Amar o Caos
27 Longe dos Olhos, Perto do Coração
Os dias seguintes à prisão de Félix foram sufocantes para Yuna.
A casa dele ficou vazia rápido demais.
Silenciosa. Fria. Quase irreconhecível sem os rapazes circulando pelos corredores, sem as discussões na cozinha, sem Félix chegando de madrugada carregando o cheiro da chuva e da rua.
Yuna tentou permanecer ali nos primeiros dias.
Mas não conseguiu.
Cada canto da casa parecia assombrado pela ausência dele.
Então voltou para a casa dos pais.
E aquilo, de certa forma, fez tudo parecer ainda mais real.
Como se estivesse desmontando uma vida inteira pedaço por pedaço.
As notícias continuavam explodindo por toda Busan.
Televisões, jornais, portais da internet.
A operação da inteligência coreana dominava o país inteiro.
Falavam sobre rotas ilegais, corrupção, lavagem de dinheiro, empresários envolvidos, conexões criminosas espalhadas entre Busan e Seoul.
Mas uma coisa nunca apareceu nas reportagens:
O acordo de Félix.
Aquilo permanecia enterrado dentro da promotoria e da divisão de inteligência.
Protegido em silêncio.
Porque, naquele mundo, traição era sentença de morte.
O advogado que o pai de Yuna contratou tentou agir rápido.
Influente. Experiente. Acostumado com casos grandes.
Mas logo na primeira tentativa veio o problema.
Félix recusou ajuda.
Recusou reuniões.
Recusou contato.
Recusou qualquer movimentação feita em nome dele.
Quando o advogado encontrou Yuna alguns dias depois, o olhar cansado dele dizia muita coisa antes mesmo de abrir a boca.
— Eu tentei.
Yuna apertou as mãos no colo imediatamente.
— E o Félix?
O homem suspirou baixo.
— Ele já tem uma estratégia jurídica sendo conduzida diretamente pela promotoria.
Ela franziu a testa sem entender.
Mas o advogado não podia falar muito além daquilo.
Nem sabia tudo.
Só percebia que existia alguma coisa incomum acontecendo nos bastidores do caso.
— O estranho é que ele parece… preparado demais — comentou. — Como se já esperasse o desfecho.
Aquilo fez o estômago de Yuna afundar.
Porque ela lembrou imediatamente da viagem para Seoul.
Do jeito estranho dele nos últimos dias.
Da última noite.
Do abraço demorado naquela manhã.
Félix sabia.
Sabia exatamente o que estava prestes a acontecer.
E mesmo assim não contou nada.
— E os outros? — ela perguntou baixo.
— As acusações principais parecem concentradas nele e nos chefes maiores da organização.
Mais uma vez.
Félix carregando o peso sozinho.
O advogado hesitou antes de continuar:
— Honestamente… eu não acho que ele queira ajuda.
Silêncio.
Yuna abaixou os olhos imediatamente.
Porque aquilo parecia cruel demais para aceitar.
Mas também parecia exatamente o tipo de coisa que Félix faria.
Ela tentou vê-lo mesmo assim.
Duas vezes.
Nas duas, ouviu a mesma resposta fria dos funcionários da prisão:
— O detento Park Félix recusou a visita.
Aquilo destruiu alguma coisa dentro dela.
Porque, mesmo depois de tudo…
Uma parte de Yuna ainda acreditava que, no último instante, Félix pediria para vê-la.
Mas ele permaneceu em silêncio.
Como se estivesse tentando apagar a própria existência da vida dela antes que ela pudesse insistir em ficar.
Os dias viraram semanas.
As semanas viraram meses.
E Félix continuava em silêncio.
As audiências começaram em Seoul cercadas pela imprensa, especulações e manchetes cada vez mais agressivas. A cada nova atualização do caso, Yuna corria atrás de qualquer informação mínima sobre ele.
Mas nunca vinha dele.
Nenhuma carta.
Nenhum recado.
Nenhum pedido.
Como se Félix tivesse arrancado ela da própria vida com as próprias mãos.
Aquilo começou a destruir Yuna aos poucos.
Ela continuava frequentando a faculdade em Busan, tentando manter a rotina, fingindo normalidade diante dos pais…
Mas estava cansada.
Porque era mais fácil suportar a prisão do que suportar o abandono.
E o pior:
ela sabia que Félix fazia aquilo de propósito.
Numa tarde chuvosa, depois de mais uma visita recusada, Yuna tomou uma decisão impulsiva.
Procurou Jim.
Ele já estava solto havia algumas semanas.
