Notas iniciais
Gente, acho que esse é o penúltimo capítulo da fic.

(snif, snif, snif...)

Minhas amigas leitoras me divertem demais com as teorias! Adoro lê-las!! Continuem, plis!!

Enfim, esse cap tem um troço que eu pensei depois de ter começado a descrever os personagens e achei que Mitsuo merecia mais atenção do que eu estava dando. Espero que gostem!!

Divirtam-se!

Faltavam vinte minutos para os primeiros raios de Sol aparecerem no leste quando Blaylock abriu a porta de seu quarto com cuidado. Tão bom a mansão ser constantemente mantida impecável pelo grupo de doggens dedicados e a porta não emitir nem um mísero ruído... Nem mesmo a maçaneta clicou.

Usando seu dom natural de se manter silencioso, o ruivo entrou no quarto.

Apesar de todo cuidado, a primeira coisa que viu foi Qhuinn sentado recostado na cabeceira da cama, vestido com uma camiseta velha do AC/DC e uma cueca boxer preta. As canelas cruzadas, o controle remoto no colo enquanto a TV estava ligada. Ele olhou ansioso para Blay. Não parecia aborrecido, ou puto, ou decepcionado. Só ansioso e preocupado.

— Oi. — Blay disse assim que parou no meio do quarto.

— Oi. — Qhuinn respondeu. — Tudo bem?

Blay balançou a cabeça.

— Tudo.

Qhuinn não precisava dizer que tinha ficado a madrugada inteira esperando por Blay, ou por alguma notícia, que estava preocupado e surpreso por Blay ter ido caçar ao invés de estar na faculdade. Blaylock sabia tudo o que o outro tinha em mente. Não podia ler, mas conseguia sentir.

— Vou tomar um banho. — o ruivo apontou com o polegar por cima do ombro para o banheiro.

Qhuinn concordou com a cabeça e voltou a olhar para a TV.

Assim que o outro se trancou no banheiro, Quinn virou o rosto, tentando segurar as lágrimas que esquentavam seus olhos por dentro. Por baixo de todo o sangue preto que cobria o rosto e o corpo de Blaylock, tornando o fedor no quarto quase insuportável, era inconfundível o cheiro do loiro Adam da faculdade de Blay. E um cheiro tão forte e persistente como aquele só era possível de uma maneira: sexo.

Mas não foi isso que trouxe as lágrimas aos olhos de Qhuinn e sim a culpa acre que ele cheirava em Blay. Era como amoníaco queimando o nariz. Era forte e triste. Seu amado estava decepcionado e arrasado. Era muito dolorido ver Blay infeliz, mesmo que a responsabilidade não fosse sua. Era muito pior vê-lo arrazado quando se culpava tanto pelas merdas que certamente tinha feito.

Sabia que era assim que Blay se sentiu durante muito tempo por sua culpa, por culpa da sua imensa estupidez e teimosia. E nem todo amor que pudesse dar para o ruivo poderia apagar o quanto o tinha feito sofrer.

A primeira coisa que prometeu a si mesmo quando os dois finalmente ficaram juntos foi que Blaylock jamais sofreria novamente.

Não ia levantar-se, marchando em direção ao banheiro, exigindo saber como o cheiro da liberação de Adam estava em Blay, porque, ora, é claro que ele sabia. Só havia uma maneira disso acontecer e essa maneira envolvia beijos, suor, esfregação. As imagens de Blay e Adam juntos já se formavam na sua cabeça.

Qhuinn virou-se de bruços, afundando o rosto no travesseiro, abafando uns soluços insistentes que não conseguiram ser segurados.

Blay iria sair do banheiro dali a pouco e então o que iria acontecer? O que iria falar? Mais uma vez não tinha nenhum plano. Todos ficaram do lado de fora quando ele decidiu dar o braço à torcer e assumir seu amor pelo ruivo. Ele estava mais desarmado do que nunca esteve na sua vida inteira. E isso tinha parecido ser uma boa ideia no inicio. Agora não era mais.

