— Cadê o Ronald? — Kirstin perguntou na noite seguinte. Estávamos do lado de fora do prédio da medicina aguardando os alunos entrarem.

Fazia um frio da porra. Meus ossos estavam gelados por baixo da calça jeans. Na madrugada tinha nevado como eu tinha previsto e ainda agora ainda havia restos de neve lamacenta e suja nas sarjetas. A latina Kirstin tremia.

— Quero só ver sua cara quando olhar pra ele. — Eve respondeu, esfregando as mãos enluvadas, nuvens de vapor se formando com as palavras.

Do outro lado do gramado, agora queimado por conta da neve fora de época, vinha um grupo disperso de alunos em nossa direção. No meio se destacava uma figura alta de capuz.

— Acho que é ele vindo ali. — falei antes de Eve. Pareci ofegante. Minha respiração estava mesmo rasa e esquisita. Aquele mal-estar no estômago voltou, como uma azia.

Ele continuou a caminhar na nossa direção. O rosto queimado de frio e um gorro escuro enfiado até as orelhas, deixando escapar por baixo os cabelos vermelhos. Parecia estar com fones de ouvido, cantarolando alguma coisa, as mãos nos bolsos do casaco e a mochila em um só ombro.

Chegou até onde estávamos, tirando o fone e o gorro. Passou os dedos pelos cabelos despenteados e eles se arrumaram, como se por milagre, instantaneamente. Puta-que-pariu, tudo no cara era perfeito. Dedos, unhas e cabelos mágicos que não ficavam armados pela estática da lã.

— Oi. Oi. — falou olhando para mim e para minha irmã e entrou.

— Ca-ra-lho. — Kirstin falou assim depois de um tempo.

— Te falei. — Eve respondeu.

— Porra, mas não disse que o cara era “o” cara. Acho que ele é perfeito! Eu não vi nenhum defeito. Você viu? — a morena perguntou para mim.

— Ahn... — abri minha boca mas não concluí o raciocínio.

— Ele não tem defeito. Ele sequer tem sardas, quanto mais defeitos. — Eve continuou. — Agora chega. Vai pra sua aula de corte-e-costura que a gente tem coisas mais sérias pra estudar. Tchau, Kris. — Kirstin fazia economia, mas quem quer saber.

Subimos dois lances de escadas. Anatomia não seria no mesmo auditório da aula inaugural, até porque nem todos os calouros se inscreviam necessariamente nas mesmas classes. Foi um tiro no escuro esperarmos que o Ruivo fosse nosso colega nessa turma de anatomia também, mas parece que demos sorte.

Sorte?! Afinal o que eu estava pensando?

Na verdade que se foda se ele está ou não na nossa classe. Queria encontrar com ele só para mostrar pra Kirstin que ele é perfeito.

Ah! O que eu estou dizendo?! Só porque o cara é bonito e me faz, um loiro de olhos azuis de 1,89m de altura, criado a leite de vaca texana, ter vergonha de existir não quer dizer que ele é perfeito.

Puta-que-pariu, andar com essas garotas está me deixando viadinho.

Entramos na classe, que já estava quase completa. O professor ainda não tinha começado a aula, mas todos já tinham aberto seus notebooks ou estavam testando os gravadores. O Ruivo não estava sentado nem na frente, nem no fundo da sala. Ponto pra ele: não era nem um nerd, nem um filhinho de papai mimado.

Eve e eu nos sentamos no meio também. Eventualmente a gente teria que arranjar cada qual seu próprio grupo, mas enquanto isso, seguíamos no suportando.

A aula transcorreu num ritmo superior ao que eu conseguia acompanhar. Se isso era uma amostra do que nos esperava, eu teria de correr muito com meus estudos para não me perder. Para Eve não seria assim tão difícil, porque ela era a inteligente e eu o bonito, como sempre fiz questão de enfatizar.

Enquanto eu digitava com meus quatro dedos frenéticos, vez em quando ouvia um suspiro profundo vindo do meu lado.

— Qual foi, Eve. Você tá me atrapalhando! — sussurrei depois de outro suspirão que ela deu.

— Desculpe.

“Desculpe?” “Desculpe?” Quem era essa garota? Minha irmã tinha sido abduzida por aliens.

Quando saímos da aula de Anatomia em direção à próxima, encostei minha melancólica irmã gêmea na parede.

— Eve, você tá com problemas...

— Ele é tão lindo, Adam.... Eu juro, nunca tinha visto ninguém assim tão... Lindo...

Ahn, OK, agora era oficial: minha irmã precisava ser internada.

— Eve? Sério? Apaixonada por um cara que você só viu duas vezes? — olhava incrédulo para o rosto sonhador da senhorita sarcasmo.