Ela o encontrou numa oficina afastada perto da região portuária. O cheiro de óleo e metal impregnava o ar enquanto a chuva batia fraca no telhado.
Jim ergueu os olhos assim que viu Yuna entrando.
E imediatamente pareceu desconfortável.
— Você não devia estar aqui.
— Eu preciso falar com você.
Ele soltou um suspiro pesado antes de largar a ferramenta sobre a bancada.
Porque já sabia exatamente sobre quem ela queria falar.
Yuna caminhou até ele tentando conter o desespero na voz.
— Eu não consigo falar com ele… ninguém deixa eu ver o Félix… ele recusou todas as visitas.
Jim desviou o olhar por um instante.
Aquilo já era resposta suficiente.
— Você sabe de alguma coisa, não sabe?
Silêncio.
A chuva continuava caindo lá fora enquanto Jim passava a mão pelo rosto cansado.
— Yuna…
— Eu só preciso saber se ele tá bem.
A voz dela falhou no final.
E aquilo pesou.
Jim soltou um riso curto e amargo antes de falar:
— O idiota tá tentando fazer você odiar ele.
Yuna sentiu o peito apertar imediatamente.
Claro.
Até preso Félix ainda tentava decidir sozinho o que era melhor pra ela.
Jim encostou na bancada, irritado consigo mesmo por estar falando demais.
— Ele proibiu qualquer um de nós de aproximar você do caso. Disse pra deixar você seguir sua vida.
— E você tá obedecendo?
A pergunta saiu carregada de mágoa.
Jim ficou em silêncio alguns segundos antes de responder mais baixo:
— Porque eu nunca vi Félix gostar de alguém de verdade.
Yuna respirou fundo, puxando o ar lentamente como se aquilo pudesse manter ela inteira.
Os olhos ainda brilhavam marejados quando encarou Jim outra vez.
— Eu não vou desistir dele.
Jim ficou parado alguns segundos olhando para ela.
Então soltou um riso baixo, cansado.
— Você é tão teimosa quanto ele.
Yuna quase sorriu.
Quase.
Mas o olhar dele logo escureceu de novo.
— Só que acredita em mim… você não vai ganhar essa briga.
Ela franziu a testa imediatamente.
— O Félix já decidiu. E quando ele decide alguma coisa, ninguém faz ele voltar atrás.
Aquilo doeu porque era verdade.
Yuna conhecia aquele lado dele.
Frio. Obstinado. Irritantemente firme.
Mesmo assim, continuou insistindo.
Tentou visitas outra vez.
Mandou cartas.
Roupas.
Livros.
Tudo voltava.
Recusado.
Às vezes ela ficava horas encarando o próprio nome escrito nas embalagens devolvidas, tentando entender como o homem que a segurava como se tivesse medo de perdê-la agora fingia que ela não existia.
Mas Yuna não conseguia soltar Félix.
Não ainda.
O tempo passou arrastado.
As audiências continuaram em Seoul durante meses, cercadas pela imprensa e pela curiosidade pública em torno da queda da organização criminosa.
E Félix permaneceu igual em todas elas.
Calado.
Controlado.
Frio.
Como se já tivesse aceitado o próprio destino muito antes de todos os outros.
Quase um ano depois da prisão, o julgamento finalmente chegou ao fim.
A sentença saiu numa manhã fria e chuvosa.
Dez anos de cárcere.
Considerando a dimensão dos crimes investigados — transporte ilegal, lavagem de dinheiro, associação criminosa e conexões com organizações maiores — a pena foi considerada surpreendentemente baixa por muita gente.
A mídia tratou aquilo como resultado de um excelente trabalho da promotoria e da inteligência coreana.
Ninguém imaginava o que realmente existia por trás.
Yuna assistiu parte do julgamento pela televisão da sala dos pais.
As mãos apertadas com tanta força no cobertor que os dedos doíam.
E então ele apareceu na tela.
Félix.
Mais magro agora.
O rosto mais duro.
Os olhos cansados.
Mas ainda era ele.
O repórter falava sobre recursos, investigações paralelas e possíveis desdobramentos do caso enquanto Félix era conduzido pelos corredores cercado de policiais.
Nem por um segundo ele olhou para as câmeras.
Nem por um segundo demonstrou medo.
E aquilo destruiu Yuna de um jeito silencioso.
Porque parecia que Félix já pertencia àquele mundo agora.
Grades.
Concreto.
Silêncio.
Quando a reportagem terminou, ela permaneceu sentada imóvel diante da televisão desligada.
Dez anos.
Aquilo parecia impossível.
Uma vida inteira.