Suspirou e fechou os olhos.

Quando o peso do guerreiro deitando-se ao seu lado o acordasse decidiria o que fazer.

Qhuinn acordou novamente e ao seu lado só o espaço frio e vazio onde deveria haver a montanha de músculos quente e cheirosa; pele branca e cabelos vermelhos.

Levantou-se imediatamente, o coração batendo a mil por hora. Olhou no celular na cabeceira: oito da manhã.

Blaylock não dormiu comigo

Como um mariquinha Qhuinn soluçou e pulou da cama. O que quer que tivesse acontecendo não podia ser manejado assim. Ele, pelo menos, queria uma conversa que fosse. Ele achava que, pelo menos, merecia uma conversa que fosse.

Entrou na sua suíte para lavar o rosto, se vestir a sair à procura de Blay, mas não foi muito longe.

A arandela da pia ainda estava acesa. O banheiro todo à meia luz amarelada. Na banheira, deitado, dormindo, estava Blay. A cabeça encostada na parede de trás, os dedos ainda se agarrando nas bordas.

Qhuinn ajoelhou-se ao lado. Blaylock havia adormecido há muito tempo, sem nem ter conseguido se lavar propriamente, pois ainda havia o negro viscoso do sangue dos redutores nas suas unhas, no seu pescoço, no seu cabelo. Os lábios e os dedos estavam azulados.

Alarmado, Qhuinn colocou a mão na água e a retirou imediatamente: congelando de tão fria!

Como você pode estar aqui? Seu idiota! Você quer virar um picolé?

Com todo carinho, Qhuinn passou o dorso dos dedos suavemente pelo rosto sujo de Blay, que abriu seus lindos olhos de safira e fixou-os em Qhuinn.

— Essa banheira está gelada, Blay. Você não pode ficar aqui. — sussurrou sem deixar de acarinhar o rosto lindo do ruivo.

Blaylock acenou com a cabeça, se apoiando nas bordas para levantar.

— Espere. — Qhuinn disse a um nu Blay, em pé na sua frente, quando ele ameaçou colocar uma perna pra fora. — Deixa eu cuidar de você um pouquinho também.

Em seguida mergulhou quase o braço todo na água fria para alcançar a tampa do ralo. A banheira foi esvaziando-se. O redemoinho de água suja hipnotizando os dois, que olhavam para aquilo, sem saber mais pra onde olhar.

Blay permanecia parado e calado onde estava: em pé dentro da banheira. Qhuinn abriu novamente as torneiras quando a ela terminou de se esvaziar.

Em pouco tempo água quente enchia a louça.

— Entre na água, Blay. — Qhuinn ordenou. Blay obedeceu sem reclamar.

De cima do armário, retirou uma toalha de rosto branca e ajoelhou-se ao lado da banheira novamente.

— Me dá sua mão. — disse ao ruivo, que o observava. Blaylock esticou a linda mão, com seus lindos e longos dedos sujos para Qhuinn.

O macho passou a toalha morna, suave, pela pele de Blay, molhando-a novamente na água, voltando a alisá-la até sentí-la imaculadamente branca e limpa. Virou a palma da mão para cima, dedicando o mesmo cuidado que ao dorso. Em seguida subiu para o braço e o ombro, muito atento ao que estava fazendo.

Blaylock acompanhava os movimentos de Qhuinn, querendo tocá-lo, querendo morrer de culpa, querendo um perdão que tinha vergonha demais para pedir. Então permaneceu deixando-se ser cuidado antes que aquela carícia virasse um tapa e Qhuinn batesse a porta do quarto dos dois pra sempre.

Ignorando os pensamentos de Blay, Qhuinn passou para o outro braço, sentando-se sobre a beirada da banheira, ficando bem mais próximo de Blay. A respiração perfumada do ruivo chegava muito mais facilmente ao seu nariz. Teve que ordenar para seu pinto que ele continuasse ali adormecido.

