Amante Infernal
11 Desmoronando
Notas iniciais

Parei em frente à porta da torre e hesitei antes de abri-la, inicialmente minha intenção era arrumar aquele lugar logo que chegasse ali, mas agora eu via que poderia também aproveitar a oportunidade para saber um pouco mais sobre Karl Heinz através de Christa, puxei a velha porta de madeira e entrei pulando os degraus de dois em dois até chegar em frente à cela, abri as grades e adentrei a prisão da minha fantasma favorita.
— Christa-onee-san? – chamei olhando ao redor em busca de algum vestígio dela, esperei alguns segundos e ela não apareceu, passaram-se cinco minutos e nada, concluí que ela deveria estar ocupada com outra coisa, provavelmente estava com o Subaru. Suspirei chateada, queria ter logo essa conversa, o pai dos meninos iria chegar amanhã e eu ainda não tinha nenhum plano para acabar com aquele maldito. Bem, de qualquer forma eu não podia ficar parada, iria dar uma geral na cela dela e quando ela aparecesse conversaríamos.
Comecei tirando o forro de cama juntamente com as cortinas de veludo e separei-os no corredor para me lembrar de leva-los para lavar, em seguida analisei o local listando o que precisaria pegar para a limpeza e arrastei o enorme colchão da cama de Christa até o lado de fora da torre – o qual passei quase meia hora batendo para tirar toda a poeira que se acumulou nele – e encostei-o na parede para que pegasse um pouco de ar fresco e perdesse aquele cheiro horrível de velho, o ideal seria um colchão novo, entretanto isso estava totalmente fora do meu alcance.
Precisei fazer quatro viagens para buscar todas as ferramentas que usaria e demorei um bom tempo para localizar tudo, já que tive que usar uma lanterna para vasculhar o pequeno depósito por estar de noite. Finalmente, quando já tinha tudo que queria, organizei minha lista de tarefas e comecei a trabalhar.
Eu passei horas faxinando aquela torre, de longe havia sido o lugar mais trabalhoso dos três, talvez pelo fato de eu estar limpando tudo sozinha, não importava de qualquer jeito. Só sei que o sol já estava nascendo quando a terceira esposa resolveu aparecer e eu já estava acabando de limpar toda a maldita torre, sem dúvidas as partes que eu mais odiei fazer foi lavar aquela escadaria enorme da qual rolei duas vezes por escorregar no sabão e tirar as teias do teto – caíram tantas aranhas em cima de mim que ainda fiquei com a impressão de tê-las andando sobre minha pele –, por fim decidi que nunca mais faria nada que estivesse remotamente ligado a alguma dessas duas tarefas.
— Tora-san, você ainda está limpando esse lugar? – Christa perguntou se materializando dentro da cela onde eu polia o bronze usado para construir a cama dela.
— Onee-san, eu estava esperando por você! – exclamei alegremente lhe sorrindo, finalmente depois de uma noite inteira ela havia aparecido para conversarmos. – Eu queria conversar com você e aproveitei para dar uma geral aqui, afinal seu lado era o único que faltava arrumar. – expliquei rapidamente, eu estava bem cansada depois de todo o trabalho, mas não iria sair dali até obter as respostas que necessitava.
— Você queria conversar comigo? Sobre o quê? – perguntou abismada.
— Sobre Karl Heinz, é claro! – respondi impaciente. Ela parecia um pouco distraída, como se estivesse remoendo algum assunto em sua mente.
— Ahh, sim! Desculpe-me, eu devia saber. – disse calmamente e deu um pequeno sorriso triste, eu sabia que ela não gostava desse assunto, porém o sorriso não pareceu ser fruto da minha resposta, havia algo mais por trás da máscara de preocupação dela.
— O que há de errado, Christa-onee-san? – questionei cruzando os braços, ela ia me explicar direitinho o motivo de estar tão estranha.
— Como assim? Não há nada de errado, Tora-chan. – retrucou defensiva, o que só confirmou minhas suspeitas.
— Não adianta tentar me enganar, Onee-san! Está bem óbvio que aconteceu alguma coisa enquanto você estava fora que te deixou preocupada. – pressionei com firmeza, estreitando os olhos. Christa suspirou derrotada e sentou-se na cadeira que agora brilhava de tão limpa, dirigi-me até ela e sentei-me sobre a mesa como costumava fazer, eu já havia terminado toda a faxina na torre e enfim poderia descansar um pouco.
