— Você quer dar pra ele? Oh! Quem não quer, Eve? — Kirstin soltava suas sentenças olhando para uma Eve apática que estava jogada sob as cobertas num sábado nublado de setembro. — Até o Adam quer dar pra ele!

— Ei! Sua escrota! — eu respondi. Não sei por que sempre sobrava pra mim.

Kirstin começou a rir com o pincel do delineador na mão. Ela estava no banheiro terminando de se arrumar para sair.

— Tá, Adam, até pode ser que você especificamente não queira dar pra ele, mas tem um monte de coleguinhas seus lá da medicina que estão a essa hora suspirando como a Eve abraçando seus travesseiros cor-de-rosa.

— Essa paixonite é séria? — perguntei, porque até eu estava impressionado com Eve.

— Ah, vocês dois, vão pro inferno! Me deixem em paz!! — e se agarrou ainda mais com o travesseiro rosa, virando-se para a parede.

Eu estava sentado na beirada da cama da Eve, meus cotovelos apoiados nos joelhos. Meu quarto era muito silencioso com aquele japonês emburrado que só sabia estudar. O cara nunca aceitou um convite meu para sair e tomar umas cervejas, também nunca me convidou para nada. Ele estava claramente colocando um muro entre a gente. Assim era até melhor. Ele fazia com que não houvesse a necessidade de sermos amigos só porque morávamos juntos. Japonês cuzão.

A cama de mola estava sacudindo?

— Eve?! — abracei minha irmã que soluçava contra a parede. — Eve, gatinha... Você tá chorando?

— Que inferno, Adam, o que você acha? — ela respondeu chorosa.

Kirstin parou o que fazia no banheiro e veio até a cama, colocando a mão no ombro da minha irmã.

— Desculpa, amiga... Estava brincando...

— Não é isso... Não é só esse cara... — Eve fungou e fez um bico, virando seu rosto vermelho para nós — Acho que estou com saudade da minha casa...

A abracei. Não sabia se ria ou levava a sério.

Minha irmã toda sentimental? Era só o que faltava!

Fiquei afagando suas costas dela enquanto ela se apoiava em mim e parava de chorar. Eu também estava com saudades de casa. Talvez por isso não tivesse sacaneando tanto quanto Eve merecia. Queria voltara para meu quarto em Dallas depois das aulas. Pegar um carro e encontrar com meus amigos para umas cervejas. Queria o calor que estava fazendo em Dallas a essa altura e não ficar aqui preso no campus com esse tempo bunda. Meu cachorro estava em Dallas, meu carro, meus amigos, minha ex. O recesso de dezembro parecia longe demais.

— Escuta, fim de semana que vem a gente vai visitar nossos pais. Que tal? — disse contra sua cabeça loira. Ela assentiu. — Por que você não vai lavar o rosto e passar uma massa corrida nessa sua cara feia e a gente sai? Cê tá precisando de álcool. É sério.

Eve concordou de novo. Depois de um minuto levantou e foi para o banheiro. Kirstin tinha terminado o ritual da pintura de guerra e escolhia um sapato no seu pequeno armário.

— Você vai com a gente? — perguntei para a morena.

— Nah. O pessoal da economia, muito mais locos que vocês, nerds da medicina, vai fazer uma festa com a Kappa Nu (fraternidade de garotas da Universidade de Colúmbia). Eu quero e vou entrar nessa porra, por isso estou indo pra lá ver o que arranjo.

— Tá levando camisinha? — perguntei.

— Sempre, meu caro. — Kirstin respondeu passando o gloss com o dedinho.

— Pra quê?

— Ah, vai se fuder, Adam! — ela falou sorrindo. — Tudo o que você quer é ser o primeiro a experimentar meu gloss de cereja da Victoria’s Secret.