Assim que terminou o outro braço, seguiu para o pescoço. Blay fechou os olhos quando sentiu a toalha passando pela sua jugular, fazendo o caminho que Qhuinn tantas vezes tinha feito com a ponta do nariz, com o agudo das presas.

Continuou de olhos fechados quando a toalha seguiu seu rumo para cima, sobre seu rosto, como carícias. Como beijos.

Eram beijos.

Qhuinn beijava-lhe o rosto e os olhos.

Os dois se olharam intensamente.

— Amo você. — o moreno disse bem baixo, encarando longamente os olhos de oceano de Blay.

— Amo você demais. — Blay respondeu sério. — Entra aqui pra eu poder te abraçar um pouquinho. — pediu quase chorando.

Qhuinn ficou de pé o tempo suficiente para tirar a camiseta e a cueca, em seguida entrou na banheira pequena demais para dois corpos tão grandes.

Blay aconchegou-o ao seu enorme peito. E Qhuinn cabia ali com perfeição.

Passou os braçou em volta do tronco do ruivo, deitando a cabeça na curva daquele pescoço macio. Sentiu a mão de Blay tocando-lhe o rosto e virou-se para beijá-la. Blaylock levantou sua cabeça para olhá-lo novamente, e ele esticou-se para tocar com os seus os lábios, já novamente vermelhos, de seu amado.

Enquanto o beijo deixava de ser casto e seguia se aprofundando, as bocas ofegando abertas, a língua de Blay entre seus lábios, Qhuinn pensou que precisava fazer alguma coisa.

E precisava fazer já.

***

Acordei na manhã seguinte ao intercurso entre Eve e Mitsuo. Antes de abrir os olhos apurei os ouvidos para não flagrar novamente os dois na sua intimidade. Mas o quarto estava silencioso.

Abri os olhos, virei para o lado. Eve estava vestida e adormecida sentada sobre a poltrona. Assim, como se a noite toda tivesse passado naquele lugar. Mitsuo não estava no quarto.

Esfreguei o rosto e me levantei, a cama rangendo sob meu peso. Assim que fiz esse pequeno movimento Eve também despertou, ou fingiu que despertou.

Fui direto para o banheiro.

— Você não vai me desejar bom dia não, seu sem-educação? — ela falou da sua cadeira. Eu sempre desejava bom dia a ela quando acordava, mas estava muito chateado para me importar.

Não respondi.

— Ei! Tô falando contigo! — ela veio até o banheiro, olhando para mim do batente da porta enquanto eu escovava os dentes.

Encarei de volta pelo reflexo do espelho, com o canto dos olhos, impassivelmente sério. Em seguida cuspi a espuma branca na pia.

Eve ficou me olhando ainda, as sobrancelhas franzidas. Até que suavizou a expressão e começou a gargalhar.

Continuei sério, terminando de lavar o rosto, olhando para mim mesmo no espelho. Peraí... Tinha alguma coisa que eu precisava lembrar...

— Você estava acordado ontem!!! Hahahahaha — ela apontava pra mim e continuava rindo, tentando me tirar do sério, mas eu permaneci impávido colosso, sem mover um músculo do rosto, apesar de estar morrendo de vontade de acertar minha mão no meio da cara dela.

Enxuguei o rosto numa toalha e me virei para sair do banheiro, passando por Eve.

— Ah, qual é, Adam! Vai ficar putinho só porque eu não te disse nada antes?

E veio andando atrás de mim.

Ela parou a poucos passos, abandonado os risos.

— Eu também tenho direito à privacidade, sabia? — pôs as mãos na cintura e ficou me encarando.

— Eu ouvi ontem você dizendo isso para o Mitsuo. Mas pode ficar tranquila que daqui por diante é cada um por si. Ok pra você? — respondi. Meu coração acelerado e meu rosto se esquentando. Eu sou um banana mesmo...

