ela desceu.
Sentado na cozinha com uma xícara de café já frio entre as mãos.
Ele ergueu os olhos no instante em que ouviu os passos dela.
E por um segundo…
Por um único segundo…
Félix quase contou tudo.
Quase mandou ela fugir.
Quase segurou Yuna ali e desistiu do plano inteiro.
Mas não fez.
Porque já era tarde demais para voltar atrás.
Yuna se aproximou devagar, ainda sonolenta, inclinando-se para deixar um beijo leve nos lábios dele.
Doce.
Simples.
Cotidiano.
Como se aquele fosse apenas mais um dia comum.
Félix segurou ela pela cintura antes que se afastasse, puxando-a para um abraço mais apertado do que o normal.
Yuna estranhou levemente.
— O que foi isso?
Ele soltou um pequeno sorriso cansado perto do rosto dela.
— Nada.
Mentira outra vez.
— Tenha um bom dia.
Ela bagunçou os cabelos dele de propósito antes de sair.
— Você também.
E então foi embora.
Sem imaginar que aquela despedida dividiria a vida dos dois em antes e depois.
Félix ficou parado perto da porta mesmo depois dela desaparecer no portão.
O silêncio da casa pareceu esmagador.
Então ele respirou fundo.
E virou outra pessoa.
O homem cansado desapareceu.
No lugar dele voltou Félix Park.
Frio.
Calculista.
Preparado para a guerra.
Algum tempo depois, Kako e Kadu retornaram da escolta da faculdade.
Yuna tinha entrado no campus em segurança.
Aquilo bastava.
Sem demora, os quatros seguiram para o depósito afastado da cidade — um galpão enorme escondido entre áreas industriais próximas ao porto, longe demais dos olhos comuns.
O verdadeiro centro daquela organização.
Naquele dia haveria reunião.
Os homens grandes estariam lá.
Chefes. Intermediários. Empresários corruptos. Donos silenciosos de rotas ilegais espalhadas entre Busan, Incheon e Seoul.
Homens que construíram impérios inteiros usando dinheiro sujo e medo.
O galpão já estava cheio quando Félix entrou.
Conversas baixas.
Seguranças armados.
Cheiro de cigarro, metal e gasolina impregnando o ar.
Ninguém percebeu nada estranho.
E era exatamente assim que precisava ser.
Félix caminhou calmamente pelo depósito enquanto os olhos analisavam tudo ao redor.
Entradas.
Saídas.
Homens armados.
Posições.
No bolso da jaqueta, o celular vibrava silenciosamente.
Uma única mensagem da inteligência policial:
“Equipes posicionadas. Aguardando sinal.”
O coração dele bateu pesado uma única vez.
Porque agora não existia mais volta.
E, naquele instante…
Tudo que Félix conseguia pensar era em Yuna sentada distraidamente numa sala de aula, sem ideia de que o mundo deles estava prestes a explodir.
Yuna estava no meio da aula quando os celulares começaram a vibrar um atrás do outro.
Primeiro foi um aluno no fundo da sala.
Depois outro.
E mais outro.
O professor ainda tentava continuar explicando linhas de código em inglês no telão quando o burburinho tomou conta da sala inteira.
— Meu Deus…
— Olha isso.
— Isso aconteceu em Busan?
— Tem prisão acontecendo agora.
Yuna ergueu os olhos do notebook sem entender.
Até que alguém deixou escapar um nome.
— Park Félix…
O mundo pareceu parar.
Ela virou o rosto imediatamente.
O coração falhou uma batida.
— O quê?
Mas ninguém respondeu diretamente.
Porque naquele instante os vídeos já começavam a invadir todas as telas da universidade.
Noticiários urgentes.
Helicópteros.
Viaturas cercando galpões industriais próximos ao porto de Busan.
A manchete brilhava em vermelho na televisão:
“Grande organização criminosa é desmantelada em operação da inteligência coreana.”
As mãos de Yuna ficaram geladas.
Ela puxou o celular rapidamente.
E então viu.
Vídeos gravados de longe mostrando homens sendo retirados algemados do depósito.
Policiais armados.
Luzes vermelhas piscando.
Repórteres gritando perguntas.
Então apareceu ele.
Félix.
A imagem durou poucos segundos, mas foi suficiente para destruir o chão sob os pés dela.
Ele estava algemado.
Rosto sério.
Frio.
Cercado por policiais.
Jim vinha logo atrás.
Depois os outros.
Yuna sentiu o ar desaparecer dos pulmões.
Não.