Levantei e fui até ela. Dei o sorriso de lado, que a minha ex me confessou que era irresistível. E parei, praticamente colando meu peito no dela. Kirstin teve de levantar o rosto para olhar para mim e estava entre um sorriso de escárnio e a surpresa. Continuei andando. Ela andou para trás até encostar na parede. Apoiei meu braço do lado da sua cabeça e abaixei a minha para olhar dentro dos olhos escuros e duvidosos.

— Eu gosto muito de cereja... — segurei o queixo de Kirstin e puxei seu rosto mais para perto. A garota fechou os olhos e abriu os lábios.

Passei minha língua no gloss brilhante da sua boca e ela ofegou.

Então me afastei. E voltei pra cama.

Ela abriu os olhos e me fuzilou com o olhar.

— Você é um escroto! — disse trincando os dentes. Pegou sua bolsa e saiu batendo a porta.

Não entendi nada e fui atrás. Achei que ela tinha mais senso de humor. A loca saía como um foguete pelo corredor.

— Kirstin!! Ei, Kris!! Você não levo à sério, levou? Foi brincadeira!! — gritei para sua figura furiosa.

Ela se virou e estendeu o dedo médio para mim.

***

— Acho que ele não mora no campus. — Eve falou depois de um tempão calada.

Estávamos em um pub próximo aos dormitórios. Era início de noite e o bar estava lotado de estudantes sedentos pelo final de semana. Aqui dentro era abafado, ninguém tinha paciência de tirar o casaco, então ficava aquela morrinha mofada misturada com cheiro de cerveja velha. O chão era grudento de bebida derramada e sei lá o que mais. O pub era perfeito.

— Hum? — Blaylock. Eu sabia quem era. Mas parecia muito esquisito que eu também estivesse pensando sobre o cara, então fingi que pensava em outra coisa. — Quem?

— Paul. Nunca o vi passeando pelo campus.

— Também pra quê, Eve. Ele mora em Caldwell. É meio perto daqui. Não tem necessidade de se mudar para o campus.

— Ele tem sorte... Pode ficar com a família por perto...

— Que melação é essa de família agora, Eve. Nem parece você.

— Não é melação. É que, ás vezes, só bem de vez em quando, eu preciso da minha mãe.

Ficamos calados bebericando a Corona no gargalo.

— Você gosta mesmo dele?

— Paul? — ela suspirou — Sei lá. Ele é estranho. Quando ele entra na sala parece que não dá para prestar atenção em mais nada.

— É... — falei mais pra mim do que pra ela. — E isso é ruim por quê?...

— Não é ruim. Mas eu também me sinto insegura, como se ele fosse de uma outra espécie. Meio superior, sabe?

— Eve insegura? Corta essa! — dei o último gole na garrafa — Acho que você precisa encontrar mais com o cara pra ver que ele é tão normal como você e eu.

— Mas eu encontro bastante com ele. Ele sempre vai até a biblioteca e fala comigo.

Olhei para ela com o cenho franzindo. Ela nunca tinha comentado nada disso. E nós conversávamos tudo. Era meio esquisito.

— Ele conversa com você? — perguntei incrédulo. Ela balançou a cabeça.

— Sempre. E ele é tão, tão inteligente. Ele sabe de tudo. Ele se veste como um príncipe. E ele ri de um jeito discreto, assim, com os lábios fechados.

— Ele nunca conversou comigo. — disse.

— Ele nunca foi ao café?

— Não no meu turno.

— Vai ver ele gosta mais de mim. — ela disse, terminando de beber sua cerveja também.

Fiquei irritado. De repente a ideia dele indo todos os dias até a biblioteca e ficando de conversa com minha irmã era irritante. Ele ser mais amigo dela do que meu era irritante. O sorriso de boca fechada só para ela era irritante.

— Vou pegar mais cerveja. — levantei e fui para o balcão.

***

Estava girando minha caneta nos dedos a dez minutos. Era fim de noite, eu tinha voltado da aula pelo menos uma hora e meia e estava, desde então, debruçado no atlas de medicina decorando cada parte de cada órgão do sistema digestivo. Aqueles intestinos pintados à aquarela se embaralhavam na minha frente.