— Você viu os olhos dele? Nunca tinha visto ninguém com os olhos daquele tom de azul, assim tão profundo. As rugas na testa quando ele está pensando são lindas... A boca dele se mexendo enquanto ele repete o que está escrevendo é linda. A bochecha rosada de bebê é linda. A pontinha da orelha vermelha é linda... Não tem nada nele que não seja lindo...

Meu rosto esquentava porque eu conseguia imaginar perfeitamente cada parte que ela descrevia como se estivesse vendo na minha frente.

Sacudi a cabeça.

— Chega, Eve. Vamos te curar desse mal. Ninguém é tão perfeito assim. Vamos achar um defeito nesse cara.

Fui puxando uma relutante loira pelo braço enquanto me encaminhava diretamente para a silhueta alta de cabelos vermelhos que estava parada perto de uma coluna digitando alguma coisa no celular.

Ele tinha a cabeça inclinada e estava de costas para nós, e os cabelos da nuca desciam como uma penugem loira pelo pescoço, se perdendo pela gola do casaco. Não sei por que isso me chamou atenção.

Toquei no seu ombro e quase no mesmo instante ele se virou para nós. Tinha as sobrancelhas erguidas, mas no segundo seguinte suavizou a expressão, abrindo um sorriso ofuscante e apertando seu olhos azuis. Colocou o celular no bolso.

— Oi. Eu sou Adam e essa é Eve.

Ele fez uma expressão curiosa.

— Não é sacanagem, nosso pais são engraçadinhos assim. — completei. As pessoas tinham sempre uma reação parecida quando nos apresentávamos juntos.

O ruivo começou a rir.

— Ok, bem, meu nome é Paul. Paul Blaylock. — esperava que fosse gago ou fanho. Não era o caso. A voz era uma carícia no ouvido.

— Blaylock? Diferente.

— É. Minha família também tem senso de humor. — até sua voz era perfeita. O timbre precisamente profundo e suave como um James Hetfield ruivo. Ele riu e foi como uma ordem direta no meu cerebelo para rir também. — Então, vocês são daqui de Nova Iorque?

— Ah, não. Somos do Texas.

— Cowboys...

— É... Mais ou menos isso. — que idiota. Como se todo texano fosse cowboy. Bola fora, senhor Blaylock.

— Não vocês. Quero dizer, Dallas Cowboys, o time de futebol.

— Oh, claro! — meu pai era dono do estádio, dã!

Só então notei que tinha uma calada Eve do meu lado. Insegura? Nah. Não minha irmã. Ela devia estar tendo um derrame cerebral ou afasia severa para não falar nada, nem um palavrão.

— Você é daqui. — a pergunta foi feita com tom de afirmação.

— Sou de Caldwell.

— É perto, não é? — perguntei. Não conhecia nada de Nova Iorque ainda.

— Uns quarenta minutos se muito.

— Ah, legal. — que anta. Toda minha capacidade de formular pensamentos coerentes estava meio comprometida. Eu sou meio retardado mesmo.

— Então... vocês têm Citologia I agora? — ele perguntou depois de um tempo enquanto eu olhava para sua cara tentando imaginar algo legal para falar.

— Não, Parasitologia I. — Eve respondeu antes de mim. Parece que havia finalmente encontrado sua voz.

— Ah, que pena. — fez Paul. — Então a gente se vê depois?

— É. — respondi.

— Ok, então. Tchau.

Ele se virou e Eve e eu só respondemos quando ele estava longe demais para ouvir.

— Ohhhh. Adam, acho que vou morrer... — Eve jogou os braços em volta do meu pescoço, apoiando seu 1,78 m em mim. — Ele é perfeito... Sua voz é tão maravilhosa que eu quase tive um orgasmo aqui.

— Ai, que nojo, garota. Eu quero lá saber das suas porcarias!

— Ah, vai se fuder, Adam.

— Por que você e a Kirstin não colocam isso numa camiseta, hein? — me desvencilhei dos braços pesados de Eve e fui para o corredor em busca da aula de Parasitologia.

***

Dia seguinte acordei menos mal-humorado. Dois motivos pra isso: um era que a previsão do tempo dizia que finalmente esquentaria dali a dois dias e a outra é que o treinador da equipe de remo decidiu que só haveria treino com temperaturas superiores a 12 graus célsius.

Excelente.

Hoje não tinha nenhuma vontade de me molhar. Calcei meus tênis e fui de moletom andando até a quadra de vôlei. Deixei pra trás um desacordado Japonês, que tinha ficado virado estudando não sei o quê. Porra, era o segundo dia de aulas!! Esse Japonês era muito estressado!

