Amantes desafortunados
2 Parte um
PARTE UM
Diversos caminhos.
Diversos encontros.
Diversos mundos.
Eles sempre se encontravam.
Não importava a hora, não importava o local.
Não importava quando, não importava como.
O que importava era que eles sempre se encontravam.
Houve uma época, houve um momento, em que ela chamaria isso de destino, de almas gêmeas, de felicidade e amor eterno... Agora ela chamava isso de inferno, amantes desafortunados, tristeza e amor tão intrinsecamente entrelaçados que era uma tortura eterna.
Ela sempre o via, ela sempre o queria.
Ela nunca o tinha.
Mas às vezes sim.
Houve momentos que sim.
Houve momentos, quando ninguém via, quando estavam ocupados demais para se importarem com duas almas solitárias, que eles ficavam juntos.
Que eles se encontravam.
Que eles não eram amantes desafortunados, apenas...
Amantes.
Apaixonados.
—Conte-me — pediu o Rei, exigente, curioso, e ainda sim foi um pedido.
Ela sabia no fundo dos seus ossos e na superfície da sua alma que poderia dar as costas a ele e não seria atacada, não teria sua cabeça cortada, o sangue não seria despejado para fora de suas veias, mas havia algo nele, nos olhos azuis gélidos que eram calorosos que a impedia de se afastar.
Achando graça dos pensamentos dela ou perdido numa piada interna, ele riu – o queixo apoiado na mão, os olhos divertidos e derretidos, e ela sentiu a vontade de ouvir aquele som melodioso para sempre.
Star não se importaria.
E então se decidiu.
Fey, pensou Star, encantada.
Fey, ela pensou mais uma vez, cada vez mais apaixonada.
Fey eram criaturas maravilhosas e impressionantes e... e... ela não era uma. Star queria ter nascido Fey, ela esperava que algum dia pudesse, mas não importava o local, não importava quando ou como, ela nunca foi uma Fey.
Fey, Faerie, Fadas, O Povo, Bons Vizinhos... existiam tantos nomes para se referir a eles – agora, eles eram Fey. E eles sempre eram iguais, independentes de qual mundo estivessem: mágicos, impetuosos, poderosos.
Mas ela nunca tinha visto algo assim na sua vida.
Um Fey, que não era Fey – não completamente ao menos.
Um Fey tão próximo, ao alcance das suas mãos, mas que ainda sim parecia estar tão longe.
Um Fey que, apesar de tudo isso, era rei.
—Majestade. – Star se curvou.
A bebê riu esticando os pequenos e gorduchos dedinhos, tentando alcançá-la, e ela riu, deixando que segurasse o dedo dela, sentindo toda aquela energia boa e suave e tão límpida passando por si, ouvindo aquele batimento tão suave e firme, aquela melodia tão consistente e maravilhosa que significava estar viva.
—Prazer em conhecer você, Nossa Graça. – Star balançou o dedo, para cima e para baixo, cumprimentando-a. – É uma honra. É bom ver que nem todos da realeza são nojentos pomposos, idiotas egocêntricos que só pensam em si mesmo.
—Eu concordo – o verdadeiro Rei balançou a cabeça. – Vai continuar me elogiando ou dizer o que quer?
Star suspirou, exasperada e exagerada.
Se dependesse de si, aquela não seria a primeira vez que encontrava um Fey (embora não fosse); se dependesse de si, não haveria nem se quer uma vez.
Star não queria um Fey próximo de si, vendo as linhas da sua vida, ficando com pena do que aconteceria com ela, sentindo a dor que não pertencia a ninguém, apenas a si. A dor era sua... assim como ele foi apenas dela.
—O que te faz pensar que eu quero algo? – finalmente questionou.
—Você está mentindo – apontou ele. – Ao me elogiar. E eu estou deixando isso passar porque o que você está fazendo é educação. Essa bebezinha poderia aprender alguma coisa sobre isso.
—O que você está fazendo aqui? – perguntou Star.
Tão longe de casa.
Tão sozinho.
Tão perdido.