Encostei no espaldar da cadeira giratória e apertei a ponte do nariz com os dedos. À minha esquerda o Japonês desenvolvia uma equação em umas três folhas. E ele não parecia tão cansado como eu.

— Tu não gosta muito de mim, né, Japonês?

Ele levantou os olhos e franziu as sobrancelhas. Em seguida abaixou a cabeça e voltou a olhar para seu trabalho. Mas o lápis ficou suspenso sem encostar no papel. Quando eu ia levantar e tentar dormir o Japonês falou.

— Gosto.

Olhei pra ele surpreso. Ele não falava nunca, a não ser bom dia ou boa noite quando eu cumprimentava primeiro.

— Você é o único que não desiste de falar comigo. — caramba! Que progresso!! Uma frase inteira.

Cheguei mais perto arrastando a cadeira. O cara ficou vermelho como um pimentão e não levantou mais o rosto.

— Ninguém mais fala com você? Nem seus amigos japas?

Ele balançou a cabeça para os lados.

— Por quê?

Ele balançou a cabeça de novo. E pareceu ser com um grande esforço que respondeu.

— Não sou muito bom com as pessoas.

Fiquei batendo com a unha do indicador na ponta do dente. É realmente isso explicava muita coisa.

— Você não tem muitos amigo, né? — ao que ele negou com a cabeça. Sempre podia negar com a cabeça ele fazia. — Você tem algum amigo? — ele hesitou, então negou com a cabeça. — Japa, você tá fudido, porque agora eu vou ser seu amigo, quer você queira ou não.

Ele deu um pequeno sorriso de lábios fechados, corando e voltando a olhar para suas folhas empilhadas organizadamente no seu lado da bancada, enquanto o meu lado parecia uma praça de guerra.

O sorriso me lembrou imediatamente a maneira que Blaylock sorria.

— Japonês, levanta. Olha pra minha cara. — no dia seguinte estava tentando treinar o Yuuko para ser menos esquisito.

— Mitsuo. — ele disse. Estava de pé à minha frente e assim ereto era quase da minha altura.

— Quê?

— Mitsuo é meu nome.

— Seu nome não é Yuuko?

— Yuuko Mitsuo. Yuuko é o nome da família. — ele respondeu. Já eram dois diálogos desde ontem.

— Significa alguma coisa? — perguntei. — Escuta, deixa eu escolher alguma coisa pra você vestir hoje, ok? Aqui na América a gente não vai pra faculdade de calça social e pulôver. — a não ser o Blaylock e ele ficava muito, muito bem de pulôver, pensei.

— Sim.

— Que tal essa calça jeans. A única... — peguei uma calça de corte tradicional e poucas lavagens. O Japonês precisava comprar umas roupas novas, menos formais.

— Tem sim.

— Quê? — voltei para ele. — Tem o quê?

— Significado. — ah, o nome...

— E o que significa.

Se possível ele parecia ainda mais envergonhado do que há dois minutos atrás. Suas orelhas como dois tomates.

— Fala, cara. Nada pode ser pior do que se chamar Adam com uma irmã Eve. Fui motivo de piada minha vida inteira por causa disso.

— Yuuko é “filho superior” e Mitsuo “homem brilhante”. — ele disse sem olhar para mim.

Assobiei.

— Uau, seus pais esperam bastante de você, hein?

Ele deu de ombros.

Eu imaginei a pressão na cabeça do Japonês. Esse pessoal do outro lado do pacífico levava as coisas muito à sério. Ele, com certeza, era cobrado pelos pais para ser o melhor em tudo. Aquele nome dizia muito sobre o que seus velhos esperavam.

Coitado do cara.

— Hoje a gente vai beber, Mitsuo.

Ele sorriu tímido.

— Pode me chamar de Japonês.