Amantes desafortunados
3 Parte dois
PARTE DOIS
—Você fugiu — afirmou a Rainha, gélida.
"Você me abandonou" ela não disse, mas Star ouviu tão bem quanto se ela tivesse dito.
—Eu não fugi — mentiu.
"Você me abandonou" sussurrou a Rainha em sua mente.
Não, Star queria negar novamente. Eu não fugir, eu não sou fraca, eu não... Eu nunca... Ela piscou rapidamente para afastar as lágrimas.
Ela era fraca, ela fugiu, mas ela era uma mentirosa e nunca iria admitir que fugiu. Ela não fugiu, ela não abandonou sua Rainha, ela não era uma traidora, ela... Ela apenas estava com medo.
Medo do que era, do que podia ser.
Medo de estar sozinha, medo de não ser suficiente.
Medo de desaparecer.
Ela não era forte, ela era fraca.
Ela não era inteligente nem esperta.
Ela não era uma humana, não era uma Fey ou uma sidht ou qualquer outro ser, ela era todos eles e nenhum, ela algo no meio, ela estava em cima do muro e sempre estaria, e o fato de não ser um nem outro não a fazia mais forte, melhor.
Ela não era que nem sua Rainha.
E ela estava cansada de tentar, de mentir.
Mas não podia parar.
Minta, minta, minta, minta, cantarolou sua mente desesperada e seus lábios não acompanharam, eles estavam selados, incapazes de mentir por mais que quisesse, porque ela mentiu uma vez, porque ela havia dito que não fugiu quando sabia que tinha, porque uma vez era o que bastava para que sua Rainha mandasse cortar sua cabeça.
Aquela... aquela não era que nem o pai, ela era que nem a avó. Ela era uma lunática sedenta por sangue.
Star esperou a ordem, esperou o fim, esperou ver a espada que tanto falavam, que era tão temida, esperou ver a luz e a paz e quem sabe não ver mais nada, quem sabe aquela fosse sua última vida, quem saber ser morta por uma Banshee significasse morrer para sempre, mas não esperava ver sua Rainha suspirar, movimentar a mão como se tivesse mandando-a ir embora, descansar o queixo na palma da mão e suspirar novamente, encostando-se em seu trono.
—Você é um catsidht, certo? — questionou ela. — É a primeira vez que...
—Não — interrompeu Star antes que pudesse parar, as unhas perfurando profundamente sua pele, as palavras saindo da sua boca sem problemas. Sua língua estava solta, algo desatado dentro de si, a mentira incapaz de se manter e a verdade lutando para sair. — Eu sou Star — disse, firme. — Star é o que sou.
Rainha Fada assentiu como se tivesse sentido e tirou a mão do queixo, repentinamente curiosa.
—O que você está fazendo aqui? — questionou, as mãos agarrando os braços do trono com força, como para se impedir de se levantar e encará-la profundamente, com a raiva e a dor de ser abandonada. — Você podia ter desaparecido e nunca mais aparecido. Eu não iria procurá-la, mas você veio atrás de mim mesmo sabendo das consequências, por quê?
—Seu pai, Majestade, ele... Eu... — Star piscou, os olhos cheios de lágrimas emocionada, embora não soubesse explicar porque. Ela não o conhecia, não realmente, ele era o rei, ele era inalcançável, ele era o seu salvador. — Eu conheci seu pai. Ele foi um Fey maravilhoso.
—Ele é — concordou a Rainha.
—Ele... retirou uma maldição de mim.
—Oh — murmurou a Rainha, surpresa, o ar soltando do seu corpo e toda tensão indo embora. — Isso está ficando interessante.
—Eu prometi a ele que faria o que quisesse. E ele disse que queria apenas uma coisa. Que eu te encontrasse.
—É? Por que? O que você, uma catsidht — zombou ela, encostando-se no seu trono e cruzando as pernas — pode me oferecer?
Era uma boa pergunta.
—Nada — respondeu Star, sinceramente.
—O que você quer? – perguntou ao Rei.
—Eu quero que você vá atrás da minha filha.
—Sua filha? – repetiu Star. – Sua filha com...
—Sim. – Sorriu ele. – Ela mesma. Quando ela pegar o que é seu por direito, quando tiver o cajado em suas mãos e for declarada Rainha, eu quero que você vá atrás dela e conte o que me contou.