— Você já deve imaginar que eu estava com o Subaru durante esse tempo, não é? – conjecturou e eu apenas assenti para que ela prosseguisse. – Bem, eu descobri algumas coisas não muito agradáveis enquanto o observava. – completou com desgosto e abaixou a cabeça, franzi as sobrancelhas em confusão.
— O quê? – perguntei curiosa e preocupada. Eu já sabia que havia algo errado com o Subaru desde o dia que ele tentou dormir comigo e estava na hora de descobrir o que era. A albina me olhou e pareceu decidir se me contava ou não o que quer que estivesse acontecendo com o filho dela, por fim acabou cedendo e me contando.
— Eu descobri que o Subaru ama a Yui profundamente, eu nunca o tinha visto agir daquela maneira com nenhuma outra noiva de sacrifício, é claro que eu já suspeitava desse amor, contudo hoje eu tive a prova definitiva e o pior é que a Komori sabe disso e prefere ignorar. – desabafou com pesar, parecia que ela estava carregando o peso do mundo nas costas, mas eu entendia, afinal o Subaru era filho dela e ele já havia sofrido muito.
— E qual foi essa “prova definitiva”? – interroguei querendo saber mais detalhes, na verdade eu estava tentando achar alguma falha na história que eu pudesse usar para contestar esse amor, embora eu soubesse que não havia mentira no que Christa me contava.
Novamente senti uma onda de ciúmes tomar conta do meu corpo, no entanto dessa vez estava diferente, esse sentimento horrível estava acompanhado de um instinto assassino tão forte que eu imaginei como seria maravilhoso ver o sangue da Yui manchando o chão, ela tinha um cheiro tão doce, será que o sangue dela era tão delicioso quanto os garotos falavam?
Lambi meus lábios secos de sede e minhas presas latejaram em expectativa, eu poderia sugar o sangue dela bem lentamente até que suas veias e artérias secassem completamente, poderia morder nos piores lugares para vê-la chorando e gritando de dor. A expressão de sofrimento dela deve ser tão fofa que eu poderia beijá-la só para vê-la se debatendo em desespero e tenho certeza que os olhos rosados dela ficariam muito mais bonitos se estivessem opacos pela morte.
Sorri ao imaginar como os meninos ficariam furiosos quando me encontrassem segurando o cadáver frio e pálido daquela loira, será que eles tentariam me matar também? Eu poderia cortar em pedaços quem tentasse, ou melhor, eu poderia transformá-los em magníficos bonecos de cera, talvez se eu pedisse com jeitinho o Kanato me ajudasse com isso. Tenho certeza que eles seriam deliciosas refeições!
— TORA! – Christa berrou desesperada me sacudindo, ela estava me segurando firmemente e me encarava com terror. Balancei a cabeça voltando a mim e percebi que havia levantado e começado a andar em direção à saída da cela. – Por Kami, Tora-chan, o que foi que aconteceu com você? De uma hora para outra você começou a sussurrar coisas ininteligíveis, se levantou e andou até aqui com um sorriso maníaco. Parecia obcecada por alguma coisa. Era como se estivesse indo... – esclareceu preocupada interrompendo a própria frase com um desvio de olhar.
— Matar alguém. – completei inexpressiva e ela me fitou em dúvida como se questionasse qual era o meu problema. Respirei fundo e expulsei esses pensamentos insanos para o fundo da minha mente, eu não ia me permitir refletir sobre isso agora, primeiro precisava descobrir qual era o problema do Subaru. – Será que você pode esquecer isso por um tempo, Onee-san? O Subaru é mais importante no momento. – pedi com cansaço. Óbvio que o filho dela não era o único motivo para eu estar pedindo isso, a verdade era que eu não queria ter que explicar nada agora. Christa me olhou com desconfiança, porém concordou com minha súplica.
— Certo, entretanto não demore muito para me explicar o que está acontecendo com você, tudo bem? Eu quero te ajudar se puder. – exigiu me encarando cheia de carinho, eu assenti em confirmação e ela me guiou até a mesinha mais uma vez onde me sentei. Suspirei enterrando temporariamente o que acabou de acontecer e olhei para a albina.
— E, então, qual foi a “prova definitiva”? – repeti já me sentindo um pouco mais tranquila.