E mesmo assim…
No fundo do peito, uma parte dela ainda continuava esperando que Félix finalmente deixasse ela entrar outra vez.
A primeira visita aconteceu semanas depois da condenação.
Yuna quase não conseguiu respirar quando entrou naquela sala fria da prisão.
O vidro separando os dois parecia cruel demais.
Félix estava diferente.
Mais magro.
Mais sério.
O cabelo um pouco maior caindo sobre a testa.
Mas o pior eram os olhos.
Cansados.
Ainda assim, quando viu Yuna entrar, ele endireitou a postura imediatamente. Como se precisasse parecer firme por ela.
Orgulhoso até dentro de uma prisão.
Yuna sentou devagar do outro lado do vidro, segurando o telefone com mãos trêmulas.
E por alguns segundos nenhum dos dois conseguiu falar.
Porque um ano de silêncio era tempo demais.
Os olhos dela estavam mais tristes agora.
E aquilo atingiu Félix pior do que qualquer sentença.
— Você sabe há quanto tempo eu queria te ver? — Yuna perguntou baixo. — Falar com você… entender por que fez isso comigo.
Félix desviou o olhar por um instante antes de encostar a cabeça levemente no vidro.
— Porque era necessário.
— Necessário pra quem?
Silêncio.
Yuna sentiu a garganta apertar.
— Você acha que me evitar desse jeito vai fazer eu deixar de te amar?
Aquilo arrancou um riso baixo e amargo dele.
Pequeno.
Sem felicidade nenhuma.
— Seria mais fácil.
Os dois se encararam em silêncio outra vez.
E doeu.
Porque ainda existia amor demais ali.
Yuna apertou o telefone com mais força.
— Eu esperei você esse tempo todo.
Félix fechou os olhos rapidamente ao ouvir aquilo.
Depois respirou fundo antes de finalmente falar do jeito mais Félix possível:
frio por fora… destruído por dentro.
— Escuta, Yuna… eu vou falar isso rápido porque se você continuar olhando pra mim desse jeito eu vou acabar esquecendo o motivo dessa conversa.
Ela sentiu o peito apertar imediatamente.
Félix passou a mão pelo rosto cansado antes de continuar:
— Você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Fácil. Nem chega perto de competição.
A voz dele saiu baixa. Rouca.
Sincera demais.
— Aquela casa… você lá… os dias normais… foi a primeira vez que eu senti que podia existir como alguém comum.
Yuna já tinha lágrimas descendo agora.
Mas Félix continuou mesmo assim.
Porque precisava machucar ela o suficiente para libertá-la.
— Só que acabou.
A palavra caiu pesada entre os dois.
— Eu vou passar anos aqui dentro. Anos, Yuna. E eu não vou transformar você em alguém que vive esperando visita de prisão enquanto a vida acontece lá fora.
— Isso é escolha minha!
— Não. — ele cortou firme. — Porque eu conheço esse mundo melhor que você.
O silêncio dele endureceu antes da próxima frase.
— E eu conheço a mim mesmo também.
Yuna abaixou a cabeça por um segundo, tentando conter o choro.
Mas Félix não podia parar agora.
Se parasse… voltava atrás.
— Saber que você tá lá fora sofrendo por minha causa só piora tudo aqui dentro. Então para de fazer isso consigo mesma.
Ela ergueu os olhos imediatamente.
— E você acha que eu consigo simplesmente esquecer você?
Félix deu um pequeno sorriso cansado.
Doloroso.
— Não agora.
Então aproximou o telefone outra vez.
— Mas um dia vai conseguir.
Mentira.
Os dois sabiam.
Yuna já não conseguia conter as lágrimas.
Elas caíam silenciosas agora, constantes, enquanto segurava o telefone com as duas mãos como se aquilo impedisse Félix de desaparecer de vez.
Do outro lado do vidro, ele permanecia firme.
Postura reta.
Maxilar travado.
Olhar controlado.
Mas por dentro…
Por dentro estava se destruindo inteiro.
Porque cada lágrima dela fazia parecer que ele estava arrancando um pedaço de si mesmo com as próprias mãos.
Félix respirou fundo antes de continuar, tentando manter a voz estável:
— Eu já deixei tudo organizado com o Jim.
Yuna ergueu os olhos devagar.
— O quê?
— Ele tem acesso a tudo. Dinheiro, documentos… o necessário pra garantir que você não fique desamparada.
Ela franziu a testa imediatamente.
— Félix—
— A casa também é sua agora. Faz o que quiser com ela.
Aquilo foi demais.
Yuna balançou a cabeça rápido, limpando o rosto molhado.
— Eu não quero nada disso.
