Amante Inalcançável - Ian
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Mais uma fic sobre a Irmandade da Adaga Negra com o meu personagem mais amado, o lindo ruivo Blaylock.
Acho uma pena ele ser coadjuvante. Ele merece um livro só pra ele. E é por causa do meu amor incondicional por esse futuro guerreiro que a inspiração sempre vem e ele sempre é o ator principal.
Espero que gostem!!
Boa leitura!
Tilda
Meus dedos estão gelados. Gelados e duros de frio. Lá fora está fazendo uma temperatura incomum para setembro e aqui dentro desse auditório alguém se esqueceu de ligar a calefação. E eu estou usando só um moletom por cima de uma camisa de malha escrita “Milles Away” com o Milles Davis, seu cabelo bagunçado e seu trompete.
Minha irmã fala que eu reclamo demais. E é verdade, mas, porra, já temos o estresse dessa aula inaugural, ainda por cima passando esse frio sem sentido? Nem tirei meu casaco, só abri o zíper. Eve não pode reclamar da minha reclamação porque ela também não tirou o sobretudo ou o gorro.
— É. Você tem razão. Tá frio prá caralho aqui dentro. — ela disse. Os lábios roxos.
Era pior ficar aqui dentro que lá fora.
Estávamos os dois sentados num auditório gigantesco, a capacidade devia ser para umas 300 pessoas. Em volta outros calouros tão assustados como nós. A expectativa tão óbvia em seus rostos como nos nossos.
Eve e eu havíamos nos mudado, cada um para seu dormitório, há uma semana. Ainda não tínhamos nenhum amigo que não fossemos nós ou nossos colegas de quarto. Não era muito, mas se o objetivo era cursar medicina em uma das oito da Ivy League, precisávamos nos focar principalmente em estudar.
Medicina na Colúmbia não seria um passeio no parque, mas meus pais faziam questão que nos formássemos em uma das oito melhores do país. Escolhemos Columbia para ficarmos em Nova Iorque. Se bem que Harvard era uma opção muito tentadora. Pena que ficava em Massachusetts... E nós dois queríamos especificamente Nova Iorque.
Massachusetts não rolava.
Poderíamos ter ido para Princeton ou Cornell também. Meu pai pagaria. Mas foi meio de comum acordo entre nós dois que ficaríamos na Universidade de Colúmbia afinal.
Eve balançava o lápis entre os dedos. Só ela para trazer um caderno. Ela era old school pra caralho. Suspirei e abri meu notebook.
Nada das lendas sobre gêmeos compartilharem pensamentos e terem uma afinidade especial um em relação ao outro era verdade. Ela e eu não compartilhávamos nada em comum. Nossos gostos eram completamente diversos. Nossos interesses também. Mas éramos muito cúmplices. Sempre fôramos. Minha mãe nos apelidava de “dupla do inferno” porque no final de cada merda que a gente aprontava, nenhum delatava o outro. Os dois iríamos pro castigo juntos, mas entregar o irmão jamais.
— Adam... Acho que morri e fui pro céu... — ah, esqueci de contar, meus pais, em sua infinita sabedoria, leia-se bad-trip hippie de maconha, resolveram nos dar esses nomes incríveis de Adam e Eve. Eles são tão engraçados... — Puta-que-pariu, esse é o cara mais gato que eu já vi na minha vida!
Posso quase afirmar que a atmosfera do auditório todo se esquentou um pouquinho. De repente foi como se todas as pessoas estivessem sendo sugadas para um ponto só. Juro que vi os pares de olhos se focando no meio da escada. Acompanhei o olhar da minha irmã, que, de boca aberta, mal piscava.
Um cara fechou a porta silenciosamente e vinha descendo as escadas para se sentar nas cadeiras do meio. Ele caminhava calmamente e meio distraído. Sequer notou que todos o olhavam. E não havia motivo mesmo para essa comoção à primeira vista, afinal ele não tinha duas cabeças, ou um chifre azul no meio da testa, mas causava um impacto tão sólido que era como se tivesse.
O cara era realmente alto. Se não tinha 2 metros, estava muito perto disso. Usava um sobretudo de corte impecável Empório Armani. Levava um finíssimo MacBook Air de 13 polegadas sob o braço e uma mochila nas costas.
Não eram suas roupas que chamavam atenção tampouco, ou o fato do cara obviamente ter dinheiro sobrando. Até porque naquela classe se contavam nos dedos de uma só mão quem não era rico. Quando eu digo rico, eu quero dizer realmente rico. Eve e eu éramos ricos. Pais texanos donos de poços de extração de petróleo, dentre outras coisas. Éramos ricos mesmo. E meu pai, para tentar perder a caipirice, queria, como todo caipira, que nós dois fôssemos educados nas melhores escolas. Sequer parecíamos habitar o mesmo planeta: ele e nós.
Voltando ao cara. Ok, ele era rico. Nem eu tinha ainda trocado meu MacBook pelo Air, mais por comodidade para não ter que fazer a transferência de arquivos e as configurações, do que pelo preço abusivo dos eletrônicos Mac. E repito, não era isso que atraía os cento e tantos pares de olhos no auditório. O cara era bonito.