— Para de ser babaca, Adam. — ela respondeu, começando a me levar a sério.

— Eu só me arrependo de não nutrir por você os mesmos sentimentos que você tem por mim. Queria muito levar numa boa essa de cada um pro seu lado, mas eu, infelizmente, vou sentir sua falta. — falei olhando pra dentro do guarda roupa. Se eu olhasse para ela certo que iria chorar.

— Do que você está falando, Adam? — ela veio e segurou o meu braço. Não tive coragem de dar um safanão, então ela permaneceu ali, me tocando.

— Você sabe o que falou para o Mitsuo. Eu não preciso ficar repetindo.

— Porra, Adam, fala o que foi que eu disse!

— Ah, por favor, Eve! Você quer que eu repita o quanto eu sou inconveniente, o quanto eu sou grudento, o quanto eu forço minha participação na sua vida? — finalmente saí de dentro do armário e fui para minha cama, sem ter mesmo razão de fazer isso.

Ela endireitou a coluna em pé, olhando para mim séria.

— A gente vive junto, come junto, dorme junto, acorda junto desde que nascemos. Não acredito que você também não queira uns momentos só seus, sem que eu esteja envolvida.

— Não. — respondi de pronto.

— Ah, por favor! Você não preferiria que eu não existisse quando ficou afim do Paul?

— Isso é diferente...

— Porque é diferente? Porque vocês são dois homens? Me poupe! Você queria tanta privacidade com ele como eu quero com Mitsuo! — ela falou alteando a voz.

— Não tenta colocar a culpa em mim, sua manipuladora. Não sou eu quem ficou protegendo meu relacionamento do meu irmão como se ele fosse a pior pessoa do mundo. E ainda coloca o Mitsuo no meio! — apontei o dedo para o rosto dela também.

— Você queria que eu poupasse quem? Ele é o meu namorado!

— E ele é meu amigo!!

Ela colocou as mãos na cintura, olhando para mim com os olhos apertados, cheia de fúria.

— É mesmo? Então tá: quantos anos ele tem?

— Vinte.. E dois? — respondi em dúvida. Na verdade não fazia a menor ideia.

— Vinte e sete. Essa é a segunda faculdade que ele faz, pra sua informação.

— Jura?!? — respondi muito surpreso.

— É. Então vamos tentar algo mais fácil: qual é o curso que ele está fazendo aqui em Colúmbia?

— Anh... Engenharia?

Ela balançou a cabeça.

— Astronomia na Escola de Artes e Ciências.

— Eu não sabia... Achava que era engenharia com todos aqueles cálculos...

— Então suponho que você também não saiba qual foi a primeira? Física. E ainda tem a coragem de dizer que ele é seu amigo? Você não sabe nada sobre ele! Você sequer se interessa por Mitsuo! Já ele Adora você. Acha você a pessoa mais espetacular do mundo, a primeira pessoa que quis ser amigo dele. Tão inocente, coitado...

— Eu gosto dele! Eu... Eu me interesso...

— Você só se interessa por uma pessoa, Adam. Deixe de ser hipócrita! E não venha com esse papo de magoado pra cima de mim, porque eu tive de me virar sozinha, sem ter ninguém para conversar quando sua cabeça quase explodiu! Ao mesmo tempo tenho de estar à sua disposição para ouvir os conflitos sentimentais que você arranja! É tudo em volta da sua pessoa e depois eu é que sou egoísta!

— O que você e Mitsuo têm a ver com isso?!?! — gritei de volta.

— Vá a merda Adam!!

— Vai você, Eve!!

— Oh, que adulto!!! — ela disse e foi em direção à porta. Certamente iria bater com tanta força que o prédio inteiro balançaria.

Ela parou na mesa do Mitsuo e pegou um porta retrato com a foto de um garoto.

