Amante Infernal
3 Trancafiada
Notas iniciais

Fui aproximando minas presas daquela pele tão atraente, felizmente para mim Ruki não parecia perceber o que eu estava prestes a fazer. Antes de mordê-lo beijei mais uma vez aquele belo pescoço, mas não tive tempo de cravar minhas presas nele, pois ele me puxou para me dar um beijo, antes que nossos lábios se juntassem meu olhar encontrou com o dele e ao ver seus olhos cinzentos me dei conta do que estava prestes a fazer.
Meus olhos se encheram de lágrimas e Ruki me empurrou bruscamente ao notar minhas presas, eu caí no chão totalmente desolada e comecei a chorar descontroladamente. Não acredito que perdi o controle simplesmente por causa do cheiro de sangue, isso com certeza era bem pior que se eu houvesse perdido o controle por causa da dor. Que tipo de monstro eu havia me tornado? Não conseguia nem me controlar! Quer dizer que era só eu sentir um cheiro doce vindo da pele de alguém e já estava completamente fora de mim? Então era dessa forma que meu lado obscuro iria se manifestar?
— O que pensou que estava fazendo, sua idiota? – Ruki disse cruelmente com a voz repleta de raiva. Eu não tinha coragem de olhar nos seus olhos, eu não tinha nem coragem de parar de encarar o chão, acho que estava tão acostumada a ser a presa que não suportava a ideia de ser o predador e de machucar alguém com isso, principalmente pessoas as eu não queria de jeito nenhum ferir.
— Desculpe, por favor, me desculpe. – pedi desesperadamente e me levantei, porém não o olhei eu não merecia olhar em seus olhos, eu não queria ver o ódio e a repulsa no rosto dele. Virei-me e corri para fora do quarto dele em uma direção que não me importava, apenas ia repetindo a mesma palavra por todo o caminho enquanto lágrimas molhavam meu rosto. – Desculpe, desculpe, desculpe, desculpe...
Não sabia para quem nem pelo quê eu estava pedindo desculpas, talvez ainda fosse para o Ruki e por ter tentado beber o sangue dele, talvez fosse para todos os vampiros que agora teriam que aturar o meu desequilíbrio ou talvez fosse um pedido de desculpa para mim mesma por tudo que fiz e por tudo que ainda farei.
Meus pés descalços bateram na grama úmida e o vento gelado atravessou meu corpo, eu havia saído para o jardim, no entanto não foi lá que eu parei, continuei correndo e correndo sentindo as solas dos meus pés serem arranhadas e meu corpo se estremecer com as rajadas de vento frio, mas isso pouco me importava. As lágrimas quentes não paravam de cair e eu não parava de me desculpar para a escuridão da noite, até que finalmente cheguei a algum lugar, um lugar que não imaginava poder ser o meu refúgio até realmente precisar de algo como um.
Parei em frente à grande porta de madeira da prisão da Christa e a observei por alguns instantes antes de entrar, subi as escadas lentamente me apoiando nas paredes como se eu pudesse cair a qualquer momento, não me sentia estável o suficiente, na verdade eu não estava suficientemente estável em lugar nenhum. Ao chegar ao topo não me dei o trabalho de acender as velas dos castiçais apenas entrei na cela fechando as grades como se eu estivesse trancada lá dentro e me encolhi em um canto escuro.
Às vezes a única coisa que precisamos para nos sentirmos um pouco melhor é ficarmos trancados, talvez eu não devesse me sentir assim dentro de um lugar que causou tanto sofrimento a duas pessoas tão gentis, entretanto, por mais que eu não quisesse, aquele era o único lugar no qual eu me sentia segura nesse momento e não era segura dos outros vampiros e sim segura de mim mesma.
Minha mente não era mais o lugar aconchegante que fora outrora, ela se tornou escura e desconhecida e eu tinha medo de explorar suas profundezas, me sentia ruindo e estava sendo rápido demais. Não podia decair dessa forma e me tornar uma pessoa que eu não queria ser, eu devia ser mais forte e selar essa parte de mim que eu tanto odiava para que ela nunca mais saísse, duas manifestações dela já estavam de bom tamanho.