— Bem... O Subaru brigou com o Ayato, digo, eles realmente brigaram. – respondeu com a voz carregada de decepção, demorei alguns segundos para assimilar a informação.
— Como é?! – gritei completamente chocada. – O Ayato e o Subaru saíram no soco? – perguntei retoricamente para fazer a informação entrar na minha cabeça.
— Exatamente. Agora você entende o que eu digo? O Subaru sempre ignorou qualquer provocação vinda dos irmãos, estava sempre indiferente a tudo e a todos e agora teve uma briga feia com o Ayato, na verdade meu filho quase o matou. – explicou com remorso.
— Como isso aconteceu? E o que você quer dizer com “quase o matou”? – interroguei confusa e ansiosa. Essa história não estava fazendo o menor sentido e, ainda assim, eu sentia que ela só iria piorar.
— Eu não entendi o motivo da briga, parece que teve a ver com algo que aconteceu enquanto eles estavam buscando as roupas do baile. – disse lentamente. – Acho que o Subaru estava com raiva de alguma coisa que o Ayato fez e quando este o provocou foi a gota d’água. Os dois ficaram muito machucados e quando tentaram separá-los meu filho foi para cima do Ayato com a adaga que eu lhe dei e ia mata-lo se a Yui não tivesse entrado na frente, foi ela que acabou levando o golpe... – a voz dela foi sumindo enquanto descrevia os detalhes do acontecimento.
— A Yui... morreu? – questionei num sussurro descrente e inexpressivo, sem acreditar no que estava ouvindo.
— Não, mas... o Ayato precisou dar sangue para ela sobreviver. – esclareceu apreensiva, eu passei alguns segundos tentando assimilar aquela história e, enquanto meu queixo caía, tudo fez sentido.
A primeira coisa que me atingiu em cheio foi o fato da Yui finalmente ter bebido sangue. Céus! Ela era uma vampira completa agora e o mais chocante não era nem o fato dela ter feito a transição – uma hora ou outra isso iria acontecer – o que mais me assustou foi ouvir que o Ayato deu seu sangue para ela poder sobreviver. Ele também a ama, por Kami, ele a ama de verdade! Essa constatação me acertou de tal maneira que eu acabei arfando.
Eu nunca mais ia deixar o Ayato tocar em mim de novo. Eu não permitiria, na verdade se o novo casal resolvesse desaparecer hoje eu ficaria muito satisfeita. É claro que a Yui é minha amiga e eu a amo profundamente, porém, de certa forma, eu também amo aquele ruivo e, por mais que eles não assumissem um relacionamento sério, eu jamais teria coragem de aceitar novamente os toques do Sakamaki sabendo que ele amava a Yui e, acima de tudo, que eu estava traindo minha única amiga. Contudo, não vou ser hipócrita, olhar para eles dois de agora em diante e por um bom tempo me daria repulsa, provavelmente, eu teria que me controlar bastante para não acabar tendo um surto.
Suspirei pesadamente.
— Onee-san, o que você acha que os garotos fariam se eu fugisse? – perguntei distraidamente.
— Você quer fugir, Tora-chan? – Christa retrucou em dúvida.
— Não, é claro que não. Mesmo que eu quisesse, não poderia. – respondi seguramente encarando a janela da cela. – Eu só gosto de imaginar a possibilidade deles sentirem minha falta caso eu partisse. – elucidei sinceramente.
— Eu tenho certeza que eles ficariam muito irritados e que a situação nesta mansão iria piorar tão terrivelmente que nem mesmo a Yui seria capaz de ajeitar as coisas. – retornou à minha pergunta replicando-a com a sabedoria de alguém que já havia passado por muitas controvérsias. – Por que você pensa nesse tipo de coisa?
— Não sei bem... Acho que desde a minha chegada eu nunca acrescentei em nada na vida deles, pelo contrário, eu causo tantos problemas que nem sei como continuo viva. É por isso que às vezes eu me permito pensar em ir embora, ainda que eu saiba que isso nunca venha a acontecer. – falei tristemente e finalmente olhei para a albina que me fitava com as sobrancelhas franzidas.