O que ela estava fazendo ali? Por que tinha vindo vê-la? Por que havia sentido aquela compulsão de estar ali? Desde que aquela bebê havia sido concebida, Star sentia aquela atração para estar ali, sua energia era puxada para ela, e hoje... hoje, Star não pode ignorar.
E ali estava um Fey.
E ali estavam eles.
Um em frente ao outro, com um berço no meio, a bebê dentro dele, olhando-os encantados, esticando os dedos tentando alcançá-los.
—Eu vim vê-la – respondeu o Rei. – Assim como você.
—Uma humana?
Uma fraca e quebradiça humana? O ser mais inútil de todos? O menos mágico e impressionante? O que um Fey, o Rei Fey, poderia querer com uma humana? O que ela própria queria com uma humana?
—É, uma humana – concordou ele. – O que eu poderia querer com uma humana dessas, não é? – perguntou, carinhosamente, cutucando a bochecha dela com a ponta do dedo.
A bebezinha riu, chutando as perninhas enquanto pegava o dedo e colocava-o na boca, mordendo-o quase que pensativamente – Star olhou para o Rei, esperando ver alguma expressão enojada que alguém da realeza devia ter, alguma espada sendo sacada pela desobediência e a tão famosa frase que a mãe dele era conhecida “cortem-lhe a cabeça!”... a antiga rainha era uma sádica. E lunática. E aparentemente o filho não puxou a mãe, porque ele sorriu e deixou que ela ficasse com o dedo.
—Durma – ele sussurrou, apenas uma leve inclinação de um pedido, empurrando seu desejo levemente para ela.
A bebezinha continuou a mastigar o dedo, sem sinal de que iria dormir. Se possível, ela arregalou os olhos ainda mais, como se não soubesse levantar a sobrancelha e fizesse uma pergunta, como se lhe perguntasse o que ele pretendia fazer ou esperava ao dizer ”durma”.
Star riu.
—Perdeu o jeito? – zombou antes que pudesse se parar. É, Star, assim mesmo, zombe não de qualquer rei, mas de um em que seu povo é conhecido por ser vingativo, e depois se pergunte como foi torturada até a morte, mesmo quando você não possa morrer.
—Desculpe-me – disse o Rei, meio que ofendido, meio que recuando, meio que não sentido. Ele sorria. – É difícil fazer isso com crianças pequenas — explicou. — Eu não quero ordenar que ela durma e colocá-la para dormir para sempre, como uma Bela Adormecida. E é especialmente difícil quando se tem sangue antigo. Eles são mais resistentes a magia. Mas não intocáveis. É tentava e erro. Durma — ele tentou de novo, empurrando a palavra com mais força e magia.
A bebezinha fechou os olhos, mas não soltou o dedo dele, como se fosse uma chupeta.
—Ela tem sangue real? – ecoou Star surpresa. Ela com certeza não parecia.
O quarto era simples, apenas com um berço, um móbile e um guarda roupa, mas ainda sim essas poucas peças ocupavam todo espaço. As roupas da bebê não eram grandiosas, não era de uma rainha. Star devia estar muito tempo afastado da humanidade para não reconhecer mais nem seus reis.
—Por que você acha que estou aqui? Fey são atraídos por esse sangue – explicou o Rei – é como uma canção que não se pode ignorar. – É, era bem assim que Star descreveria. – Não podemos dizer não.
—Mas só você está aqui – disse Star confusa. – Por que nenhum outro...
—Porque só eu posso ouvi-la – respondeu ele. – O sangue é muito diluído...
—Mas ainda é mágico – murmurou ela, sem entender.
—Muito diluído – repetiu. – Só ouço porque... – O Rei parou, encarando-a fixamente, não entendendo. – Por que você está aqui? – perguntou. – Como você a ouviu? Eu estava tão desesperado para vê-la – sussurrou ele para si – que não prestei atenção aos detalhes, que pensei que você estivesse aqui por mim, mas... Ainda não. Não é o momento.