Bonito prá caralho.
Assim descrevendo, não dá para se ter ideia, mas era daquelas pessoas que te dão vergonha de existir só por estarem presentes no mesmo ambiente. Eu sou bonito. Me achava muito bonito. Agora tenho cá minhas inseguranças.
Enfim, o cara era ruivo. Um ruivo de 2 metros de altura já não é muito discreto. E ele não era aqueles ruivos aloirados não, seus cabelos, sobrancelhas e cílios eram de um tom vermelho acastanhado inconfundível e diferente de qualquer outro ruivo que eu já tenha visto antes. O mais impressionante era que o cara não tinha sardas. Nada de sardas. As bochechas tão imaculadamente rosadas como um bebê.
Ele seguiu descendo as escadas, indiferente à comoção. Eu olhei para o lado e não só Eve continuava bebendo cada movimento do cara, como também todas as pessoas nas quais eu pousava meus olhos. Elas não eram nem discretas, pelamordedeus.
Sentou-se, pousando a mochila no chão ao seu lado e desencaixando os braços do sobretudo. Por baixo estava vestido com uma camisa Burberry de listras e um pulôver de caxemira azul marinho. Suas pernas eram longas demais para o espaço à frente. A carteira parecia aquelas cadeirinhas de jardim de infância, mas ele continuava elegante, ligando o MacBook, atento à tela à sua frente.
O diretor da faculdade de medicina entrou por uma porta atrás do púlpito. Imediatamente os alunos viraram-se para frente. Eve tocou no meu braço para que eu prestasse atenção.
Antes de me voltar para o careca que se apresentava lá em baixo, dei uma última olhada para o lado. Nesse momento o ruivo levantou o rosto e olhou diretamente para mim. Seus olhos eram azuis escuros, da cor do oceano Índigo. Ele acenou com a cabeça e deu um leve sorriso.
Não sei por que, corei e virei para frente imediatamente.
***
E... Não me lembro de nada da aula inaugural. Só lembro de que Eve estalou os dedos na frente do meu rosto.
— Adam. Oi! — ela bufou. — Ah, foda-se. Se você vai ficar aí eu vou para meu dormitório pra separar meus livros pras classes de amanhã.
— Não, eu vou. — levantei acordando.
Os outros alunos se encaminhavam para fora. Ninguém se falava direito. Também ninguém se conhecia ainda. Lá na frente, já do lado de fora do auditório, uma cabeça vermelha se destacava. Tenho certeza de que não era só eu quem era consciente daquela presença.
Eve me acompanhou até a entrada do prédio, em seguida se virou para a esquerda, seguindo o caminho das calçadas para seu dormitório. Ela não se despediu. Como sempre. Eve era a rabugenta e desbocada, grossa e impaciente. Eu sou a Eve com um filtro para ocasiões sociais, não tão impaciente nem tão rabugento. Grosso e desbocado acho que empato com ela. Empato porque ninguém no planeta é tão grosso e tão desbocado como Eve.
Fui sozinho para meu dormitório, enfrentando aqueles 9 graus loucos e um ventinho cortante que entrava pela gola. Estava com cara de que ia nevar essa noite. Neve em setembro era o que faltava.
Subi as escadas me arrastando. Essas aulas noturnas iriam me matar. Eu teria de acordar às cinco para treinar remo e vôlei, depois ainda tinha um emprego besta de meio período na cafeteria. Não sei por que meu pai insistiu nessa besteira. Eu não precisava de dinheiro além do que ele me dava. Ele veio com essa estória de trabalho e dignidade que para mim era uma balela de caipira texano. Mas enfim, ele era o dono da grana. Enquanto quisesse receber minha mesada seguiria fazendo o que ele pedia. Eve, com aquela simpatia que lhe era peculiar, trabalhava na biblioteca, onde poderia descarregar seu mau-humor nos outros estudantes.
Agora era uma daquelas horas em que eu agradecia pelo fato do meu companheiro de quarto não ser viado. Sério, eu rezei muito antes de entrar nesse quarto pela primeira vez para que meu colega não fosse uma biba transloucada que não me deixasse em paz com sua afetação. Mas alguém lá em cima me ouviu e meu colega era um japonês. Yuuko San, mas eu o chamava de Japonês. Ele sequer olhava para cima, muito menos reclamava do fato de Eve e eu o chamarmos de Japonês.
— Oi Japa. — falei quando entrei e o encontrei sentado em um dos lados da escrivaninha, com aquela coluna curvada de japonês que estuda demais. Ele acenou com a cabeça sem levantar os olhos.
Fui até minha cama de solteiro, que era um arremedo da cama gigante que eu tinha na minha casa no Texas, e me joguei em cima do lençol. Abri a boca para perguntar alguma besteira só para importunar o Japonês, mas me calei. Estava sem ânimo para tirar a concentração do cara, que parecia tão interessado num tratado sobre cálculo, que mal respirava.