— Você está errada, Tora-chan. – afirmou com convicção e foi minha vez de franzir as sobrancelhas. – O fato de você causar tantos problemas foi exatamente o que acrescentou tudo que faltava na vida deles. Antes de você, mesmo com a Yui aqui, era como se eles estivessem inertes e sempre remoendo o passado. Foi você quem os tirou dessa inércia e mudou a vida deles, talvez ninguém admita isso, mas sem você todos voltariam ao estado de melancolia e indiferença com a vida. – explicou-me pacientemente, ela acreditava plenamente no que estava falando e eu decidi que guardaria aquelas palavras como um dos meus alicerces.
— Obrigada, Onee-san, eu não sei o que eu faria sem você. Tenho certeza que tudo seria bem mais difícil para mim se eu não houvesse te conhecido. – agradeci lhe mandando um pequeno sorriso repleto de gratidão, o qual ela retribuiu carinhosamente.
Após isso, ficamos alguns minutos em silêncio e eu afastei os pensamentos sobre Yui e Ayato para me dedicar ao Subaru, foi nesse momento que eu percebi os motivos por trás de várias ações recentes dele.
Quando o albino veio até mim cheio de raiva e tentou transar comigo, ele provavelmente havia tentado ficar com a Yui, no entanto ela o rejeitou – pois como bem se sabe ela só tem olhos para o Ayato –, dessa forma, o Subaru veio até a torre tentar esfriar a cabeça, com isso acabou me encontrando e suas intenções se desviaram. Eu conhecia esse tsundere o suficiente para saber que a primeira opção dele jamais seria procurar alguém para descontar sua fúria, eu apenas estava no lugar errado e na hora errada.
Quanto ao motivo da briga, suponho que deve ter acontecido algo no provador depois que eu saí correndo e aquele imbecil narcisista, irritante do jeito que é, só esperou uma oportunidade para provocar o irmão mais novo sobre o que quer que tenha acontecido sem levar em conta a personalidade explosiva dele. Bem, eu iria esclarecer isso com a Yui quando fosse ver como ela estava, isto é, logo após eu descobrir um jeito de controlar meu ciúme.
— Eu entendo que você esteja chateada com essa briga, afinal eles são irmãos. Mas você não devia estar feliz pelo Subaru estar amando alguém? – questionei confusa.
— Eu estaria se esse sentimento fosse recíproco, mas a Yui ama o Ayato. O que mais me frustra é eu não poder fazer nada para consolá-lo. – disse cheia de culpa, como se a responsabilidade pelo seu filho não ser correspondido fosse sua. Respirei fundo.
— Eu gostaria de poder ajuda-lo com isso, porém quando se trata de amor, apenas quem sofre com esse sentimento pode se curar. Ainda assim o Subaru merecia muito alguém que o correspondesse, ele é um menino tão gentil e já sofreu tanto. – lamentei tristemente. – Se pelo menos eu soubesse o que ele sente por mim. – sussurrei mais para mim mesma do que para qualquer oura pessoa.
— Tora-chan, você sente algo pelo meu filho? – a albina perguntou surpresa, eu a olhei e dei um pequeno sorriso.
— Sinto, na verdade eu sinto algo por todos aqueles garotos. – respondi calmamente e ela me olhou incrédula. – Eu sei que pode parecer mentira, mas todos eles são importantes para mim e eu posso dizer com plena certeza que amo todos eles com todo o meu coração e sem nenhuma distinção, mesmo com todos os aspectos ruins. É por isso que eu não posso escolher. – expliquei seguramente e Christa ainda pareceu tentar entender como isso era possível.
Pra dizer a verdade nem eu entendia como conseguia amar tantas pessoas ao mesmo tempo, entretanto pensar em perder qualquer um deles fazia brotar um desespero descomunal dentro de mim, bem como pensar em ter que escolher me fazia ficar numa confusão mental sem precedentes.
— Eu não consigo entender você, mas se o amor que eu senti no seu tom de voz for o mesmo que você sente pelo Subaru eu não me importo que você ame outros desde que você possa fazer o meu filho feliz. – confessou com um ar maternal e eu sorri largamente, lisonjeada com essa revelação.
— Eu prometo que vou tentar fazê-lo feliz de todas as formas que eu puder. – “Todos eles”, acrescentei mentalmente. A fantasma me sorriu parecendo verdadeiramente contente desde que a conheci e isso me fez ficar ainda mais determinada a cumprir essa promessa.
