Amante Infernal
6 Encontros Inesperados
Notas iniciais

Encarei o garoto a minha frente com um olhar desconfiado, nunca o havia visto e gostaria de saber como ele conseguiu entrar na mansão, principalmente com a idade que parecia ter, aos meus olhos não parecia ter mais do que quinze anos de idade, porém depois de conhecer o Kanato e o Azusa a gente começa a desconfiar se a aparência tem mesmo algo a ver com a quantidade de anos que uma pessoa viveu.
O garoto sorriu ao ouvir minha pergunta e eu reparei em seus traços físicos ligeiramente exóticos. Ele possuía cabelos da cor da noite mais escura com um corte relativamente curto e uma franja que caía sobre a parte direita de seu rosto por estar um pouquinho longa do que deveria, seu rosto carregava traços mais infantis embora fosse de extrema beleza, seus lábios eram rosados e pareciam muito macios, sua pele era pálida e seu porte físico era como o de Kanato.
Aquele menino era muito bonito, no entanto de todos os seus aspectos físicos o que mais me chamou atenção foram seus olhos, enquanto um deles era de um azul-escuro vibrante e diferente que eu nunca havia visto antes, o outro estava escondido por um peculiar tapa-olho negro que despertou em mim certa familiaridade.
— Não se lembra mais de mim? – perguntou suavemente enquanto se aproximava e sentava-se à minha frente na mesa do coreto. – Bem, acho que não deveria ficar chateado com isso já que quando nos encontramos pela primeira vez você não conseguiu me ver. – acrescentou com um sorriso de canto, depois que ele disse isso uma luz se acendeu em minha mente e em um segundo eu soube quem ele era.
— Você é o Teddy? – questionei meio incrédula com a descoberta, estava boquiaberta por vê-lo ali na minha frente. Jamais iria imaginar que o melhor amigo do Kanato apareceria para mim em sua forma humana, quer dizer, não em forma humana já que ele era um fantasma.
— O próprio, ou melhor, não exatamente o próprio, não é? – disse divertidamente e eu ri.
— Você é um pouco diferente do que eu esperava. Quando você falou comigo lá naquela sala eu te imaginei bem diferente, na minha cabeça você era tipo um mordomo sexy, mas agora vejo que você está mais para garoto macabro. – falei brincalhona e Teddy deu uma risada na qual fiz questão de acompanha-lo, não sei muito bem qual era o motivo, no entanto eu estava me sentindo mais leve com ele, quem sabe o fato dele parecer uma pessoa normal tenha me ajudado com essa sensação.
— Naquela ocasião você estava muito frágil e perturbada, por isso era meu dever trata-la da melhor forma possível para que se sentisse talvez um pouco melhor. Eu não queria assustá-la com meus avisos absurdos, mesmo que isso fosse praticamente impossível. – respondeu-me seriamente e eu suspirei ao lembrar a minha breve estadia no Inferno, logo que Teddy percebeu meu estado abriu um sorriso e acrescentou. – Mas, me diga, minha dama prefere o mordomo sexy ou o garoto macabro? – eu sorri ao vê-lo parecer curioso para saber minha resposta.
— Bem, mordomos sexys são legais, mas garotos macabros são mais interessantes, principalmente aqueles que usam um tapa-olho. – respondi entrando na brincadeira e entortando a boca em seguida. – Por favor, Teddy-kun, pare de me chamar de “minha dama”. Só o meu nome já está ótimo. – pedi calmamente, eu odiava qualquer tipo de formalidade com relação ao meu nome.
— Você gosta do meu tapa-olho, Tora-san? – questionou-me parecendo meio surpreso embora carregasse um pequeno sorriso de diversão.
— É claro que sim! Te deixa mais misterioso e mistério é muito legal. – respondi empolgadamente enquanto reparava em seu tapa-olho. – Mas espere aí! O tapa-olho do urso de pelúcia fica no olho esquerdo, por que o seu está ao contrário? – perguntei intrigada. Só agora havia percebido que o tapa-olho dele ficava no olho direito à diferença do urso, não entendia isso afinal o certo não seria deixar o olho bom dele descoberto para que pudesse enxergar?
— Acho que prefiro manter um mistério quanto a isso. – disse usando minha escolha contra mim e eu estreitei os olhos fingindo irritação. Teddy suspirou e ficou sério. – De qualquer forma eu não vim te ver para jogarmos conversa, quero apenas saber o que realmente aconteceu naquela hora. – revelou-me seriamente.
— Ahh, Teddy, é uma história tão longa que não acho que você tenha tempo de ouvi-la. – falei tristemente e dei um suspiro, não estava com muita vontade de falar sobre os meus tormentos, não me sentia nenhum pouco bem para falar sobre isso. Teddy pegou minha mão como se soubesse que eu não estava a fim de falar e a apertou delicadamente entre seus dedos que não deveriam ser quentes e, no entanto, eram.