Lembrei do ruivo na aula inaugural do curso de medicina e do olhar direto que ele me deu. E do sorriso. E meu estômago se revolveu de uma maneira esquisita. Fechei os olhos com força até estrelinhas se formarem por trás da minha cabeça. Mesmo assim conseguia contar até os cílios do cara na minha mente.
Pulei da cama novamente no chão.
— Tô saindo, Japa. Quer alguma coisa? — falei pegando de volta meu casaco frio no cabide. Ele sacudiu a cabeça para os lados.
— Vou no dormitório da Eve... Tem certeza de que não quer mandar nenhum recado? — estava provocando o cara. Era só mencionar minha irmã que o Japonês ficava vermelho como um tomate. — Ó, cê tá perdendo tempo, cara...
Saí rindo. Tava na cara que ele ficou de quatro pela Eve assim que a viu a primeira vez me ajudando a trazer minhas coisas para cima. Ela e toda sua exuberância verborrágica, seus palavrões cabeludos e sua carranca, devia ser pra ele como um bicho exótico perto da polidez, recato e educação das japonesas. E a cara saudável de garota do Texas, seus longos cabelos loiros, os olhos azuis turquesa a tornaram irresistível pro Japa. Eve tinha as maçãs do rosto eternamente vermelhas, os dentes muito certos e muito brancos como os meus. Somos muito parecidos. É inegável que somos irmãos. É inegável que somos gêmeos.
Não me importei em bater na sua porta. Se a latina gostosa que era sua colega de quarto estivesse pelada tanto melhor.
Nah. Estava sentada na cama pintando as unhas do pé.
Eve encontrava-se deitada de costas na outra cama na mesma posição em que eu estivera há quinze minutos atrás no meu próprio quarto.
— Oi Tina. — falei para a garota cujo nome era Kirstin.
— Vai se fuder, Adam. — ela respondeu sem levantar os olhos do que estava fazendo.
— Mamasita esta bien? — perguntei em espanhol.
— Tendrá en el culo, maricon. Ahora en español, vale? — ela respondeu com a mesma calma.
— Claro, flor del desierto.
— Eu sou de Boston, seu caipira.
— Ainda vou casar contigo, sabia? — falei enquanto me sentava na cama de Eve, que parecia não ter tomado conhecimento da minha suave conversa com Kirstin.
— Eu não mereço esse castigo. — Kirstin respondeu sem me olhar.
— Quem desdenha quer comprar, você sabe.
Ela revirou os olhos com o pincel em uma mão e o vidrinho na outra.
— Sem querer me tornar repetitiva: vai se fuder.
Dei um sorriso e me voltei para Eve, que parecia longe dali olhando para o teto. Deitei ao seu lado, empurrando seu corpo com meu ombro.
— Caralho, Adam. Parece que você só aparece pra azucrinar a mente das pessoas! O que você quer?
— Azucrinar sua mente, ora. — puxei Eve para deitar-se sobre meu ombro, o que ela fez imediatamente, se aconchegando mais a mim. — Por que você tá com essa cara de bosta? Digo, essa cara de bosta mais escrota do que sempre?
— Kristin? — Eve pediu.
— Vai se foder, Adam. — Kirstin falou numa voz automática.
Nós conhecemos essa garota de Boston no dia da mudança de Eve. Ela parecia tão frágil com seus 1,60 m, grandes olhos castanhos amendoados de cílio longos como o rio Nilo, rosto redondo e moreno e seus cabelos escuros presos em um rabo de cavalo. Mas era uma de nós: grossa como uma lixa e dura como uma pedra. Nos amamos à primeira vista.
— É sério, Eve. Fala pra mim. Cê parece tão distante. Até melancólica, se é que você sabe o que isso significa. — acariciava seus cabelos claros macios.
— Ela tá apaixonada. — Kirstin falou e depois soprou o esmalte verde do seu dedão.
Olhei pra minha irmã rindo. Ela ficou ainda mais emburrada.
— É sério? Hahahaha Quem é o infeliz? — Eve cruzou os braços, deitando-se novamente de costas.
— O ruivo. — Kirstin falou fechando a tampinha do vidro de China Glaze.
O olho azul Índigo de cílios vermelhos apareceu na minha frente. E seu sorriso discreto, sem mostrar os dentes também. Mais uma vez meu estômago se revirou estranho.
— Ah, cala a boca, Kirstin. — Eve respondeu.
— Acho que amanhã vou à aula de anatomia de vocês pra conhecer esse cara. Ela não parou de falar nele desde chegou aqui. Ficou suspirando como uma retardada. — Kirstin continuou.
— Não fiquei, não. — Eve retrucou. Eu deveria estar achando divertido, mas me sentia meio estranho, meio febril.
— Ah, ficou sim. Está afim do Ronald MacDonald.
Nem eu nem Eve aguentamos. Começamos a gargalhar histericamente. As lágrimas rolavam pelas nossas bochechas os soluços sacudiam a cama. Kirstin também ria da sua própria piada.
E a última coisa que aquele cara parecia era com o Ronald MacDonald.
Notas finais
Imagina cruzar com um espetáculo como esse ruivo perfeito pela rua?
Só nos meus sonhos...
Deixem reviews!!
Beijos,
Tilda
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