— Muito obrigada, Imoto-chan! Desde que eu te conheci só tenho a agradecer por tudo que tem feito em nossa vida. – disse emocionada com os olhos marejados, eu sorri ternamente e segurei suas mãos apertando-as. – Bem, de qualquer forma você veio aqui para saber sobre aquele homem, não é? – declarou recompondo-se.
— Sim. Ele chega hoje e eu não tenho nenhum plano bom o suficiente, já estou começando a me desesperar. Eu preciso de alguma vantagem! – reclamei num choramingo, e a albina deu tapinhas no meu ombro para me confortar.
— Não se preocupe tanto, está bem? Você vai acabar enlouquecendo se pensar demais nisso. – pediu preocupada e eu assenti em concordância. – Eu vou te contar o que eu sei sobre o Tougo, mas você tem que se dar um tempo e esperar que a ideia surja sozinha. Remoer o assunto não vai tornar as coisas mais fáceis. – aconselhou-me.
— Você tem razão. As melhores ideias surgem do nada, afinal. – concordei.
— Isso mesmo! Muito bem, agora vamos começar. Da última vez que conversamos sobre isso você me perguntou sobre os planos dele, certo? – demorei alguns segundos para me recordar da nossa última conversa, mas logo confirmei. – Bem, o Tougo quer criar uma nova raça, uma raça que misture as melhores características de seres humanos e demônios.
— Por que ele quer fazer isso?
— Ele é obcecado por ciência genética desde que o conheço, acredite, eu o conheço há muito tempo, e criar a raça suprema se tornou o seu principal objetivo desde que ele começou a perceber os defeitos e as qualidades de cada espécie. Tougo quer alcançar o equilíbrio entre sentimento e poder, isto é, ele quer mesclar a mentalidade dos humanos com o biológico dos demônios para assim dar início a uma transformação completa do mundo. – explicou detalhadamente, eu balancei a cabeça em reprovação.
— Resumindo, ele gosta de brincar de ser Deus. – cuspi com a voz carregada de repulsa. – Quando eu penso que a situação não pode piorar... – falei revirando os olhos sem terminar a frase. – E como ele pretende fazer isso? – questionei.
— Karl Heinz começou a fazer a experiência de sua tese muito antes do que você pode imaginar, Tora-chan. Pra você ter uma ideia, a Cordelia nasceu simplesmente para fazer parte de todo esse experimento inútil, ela não sabe disso e eu peço que você não conte, por favor. – suplicou e eu simplesmente assenti boquiaberta com a descoberta, não estava conseguindo formar palavras depois dessa bomba. – Tanto Cordelia quanto Beatrix e eu fomos ferramentas da obsessão desse homem, cada uma de nós tinha um gene que ele queria misturar com o dele para criar uma nova geração. Foi esse o motivo que o levou a se casar com cada uma de nós.
— Eu sei qual era o gene da Cordelia que ele queria, mas e quanto a você e a Beatrix? – interroguei alguns segundos após assimilar toda a informação e recuperar minha voz.
— Eu não sei o motivo para ele ter se casado com a Beatrix, mas comigo foi... – ela hesitou, parecia com medo de dizer o motivo, eu estranhei e esperei para ela completar. – foi porque nós éramos irmãos. – terminou num murmúrio, ela não me olhava nos olhos. Eu queria acreditar que aquilo era mentira, mas essa revelação foi absurda demais para eu sequer cogitar a hipótese de não ser totalmente verdade.
Fiquei estática fitando Christa com uma expressão de incredulidade. Eu poderia esperar qualquer coisa saindo da boca dela, menos isso, mas parece que quando eu acho que não posso mais me surpreender com qualquer coisa acontece algo que nunca teria passado pela minha cabeça em milênios.
— Por Kami, Christa, você o conhecia, sabia do que ele era capaz. Vocês eram irmãos e ainda assim você caiu nas teias dele?! Como você pôde ser tão ingênua? – revoltei-me indignada e a mulher mantinha-se calada, parecia profundamente envergonhada por admitir aquilo, contudo eu continuaria com o meu sermão. – Não me diga que a história do estupro foi mentira? Eu juro por tudo que é mais sagrado que se você só tiver contado para o Subaru que ele era fruto de um estupro para esconder essa sua burrice eu nunca vou te perdoar!
— Não, eu não menti sobre isso! Quem você pensa que eu sou? – alterou-se chateada com a minha acusação.
— Então me conte direito como aconteceu essa história e, por favor, não omita mais nada. – pedi severamente, ela assentiu e respirou fundo, provavelmente era a primeira vez que ela iria contar essa história para alguém.