— Parece que você não gosta de falar disso, porém eu não vou te forçar a me contar, Tora-san. – tranquilizou-me e eu apertei sua mão em agradecimento. – Agora devo voltar para o Kanato, ele sempre me dá um tempo para descansar fora do urso, mas logo fica irritado se eu demoro muito para voltar. – explicou-se com um meio sorriso e se levantou sem soltar minha mão, parou ao meu lado e a levou até seus lábios, eu senti o calor de sua pele contra a minha e mais uma vez estranhei o fato de um fantasma ter temperatura. – Até logo, minha dama. – despediu-se me provocando a interpretar o papel de mordomo sexy e eu dei uma risada.
— Até mais, Teddy-kun. – despedi-me com um sorriso, o olho esquerdo dele brilhou em um tom de vermelho tornando sua pupila fina como a de um gato e ele foi gradativamente desaparecendo até sumir completamente, acabei lembrando-me do Gato de Cheshire de Alice no País das Maravilhas.
Esse fantasma é uma caixinha de surpresas, está sempre me surpreendendo a cada vez, gostaria que pudéssemos conversar mais vezes, embora saiba que o Teddy é do Kanato e que ele precisa muito mais de um amigo do que eu. De todas as formas eu ainda não entendi muito bem o porquê de não conseguir vê-lo ou ouvi-lo antes do Despertar, já que supostamente eu tinha a habilidade de ver fantasmas, suspirei frustrada, ainda há muitas coisas das quais não faço a menor ideia.
E a que mais me preocupa é não saber se sou capaz ou não de matar Karl Heinz, também não faço a mínima ideia de sua força e de seu poder, estou muito vulnerável sem esse tipo de informação essencial ao sucesso do meu plano. Todo o meu conhecimento sobre esse homem é completamente insignificante, ainda existem mil e um fatores sobre ele que seriam de extrema importância à construção de um plano com a menor chance de dar certo.
Mas que droga de equação difícil! Quanto mais eu penso menos vejo uma solução e isso me aflige de tal forma que estou começando a me desesperar, eu tenho pouco tempo e nenhuma tática boa o suficiente me passou pela cabeça. Como diabos eu vou salvar essas mulheres se nem mesmo eu sou capaz de saber como me salvar?
— Tora, veio arrumar essa parte do jardim? – Beatrix perguntou se materializando na minha frente e eu a encarei, lembrei-me do dia em que ela me contou como morreu e como eu fiquei chateada com aquilo, agora tudo não passava de uma lembrança distante. Eu não precisava ficar irritada com a mãe do Shu e do Reiji, ela era uma pessoa diferente do que é agora e eu sei bem como a morte é capaz de mudar as pessoas.
— Sim, Beatrix-san, agora é a sua vez de ter o seu lugar limpinho e arrumado. – respondi empolgada me levantando e pensei em algo que poderia me ajudar com algum avanço no meu plano de matar Karl Heinz. – Escute, Beatrix-san, será que você poderia me fazer um favor? – pedi gentilmente, ela franziu as sobrancelhas e pressionou os lábios estranhando o meu pedido, acabou ponderando um pouco antes de responder.
— Tudo bem, o que quer que eu faça? – aceitou ainda meio hesitante.
— Você poderia chamar Cordelia e Christa para mim? Eu tenho algo importante para conversar com vocês três. – avisei seriamente, ela pareceu meio relutante em fazer o que eu pedi, porém acabou assentindo e sumindo para chamar as outras duas esposas amaldiçoadas.
Logo que ela se foi eu me dirigi até a pequena dispensa e peguei todas as ferramentas que precisaria usar para limpar o jardim, estava com tantas ferramentas e produtos de limpeza nas mãos que quando andava ficava parecendo um pinguim tentando me equilibrar com todas aquelas coisas, vez que outra alguma das coisas que eu segurava acabavam caindo no chão e eu tinha que parar e me contorcer de uma forma bem macabra para tentar pegar o que caía. Isso é que dá tentar fazer tudo sozinha!
Ao chegar à frente do coreto larguei tudo no chão de uma vez só e suspirei de alivio enquanto esticava meus braços como um meio de alonga-los e relaxá-los do esforço anterior. Olhei ao redor e decidi que começaria minha reforma pelas árvores, peguei a tesoura de poda e imaginei o estrago que uma tesoura desse tamanho não faria no corpo de uma pessoa, balancei a cabeça para me livrar das terríveis imagens e comecei a cortar os galhos de um dos arbustos que circundavam o caminho de cimento envelhecido.
— E então, Tora, o que quer conversar conosco? – Beatrix perguntou parecendo ligeiramente incomodada atrás de mim, virei-me e encontrei as três esposas de Karl Heinz acomodadas no coreto. Cordelia, com toda sua vaidade e intrometimento, havia tomado o lugar que deveria ser de Beatrix que agora estava escorada em uma das colunas de mármore, o mais longe possível da mulher de longas madeixas arroxeadas, Christa parecia ser a única que não se incomodava com a presença das outras duas, pois jazia sentada completamente serena no pequeno degrau que elevava o coreto alguns centímetros do chão.