Star sorriu como se guardasse um segredo, seus olhos movendo-se hábil e discretamente por todo cômodo – ela podia escapar, correr para a janela, desaparecer pelas sombras; ela podia, se quem estivesse na sua frente fosse qualquer um menos um Fey, qualquer um menos alguém que pudesse prever seus passos, se não quisesse saber o que ele queria dizer.
Ainda não era o momento... de que?
E não tinha porque fugir, mas uma vida de medo a deixou cautelosa.
—O que te faz pensar que...
—Você é um catsidht – murmurou o Rei, impressionado, a ficha caindo, vendo através das brechas que aparecia na sua frente.
Star se encolheu, porque catsidht era uma ofensa, ser uma era uma maldição.
E ela era.
Ela queria negar, dizer que não, mas mentir era algo que não se fazia para com reis, mas ser uma catsidht era pior e ela era.
Ela era um catsidht, ela era um ser forçado a viver e reviver ate a eternidade, obrigada a lembrar de tudo que aconteceu, obrigada a perdê-lo vez após vez.
Star soube que era um catsidht assim que morreu. E se viu viva mais uma vez, ainda ela e mesmo assim uma pessoa completamente diferente. Ela tinha suas memórias, sua aparência de antes, mas ela não era a mesma de antes.
Não era da mesma raça, não estava no mesmo mundo, não era mais a mesma pessoa.
Sempre que Star morria, ela se via surgindo em outro lugar, como sempre era, como nunca foi.
Sempre que morria, Star prometia que aquela vez seria diferente.
E sempre era.
Nunca era o mesmo, a história nunca se repetia... mas, mesmo assim, sempre era a mesma coisa entediante de sempre: morrer, surgir, aprender sobre si, encontrar ele e então havia as diferenças que não era tão diferentes assim.
Star podia permitir-se estar ao lado dele e vê-lo morrer.
Ou recusar-se a encontrá-lo e então perdê-lo sem nunca tê-lo visto, sentindo apenas a dor que ele sentia, a raiva e ódio por ela mesmo que ele mesmo não entendesse, antes que se fosse, antes que o reencontrasse mais uma vez.
Ou isso, ou aquilo, ou aquilo outro, ou, o seu preferido, encontrá-lo e então deixá-lo ir, vê-lo ao alcance das suas mãos e saber todos os dias que podia pegá-lo, segurá-lo, convencer-se que aquela vez seria diferente quando sabia que não.
Aquela vez, Star prometeu a si, seria diferente.
Star sentiu a dor de ser lembrada de tudo isso e fingiu que não — ela tinha prática, uma eternidade de indiferença artificial e alguns momentos de indiferença verdadeira.
—Acho que não só essa bebê – Star forçou-se a sorrir – poderia aprender algo sobre educação.
—Ah! – O Rei arregalou os olhos. – Desc...
—O que te faz pensar que – recomeçou ela, novamente, mudando de assunto não tão hábil ou sutil quanto se esperava, mas, uma vida de conversas que não queria ter, a fez perceber que essas conversas era algo que ninguém queria ter, ninguém se importava, então por que tentar? – eu estaria aqui por você?
—Tudo bem, eu vou deixar essa passar e te responder porque fui muito mal educado. – O Rei suspirou. – A questão é que... você estará. – Ele recuou, como se esperasse uma maldição. Quando na verdade lançava uma. – Um dia. Atrás de mim. É difícil para Fey separarem os tempos... Bem, não realmente. – Ele se parou antes que mentisse. – Mas eu estava distraído e deixei essa passar. Também. Hoje não é o meu dia.
—Por que eu irei atrás de você? – questionou Star.
—Desculpe, não posso dizer. – Ele deu de ombros. – Não posso influenciar suas decisões e mudar seu destino.
Fey, Star suspirou. Era por isso que os odiava antes mesmo de tê-los conhecido. A chatice deles quanto destino ia longe, não tinha quem nunca tivesse ouvido falar. Era épica.
—Por que você está aqui?
—Você primeiro – retrucou ele. – Eu sou um Fey – lembrou quando ela o encarou desconfiada – eu não vou te enganar.