Os olhos dele endureceram na mesma hora.
Não por raiva.
Por defesa.
Porque se deixasse a emoção aparecer… perderia o controle daquela conversa.
— Não seja infantil.
A frase saiu seca.
Cortante.
Yuna ficou imóvel do outro lado do vidro.
Félix continuou:
— Você precisa desse dinheiro. Como acha que vai bancar sua vida? Faculdade? Futuro?
Ela abriu a boca para responder, mas ele não deixou.
— Vai voltar pros seus pais? Fingir que nada disso aconteceu? Voltar a ser a garota protegida que vivia dentro de uma bolha?
Aquilo atingiu Yuna em cheio.
Os olhos dela se encheram ainda mais de mágoa.
Porque ela conhecia aquele tom.
Félix estava empurrando ela pra longe de propósito.
— Então é isso? — ela perguntou com a voz falhando. — Você vai passar anos preso e ainda quer decidir como eu devo viver?
Silêncio.
Félix desviou o olhar por um segundo.
Erro.
Porque aquilo entregou o quanto a pergunta acertou.
Quando voltou a olhar pra ela, a voz saiu mais baixa.
Mais cansada.
— Eu tô tentando deixar alguma coisa boa pra você no meio dessa bagunça.
Yuna aproximou o telefone lentamente do rosto.
— Eu não preciso da sua casa. Nem do seu dinheiro.
Os olhos dela prenderam os dele através do vidro.
— Eu precisava de você.
Aquilo destruiu Félix de um jeito brutal.
Mas ele apenas abaixou a cabeça por um instante, respirando fundo antes de endurecer outra vez.
Porque amar Yuna naquele momento significava continuar machucando ela.
Mesmo que aquilo acabasse com ele junto.
O tempo da visita acabou antes que qualquer coisa fosse realmente resolvida.
Um guarda apareceu avisando que os minutos tinham terminado.
E aquilo pareceu cruel demais.
Porque os dois ainda tinham palavras presas na garganta.
Mágoas.
Amor.
Raiva.
Saudade.
Mas nada saiu.
Yuna permaneceu sentada alguns segundos segurando o telefone mesmo depois do aviso.
Como se largar aquilo significasse perder Félix de vez.
Do outro lado do vidro, ele apenas observava ela em silêncio.
Os olhos cansados.
A postura firme.
Até o último segundo.
Então o guarda repetiu o aviso.
Félix foi o primeiro a desligar o telefone.
E aquilo destruiu Yuna mais do que qualquer palavra dita naquela conversa.
Porque pareceu definitivo.
Ela ainda esperou que ele dissesse alguma coisa antes de ir embora.
Qualquer coisa.
Mas Félix apenas levantou devagar da cadeira.
E saiu sem olhar para trás.
Aquela foi a última vez que se viram.
Depois disso, Yuna continuou insistindo.
Por meses.
Depois anos.
Tentou novas visitas.
Cartas.
Pedidos de autorização.
Nada.
Félix recusava tudo.
Sempre.
Como se estivesse decidido a transformar a própria ausência numa ferida grande o suficiente para obrigar Yuna a seguir em frente.
E aos poucos…
Ela começou a cansar.
Não de amar ele.
Mas de lutar sozinha contra um muro que nunca cedia.
Mesmo assim, Yuna recusou tudo que vinha de Félix.
A casa.
O dinheiro.
Qualquer ajuda.
Orgulho também podia doer.
Mas Félix já esperava isso.
Então Jim fez exatamente o que ele havia mandado antes mesmo da condenação.
A casa foi vendida discretamente alguns meses depois.
Parte do dinheiro desapareceu em investimentos espalhados entre contas e empresas menores administradas por Jim. Outra parte foi colocada numa poupança no nome de Yuna.
Sem que ela tivesse escolha.
Jim movimentava o dinheiro com cuidado, investindo na bolsa e fazendo o valor crescer lentamente ao longo dos anos.
Quando Yuna descobriu, ficou furiosa.
— Eu disse que não queria nada dele.
Jim apenas deu de ombros enquanto fechava o notebook na oficina.
— E desde quando o Félix escutava alguém?
Ela desviou o olhar imediatamente.
Porque até aquilo doeu.
Jim então falou mais baixo:
— Ele só queria garantir que, se um dia tudo desmoronasse… você tivesse alguma segurança.
Yuna ficou em silêncio.
Porque no fundo entendia.
Mesmo tentando arrancar ela da vida dele…
Félix ainda encontrava jeitos silenciosos de cuidar dela à distância.
Como alguém que escolheu desaparecer…
mas nunca conseguiu amar pela metade.
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