— Eu não estou nem aí pras baboseiras que você fala, quer saber. Mas realmente gostaria que você valorizasse a amizade que Mitsuo tem por você.

— ... — queria muito responder, mas qualquer coisa que eu dissesse iria me prejudicar mais ainda.

— Mesmo sabendo a resposta, vou perguntar: quem é esse garoto na foto?

— Mitsuo? — respondi. Estava me sentindo envergonhado. Será que o cara gostava tanto assim de mim? Eu era realmente um mau amigo.

— É claro, mas com que idade?

— Doze. — afirmei com certeza.

— Vinte e quatro. — ela respondeu séria.

— Vinte e quatro!! Caralho!!! — tirei a fotografia das mãos de Eve para olhar com atenção. Contra um campo verde, uma cerejeira rosada no fundo, um garotinho estava parado, meio triste, olhando para a câmera. — Ele tinha problemas com o hormônio do crescimento?

— Tinha. Até quase vinte e cinco anos parecia um garoto pré-adolescente. Não tinha nenhum amigo, nenhuma menina falava com ele. Seus pais fingiam não notar que ele era diferente. Nessa foto ele estava terminando a graduação em física.

— E o que aconteceu? Ele não fazia tratamento com GH? (hormônio do crescimento). — perguntei surpreso.

— Fazia, desde os quinze anos, mas nunca aconteceu nada. Nenhuma mudança. Seu corpo magro continuava assim. Então, de um dia pro outro, pouco depois dessa foto ser tirada, ele disse que começou a passar mal na faculdade e foi pra casa. Seus pais ignoraram suas queixas e ele foi se deitar. Durante a noite, disse que sentiu as piores dores da sua vida, como se estivesse sendo rasgado em mil pedaços. Achou que iria morrer. Então, quando acordou, se olhou no espelho e não se reconheceu. Tinha crescido vinte centímetros e ganhado quase trinta quilos de músculos em doze horas!

— Caralho!!! E aí?

— E aí ele foi até seus pais no café da manhã, que olharam para ele como se nada tivesse acontecido. Ele ficou mais nervoso do que nunca quando percebeu que os pais estavam obviamente fingindo que não tinha nada de errado com ele, e pressionou os dois a contar por que aquilo havia acontecido. Seu pai relutou muito, mas terminou dizendo que com ele tinha sido da mesma forma. Por isso insistiu em colocar o garoto pra fazer lutas desde cedo, porque imaginava que, quando o garoto finalmente crescesse, por volta dos vinte e cinco anos, iria ser melhor que tivesse alguma noção de como usar o novo corpo. O pai dele disse que foi mirrado até essa idade, e que não sabia o que aconteceria até que, de repente, cresceu e ficou forte, mas sem nenhuma habilidade e que penou muito para se adaptar.

— Gente!! Então a família dele toda tem um gene estranho!

— Acredito que sim. Ele disse que seu pai confessou que o avô foi um soldado das tropas de paz que tomaram o Japão pós-guerra. Que sua avó ficou imediatamente apaixonada pelo guerreiro, que era conhecido por Yoru Urufu, ou Lobo da Noite, porque ninguém via o cara durante o dia, somente depois que a Lua aparecia. Ela apareceu grávida pouco tempo depois e o Lobo sumiu. Foi uma grande vergonha pra sua família. O avô de Mitsuo também tinha esse problema, de demorar a crescer. Assim foi com seu pai. Assim foi com ele.

— Caraca... Coitado do Japa... — eu tive de concordar, ainda sem acreditar que aquela foto de criança que eu tinha nas mãos era do Japonês com vinte e cinco anos.

— Vê se agora você trata o cara melhor. Para pra imaginar o quanto ele sofreu de bullying pelos outros garotos quando era adolescente, o quanto foi desprezado pelas garotas, o quanto ele era sozinho. Se você conseguir sair de dentro da sua casca, tenta entender por que o Mitsuo é assim tão fechado até hoje.