Star suspirou novamente. E observou aquela bebê. O que ela tinha de tão especial? O sangue não podia ser tudo, não tinha como o Rei dos Fey está ali por causa de um pouco de sangue mágico. Sangue mágico por sangue mágico, ele encontrava nas próprias veias.
—Eu a ouvi — respondeu Star simplesmente. — Como você. E não pude dizer não. Faz muito tempo desde que ouvi algo parecido. E-e... eu não sei explicar. Eu não pude dizer não.
—Catsidht sentem quando o destino vai mudar — comentou o Rei, como se ela não fosse uma catsidht, como se não soubesse disso.
Ela não sabia.
Ela sentia quando o destino iria mudar?
Aquela bebê mudaria o destino?
Aquela bebê podia mudar o seu destino?
—O que você está fazendo aqui?
—Eu vim vê-la — disse ele mais uma vez.
—Por que?
—Porque eu esperei por muito tempo por isso. Porque eu queria saber se era real. Porque eu queria vê-la e entender.
—Do que você está falando?
Outra coisa eternamente odiosa em Fey era sua mania de falar em charada, de rimar, de nunca dizerem o que queriam — todos faziam isso em diferentes graus, todas raças nunca confessavam o que queriam, mas com Fey era especialmente odioso porque eles diziam o que queriam... quando não estavam dizendo. Apenas eles entendiam suas palavras, suas promessas, seus pensamentos.
—Não dá para acreditar olhando assim, não é? — O Rei sorriu, zombeteiro para ela.
—O que?
—Que eu vou cair por ela.
Cair, cair, cair... Star se lembrava da primeira vez que caiu.
Não foi bonito, não era algo que se orgulhava, que desejaria a qualquer um.
Foi patético. Na sua opinião. E ainda estava sendo simpática.
Foi lento e não indolor.
Foi... urg, puro constrangimento. Era algo que nunca poderia olhar de frente e dizer que fez aquilo, que se comportou daquela forma. Quem era aquela idiota?
(Ela era aquela idiota.)
—Você está apaixonado por ela? — traduziu Star, surpresa.
—Eu não sou um pedófilo! – exclamou ele, consternado com o olhar estranho que recebia. – Ela é um... bebê. Fofo e adorável. E, embora eu ame qualquer bebê e não posso dizer não a esses olhos, isso não significa que eu daria minha vida por ela.
—Você daria sua vida por qualquer um – discordou Star, sem pensar, sem realmente conhecê-lo. Ele parecia esse tipo de pessoa. Diferente dos seus iguais.
—Sim. Então. Ela não é especial — resmungou ele.
—Você vai cair por ela — apontou Star, enfaticamente, arregalando os olhos e sentindo seu coração bater acelerando.
Como ela não era especial?
Aquela bebê era especial.
Não era qualquer humana que poderia dizer que teve um Fey caindo por ela.
—Mas eu ainda não cair — relembrou o Rei. — E não estou me sentindo particularmente atraído por ela. Quer dizer, olhe para essa coisinha, ela é adorável, mas todos os bebês são.
Star riu, sentindo-se estranhamente feliz por estar vendo esse encontro por uma nova luz.
Quantos poderiam dizer que viu um Fey encontrando seu par?
Quantos poderiam dizer que viu o momento exato que um Fey.... cairia, percebeu ela. Ele cairia e lá estava ela sentindo-se feliz por isso, rindo quando deveria chorar.
Ele cairia, percebeu ela, por uma humana.
Ele perderia tudo. Por uma humana.
Ele não seria tudo. Por uma humana.
Star queria perguntar se valia à pena, mas não precisava, porque sabia o que era aquele sentimento de estar apaixonada e fazer qualquer coisa pela pessoa que ama — ela queria dizer que não valia à pena para o Rei, fazê-lo desistir, mas como podia dizer isso quando ele a via? Como podia dizer isso a ele quando ele mesmo via o futuro que lhe aguardava?
Star sabia todos os sentimentos que ele passava, ela sentiu tudo aquilo, ela sentiu a alegria de tê-lo conhecido, a dor de ter que deixar de ser quem era, a tristeza por saber que o perderia e a felicidade por tê-lo. Até que tudo que sobrou foi o vazio e as lembranças e o desejo de que, se isso acontecesse de novo, seria diferente.