— Como você disse, eu o conhecia e sabia do que ele era capaz, mas ele sempre me tratou de maneira diferente de todos. Ele me fazia acreditar que eu era especial para si e eu o amava com todo o meu ser, afinal ele era a única família que eu tinha. Com o tempo, Tougo foi avançando em suas experiências e, embora eu soubesse que o que ele estava fazendo era cruel e errado, eu sempre o apoiei. Até que ele começou a me manipular para eu ficar com ele como sua mulher, na época eu não percebi, confiava nele plenamente e me deixei levar por suas palavras vazias.
“Nós nos casamos e eu dormi com ele de muito boa vontade na nossa primeira noite, porém alguns dias depois quando ele me mandou para a mesma casa onde mantinha suas outras duas esposas eu comecei a perceber que ele só estava me usando. Eu briguei com ele e ameacei fugir, foi quando ele me prendeu na torre, depois disso eu me recusei a ter qualquer tipo de contato físico com ele e, bem, Tougo não é o homem mais paciente quando algo não corre bem com suas experiências, ele me estuprou várias vezes e foi em alguma dessas vezes que o Subaru foi concebido.”
“Eu jamais contei ao Subaru que ele era fruto de um estupro, eu nunca o faria carregar esse peso. Foi aquele homem quem contou, foi ele que quebrou meu filho. Por isso o Subaru nunca pode saber que também é fruto de um incesto, eu nem sei do que ele seria capaz se soubesse disso. Meu filho foi a coisa mais preciosa que eu tive na minha vida miserável eu não posso nem pensar em perdê-lo para o que quer que seja.” – contou-me sinceramente sempre olhando para baixo, nunca para mim.
— Perdoe-me, Onee-san, eu não deveria ter tirado conclusões precipitadas a seu respeito. Você é a melhor pessoa que eu já tive o prazer de conhecer e eu não deveria te julgar por um mero erro. – confortei-a segurando em sua mão, quando ela olhou para mim eu vi que ela estava chorando.
— Você não está com nojo de mim por eu ter ficado com meu próprio irmão? – ela perguntou surpresa com a voz embargada, eu lhe sorri carinhosamente.
— É claro que não, Onee-san. Eu fiquei irritada por você ter mentido pra mim e por ter caído na lábia daquele ser desprezível, mas, mesmo que ele seja seu irmão, você o amava e eu nunca vou ter nojo de uma pessoa que age por amor. – respondi francamente, ela chorou ainda mais e me deu um abraço apertado o qual eu retribuí acariciando suas costas para acalmá-la.
— Obrigada por me apoiar, Tora-chan. Você não imagina como eu estou feliz por alguém ter finalmente me compreendido. – disse em meio a soluços, foi nesse momento que eu percebi que ela estava chorando de felicidade e não de tristeza. Eu acabei me emocionando também e comecei a chorar, mas então eu comecei a sentir algo estranho, era como se Christa estivesse lentamente se transformando em névoa.
— O que está acontecendo, Onee-san? – perguntei meio desesperada e desfiz o abraço, quando a encarei percebi que ela estava ficando transparente.
— Agora eu entendo, Imoto-chan, eu estou finalmente me libertando. – respondeu e sua voz parecia distante.
— O quê?! Não, eu preciso de você, Onee-san! – exclamei em pânico, percebendo que ela estava indo embora, que sua alma havia entrado em estado de paz e que ela poderia seguir em frente.
— Você vai ficar bem, Imoto-chan. Você tem uma força fora do comum. Cuide bem do Subaru pra mim... – conforme ela ia falando sua voz ia ficando cada vez mais distante e ela ia sumindo ainda mais, tentei agarrá-la, mas só consegui uma queda. Christa me fitou e abriu o sorriso mais genuinamente feliz que eu jamais havia visto e, então, desapareceu por completo.
Encarei apática o lugar no qual ela se encontrava antes e minhas lágrimas ficaram cada vez mais abundantes até eu começar a chorar que nem uma criança, gritando e soluçando alto, pedindo desesperadamente para ela voltar.
Pela primeira vez no que me pareceu muito tempo eu estava sentindo a dor profunda e lancinante da perda. Era como se eu tivesse perdido minha mãe pela segunda vez.
Como eu poderia ser forte agora?
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