Mesmo assim não acho que será tão fácil torna-la menos presente e me pergunto como Yui lidou com isso quando acordou como vampira, ela é muito amável e generosa eu nunca vi um traço de maldade nela. Pela primeira vez senti inveja da Yui, percebo como ela deve ser forte para conseguir oprimir tão bem seu lado vampiro, contudo talvez seja mais fácil para ela fazer isso já que não teve tempo de aflorar a crueldade.
Agarrei meus joelhos e acabei adormecendo de alguma forma, eu realmente estava muito cansada e dormi com o rosto manchado de lágrimas. Ao acordar suspirei e me espreguicei, não sabia muito bem quanto tempo havia se passado e nem como eu havia conseguido dormir sem ser acordada pelo frio, levantei-me esfregando os olhos e fui até a minúscula janela da cela, hoje o dia estava nublado e o céu cinzento era o meu favorito.
Voltei meu rosto para o céu, estava um pouco surpresa por ninguém ter vindo me arrastar pra ir à escola e também estava aliviada pro não terem feito isso. Respirei funcho o ar frio e pesado e olhei para baixo, somente para encontrar dois olhos escarlates encarando a pequena janela da torre e por consequência me encarando. Subaru estava lá em baixo segurando sua adaga de prata e olhando para mim surpreso de certa forma, lembrei-me de uma cena dele com Christa que se parecia muito com a que estava acontecendo agora.
Segurei uma das barras da janela e sorri para ele de um modo triste, não foi intencional, não era como se eu estivesse tentando parecer com a Christa, apenas não estava com ânimo o suficiente para dar um sorriso decente e também não me sentia alegre para fazer isso. Afastei-me da grade deixando-o ali e quando me virei vi Christa parada me observando.
— Acho que o Subaru-kun está irritado por me ver aqui. – falei calmamente tentando não parecer tão frustrada.
— Ele não está irritado, apenas surpreso. Todos já sabem o que aconteceu entre você e o Ruki e preferiram te deixar um tempo sozinha. – explicou-me com a voz doce carregando um sorriso.
— Eles sabiam que eu estava aqui? – perguntei um pouco surpresa e Christa apenas assentiu.
— O Subaru está vindo, vou deixar vocês sozinhos. – avisou-me tocando a mão no meu rosto.
— Obrigada, Christa-onee-san. – agradeci e ela sumiu, na verdade eu não estava agradecendo por ela me avisar que o Subaru estava vindo ou por nos deixar sozinhos, eu estava agradecendo por ela ter me passado um pouco de força para prosseguir.
Fechei meus olhos e respirei fundo, quando os abri vi Subaru do outro lado das grades da cela, aproximei-me dele lentamente. Ele estava escorado na parede em frente à cela de braços cruzados e com uma expressão bem irritada no rosto, já vi que vou ter sérios problemas.
— Yo, Subaru-kun, o que faz aqui? – perguntei naturalmente colocando meu rosto entre as grades, ele se desencostou da parede e ficou frente a frente comigo.
— O que você faz aqui? – perguntou entredentes, parecia quase um rosnado de tanta raiva que estava contida ali. Acho que a Christa não estava muito certa quando disse que Subaru não estava irritado por me ver ali, na verdade ele parecia furioso.
— Eu fiz uma pergunta primeiro então é justo que me responda primeiro, não acha? – falei com um meio sorriso usando seus artifícios contra ele.
— Cale-se, maldita! – ralhou enfurecido e deu um soco na grade que se tremeu com o impacto, eu fechei os olhos com o susto e me afastei da grade que tremia. Eu suspirei e virei minhas costas para ele andando até a pequena mesa e deslizando os dedos por sua superfície fazendo meus dedos ficarem todos sujos pela poeira.
— Você parece bem irritado por eu estar aqui. Será que esse lugar é especial para você, Subaru-kun? – deduzi falsamente, é lógico que eu já sabia que esse era um lugar especial para ele. Como Subaru não respondeu eu continuei. – Não se preocupe, eu não mexi em nada. Passei a noite toda naquele canto. – acrescentei apontando para o canto perto da janelinha sem me virar para ele.
— O quê? Você passou a noite toda dormindo no chão gelado, sua idiota? – perguntou parecendo meio revoltado, eu não sabia muito bem dizer se ele estava preocupado comigo ou não.
— Bem, sim. Mas eu não iria morrer de frio afinal sou uma vampira agora, então não tem problema. – justifiquei-me calmamente e antes que eu percebesse Subaru havia me empurrado na parede e apertava o meu pescoço, ele nem precisou abrir a porta da cela para entrar.