E, abaixo de tudo isso, havia o desejo de nunca tê-lo conhecido — era mais simples, evitava tudo; era o que se recusava a pensar, a desejar; era o que lhe traria felicidade... e algo pior. Mas talvez ela estivesse viva, talvez não tivesse vivido tanto, talvez o mundo tivesse acabado.
Star não sabia o que dizer ao Rei.
—Eu não sei se vale à pena ainda — disse ele. — Deixar de ser quem eu sou, deixar tudo que me faz feliz agora por alguém que nem conheço realmente, mas... Há algumas coisas que não se pode evitar, por mais que se tente. E eu tentei. — Ele sorriu. — Por muito tempo, eu tentei evitar que isso acontecesse, mas eu finalmente entendi que me apaixonar por ela será algo que eu não posso evitar, mas cair será uma escolha. Nenhum Fey cai sem querer — confessou. — Eu irei cair, eu sei. E, quando eu cair, eu te direi.
Tinha momentos que Star não se importava mais.
Cair ou não cair, quem se importava?
Ela queria viver, estar viva, estar livre.
—Você é... — Ele sorriu, encostando-se no lugar ao seu lado, todos os dentes a mostra, os olhos brilhando e tão vivo, tão perto, tão ele. — Uma estrela que caiu do céu?
Star queria esticar os dedos e tocá-lo, queria rir e dizer o quanto o amava, queria chorar e abraçá-lo e nunca deixá-lo ir, e fechar os olhos, ouvir a melodia que era apenas dele, que ele sempre tinha, que ela sempre queria ouvir e sempre perdia.
Star não queria assustá-lo, porque, sim, ela era, ela era uma estrela que caiu do céu, queimando e iluminando e matando tudo no seu caminho.
—Oh, é? — Ela sorriu, querendo chorar. — Bom saber. E você quem é?
—Eu posso ser quem você quer que eu seja — ronronou ele.
Ela riu, sentindo-se... vazia, a risada ecoando pelo seu corpo, cutucando seu coração, dizendo o quanto era errado.
Não era à primeira vez que o encontrava, mas era a primeira vez que o via naquele mundo, era a primeira vez que ele era um Fey.
Novamente.
Mais uma vez.
Ele era um Fey, ela não acreditava.
Ela queria dizer o quanto isso combinava com ele, o quanto as asas dele eram lindas e maravilhosas e tão límpidas, ela queria traçar aquele padrão e ver se eram tão fofas e suave quanto parecia.
Como foi.
Ela não queria deixá-lo ir.
Nunca.
Ela tinha deixado-o uma vez.
Tudo bem, mais do que algumas vezes, uma quantidade considerável de vezes — era difícil ficar ao lado dele sabendo o que iria acontecer, doía, machucava, mas então doía ainda mais não vê-lo e ela procurava-o novamente.
—Pare de flertar desnecessariamente. — A garota o cutucou, os olhos irritados e ciumentos quando olhou para ela e Star piscou, atordoado por um momento.
Às vezes isso acontecia, passado e presente se misturavam, o que foi e o que era não podiam ser diferenciado. Só existia o agora e o agora era tudo e nada e apenas eles.
—Vai querer esse pegador de sonhos ou não? — questionou a garota.
—Ah, sim, o pegador — murmurou.
Virando o pegador de um lado para o outro, Star ficou grata por não precisar olhá-lo mais. A intensidade do olhar dele era desconfortante, o modo como ele parecia conhecê-la, como estava confortável ao seu lado, como não se lembrava dela.
Seu coração doía.
—Não – respondeu, embora apertasse-o tão firme que seus dedos doíam. Mais uma dor. Star ignorou como todas as outras. — Eu não vou querê-lo.
Essa vez, decidiu ela, seria uma daquela vez que o deixaria.
Star não conseguia se ver deixando que ele caísse... como o rei dele. Bastava um rei, bastava uma queda, bastava um coração partido.
Bastava o seu.
Cair para um Fey era...
...
...
sem volta.
