Amante Amado
22 Vinte e dois - Butch
Se alguém tivesse me dito que eu estaria nessa situação duas semanas atrás, eu teria rido da sua cara.
Mas agora, parecia tudo real demais, principalmente por causa do cheiro. Tão podre que eu jurava que não demorariam mais de algumas minutos para alguém se irritar e vim ver o que estava acontecendo.
Acho que, na realidade, minha preocupação era metade o cheiro, metade como sair dali. Eu estava dando muita importância aquilo, de fato. Não tinha chegado a ver o corpo nem nada, mas sabia que não estaria em uma situação muito agradável.
Olhando para o sr. Normal, na posição em que eu estava, dava a impressão de que ele estava a beira um ataque de nervos. Ele estava muito preocupado em como dar o pé dali, e não parecia se incomodar com o cheiro. Ocorreu-me que, se disfarçássemos o cheiro, poderíamos esperar pelo menos uma meia hora, tempo suficiente para que pudéssemos sair.
— Cara, não temos como sair daqui, certo? — Ele me lançou um olhar aflito — sabe, se nós disfarçássemos o cheiro, quem sabe poderíamos esperar...
— O cheiro nem está tão ruim assim, pare com isso.
— Claro que está. Duvido que demore mais de uns vinte minutos até alguém bater na porta.
Ele ficou me encarando, e eu encarei de volta. Foi quase como se eu pudesse ver sua alma dentro dos seus olhos. A alma dele dançava com fervor, parecendo supor mil coisas. Ele desviou primeiro o olhar, mas com um jeito decidido.
Então, disparou para dentro da cozinha, e começou a procurar coisas, tanto no armário, agora acabado, quanto no chão mesmo. Era óbvio que ele pescava coisas especificas, mas como não pediu ajuda, não me intrometi. Tinha que tomar cuidado onde pisava e coisas do tipo, porque estava tudo uma bagunça, uma bagunça que eu mesmo fiz.
E era libertador, deixar todas aquelas lembranças de vida inútil para trás, apesar de que não via muita utilidade para mim daqui para frente, mas parecia, sem dúvidas, uma existência mais divertida do que essa que deixei para trás.
Vishous suspirou alto, insatisfeito. Havia algumas coisas que ele reuniu em cima do balcão, porém não era nada que desse para deduzir alguma coisa. Decido arriscar, perguntar-lhe:
— O que pensa que está fazendo?
Ele me olha brevemente, e responde contrariado:
— Tenho uma mistura que disfarça o odor, que eu usava depois de uma caçada, antes de conhecer a Irmandade. É algo simples, mas funcionava.
Algo em sua postura me alertou que eu estava pisando em solo perigoso. Relaxo os ombros e resisto à vontade de me encostar-se à parede.
Vishous colocou tudo numa caneca, e foi até o banheiro. Por um instante, eu quase automaticamente o segui. Contudo, o odor deixava impossível de se esquecer de que havia um corpo ali. Então me segurei para ficar entre a sala e a cozinha.
Ouvi um som de algo gotejando, até que Vishous murmurou um “pronto”, mais para si mesmo que para mim. Depois, o som da porta se fechando. Engraçado, eu não podia tocar em nada, sendo que a casa era minha e havia impressões minhas em toda a parte, mas Vishous tocou em vários objetos desde que entrou aqui.
Estreito o olhar quando ele ressurgi na sala. Acho que eu seria mais apropriado interroga-lo depois que saíssemos daqui, porém me sinto bastante tentado pela curiosidade...
— Quanto tempo? — Dou um pulo, assustei-me ligeiramente. Não esperava que ele fosse se dirigir a mim, afinal.
— Ahn?! — É a única resposta que consigo formular, ainda revisando se percebi o que ele falou.
Ele inspira e expira alto até para mim — ora, quanto tempo falta, para sairmos daqui, você acredita que ainda precisamos?
Dirijo meu olhar à porta, e tento escutar o que há por trás dela. Então, me aproximo e decido espiar pelo olho mágico: vazio.
O corredor estava terrivelmente vazio, e as luzes estavam apagadas.
— Tem alguma coisa errada aqui, Vishous.
Ele já havia se aproximado, e encara a porta com interesse. Decido abrir espaço para ele olhar também. Num rápido lapso, lembro que estamos numa madrugada de domingo para segunda, muito perto do amanhecer. Isso conclui duas coisas: a) as pessoas não iriam se demorar no corredor porque precisavam acordar “cedo” e b) sendo de madrugada, obrigatoriamente as luzes ficavam acesas.
Mas acho que Vishous não ponderou nada, estava apenas desesperado para dar o fora dali, e logo eu me vi seguindo-o escada abaixo. Quando estávamos quase no térreo, reparei que eu havia trancado a casa. Um erro terrível.
Do lado de fora do prédio, no jardim, ele praticamente me jogou do outro lado do muro, e correu até o carro que estava nos esperando na rua de trás, segundo os nossos planos.
Era como um filme de ação: sentamos num estrondo, esperamos nossa respiração normalizar, nos encaramos e sorrimos um para o outro, antes de ligar o carro e sair a todo o vapor.
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