Não fazia sentido.
Aquilo não podia estar acontecendo.
Ao redor dela, os estudantes comentavam em choque sem perceber que ela estava ouvindo cada palavra como uma facada.
— Dizem que movimentavam milhões.
— Tem ligação com corrupção e contrabando.
— A polícia tava investigando há anos.
Yuna não conseguia ouvir mais nada.
O som parecia distante agora.
Abafado.
Como se estivesse afundando debaixo d’água.
As imagens continuavam repetindo na tela.
Félix sendo empurrado para dentro da viatura.
Repórteres correndo atrás.
Policiais gritando ordens.
E, de repente…
Tudo fez sentido.
As conversas estranhas.
O medo constante dele.
A obsessão com segurança.
A viagem para Seoul.
O jeito diferente na última noite.
Yuna levantou tão rápido da cadeira que ela arrastou forte pelo chão da sala.
Algumas pessoas olharam assustadas.
Mas ela não conseguia nem pedir licença.
Saiu andando pelo corredor sem enxergar direito por onde passava.
O peito doía.
As mãos tremiam.
E o pior de tudo não era a prisão.
Era perceber que Félix sabia.
Sabia que aquilo aconteceria.
E mesmo assim olhou nos olhos dela naquela manhã…
Como se fosse só mais um dia normal.
Yuna mal lembrava como conseguiu sair da faculdade.
As ruas de Busan pareciam distorcidas pela janela do táxi enquanto as notícias continuavam explodindo no celular sem parar.
Vídeos.
Fotos.
Reportagens especiais.
O nome de Félix estava em todos os lugares agora.
Como um criminoso perigoso.
Como manchete nacional.
E aquilo destruía ela por dentro.
Quando chegou na casa dos pais, entrou praticamente correndo.
O pai já estava na sala.
A televisão ligada no noticiário.
As imagens de Félix algemado passando de novo.
O silêncio pesado da casa dizia que ele já sabia de tudo.
Yuna parou no meio da sala tentando respirar.
Mas não conseguia.
O peito apertava forte demais.
— Pai…
A voz saiu quebrada.
Ele levantou imediatamente quando percebeu o estado dela.
— Yuna—
Ela segurou os braços dele quase desesperada.
— Me ajuda… eu preciso saber o que fazer… eu preciso de um advogado… alguém bom… o Félix não pode ficar preso.
As palavras saíam rápidas, emboladas pelo desespero.
O pai ficou em silêncio alguns segundos olhando para ela.
E naquele instante, talvez pela primeira vez, ele entendeu o tamanho real do sentimento da filha por Félix.
Porque aquilo não era paixão adolescente.
Era amor.
Daqueles perigosos.
Que sobrevivem mesmo quando tudo ao redor desmorona.
— Filha…
— Eles tão falando dele como se fosse um monstro!
Os olhos dela já estavam cheios de lágrimas agora.
— Você não entende… ele não é assim…
O pai suspirou profundamente, cansado.
Não porque queria machucar ela.
Mas porque uma parte dele sempre soube que esse dia podia chegar.
— Yuna… a polícia coreana não faz uma operação desse tamanho sem provas muito sérias.
Ela balançou a cabeça imediatamente.
— Eu não me importo! Ele não merece ficar preso desse jeito!
A voz dela falhou no final.
O pai fechou os olhos por um instante antes de falar mais baixo:
— Você sabia que ele estava envolvido em coisa errada.
Silêncio.
Yuna sabia.
Talvez não tudo.
Mas sabia o suficiente.
E ainda assim escolheu ficar.
Aquilo doía admitir até para si mesma.
Ela levou as mãos ao rosto, tentando segurar o choro.
— Eu só… não consigo abandonar ele agora.
O pai observou a filha por alguns segundos longos.
Depois desligou a televisão.
As imagens finalmente desapareceram da sala.
— Senta.
Ela obedeceu lentamente, ainda tremendo.
Então ele pegou o celular do bolso.
— Eu conheço um advogado em Seoul. Antigo amigo da família. Trabalha com casos grandes… corrupção, crime financeiro, esse tipo de coisa.
Yuna ergueu os olhos imediatamente.
Esperança.
Pequena. Frágil. Mas ali.
— Você vai me ajudar?
O pai olhou para ela com um cansaço triste.
— Você é minha filha. Claro que vou.
Yuna desabou no abraço dele no mesmo instante.
Porque, no meio daquele desastre inteiro…
Aquilo foi a primeira vez no dia em que ela sentiu que não estava completamente sozinha.
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