Ela tirou a fotografia das minhas mãos e colocou de volta no mesmo ponto na escrivaninha.

— E não. Eu não quero me afastar de você pra sempre, seu dramático, só quero um tempo sozinha com meu namorado, sem me sentir na obrigação de contar pra você de cada trepada que a gente dá.

Tive de rir.

Eve veio até mim e deu um beijo na minha bochecha.

— Te amo, tá, seu chato. Você nunca vai se livrar de mim.

Eu sorri e a abracei bem forte. Depois de algum tempo ela se soltou e saiu pela porta. Sem se despedir, senão não seria Eve.

Me voltei para o armário para, então, pegar a roupa que usaria hoje. Foi aí que olhei pra baixo e vi que estava de camiseta de malha e cueca. A mesma camiseta de ontem quando fui para o treino de vôlei e depois...

Ca-ra-lho!!!

Parei em choque quando o pensamento que eu estava tentando lembrar no banheiro me apanhou.

— Blaylock é um vampiro!!! — exclamei sozinho.

***

Oh, merda, oh, merda, oh, merda...”

Essas duas palavras se revezaram na minha cabeça o dia todo.

Puta que pariu, Blaylock Filho de Rocke, era um vampiro! E um de verdade, daqueles que mordem e matam, não daqueles que brilham sob o Sol, escrevem sinfonias e recitam poesia. Aliás, me dei conta de que nunca tinha visto o cara passeando por aqui pela manhã. Será que ele era daqueles que viram pó sob a luz do Astro Rei? Bem, no caso do Blay, acho que ele viraria purpurina.

Ah, Ok, piada de bichas.

Minha concentração foi pro caralho. Cada vez que o telefone tocava eu tomava um susto, então lembrava que ele devia estar dormindo. Ele me disse que não era num caixão, mas eu achava tão difícil de acreditar que não não fosse...

E Qhuinn só podia ser vampiro também! E aquelas estórias dos seus “irmãos”? Certamente ele vivia em um covil e todos os seus irmãos eram tão vampiros quanto ele.

Caralho, e cada vez que Eve me ligava essa verdade quase escapava da minha boca. Então um sorriso idiota se formava nos meus lábios quando eu lembrava dele, de seu corpo maravilhoso e do que ele tinha feito comigo no vestiário.

E o imbecil me apagou e me levou pra casa, sem explicar muita coisa! A ansiedade pela sua ligação me queimava. Ele tinha muito o que me explicar, muito! Eu não via a hora do Sol se por e eu poder vê-lo novamente. Ele era tudo e muito mais do que eu esperei. O que aconteceu no vestiário era só uma amostra, eu sabia. E agora que tinha experimentado sua heroína, estava inevitavelmente viciado e queria mais.

Como é que eu iria me livrar de um vampiro adulto e irresistível como Qhuinn é que ainda era um problema. Ele era lindo, isso não podia negar. E ele também era tão apaixonado por Blay quanto eu. E ele também era vampiro, o que lhe dava uma vantagem de alguns quilômetros em relação à mim.

Mesmo assim... Mesmo com todos os contras, eu desejava Blaylock. Ardentemente. Fiquei de pau duro a maior parte do dia lembrando de seu cheiro, de seu toque, da sua mão em mim. Aquela boca vermelha me chamando. Acho que não conseguiria me controlar quando o visse novamente...

Meu turno na cafeteria foi disperso. Bill me olhava com aquela cara irlandesa dele, os tufos das sobrancelhas se juntando na sua testa, mas não disse nada. Se por um lado ele se preocupava quando eu estava muito triste, por outro se preocupava quando eu parecia tão avoado e sorridente como hoje.

Minha colega Sue pediu para eu cobrir seu turno, então não fui embora às três. O que foi ótimo, porque sabia que não conseguiria ficar quieto em casa, ou sentado estudando. Não hoje. Não com essa expectativa de ver Blay novamente. Expectativa que eu havia fabricado, porque, como ele me desmaiou, sei lá como ele faz suas mágicas, não me deu grandes explicações nem nada.