—Conte-me — pediu a Rainha exatamente como o pai dela pediu há muito tempo.
Star entendeu a piada — ela finalmente entendeu a piada.
E tal como antes não pode dizer não.
E tal como antes seus lábios ergueram-se.
E tal como antes ela contou.
—Qual é o preço? – perguntou ao Rei.
Sempre havia um preço. Star sabia. Principalmente com um Fey.
Talvez sua vida, talvez a do seu primogênito.
—O preço – disse ele – é o fim.
A Rainha riu e sua risada reverberou pelo aposento. A voz dela era melódica e o som era doce e Star se viu sorrindo, sentiu vontade de fechar os olhos e balançar a cabeça no ritmo — era como ouvir uma flauta mágica, era ouvir uma Fey rindo, era como se sentir em casa, como há muito não sentia.
—Ele mentiu — declarou a Rainha.
Star olhou-a sem entender. Quem mentiu? Fey não podiam mentir, eram impedidos pela própria natureza de fazer isso.
—Bem, não, ele não mentiu — corrigiu-se — mas ele não falou a verdade. Você não está amaldiçoada, Star.
—O que? — gaguejou ela, ainda mais confusa. A Rainha havia dito com todas as palavras e ela podia não ser uma Fey completa, mas ela era uma Fey e Star não sabia no que acreditar. — Fey não podem mentir — balbuciou.
—Sim — concordou a Rainha. — Mas ele te disse o que você queria ouvir. Você pediu isso a ele, não foi? Ele te deu.
—Ele... — Star piscou. — Me deu?
—Sim — assentiu ela novamente. — Você não está amaldiçoada. Você nunca esteve.
—Eu não estou?
—Não — sorriu a Rainha.
—Mas e... E todas aquelas vezes que...
—Talvez você esteja amaldiçoada, mas não do jeito que você acha.
—E qual é o jeito que eu estou? — zombou Star antes que pudesse se impedir.
Não zombe de uma rainha, ela foi ensinada.
Nunca zombe de uma rainha Fey, ela aprendeu.
Elas eram as piores.
Pensando o mesmo que ela, Star viu que a Rainha Fada não iria decretar "cortem-lhe a cabeça!", mas que ela iria se arrepender — não agora, mas em algum momento.
Ainda mais.
—Você está relembrando o que aconteceu — disse ela. — Mas não tudo. Você lembra o começo. Você lembra o momento de maior dor. Mas você não lembra o final. Vocês se conheceram e se amaram até o fim, mas esse — enfatizou — não é o fim.
—O que você quer dizer?
—Eu quero dizer que você está errada.
—Mas... Seu pai disse... O Rei disse que se ele tirasse a maldição de mim, o fim iria começar e ele está começando. A Escuridão toma conta de tudo.
—Ele mentiu.
—Fey não podem...
—Ele mentiu — repetiu a filha. — Ele retirou a "maldição" que você achava que tinha e o fim começou, só que não tem relação. Você não está relacionada com o começo ou fim dela.
—E você sabe disso porque...
—Porque eu sou uma Fey. Porque eu sou sua rainha. Porque eu sou a Rainha Fada. Porque eu sou uma das causas e reconheço as outras e você não é uma delas.
Star estava sem palavras — ela não podia acreditar. Ela não era... ela não... era... Star não sabia. Não podia ser. O Rei concordou com a maldição e a retirou e ela viveu tão bem, ela viveu tão bem apesar de saber que causaria o retorno do pior ser que poderia existir, que nunca conheceria o seu grande amor, porque ela estava satisfeita com o fato de que não iria se decepcionar, de que não teria seu coração quebrado, que não o veria morrer na sua frente.
Mas ele morreu?
—Aproxime-se.
—O que? — gaguejou ela.
—Eu posso te mostrar o que aconteceu — disse a Rainha, impaciente. — Você quer saber ou não?
Star queria.
Não queria.
Não sabia.
Ela aproximou-se sem saber o que queria.
—Vai doer — cantarolou a Rainha, esticando os dedos.
Star recuou, mas não se afastou, preparando-se para a dor que seria inevitável, só que o que sentiu foram dedos suaves tocando sua testa, deslizando-o para baixo até chegar a ponta do nariz e então se afastando e tocando de novo e então Star sentiu.
A dor.
A dor era insuportável.
A dor era o que ela queria.
A dor era... não mais.
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