— Para que você queira nos reunir dessa forma imagino que seja algo realmente importante e urgente já que não pode falar com uma de cada vez. – Cordelia conjecturou levemente indiferente e a loira revirou os olhos com o tom que a outra usou, eu mordi os lábios tentando segurar uma risada. Ver a rivalidade daquelas duas era algo cômico, pigarreei e falei.
— Sim, o assunto é muito importante e urgente, embora se trate de um tema um tanto inconveniente para vocês. – avisei em tom calmo voltando-me para o arbusto que estava cortando alguns segundos antes.
— Imagino que seja sobre aquele homem. – foi a vez de Christa entrar na conversa, seu tom de voz baixo e suave parecia com o trinado de sinos de natal.
— Sim, é exatamente sobre ele. – concordei sem olhá-las, provavelmente todas elas fizeram uma careta ao me ouvir confirmar sobre o assunto da conversa. – Sei que não é um assunto agradável, no entanto, como todas aqui já sabem, eu preciso do máximo de informações possíveis para planejar um modo de acabar com Karl Heinz e acredito que no momento vocês sejam as melhores fontes de informações que eu tenho.
— Mesmo que saibamos de alguma coisa sobre esse homem, o que a faz pensar que essas informações serão úteis para o seu plano? – Beatrix perguntou parecendo um pouco desacreditada da minha inteligência e talvez ela tivesse mesmo razão em desacreditar que eu teria capacidade de acabar com alguém tão poderoso quanto Karl Heinz.
— Ou melhor, o que a faz pensar que qualquer plano que você tenha vai acabar com Karl Heinz? Acha mesmo que uma mera noiva de sacrifício como você é capaz de sequer arranhar aquele homem? – Cordelia zombou-me cheia de desdém, com certeza ela não tinha nenhum um pingo de fé em mim, se bem que até mesmo eu duvidava que conseguisse matar esse vampiro.
Suspirei pesadamente e refleti por um momento. Talvez eu não fosse mesmo capaz de derrotar esse vampiro e libertar essas pobres almas da maldição que as mantinha presas, mas mesmo não tendo força o suficiente e nem as armas necessárias eu precisava tentar, afinal quem além de mim lutará por essas mulheres?
— Se nós contarmos o que sabemos sobre ele, com certeza a Tora terá mais chances de derrota-lo do que se não ajudarmos em nada. Ou vocês querem ser prisioneiras dessa casa e desse homem pelo resto da eternidade? – Christa interveio em meu favor enquanto encarava as outras duas com desafio, dei um meio sorriso admirado enquanto Cordelia revirava os olhos e Beatrix fitava a albina de um jeito indecifrável. Essa era com certeza uma mulher a ser reverenciada por todos.
— Muito bem, Tora. O que você gostaria de saber? – a loira perguntou-me calmamente voltando à sua seriedade habitual.
— Yoshi! Vamos começar pelo básico. – exclamei e dei um breve aceno voltando a cortar o arbusto ao qual me dedicava minutos atrás. – Karl Heinz é o Rei Vampiro, certo? Obviamente, para ser um rei é necessário ser muito poderoso, pois assim conseguirá o respeito de todos os súditos. Agora me digam: que poder ele tem que o tornou o rei? – perguntei calmamente.
— Bem, primeiramente você deve saber que para ser um rei é necessário que a pessoa seja um vampiro fundador, porém Karl Heinz não era exatamente um dos originais, ele apenas foi preso à maioria dos vampiros de sangue puro com a ajuda do Lorde Demônio e seus poderes peculiares lhe deram o direito de sentar no trono como governante. – Beatrix me respondeu calmamente, ela parecia saber bastante sobre isso, embora eu jamais descobrisse como ela poderia saber tanto.
— Esses poderes peculiares são a manipulação do tempo e transformação física, tais poderes são de grande ajuda na hora de executar seus planos desprezíveis. Ele pode muito bem usar a manipulação de tempo para regredir o tempo e consertar algo que deu errado em seu plano e a transformação física para observar o andamento de seu plano sem que ninguém saiba que é ele. – Cordelia acrescentou com indiferença, eu franzi as sobrancelhas e um triste pensamento me passou pela cabeça, se Karl Heinz tem esse poder de manipulação do tempo, então eu não posso deixar que ele suspeite das minha intenções de maneira alguma e se ele tem esse poder de transformação, então nesse exato momento ele pode estar próximo daqui somente observando.
— Vocês sabem os planos desse homem? – perguntei curiosa, isso talvez não influenciasse muito nos meus planos, mas de um jeito ou de outro eu precisava saber o que ele tramava contra seus filhos.
— Ele quer... – Christa começou a me responder, porém foi interrompida por Yui que gritou meu nome há alguns metros de mim, olhei para a loira e dei um aceno com as mãos depois olhei para as três mulheres que não se importaram em sair de onde estavam.
Yui começou a andar em minha direção e sua expressão foi mudando de um leve sorriso para olhos arregalados e boca contorcida em pavor. Ela estava vendo as três esposas daquele homem atrás de mim.
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