O treino de vôlei foi mais um teste para nivelar os atletas. Eu tinha tentado uma bolsa aqui em Colúmbia, mas não entrei, então sabia que os outros caras eram melhores que eu. Mas que se foda. Eu quero é bater bola sem essa frescura. O treinador tinha esse sonho de ver alguns de nós na olimpíada. Eu tinha o sonho de ele parar de falar e colocar a gente na quadra.

Aí alguém me pergunta: vôlei? Mah que merda...

Futebol americano é muito clichê. Meu pai é dono do estádio do Dallas, então eu certamente teria um lugar no time. O que só faria com que eu fosse massacrado pelos outros caras e não tivesse nenhum respeito. E os caras são ainda maiores que eu. E mais gordos. E eu não ia querer uma bunda cabeluda de um macho de 130 quilos sentada na minha cara.

E, realmente não sou chegado em basquete. Aqueles caras suados de 2,10 m de altura com seus sovacos cabeludos na altura do meu nariz. O encochamento por trás parece coisa de enrustido. Ser encochado por um cara com um pau de trinta centímetros não é meu sonho de infância, sabe. Então não. Tô fora do basquete.

Escolhi o vôlei porque é como tênis, só que jogado em equipe. Eu sou bom em trabalhar em equipe e sempre fui bom em tênis também. Só que tênis é muito cansativo. A gente corre o tempo todo atrás de uma bolinha que mal se vê. Acho o vôlei o equilíbrio perfeito entre velocidade e controle.

É, acho que daria um puta filósofo esportivo.

Mas agora tenho de me concentrar na medicina. Que não é minha paixão de forma alguma. Mas meu pai quer os dois filhos médicos. Nós só temos vinte e um anos e nenhuma independência financeira. Te digo que nenhuma grande força de vontade também. Pelo menos da minha parte.

Confesso que sou um feliz filhinho-de-papai. O sacrifício não é assim tão absurdo. E, em troca, tenho dinheiro, carro, e o que esses dois itens me conseguirem. Comi as maiores beldades do Texas antes dos 16. Moro numa mansão em Dallas e não faço ideia de quantos carros a gente tem à disposição.

A única coisa que meu pai quer em troca para bancar minhas festas, minhas garotas e pagar pela confusão que eu e Eve fazemos é que nós dois sejamos estudantes exemplares e, claro, que nos tornemos médicos.

Eve tira isso de letra. Como já disse, ela é o cérebro. Sempre foi.

Eu vou ter de correr atrás mais um pouco.

Além do diploma, papai quer alguma dignidade também. Então estamos sem carro aqui em Nova Iorque. A mesada encolheu e ele nos obrigou a trabalhar.

No começo Eve criou uma confusão do caralho por causa disso. Mas a convenci que meu pai sempre tem razão. Ele sempre tem. Pode ser um caipira que mal terminou o segundo grau, mas é dono de uma porra de um império, cacete! Alguma coisa ele sabe. A gente tem que dar o braço a torcer.

E, que a Eve não me ouça, mas se eu conseguir ser metade do homem que ele é, já morreria feliz.

E, tá, confesso que amo meu pai e quero que ele me respeite como homem. E que não é só pelo dinheiro da sua herança que estou aqui na Colúmbia. Eu quero que ele se orgulhe de mim.

***

Depois de duas horas eu estava exausto. Abaixei a cabeça pendente nos ombros, apoiando as mãos nos joelhos para respirar melhor. Acho que suei uns quatro litros. Os caras do time são realmente bons. Tenho que me esforçar para acompanhar o ritmo, senão estou fudido.

Fui para o chuveiro ao final do treino. Aqui em Nova Iorque eu não sou ninguém, portanto, nada de tapinha nas costas e “Valeu, campeão” pra mim. Apertei a mão de alguns caras. “Bom jogo”, disse. E foi verdade.

Ainda não comecei a remar, mas se for puxado assim acho que vou ter de escolher entre um dos dois esportes, porque tá foda.

Depois do banho fui direto para meu dormitório. É claro que o Japonês já estava acordado. Eram oito e meia da manhã, ele não tinha mais nada pra fazer a não ser as aulas do dia e já estava com a porra da cara metida num livro. Caralho, esse cara precisa aprender a relaxar!

— Aê, Japa. Beleza? — joguei a mochila do treino no canto. Tinha de lembrar de levar aquela roupa pra lavar ainda hoje senão iria apodrecer misturando a inhaca de chulé com suor azedo, e... Bem, dá para imaginar o cheiro.

Ele não era de falar muito. E desconfio que ele não gostasse muito de mim.

Cara, eu preciso me organizar senão esses anos serão um fiasco, pensei parado no meio do quarto com as mãos nos quadris.