— Você ainda não é totalmente vampira, pode muito bem morrer tão facilmente quanto um humano. – avisou-me apertando ainda mais o meu pescoço, eu coloquei minha mão sobre a dele e tentei tirá-la de lá, porém ele era muito forte.
— O que quer... dizer... com isso? – falei com certa dificuldade já que não conseguia respirar direito. Eu não entendia o que ele estava tentando me dizer com eu ainda ser capaz de morrer como qualquer outro humano, eu havia passado pelo Despertar era uma vampira.
— Você ainda não fez a transição. Para se tornar um vampiro completo é preciso beber sangue. – respondeu-me entredentes e me soltou deixando-me cair no chão, eu tossi e esfreguei o meu pescoço. Quer dizer eu ainda não era totalmente vampira, o Despertar me parecia um esforço em vão agora, ou quem sabe eu ainda não houvesse passado por todo ele como havia imaginado e essa transição fosse o terceiro estágio de uma transformação idiota.
— Que besteira! Para quê eu passei por toda aquela tortura se ainda não terminei com essa porcaria? Por que eu não morro de uma vez? Já estou cansada disso! Parece a droga de um circulo sem fim! – queixei-me, comecei com um sussurro fraco que acabou se transformando em um grito indignado e eu soquei o chão com toda a força que tinha e ele havia se rachado um pouco. Eu não estava acreditando que ainda tinha que passar por mais coisa, era como um castigo.
As juntas dos meus dedos estavam doloridas e sangravam, eu agarrei meus cabelos frustrada e os puxei com força cerrando os olhos e trincando os dentes.
— Oe, pare com isso, idiota! – Subaru mandou agachando na minha frente e tirando minhas mãos dos meus cabelos delicadamente, eu suspirei e fitei a rachadura que havia feito na pedra.
— Desculpe, Subaru-kun. – pedi e novamente não sabia muito bem qual o motivo de pedir desculpas, acho que eu estava tentando tirar um pouco de fardo das minhas costas. – Eu só queria algum tempo de paz depois que acordasse do Despertar, mas vejo que é impossível. Tenho objetivos que preciso cumprir e não vou me dar ao luxo de fraquejar agora. – desabafei ainda de cabeça baixa, provavelmente aquilo não era um desabafo para o Subaru, eu só tentava me convencer a seguir em frente.
Respirei fundo e levantei-me do chão de cabeça erguida com a determinação renovada, não tinha a menor chance de eu – Takayama Tora, pequena tigresa, Muchi-chan, Ningyo-chan, Jujuba, Summer e a infinidade de apelidos ofensivos – ser abatida pela porcaria que a gente chama de vida. Não deixaria que nada me derrubasse e nenhuma parte de mim seria perdida.
— Você é mesmo mais burra do que pensei. – Subaru desdenhou se levantando. – Mesmo que você tenha algum objetivo jamais conseguirá cumpri-lo na situação em que está. Você é uma noiva de sacrifício, não devia criar objetivos que nunca se cumprirão. – aconselhou tentando me desacreditar e chegou perto da janela para olhar a chuva que havia começado a cair.
— Meus objetivos estão todos adaptados à minha maravilhosa função de noiva de sacrifício, então eu conseguirei cumpri-los perfeitamente. – retruquei seguramente usando um pouco de ironia na palavra “maravilhosa”, a verdade era que eu havia achado todos os meus objetivos ao me tornar bolsa de sangue, ainda assim ninguém precisava saber disso. – Bem, eu vou sair agora, desculpe invadir um lugar importante para você. – avisei calmamente e fui até a grade da cela.
Tentei abri-la, mas ela não se moveu, a puxei mais uma vez com força e nada aconteceu, a grade continuava imóvel. Eu a sacudi e percebi que ela estava trancada, Subaru a trancou quando entrou na cela, apertei as grades irritada e já ia brigar com o albino, no entanto ele foi mais rápido.
— Não pense que pode fugir de mim. – rosnou no meu ouvido e agarrou minha cintura com um braço, sua mão tirou os meus cabelos do seu caminho e ele mordeu meu pescoço.
Apertei ainda mais as grades por causa da dor. Parece que vou ficar aqui por um longo tempo.
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