Era perder as asas, era perder o que era, era perder tudo.
Era perder a capacidade de ser livre, era perder a capacidade de ser mágico, era perder a capacidade de ser quem nasceu para ser.
E ele nasceu para ser um Fey.
E ela não podia deixá-lo se sentir nada.
Talvez valesse a pena, talvez não, mas ela o encontraria de novo e de novo e ela não queria ser a culpada por suas asas.
De novo não.
—Desculpe — ela sussurrou para ele mesmo que não fosse entendida, tocando seu pulso ao passar tão levemente que poderia ser um acidente.
Não chore.
Não caia.
Não queime.
Não morra.
Não me esqueça.
Ela procurou o Rei.
Agora... agora era o momento.
Não me esqueça, pediu novamente.
Ela não podia aguentar se fosse esquecida.
—É uma maldição — disse Star. — Eu estou amaldiçoada.
O Rei a encarou, virou a cabeça, movimentou a mão, estreitou os olhos e perguntou, curioso:
—Você está?
—Eu não estou?
—Você que me diz.
—E-eu estou — disse ela, hesitante, olhando para suas mãos trêmulas. Ela fechou-as, não querendo ver, ter a certeza, de que era fraca. — Eu tenho que estar — afirmou com mais certeza, suas unhas afundando na palma das suas mãos, marcando-as de meia lua e então de sangue.
—Você ter não significa que estar — comentou o Rei, suavemente. — Então que maldição é essa?
—Essa é uma maldição terrível, insuportável, angustiante e...
—Nem sempre — interrompeu ele, vendo através da alma dela, das meias mentiras e não completas verdades. — Nem sempre é assim, certo?
—Você está vendo? — animou-se Star. — Você está... — Ela movimentou a mão ao seu redor. — Vendo? A sombra cruel e impiedosa ao meu redor, que me segue aonde quer que eu vá?
—Não. Eu estou vendo uma catsidht que não sabe quem é, o que quer, que busca incansavelmente mais do que deseja, do que pode ter, porque assim nunca vai ter e nunca vai ser achar digna.
Star sorriu, engolindo as lágrimas e dizendo a si para ficar calada, para não falar, para não amaldiçoar o rei e toda a sua família, porque era verdade, porque essa era ela.
—Você não está amaldiçoada — decretou ele.
—Eu estou — discordou Star prontamente.
Durante tanto tempo ela sabia que estava e não podia ser verdade que não estava. Quem ela seria se não estivesse amaldiçoada?
—Se você diz.
—Me ajude — pediu ela.
—Mesmo que as consequências sejam graves?
—Qualquer coisa.
—Mesmo que você se arrependa?
—Eu não vou me arrepender.
—E o que eu ganho?
—O que você quiser.
O rei considerou.
E pensou.
E refletiu.
E sorriu.
—Eu gosto disso, mas não tenho certeza se você vai.
—Eu não gosto disso agora — retrucou ela, ferozmente. Sufocada. Presa. Perdida. — Eu não gosto de acordar todo dia e me perguntar se vou revê-lo, quando irei perdê-lo, o que fiz para merecer isso. Eu... não... aguento... mais... isso — disse ela pausadamente.
Eu só quero esquecer.
Mas não esqueça, não me esqueça, não de mim.
—Você vai se arrepender — agourou o rei.
Ou talvez apenas falou a verdade.
Star não se importava, não naquele instante. Arrepender? Ela não tinha do que se arrepender, não agora, não quando a nuvem escura de seus sonhos pairava acima da sua cabeça.
—O que você quer? — questionou Star. — O que você quer? – repetiu, mais forte, mais dura, mais desesperada. — Eu farei qualquer coisa, eu te darei qualquer coisa, e-eu só quero que isso acabe.
Às vezes Star perguntava-se se arrependia-se – de ter feito uma promessa quando ainda estava de luto, mas então ela lembrava-se do que aconteceu, do que aconteceria novamente e novamente e a dor que sentiria e então vinha a paz, porque havia feito uma promessa maldita e estava livre.
Finalmente livre.
Só não me esqueça.
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