Eu contava que ele era um cara legal. Que não iria fazer a cachorrada de desaparecer, como eu mesmo já tinha feito tantas vezes com garotas tão apaixonadas quanto eu estava agora por aquele ruivo.

E pensando só nisso, encerava as mesas mais vezes do que era necessário. Bill vindo me acordar dos meus devaneios a tarde inteira.

— Ei, Adam, tá na hora de você ir pra casa. — Bill bateu no meu ombro, me despertando enquanto eu contava pela terceira vez o caixa do meu turno.

— Já são seis horas?

— Já são seis e quinze e você ainda não tirou esse sorriso da cara nem fechou o caixa.

— Merda... — falei baixinho. — Ok, Bill, deixa que terminar aqui e já saio.

— Mais quinze minutos, menos quinze minutos da sua mente avoada não vão fazer nenhuma diferença. Vai embora, Adam. — Bill falou me empurrando para a porta.

— Mas e o caixa? — ainda perguntei com a porta aberta à minha frente.

— Eu fecho. Poder ir. — o cara tinha uma mão nas minhas costas e a outra mantinha a porta de vidro escancarada.

Comecei a rir.

— Tenho que pegar minhas coisas, Bill. Que pressa pra se ver livre de mim!

Dei a volta na sua barriga e fui lá atrás deixar meu avental e pegar minha mochila e meu casaco. Na volta Bill estava fechando o caixa com muito mais eficiência que eu. Só acenou a cabeça quando eu me despedi.

A primeira coisa que fiz do lado de fora foi checar meu telefone. Dentro da lanchonete eu havia feito questão de deixar o aparelho desligado dentro da minha mochila, porque sabia que não conseguiria trabalhar direito checando o telefone a cada 30 segundos. Não havia nenhuma chamada perdida. Principalmente: não havia nenhuma chamada perdida de Blay.

— Bosta... — tive de xingar. Hoje era quinta-feira, nós não tínhamos nenhuma aula juntos. Mas eu tinha de vê-lo. Era mandatório.

Fui para meu dormitório. Já seria o segundo dia de aulas perdido. Isso não era nada, nada bom. Precisaria muito de Eve e sua inteligência absurda para me ajudar a voltar a acompanhar o ritmo, senão não seria médico nunca.

Passei pelo Joe, o porteiro, que continuava lendo seu jornal, ignorando quem realmente subia e descia. Subi minhas escadas de dois em dois degraus. Em poucos metros estava meu quarto, onde eu poderia me trancar no banheiro e falar com Blaylock em completa privacidade.

Mas.... Numa boa? O que eu falaria? “Foi bom pra você?” “E agora o que acontece com a gente?” ou, simplesmente, “Vem aqui agora me comer?”.

A última frase parecia a melhor de todas. E era realmente o objetivo de chamar Blay para minha casa. Não importa o que quer que a gente converse, na verdade espero que ele me coma bem gostoso no fim da noite.

No último degrau, estaquei congelado.

Escorado na minha porta estava um lindo gigante. Calças de couro preto, jaqueta de couro preto, braços cruzados no peito. O perfume de especiarias escuras chegava intenso ao meu nariz. Ele levantou a cabeça e olhou diretamente para mim com seus olhos brilhantes. Um azul outro verde.

— Boa noite. — Qhuinn disse na sua voz suave. E um sorriso perverso entortou o canto de sua boca.

— Caralhos voadores! — foi tudo o que eu consegui responder.

Notas finais
Quem gostou deixa um review!! o/

O próximo é o último capítulo. POr isso vou dedicar uma certa atenção para escrevê-lo da melhor forma possível.

Não posso dar spoilers da minha própria estória, mas como eu queria!!! Hehehehehe

Beijos!

Tilda